Capítulo 5 - O primeiro mandado Enterrado nas Profundezas · Capítulo 5 de 18
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Capítulo 5 - O primeiro mandado

O mandado chegou às vinte e três e dezessete.

Autorizava a busca no corredor leste, na câmara de alívio e nos acessos conectados ao PV-37. Também determinava a preservação das imagens e das catracas. Os registros de comunicação, as ordens de serviço e as amostras do concreto aplicado desde terça-feira ficavam sob a mesma proteção.

Salomé leu cada item antes de sair da delegacia. A decisão reconhecia risco de vida, mencionava a ventilação interrompida e permitia abertura controlada do muro com assistência técnica.

O comboio entrou pelo portão da Rua Baturité vinte e seis minutos depois.

Um diretor do consórcio esperava junto à portaria com dois advogados, um engenheiro de segurança e uma equipe de resgate. Todos usavam capacetes novos. O diretor entregou a Salomé uma pasta com declarações impressas.

— A empresa oferece colaboração integral — disse. — Registramos protesto quanto à premissa de pessoa confinada. Nossas inspeções descartam essa hipótese.

Salomé mostrou o mandado ao responsável pela segurança.

— Quero os registros de acesso separados agora. A equipe técnica segue comigo.

O advogado mais velho apontou para Janara.

— A senhora Alvim mantém litígio anterior com o consórcio.

— Ela entra como assistente técnica identificada na ordem — respondeu Salomé.

— Solicitamos um engenheiro independente.

— O perito judicial já está a caminho. A urgência está reconhecida.

Cibele recebeu um rádio novo, configurado em um canal isolado. Janara conferiu os detectores de gases e os escoramentos transportados pela equipe de resgate. Sandro ficou do lado externo, onde o mandado permitia imprensa.

O elevador de serviço desceu até a cota menos vinte. A partir dali, seguiram por escada. Cada integrante assinou a folha de entrada e teve o equipamento fotografado.

No dreno cinco, a bomba trabalhava em ciclo regular. Três metros adiante, uma fita vermelha bloqueava o corredor. O muro surgia depois dela.

A etiqueta tinha desaparecido.

Uma área retangular junto à base mostrava marcas de esmerilhadeira. O concreto estava áspero e mais claro onde o papel fora removido.

Salomé comparou o ponto com a fotografia de Nivaldo.

— Recolham o pó e fotografem a remoção.

O diretor olhou para o engenheiro de segurança.

— A limpeza integra o acabamento — justificou o funcionário.

— Quem executou? — perguntou Salomé.

— Preciso consultar.

— Consulte por escrito.

Janara estendeu uma linha a laser no piso e transferiu as medidas da planta antiga. O muro ocupava exatamente a entrada da câmara de alívio. O trecho acima dele apresentava o duto cortado e fechado por chapa.

Cibele examinou o teto. Um cabo fino saía da bandeja principal, cruzava por trás da chapa e entrava no concreto pela lateral.

— Cabo de rede — disse. — Instalação recente.

O perito marcou a posição. A equipe desligou o circuito do setor e verificou ausência de tensão.

Janara passou um detector sobre a superfície. Quatro barras horizontais e duas verticais surgiram na tela. Entre elas, o aparelho registrou uma cavidade.

— O primeiro ponto de abertura fica aqui.

Ela indicou o X feito por Nivaldo. A marca permanecia perto da barra superior.

O resgatista perfurou um orifício estreito. O concreto ofereceu resistência uniforme durante vinte e dois centímetros. Depois, a broca avançou sem carga.

Retiraram a ferramenta. Um tubo fino entrou pelo furo e coletou o ar interno.

O medidor mostrou oxigênio abaixo do nível seguro e concentração elevada de dióxido de carbono. Não havia gás inflamável.

— Ventilação interrompida — confirmou Janara.

A equipe instalou uma linha para insuflar ar devagar. O fluxo precisava evitar dispersar partículas e comprometer vestígios. Um perito introduziu a câmera articulada.

A imagem surgiu numa tela portátil.

O feixe de luz atravessou poeira suspensa e encontrou uma superfície metálica amarela. O perito girou a lente. Era um capacete de topografia, preso entre o chão e um suporte.

Salomé pediu a fotografia de Enéas trabalhando. A irmã fornecera uma imagem tirada no canteiro. O capacete tinha uma faixa preta sobre a aba e um adesivo circular junto à nuca.

O objeto do interior apresentava as mesmas marcas.

— Continuem — ordenou Salomé.

A câmera avançou pelo cabo. Mostrou duas garrafas vazias, uma manta térmica, abraçadeiras cortadas e um tubo flexível de ventilação. A extremidade do tubo estava amassada perto do muro.

Nenhuma pessoa apareceu.

No fundo da câmara, o piso descia para a direita. Havia riscos paralelos na poeira, largos o bastante para indicar arrasto. As marcas terminavam numa placa metálica instalada no chão.

— Acesso ao dreno profundo — disse Janara.

— Abre por onde? — perguntou Salomé.

— Pela câmara. O fechamento deve ter alça.

A imagem mostrou a placa outra vez. A alça fora retirada. Quatro pontos de solda cercavam uma peça nova.

Alguém fechara a saída por dentro do sistema e eliminara o puxador.

Salomé autorizou a ampliação do furo. Os resgatistas fixaram uma moldura de escoramento e cortaram um retângulo entre as barras. O serviço levou quarenta e oito minutos. Durante o corte, Cibele acompanhou os canais. Nenhum transmissor voltou a operar.

À uma e vinte, o primeiro resgatista entrou na câmara. Levava câmera corporal, medidor de gases e linha de segurança. A manta e as garrafas ficaram onde estavam. Ele alcançou a placa do dreno e testou as bordas.

— Solda recente — informou pelo rádio. — Tem corrente do outro lado.

— Algum sinal de vítima? — perguntou Salomé.

— Sangue no piso, perto do capacete. Pouco volume.

O perito criminal entrou depois. Fotografou cada objeto, colheu o material e embalou o capacete. Na faixa interna, encontrou fios de cabelo e uma mancha escura.

Janara examinou o tubo de ventilação sem tocá-lo. A peça atravessara a chapa superior antes de ser puxada para dentro e dobrada.

— Mantiveram alguém respirando enquanto levantavam a forma — disse.

— Quanto tempo? — perguntou Salomé.

— Com esse diâmetro e entrada forçada, horas ou dias.

— Depois retiraram a pessoa pelo dreno.

— A placa dá acesso a uma galeria inferior. Quem planejou o muro conservou uma rota de saída.

O diretor do consórcio aguardava atrás da fita. Ao ouvir, pediu conversa reservada com o advogado. Salomé mandou um agente acompanhá-los.

Cibele localizou o cabo de rede. Ele descia até uma caixa presa sob a antiga bancada de inspeção. Dentro havia um pequeno transmissor, uma fonte ajustável e um cartão de memória.

O equipamento estava desligado.

— Este é o nó copiado — afirmou.

O perito lacrou a caixa inteira.

Na borda inferior, uma etiqueta de patrimônio fora raspada. Restavam dois dígitos e um fragmento de assinatura.

`...37`

Salomé pediu o inventário de telecomunicação. O engenheiro de segurança informou que o arquivo ficava no servidor administrativo. Cibele enviou o número parcial à central.

A busca encontrou um transmissor de teste baixado do patrimônio oito meses antes. Motivo: perda durante obra. Responsável pela baixa: chefia de turno do eixo leste.

O nome do aprovador era Aristeu Varga.

— Onde ele está? — perguntou Salomé ao diretor.

— Afastou-se hoje por motivo de saúde.

— Horário?

— Depois do almoço.

— Endereço e telefone.

O advogado interveio:

— Dados pessoais exigem requisição específica.

Salomé levantou o mandado.

— A requisição está aqui. Entregue ao agente.

A equipe tentou abrir a placa soldada. A corrente do outro lado impedia levantar a peça. Janara pediu o desenho do dreno. O arquivo atual encerrava a galeria seis metros abaixo. Sua planta antiga mostrava continuidade até a ala do hospital.

— O desenho foi cortado no mesmo ponto — observou Salomé.

— Sete metros acima, seis metros abaixo — disse Janara. — Removeram do cadastro todos os caminhos que chegam à câmara.

O perito encontrou uma impressão parcial na garrafa. Outra equipe recolheu fibras da manta e amostras do sangue. Salomé solicitou comparação urgente com o material fornecido pela família de Enéas.

Perto das três, um agente trouxe os registros de acesso. A catraca mostrava a entrada de Enéas às vinte e uma e doze de terça-feira e a saída às zero e seis de quarta. A imagem associada à saída exibia um homem de capacete, cabeça baixa, carregando uma mochila azul.

O rosto ficava oculto.

O vídeo tinha duração de quatro segundos. O arquivo anterior terminava às vinte e três e cinquenta e nove. O seguinte começava às zero e cinco. Seis minutos haviam desaparecido.

— Quem exportou? — perguntou Salomé.

— A segurança do consórcio.

— Quero acesso ao gravador original.

O agente entregou outra folha. A ordem de concretagem do muro trazia uma autorização operacional. O usuário registrado era `nfreire`.

Nivaldo Freire.

Janara leu o documento.

— Manutenção de bombas não autoriza fechamento estrutural.

— A credencial dele acessou o sistema às duas e quarenta e nove — disse o agente. — Dois minutos antes da ocorrência.

Salomé observou o horário.

Nivaldo estivera diante do muro às duas e quarenta e sete. A partir desse momento, alguém usara seu nome para autorizar a própria retirada.

— Localizem Freire — ordenou. — Quero equipe discreta. Ele entra como testemunha sob proteção.

Do interior da câmara, o resgatista chamou pelo rádio.

— Delegada, encontramos outra coisa junto à placa.

A câmera mostrou uma peça de metal presa na solda. Era a ponta de uma trena quebrada, marcada com tinta azul.

Salomé lembrou a fotografia da mochila de Enéas. A trena curta permanecera sobre o balcão da portaria, coberta de pó cinza.

A ponta que faltava estava enterrada abaixo do muro.

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