Capítulo 10 - A lista de assinaturas
As onze etiquetas ocupavam a bancada da perícia em sacos transparentes.
Cada uma trazia lote, resistência, horário e fornecedora. Algumas tinham manchas de ferrugem. Outras conservavam concreto preso nas bordas. A mais recente era CV-4087, retirada do apartamento de Aristeu depois que Nivaldo fotografara o exemplar no muro.
Tâmara Góis trabalhou diante delas durante a tarde de sábado. Usou notas fiscais, pagamentos e ordens de serviço para montar uma tabela. A primeira correspondência apareceu às quinze e vinte: uma etiqueta de dezesseis anos antes ligava-se a uma concretagem emergencial sob a estação Mercado Novo.
Na mesma semana, o gerente daquele canteiro desaparecera.
O boletim registrava abandono voluntário. O salário ficou sem retirada e o carro permaneceu no estacionamento da empresa por dois meses.
— Ele assinou a ordem que cancelou o resgate de Aquilino e Piauí — disse Tâmara.
Salomé conferiu o nome na OS-17441R. A rubrica estava ali.
A segunda etiqueta apontava para um reservatório técnico concretado quatorze anos antes. Um fiscal de segurança ligado à obra fora encontrado morto num terreno vizinho. O inquérito atribuíra a queda a embriaguez. A família negara o consumo de álcool.
A terceira levou a um depósito ferroviário. Um encarregado sumira depois de prestar depoimento trabalhista sobre o acidente.
— Três pessoas ligadas diretamente às assinaturas — resumiu Sandro.
Tâmara abriu o quarto caso. A vítima era auxiliar administrativa e trabalhara no protocolo. Assinara apenas o recebimento de uma caixa de documentos. Desaparecera onze anos antes.
— A partir daqui, a relação muda — falou.
As etiquetas seguintes alcançavam um motorista, uma telefonista e um operador de bomba. Nenhum possuía autoridade para cancelar resgate. Todos haviam trabalhado em alguma etapa do encobrimento.
— Aristeu ampliou a responsabilidade conforme o tempo passou — disse Salomé.
— Ou conforme perdeu acesso aos chefes — respondeu Janara.
Nivaldo examinou as datas. Três concretagens ocorreram durante turnos chefiados por Aristeu. As demais usaram equipamentos de empresas que ele contratara depois de assumir a coordenação noturna.
— Conhecimento e oportunidade — disse Salomé. — A motivação explica a escolha inicial. Os crimes posteriores seguem outra lógica.
Sandro fotografou apenas a tabela sem nomes. A editora do jornal cobrava continuação, e a polícia mantinha os casos antigos sob verificação. Ele escreveu notas num arquivo separado, marcando aquilo que possuía fonte pública.
Tâmara abriu no computador a consulta que originara seu contato com Rejane. Quatro meses antes, uma rotina de auditoria identificara despesas idênticas para AC-H2 em exercícios consecutivos. O valor mudava apenas pela correção monetária. As notas descreviam limpeza de dutos, teste de ventilação e controle de umidade numa estrutura que o cadastro público classificava como preenchida.
Ela pedira o relatório de execução. Recebera uma resposta de duas linhas afirmando tratar-se de centro de custo legado.
— Arquivaram minha solicitação sem anexar fotografia ou medição — contou. — Rejane encontrou meu nome no histórico e ligou.
— Ela já desconfiava da troca? — perguntou Salomé.
— Disse que a ordem revisada tinha linguagem incompatível com os documentos da mesma madrugada. Levou três semanas para admitir que fizera a digitalização.
Tâmara abriu a primeira mensagem recebida. Rejane perguntava se um arquivo substituído continuava válido quando o original demonstrava risco a pessoas. A auditora respondera que validade dependia da origem da ordem e da preservação de ambas as versões.
— Depois disso, ela imprimiu o original — concluiu.
Rejane entrara no caso por uma pergunta técnica. Sua tentativa de corrigir o arquivo fornecera a Aristeu mais um nome.
Às dezesseis horas, a equipe que vistoriava o terceiro ponto circulado no mapa ligou. O poço de ventilação S-9 receberia concreto às dezessete e trinta. A ordem tinha sido emitida pelo mesmo certificado institucional usado para apagar os sete metros.
Salomé determinou paralisação.
O diretor de obra recusou por telefone. Alegou que interromper o preenchimento deixaria uma estrutura instável. Janara pediu o projeto e as leituras. O arquivo mostrava uma forma preparada havia duas semanas, ainda vazia.
— Existe janela segura de pelo menos doze horas — concluiu.
Salomé enviou a informação ao juiz e obteve extensão da busca. A bomba foi lacrada antes da chegada do primeiro caminhão.
Às dezesseis e trinta e sete, Salomé e Janara chegaram ao S-9. A forma ocupava o centro de um poço circular, cercada por andaimes. Um caminhão aguardava na rua lateral, com a nota fiscal emitida e o tambor em movimento.
O diretor de obra repetiu que a carga seria perdida. Salomé registrou a objeção e entregou ao motorista a ordem de retorno. Janara entrou no andaime com um perito. Os medidores fixados na borda mostravam deslocamento dentro da margem prevista. A suposta urgência estrutural existia apenas no relatório enviado por telefone.
Perto do nível inferior, Janara encontrou parafusos novos prendendo uma folha de compensado atrás da forma principal. O desenho executivo previa área livre naquele ponto. A divisória criava uma caixa estreita, com abertura voltada para o corredor técnico.
Dentro do poço, a equipe encontrou uma divisória de compensado criando um compartimento estreito atrás da forma. Havia uma cadeira dobrável, água e abraçadeiras plásticas. O espaço ainda estava vazio.
As garrafas tinham sido compradas naquela manhã. As abraçadeiras pertenciam ao mesmo fabricante das peças recolhidas na cela de Rejane. Um cabo de ventilação terminava no teto da caixa.
— Prepararam outro confinamento — disse Janara.
O concreto encheria a forma diante do compartimento. A pessoa presa continuaria respirando por um tubo e perderia a saída visível.
Na parede, uma ordem de inspeção trazia o nome de Gilvan Barreto.
Tâmara localizou o fiscal na lista de contratos. Gilvan aprovara o lacre do S-9 três dias antes. As fotografias anexadas ao relatório mostravam a forma concluída, embora a divisória ainda estivesse em construção no horário registrado.
Salomé ligou.
— Senhor Gilvan Barreto?
— Quem fala?
— Delegada Salomé Ramires. Preciso conversar sobre o poço S-9.
Gilvan demorou a responder.
— Meu laudo está no sistema.
— O senhor vistoriou a forma?
— Recebi documentação da equipe.
— Esteve no local?
— A empresa aceita verificação remota em situações específicas.
— A ordem informa vistoria física.
— Posso explicar com meu advogado.
— Existe risco contra o senhor. Uma equipe irá ao seu endereço.
Gilvan desligou.
A polícia chegou vinte minutos depois. O apartamento estava aberto e vazio. Um vizinho vira o fiscal sair com uma pasta, sozinho. O telefone continuava ligado e se deslocava em direção ao centro.
Salomé pediu localização sem abordagem até entender o destino.
Rejane, ainda no hospital, aceitou examinar fotografias do quadro de diretores. A investigadora realizou o procedimento com imagens semelhantes e posições alternadas. Rejane apontou Otacílio Brenner.
— Capacete branco — disse. — Foi ele que trouxe Enéas.
A investigadora trocou a ordem das fotografias e apresentou o conjunto outra vez. Rejane repetiu a escolha. Explicou que vira Otacílio em reuniões do arquivo e reconhecera o anel largo na mão direita quando ele segurou Enéas pelo braço. Também lembrava da maneira como o diretor corrigira Aristeu:
— Chamou ele de Varga. Só os antigos faziam isso no consórcio.
O reconhecimento ficou registrado com as duas apresentações e a justificativa fornecida pela testemunha.
Otacílio ocupava a diretoria de implantação do consórcio. Dezessete anos antes, trabalhava como assistente da gerência no canteiro em que Aquilino e Piauí morreram. Seu nome aparecia na lista de distribuição do relatório revisado.
— Ele conhecia a ordem original — afirmou Tâmara.
— E construiu a carreira dentro da unidade que continuou pagando AC-H2 — acrescentou Sandro.
Salomé pediu busca por registros de acesso de Otacílio. Na quinta-feira, o crachá dele entrara no hospital desativado às vinte e duas e doze. Saíra às vinte e três e quatro. Rejane vira Enéas naquele intervalo.
O telefone corporativo de Otacílio estava desligado. O advogado informou que o diretor viajara para uma reunião, sem fornecer destino.
— Temos dois desaparecidos e dois procurados — disse Salomé. — Enéas e Gilvan precisam ser encontrados. Aristeu e Otacílio precisam explicar onde estiveram.
Tâmara voltou às etiquetas. A décima pertencia a um lote faturado para o S-9, ainda sem uso. A décima primeira trazia apenas parte do código. A data correspondia à semana seguinte ao acidente de Aquilino.
— Esta pode marcar o primeiro crime — falou.
O lote parcial fora destinado a uma galeria de inspeção sob o Mercado Novo, mesmo lugar do gerente desaparecido. A concretagem usara quarenta metros cúbicos acima do volume previsto.
Janara calculou o excedente.
— Suficiente para fechar um compartimento de vinte metros quadrados.
— O gerente pode estar lá — disse Sandro.
— A hipótese exige busca e perícia — respondeu Salomé.
Tâmara alinhou as etiquetas pela data. A sequência formava uma história diferente daquela imaginada por Aristeu. O primeiro alvo participara diretamente da morte dos trabalhadores. Depois vieram pessoas que executaram ordens. Em seguida, funcionários que guardaram papéis ou operaram máquinas. Rejane tentara recuperar o original e mesmo assim fora confinada. Enéas preservara a medida correta e terminara capturado.
— A lista deixou de seguir culpa — disse ela. — Segue contato com o segredo.
Salomé acrescentou a frase ao quadro de investigação.
O rastreamento de Gilvan parou numa rua próxima ao arquivo técnico. O aparelho ficou imóvel durante três minutos e voltou a se mover. A equipe policial cercou o quarteirão.
Encontrou o telefone no banco traseiro de um táxi vazio. O motorista explicara que um passageiro deixara o aparelho e descera perto de uma estação.
As câmeras mostravam Gilvan saindo do carro com a pasta. Ele olhava para trás e falava com alguém pelo relógio.
Sandro reconheceu a entrada: Estação Mercado Novo.
O local ligado à etiqueta mais antiga.
— Fechem os acessos técnicos — ordenou Salomé. — Ele pode estar procurando proteção ou indo a um encontro.
Às dezessete e vinte, a editora ligou para Sandro. Uma fonte enviara ao jornal documentos sobre Gilvan e prometia a localização de Enéas.
O pacote chegaria apenas ao endereço pessoal do repórter.
Sandro perguntou o nome da fonte.
A editora respondeu que a mensagem estava assinada por alguém que dizia conhecer a primeira parede.