Capítulo 6 - O homem que ouviu Enterrado nas Profundezas · Capítulo 6 de 18
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Capítulo 6 - O homem que ouviu

Nivaldo abriu a porta antes que a equipe policial tocasse.

Vira o carro parar diante do prédio e reconhecera Salomé Ramires das entrevistas na televisão local. Ela veio acompanhada por uma investigadora e mostrou a identificação.

— Senhor Nivaldo Freire?

— Sou eu.

— Precisamos conversar sobre o muro da estação.

Ele convidou as duas para entrar. A sala tinha uma mesa encostada à janela, duas cadeiras e um armário baixo coberto por manuais de equipamento. Sobre a mesa, Nivaldo organizara cópias das fotografias, o comprovante de envio ao jornal e o formulário eletrônico do turno.

— Eu esperava a empresa — disse. — O RH cancelou a reunião das dez e marcou outra para segunda.

— Recebeu ameaça?

— Três ligações mudas. Meu acesso ao aplicativo desapareceu no fim da tarde.

Salomé colocou o telefone institucional sobre a mesa e iniciou a gravação com autorização. Nivaldo relatou o defeito no dreno, a ronda, o muro e as batidas. Explicou o código de espaço confinado. Descreveu a chegada de Aristeu e a ordem de retirada.

— O senhor viu alguém concretando? — perguntou a investigadora.

— Vi a betoneira na rampa às três e quinze. A mangueira descia pelo acesso de serviço.

— Reconheceu o fornecedor?

— Concrevale. A mesma faixa azul da etiqueta.

— A bomba estava funcionando?

— Entrou em carga quando eu saía. Três golpes curtos, motor cheio, pausa de vinte segundos.

Salomé pediu que explicasse.

Nivaldo retirou um manual da pilha e abriu um esquema de bomba estacionária.

— A máquina empurra concreto com dois cilindros. Em linha livre, o ritmo fica regular. Naquela madrugada, a pressão subia e caía em intervalos curtos. A mangueira encontrava resistência.

— Uma parede já pronta receberia concreto?

— A forma do muro estava fechada. O segundo caminhão alimentava outro ponto.

— Qual?

— Pela posição da mangueira, poço de serviço ou dreno profundo.

Salomé mostrou a planta antiga no tablet. Nivaldo indicou a rampa, o corredor leste e a galeria inferior.

— Aqui. A mangueira pode descer pelo poço e entrar abaixo da câmara.

— Encontramos a placa do dreno soldada e presa por corrente.

Nivaldo aproximou a imagem.

— Essa placa tinha alça dupla. Troquei uma delas dois anos atrás.

— Dá para chegar pelo outro lado?

— Pela ala antiga do hospital. O acesso fechou depois da demolição.

— Fechou no papel ou fisicamente?

Nivaldo levantou os olhos.

— Nunca conferi.

Salomé abriu a ordem de concretagem com o usuário `nfreire`.

— Esta credencial é sua?

— O nome é. A ordem, não.

— Seu usuário entrou no sistema às duas e quarenta e nove.

— Eu estava diante do muro.

— Onde ficava seu crachá?

Nivaldo tocou o bolso da camisa por hábito.

— Preso ao colete.

— Aristeu chegou perto?

— Colocou a mão no concreto e passou entre mim e a parede. O crachá continuou comigo.

— O sistema usa cartão?

— Para abrir sessão, sim. Depois pede senha.

— Alguém conhece sua senha?

— A senha muda a cada noventa dias.

A investigadora perguntou se Nivaldo acessara terminal antes da ronda. Ele lembrava ter fechado a ordem do dreno num computador do posto de manutenção. O terminal ficava em uma cabine sem porta, perto da escada. Encerrara a sessão antes de sair.

— O cartão pode ter sido copiado? — perguntou Salomé.

— Segurança dizia que era impossível.

— E o senhor?

— Tudo que lê informação também consegue gravar informação, quando alguém paga pelo aparelho certo.

Salomé mostrou a ocorrência criada em seu nome.

— Quem tinha autoridade para suspender seu acesso?

— Aristeu, segurança e gerente da madrugada.

— Quem sabia que o senhor estava diante do muro às duas e quarenta e sete?

— A central recebeu minha chamada. Aristeu entrou depois.

— A ordem aparece dois minutos mais tarde.

Nivaldo olhou o documento por vários segundos.

— Queriam me tirar antes de chegar.

— Essa é uma hipótese.

— O formulário descreve a conversa que ainda estava acontecendo.

Salomé pediu os nomes dos colegas que poderiam confirmar o turno. Nivaldo forneceu funções, horários e telefones. Evitou adjetivos. Quando falava de uma máquina, citava número e defeito. Quando falava de gente, preferia aquilo que vira.

— O senhor marcou um X na parede — disse a investigadora.

— Fora das barras principais. Uma equipe de resgate procuraria o ponto de abertura.

— Por que enviou ao jornal?

Nivaldo fechou o manual.

— A central mandou esperar. Aristeu chamou os seguranças. Meu registro foi escrito antes da chegada dele. A empresa já tinha uma história pronta.

— Procurou a polícia?

— Pesquisei Enéas. A matéria tinha o e-mail da editoria diante do telefone da família. Escolhi quem podia publicar a fotografia antes que apagassem.

Salomé informou que a etiqueta fora removida. Nivaldo recebeu a notícia sem surpresa.

— O lote continua na fornecedora — disse. — Papel some com esmerilhadeira. Nota fiscal deixa mais cópias.

Às quatro e dez, ele aceitou acompanhar a reconstrução no canteiro. Salomé determinou que entrasse por outro portão e permanecesse com a equipe policial. Antes de sair, Nivaldo pegou uma pasta verde.

— O que contém?

— Ordens antigas do dreno cinco. Levo cópia para casa quando o serviço afeta garantia.

No carro, abriu uma folha de oito meses antes. O documento registrava troca de boia no dreno profundo. O solicitante era Aristeu Varga. A inspeção deveria ocorrer com duas pessoas. Nivaldo assinara sozinho porque o segundo trabalhador fora deslocado.

— Aristeu desceu com o senhor? — perguntou Salomé.

— Disse que ficaria na central. Quando cheguei à placa, a corrente já estava instalada.

— O senhor questionou?

— A ordem chamava de bloqueio contra enchente.

— Havia enchente?

— A galeria estava seca.

Nivaldo retirou outra folha. O desenho anexado mostrava a corrente presa pelo lado superior, sem solda.

— Mudaram depois.

Chegaram ao canteiro às quatro e quarenta e dois. O céu começava a clarear, repetindo a hora em que Nivaldo enviara as fotografias. A polícia ocupava a portaria e copiava dados do gravador original.

Janara esperava junto ao elevador.

— Encontraram alguém? — perguntou Nivaldo.

— Encontramos o capacete de Enéas, sangue e a rota usada para retirá-lo — respondeu ela.

— As batidas vinham dali.

— Queremos que mostre o ponto exato.

Na cota menos vinte e três, o retângulo aberto revelou a câmara. Nivaldo vestiu máscara, prendeu a linha de segurança e entrou com autorização do resgate. Parou junto ao lugar onde ouvira os golpes.

Na face interna do muro, três áreas exibiam pequenas lascas. Alguém batera com metal perto da altura do ombro. A posição correspondia à marca externa.

— Havia uma pessoa aqui — afirmou.

O perito fotografou.

Nivaldo caminhou até a placa soldada. A ponta da trena já tinha sido retirada e embalada. Ele examinou a corrente pela abertura lateral.

— Elo industrial de içamento. Aguenta mais de duas toneladas.

— Conseguimos cortar? — perguntou Janara.

— Com serra de disco, sim. O problema fica depois.

— Qual problema?

— Se encheram a galeria inferior, a placa segura o concreto fresco.

Janara se agachou. Um filete cinza surgia pela junta e já endurecia na borda.

— Aplicação desta madrugada — disse.

Nivaldo bateu de leve na placa com a chave do resgate. O som saiu abafado do lado esquerdo e metálico do lado direito.

— Preencheram parte da galeria. A rota até o hospital ainda tem espaço.

Cibele entrou na câmara com o perito de telecomunicação. Mostrou o ponto em que o cabo descia para o transmissor.

— A fonte falsa operou a menos de vinte metros daqui.

Nivaldo apontou para a bancada antiga.

— Esse suporte ficava no posto de inspeção. Aristeu mandou retirar quando trocaram as bombas.

— Ele justificou? — perguntou Salomé.

— Disse que a umidade estragava equipamento.

O perito trouxe uma fotografia da fonte ajustável. Nivaldo reconheceu o modelo. A manutenção usava três aparelhos iguais para testar sensores.

— Onde ficam guardados?

— Armário sete, sala elétrica.

— Quem possui chave?

— Eu tinha uma. Aristeu recolheu no ano passado, depois que centralizaram as ferramentas.

Salomé pediu busca no armário. Um agente seguiu com Nivaldo e registrou a abertura. Dentro havia espaços marcados para três fontes. Duas permaneciam no lugar. A terceira posição estava vazia. A ficha de retirada indicava baixa por defeito, assinada com o usuário de Nivaldo.

— Outra assinatura minha — disse ele.

O agente fotografou.

Na sala de segurança, a equipe recuperara parte dos seis minutos removidos do vídeo. O sistema armazenava cópia temporária antes da exportação. Salomé, Janara e Nivaldo assistiram juntos.

À zero e dois, Enéas passou pela catraca interna acompanhado por um homem de colete laranja. O topógrafo carregava um tubo de plantas. Quatro minutos depois, uma pessoa usando o capacete de Enéas saiu pela catraca externa com a mochila azul.

O rosto continuava baixo. A altura, porém, superava a de Enéas por quase dez centímetros.

— Aristeu tem essa altura? — perguntou Salomé.

— Tem — respondeu Nivaldo.

— Consegue afirmar que é ele?

Nivaldo observou a pessoa apoiar o pé esquerdo para girar a catraca. O joelho direito permanecia rígido.

— Aristeu rompeu o ligamento numa obra. Desce escada de lado e gira catraca assim.

— Isso sustenta reconhecimento?

— Sustenta suspeita. Rosto sustenta identificação.

Salomé registrou a distinção.

Outro vídeo mostrou o homem de colete retornando pela entrada de veículos. Usava um crachá junto ao leitor. O arquivo perdeu definição no movimento, porém o sistema guardara o número lido.

O crachá pertencia a Aristeu Varga.

Salomé pediu localização imediata do aparelho telefônico e busca no endereço fornecido pelo consórcio.

Nivaldo continuou diante da tela.

— Há uma coisa errada.

— Qual?

— Enéas passou pela catraca às zero e dois. Eu ouvi as batidas quase três horas depois.

— Ele pode ter voltado à câmara por outro acesso.

— Pode.

— O que o preocupa?

Nivaldo apontou para o vídeo.

— Aristeu já tinha levado Enéas quando usou o capacete para simular a saída. O muro recebeu concreto na quinta. Quem bateu na sexta ficou dois dias ali.

A sala parou ao redor daquela conclusão.

Salomé ligou para a equipe no endereço de Aristeu. Ninguém atendia à porta. O telefone estava desligado e o carro dele seguia na garagem.

— Amplie a busca — ordenou. — Hospital antigo, galerias inferiores e todos os imóveis do consórcio ligados à rede.

Nivaldo pegou a planta e marcou a rota até a antiga lavanderia.

— Se ele retirou Enéas pelo dreno, saiu aqui.

— Vamos abrir esse acesso — disse Salomé.

Nivaldo devolveu a caneta.

— Levem equipe para gente viva. As batidas tinham força quando respondi.

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