Capítulo 2 - A notícia de seis linhas
Sandro Belmonte escreveu as seis linhas sobre Enéas Lessa em menos de quatro minutos.
Usou as informações do boletim: trinta e dois anos, topógrafo, desaparecido desde terça-feira, visto pela última vez perto das obras da estação Baturité. Acrescentou o telefone da família e escolheu uma fotografia em que Enéas vestia uma camiseta cinza diante de uma praia. O sistema publicou a nota às oito e onze.
Às oito e quinze, Sandro já trabalhava em outro assunto.
A redação do Jornal da Cidade ocupava metade de um andar comercial. As divisórias tinham sido retiradas anos antes para dar impressão de espaço. Restaram onze mesas, uma televisão presa à parede e armários com edições impressas de décadas que o jornal gostava de citar durante campanhas de assinatura. O ar-condicionado pingava sobre um balde ao lado da editoria de esportes.
Sandro cobria transporte, polícia e qualquer pauta que exigisse deslocamento curto. Naquela manhã, precisava confirmar o fechamento de uma avenida, ouvir um comerciante sobre o aumento de furtos e acompanhar a licitação de abrigos de ônibus. A nota de Enéas entrara na lista porque a delegacia a enviara pronta.
O telefone tocou às nove e três.
— Jornal da Cidade, Sandro.
— Foi você que escreveu sobre meu irmão?
A voz tinha cansaço e pressa. Sandro abriu a nota no computador.
— Sim. A senhora é da família de Enéas?
— Sou a irmã. Preciso corrigir uma coisa.
Ele procurou o bloco de papel.
— Qual informação saiu errada?
— A entrada da Rua Baturité. Ele chegou lá, porém entrou para trabalhar. A nota dá a entender que meu irmão sumiu na rua.
Sandro releu o texto. O boletim dizia “último local conhecido”. A empresa responsável pela obra informara que Enéas encerrara o expediente às vinte e duas horas. A catraca registrara saída.
— A senhora tem prova de que ele entrou?
— Tenho uma mensagem enviada de dentro. Também tenho a mochila dele. Apareceu ontem na portaria do meu prédio.
Sandro afastou o teclado.
— Alguém entregou?
— O porteiro encontrou no chão. Levaram o dinheiro e deixaram o caderno.
— A polícia recolheu?
— Disse para eu levar à delegacia à tarde. Eu queria que alguém visse antes.
— Evite mexer no material.
— Já mexi. É a mochila do meu irmão.
Sandro anotou o endereço. A irmã morava a seis quadras da redação. Ele avisou que chegaria em vinte minutos, pegou o gravador e pediu um carro por aplicativo.
Na portaria do edifício, ela o esperava com uma bolsa de lona azul dentro de um saco de lixo transparente. Tinha os cabelos presos e vestia o uniforme de uma clínica odontológica. Sobre o balcão, havia um caderno de capa preta, um carregador de celular e uma trena curta.
— Eu tirei tudo antes de ligar — explicou. — Depois guardei assim.
Sandro mostrou a identificação do jornal.
— Posso fotografar sem tocar?
Ela assentiu.
O caderno estava úmido nas bordas. As últimas páginas continham números de cota, distâncias e desenhos feitos com régua. Enéas usara caneta azul para os registros regulares. Na página final, escrevera a lápis:
`Vazio lateral depois do D-5. Planta indica maciço. Conferir arquivo anterior.`
Abaixo, outra frase:
`7 m desapareceram.`
Sandro fotografou. A irmã abriu uma conversa no celular e mostrou a última mensagem recebida, enviada às vinte e três e quarenta e oito de terça-feira:
`Vou medir outra vez. Se der igual, amanhã levo para fora.`
— Ele costumava falar assim? — perguntou Sandro.
— Falava de trabalho como quem continuava uma conversa começada na cabeça. Eu perguntava se ia jantar, ele respondia sobre cota e parede.
— “Levar para fora” significava procurar quem?
— Uma engenheira. Ele citou uma mulher afastada da obra. Janara, acho.
Sandro escreveu o nome.
— Enéas tinha problemas com alguém?
— Teve uma discussão no domingo. Chegou em casa com a gola rasgada.
— Contou quem fez?
— Disse que prendera o crachá numa grade.
Ela puxou o celular de volta, encontrou uma fotografia e ampliou. Enéas aparecia diante do espelho do elevador. A gola da camisa estava aberta. Perto da clavícula havia quatro marcas paralelas, avermelhadas.
— Ele mandou isso brincando que a obra mordia — disse a irmã. — Meu irmão fazia piada quando sentia medo.
Sandro pediu a imagem. Ela enviou.
— A empresa ligou para vocês?
— Um homem do setor jurídico. Queria saber se Enéas usava remédio, se tinha dívidas, se já sumira de casa.
— Deram o nome?
— A ligação veio sem identificação. Ele disse que falava pelo consórcio.
Na parede da portaria, o relógio marcou nove e quarenta. A irmã precisava entrar na clínica às dez. Sandro guardou o bloco.
— Vou corrigir a nota e procurar Janara. A mochila deve seguir para a delegacia hoje.
— Você acredita que ele saiu pela catraca?
Sandro olhou a trena sobre o balcão. A fita tinha pó cinza junto ao gancho.
— Quero ver o registro original.
— A polícia falou a mesma coisa.
— Isso é bom.
— Falaram há dois dias.
Ela recolheu os objetos. Ao segurar o caderno, apertou a capa contra o peito por um instante. Depois colocou tudo no saco.
Sandro voltou a pé para a redação. No caminho, corrigiu a notícia pelo celular:
`Segundo a família, Enéas entrou no canteiro para cumprir turno na noite de terça-feira. O horário e o meio de saída seguem sob apuração.`
Enviou uma pergunta à assessoria do consórcio. Pediu registros integrais de catraca, imagens da portaria e identificação do responsável pelo turno. A resposta automática prometeu retorno em até dois dias úteis.
Quando chegou à mesa, havia uma mensagem nova no correio da editoria. O remetente usara um serviço temporário. O assunto dizia `PV-37`.
Sandro abriu.
Três fotografias mostravam um muro de concreto no fim de um corredor. A primeira incluía uma planta plastificada. Na segunda, uma etiqueta aparecia presa à base. A terceira era a captura de uma ocorrência operacional:
`Acesso indevido a setor isolado. Alarme acústico decorrente de cura estrutural. Colaborador orientado e retirado da área.`
O texto da mensagem tinha duas linhas:
`Procurem o corredor leste, cota menos vinte e três. A planta mostra um acesso. Há alguém do outro lado.`
Sandro baixou os arquivos e examinou os metadados. As fotografias tinham sido tiradas naquela madrugada, entre duas e cinquenta e duas e três horas. A ocorrência aparecia registrada às duas e cinquenta e um.
O formulário fora criado antes das fotos que justificavam seu conteúdo.
Ele ligou para a assessoria. A atendente pediu o número do protocolo anterior.
— Tenho imagens de uma parede recente em um corredor que leva ao PV-37.
Houve uma pausa curta.
— Essa nomenclatura pertence a documento interno — disse ela.
— Então o poço existe.
— Eu preciso do seu protocolo.
— Um funcionário relatou batidas atrás do concreto.
— O consórcio segue todos os procedimentos de segurança e mantém equipe técnica durante vinte e quatro horas.
— Houve concretagem depois das vinte e três horas?
— Envie as perguntas por escrito.
— Qual empresa forneceu o lote CV-4087?
A ligação ficou muda por alguns segundos.
— Envie por escrito — repetiu a atendente.
Ela encerrou.
Sandro levantou e foi até o arquivo. As gavetas de transporte guardavam relatórios públicos, mapas de expansão e recortes de jornal. Encontrou uma pasta sobre o atraso da estação Baturité. Dois anos antes, uma fissura perto do poço de ventilação interrompera a obra por cinco semanas. O consórcio atribuíra o problema à infiltração causada por chuvas intensas.
Uma engenheira questionara a versão.
O recorte trazia uma fotografia pequena. Janara Alvim saía de uma audiência com uma caixa de documentos nos braços. A legenda a identificava como responsável pelo cálculo estrutural do trecho. Três dias depois, outra notícia informava que ela deixara a obra por “divergência técnica superada”.
Sandro pesquisou o nome. Encontrou uma empresa de inspeção predial instalada num sobrado perto do viaduto central. O telefone chamou cinco vezes.
— Alvim Estruturas.
— Gostaria de falar com Janara Alvim.
— Quem deseja?
— Sandro Belmonte, do Jornal da Cidade. É sobre a estação Baturité.
A pessoa do outro lado respirou fundo.
— Ela encerrou qualquer manifestação sobre essa obra.
— Tenho a foto de um muro construído sobre um acesso que ainda aparece na planta de turno.
— Envie para o e-mail geral.
— O lote está marcado como CV-4087.
A linha ficou aberta.
— Repita o código — pediu a voz.
Sandro repetiu.
— Qual é a data da fotografia?
— Hoje, às duas e cinquenta e dois.
— Envie o arquivo original. Sem compressão.
Ela ditou um endereço. Sandro encaminhou as três imagens e acrescentou a fotografia da anotação de Enéas. O comprovante de leitura chegou em menos de um minuto.
Às onze e vinte, a assessoria do consórcio respondeu:
`A estrutura indicada integra serviço preventivo previsto no planejamento executivo. Ruídos de acomodação são esperados durante a cura. A área permanece isolada, sem registro de acidente ou pessoa desaparecida em seu interior. O colaborador Enéas Lessa concluiu seu último turno e deixou as dependências por acesso regular.`
Sandro pediu o vídeo da saída.
A assessoria informou que imagens dependiam de solicitação policial.
Ele ligou para a delegacia e descobriu que o caso ainda aguardava distribuição. Mandou as fotografias, o caderno e a resposta do consórcio para uma delegada que conhecia de outras pautas, Salomé Ramires. O aplicativo mostrou entrega, sem leitura.
No início da tarde, Sandro foi até a Rua Baturité. O tapume ocupava quase todo o quarteirão. Caminhões entravam por um portão lateral, conferidos por um segurança que comparava placas com uma lista. O cartaz da futura estação cobria a parte mais extensa da cerca.
Ele fotografou a rampa. Uma mangueira preta descia pelo acesso de serviço. Resíduos de concreto formavam uma crosta fresca perto da sarjeta.
Do outro lado da rua, uma lanchonete servia trabalhadores dos turnos. Sandro mostrou a foto de Enéas ao atendente. O homem reconheceu o topógrafo.
— Café sem açúcar e pão na chapa. Sentava no canto.
— Viu ele na terça?
— Veio antes do turno. Estava com um tubo de planta e uma mochila azul.
— Saiu depois?
— Fecho à meia-noite. Até esse horário, nada.
— Conhece algum funcionário chamado Nivaldo?
O atendente olhou para o portão.
— Aqui todo mundo usa apelido.
Sandro deixou um cartão. Quando retornou à calçada, uma betoneira vazia saía da obra. O tambor trazia o logotipo azul que aparecia sob a argamassa da etiqueta.
Ele fotografou o telefone comercial pintado na cabine e ligou para a fornecedora. Informou o lote CV-4087. A funcionária pediu o nome da empresa contratante.
— Consórcio da estação Baturité.
Teclas soaram.
— Esse código saiu ontem, às vinte e três e dez.
— Qual volume?
— Essa informação precisa ser solicitada pelo contratante.
— O destino registrado é o PV-37?
— Aqui consta reparo emergencial, eixo leste.
— Quem recebeu?
— Senhor, preciso encerrar.
— Havia outro caminhão programado para hoje de madrugada?
A funcionária desligou.
Sandro anotou o horário. Enéas desaparecera na terça. O muro recebera concreto na noite de quinta. Entre um evento e outro, alguém preparara forma, cortara ventilação, instalara barras e autorizara um caminhão.
O celular vibrou.
Janara Alvim respondera ao e-mail com um endereço e um horário:
`Traga o arquivo original e o caderno do topógrafo. Hoje, 18h.`
Outra mensagem chegou antes que Sandro guardasse o aparelho. O remetente temporário escrevera de novo.
`A parede recebeu concreto depois do sumiço. Às dez horas vão apagar a etiqueta.`
Sandro conferiu o relógio. Eram treze e vinte e seis.
Ele atravessou a rua, voltou para a lanchonete e escolheu uma mesa de onde podia observar o portão. Pediu café sem açúcar e abriu o computador.
As seis linhas sobre Enéas continuavam no topo da página local. Agora tinham fotografias, registros e um muro recente atrás delas.