Capítulo 9 - Aquilino e Piauí
O documento original tinha onze páginas e quatro versões.
Salomé recebeu as cópias periciais ao meio-dia. A primeira versão fora aberta às três e quatorze da madrugada do acidente. Registrava dois trabalhadores retidos, risco de queda localizada e preparação de acesso pela câmara de alívio. A segunda acrescentava uma equipe de resgate. A terceira suspendia a entrada por ordem da gerência. A quarta substituía todo o conteúdo por preenchimento emergencial de vazio.
Entre a primeira e a última, passaram quarenta e oito minutos.
Os nomes de Aquilino Brandão e Piauí desapareceram junto com a palavra resgate.
Janara leu o relatório estrutural anexado. O colapso atingira uma faixa de revestimento perto do dreno profundo. A câmara continuava estável. Duas vigas provisórias permitiriam chegar aos trabalhadores pelo hospital.
— Havia rota segura — disse.
— Por que preencheram? — perguntou Sandro.
— O relatório final fala em risco progressivo.
— E o primeiro?
— Queda localizada. O sensor registrou estabilidade durante uma hora.
Salomé comparou os horários. A primeira betoneira saíra da fornecedora às quatro e vinte. O relatório final tinha sido fechado dezoito minutos antes.
— Decidiram concretar antes da mudança estrutural alegada — concluiu.
Tâmara Góis chegou acompanhada por um auditor e entregou uma cópia certificada dos pagamentos. O centro de custo AC-H2 recebera manutenção anual desde o acidente. As despesas incluíam inspeção de ventilação, controle de umidade e limpeza de acesso.
— Pagavam para manter utilizável uma área declarada preenchida — disse Tâmara.
— Quem aprovava? — perguntou Salomé.
— A diretoria de implantação. O certificado institucional mudou, a unidade responsável continuou.
— Alguma assinatura pessoal?
Tâmara abriu as notas mais antigas. Uma ordem manuscrita trazia três rubricas: gerente do canteiro, diretor de engenharia e consultor jurídico. Os nomes seriam preservados até confirmação de identidade e situação atual.
Sandro copiou as datas.
— Aquilino e Piauí aparecem em algum registro posterior?
— Na folha de pagamento, foram demitidos por abandono no dia do acidente.
Tâmara mostrou os lançamentos. A empresa descontara ferramentas, uniforme e adiantamento salarial das verbas finais. O saldo ficou negativo.
— As famílias receberam cobrança? — perguntou Janara.
— O arquivo contém duas cartas devolvidas.
Uma delas tinha destinatário Aquilino Brandão. O endereço correspondia ao bairro em que Aristeu crescera.
Salomé buscou o cadastro civil. Aquilino constava como desaparecido havia dezessete anos. Aristeu Varga aparecia como filho, com o sobrenome da mãe. Na época do acidente, tinha dezenove anos e trabalhava como ajudante de logística no mesmo canteiro.
O registro de turno colocava Aristeu na área externa.
— Ele estava lá — disse Sandro.
— Estava empregado — corrigiu Salomé. — A localização dentro do canteiro ainda depende de prova.
Janara encontrou o nome dele em outra folha. Às três e vinte e um, Aristeu recebera ordem para buscar escoras no depósito. Assinara a retirada de seis peças. As escoras nunca entraram na câmara.
Às quatro e seis, o mesmo registro informava devolução do material.
O intervalo cobria a decisão que cancelou o resgate.
Nivaldo leu os códigos das peças.
— Estas escoras serviriam ao acesso lateral descrito no primeiro relatório.
— Quem mandou devolver? — perguntou Salomé.
— Campo vazio.
Sandro pesquisou o apelido Piauí nos arquivos do jornal. Encontrou uma nota de sindicato publicada duas semanas depois do acidente. O texto citava dois terceirizados desaparecidos durante a madrugada. A edição impressa do dia seguinte trazia uma correção: os trabalhadores haviam deixado a cidade antes de uma demissão por justa causa.
O sindicato recolhera a denúncia após receber documento da construtora.
— Temos o nome civil de Piauí? — perguntou Salomé.
Tâmara mostrou a folha de ponto. O campo de nome completo estava coberto por uma fita branca na cópia digital. Sob luz lateral, a perícia conseguiu ler apenas parte do sobrenome.
— O apelido virou a única identificação disponível — disse.
— Procurem a ficha física — ordenou Salomé.
Sandro ligou para o antigo sindicato. A sede atual mantinha caixas sem catalogação num depósito. Um funcionário encontrou a ata de uma reunião realizada três dias depois do acidente. Quatro trabalhadores relataram ter ouvido golpes vindos da câmara até perto das cinco da manhã.
Um deles ainda morava na cidade.
A equipe foi até a casa dele no começo da tarde. Salomé conduziu a entrevista, acompanhada por Sandro com autorização do depoente. O ex-operador tinha setenta e dois anos e conservava a perda parcial de audição causada por máquinas.
— Aquilino instalava dreno — contou. — Piauí cuidava das bombas. A viga caiu atrás dos dois.
— O senhor viu? — perguntou Salomé.
— Vi a poeira sair e ouvi Aquilino pedir que desligassem a linha.
— Qual linha?
— Argamassa. Tinha tubo pressurizado perto deles.
— A equipe iniciou resgate?
— Levamos escoras. O rapaz, filho do Aquilino, buscou no depósito.
— Aristeu?
— Naquele tempo chamavam de Varga. Voltou com o carrinho cheio.
— As escoras foram usadas?
O homem apertou as mãos sobre os joelhos.
— O gerente mandou devolver. Disse que abrir a câmara derrubaria o poço.
— O relatório estrutural indicava acesso lateral.
— A engenheira da madrugada também falou isso. Tiraram ela da sala.
— O que aconteceu depois?
— Chegaram betoneiras.
— Aquilino e Piauí ainda respondiam?
— Aquilino batia num cano. Três vezes, parava, três vezes. Piauí gritava perto do dreno. Quando ligaram a bomba, o som cobriu tudo.
Sandro baixou a caneta por um instante.
— Aristeu ouviu?
— Ficou junto à grade até a segurança levar.
— Ele tentou entrar?
— Pegou uma marreta. Quebrou o cadeado do acesso. Três homens seguraram.
— A polícia foi chamada?
— O canteiro disse que houve dano de equipamento, sem vítima.
O depoente guardara um objeto daquela noite. Trouxe uma plaqueta metálica com o número da equipe de Aquilino. Encontrara no chão perto das escoras devolvidas.
Salomé recebeu a peça sob termo e pediu perícia.
— Por que esperou dezessete anos? — perguntou.
— Dei meu nome ao sindicato. A correção saiu dizendo que eles tinham fugido. Depois perdi o emprego. Quando procurei a família, a casa estava vazia.
— Recebeu ameaça?
— Um homem da construtora disse que eu pagaria o concreto perdido se continuasse falando.
Na volta à delegacia, Salomé recebeu o laudo preliminar do sangue encontrado na câmara. O perfil genético pertencia a Enéas. O cabelo do capacete também.
Rejane permanecia internada e confirmara em depoimento gravado que vira Enéas vivo na quinta-feira. Disse ainda que Aristeu repetia uma pergunta a cada pessoa:
`Quem sabia que havia alguém lá?`
Ele registrava as respostas e comparava nomes com documentos.
— A lista de vítimas segue a cadeia de assinaturas — disse Janara.
— Enéas assinou alguma coisa? — perguntou Sandro.
Tâmara verificou os arquivos.
— Um levantamento topográfico recente. O superior pediu que ele corrigisse a medida de sete metros. Enéas manteve o resultado.
— Então ele agiu certo.
— Ele descobriu a área. Isso bastou para colocá-lo em risco.
Salomé separou os fatos no quadro. Aquilino e Piauí morreram após uma decisão de concretagem. Aristeu presenciou o cancelamento do resgate. Dezessete anos depois, o filho mantinha pessoas em compartimentos ligados ao mesmo local e gravava perguntas sobre responsabilidade.
A origem do método estava clara. A extensão ainda permanecia aberta.
— Rejane obedeceu à ordem de trocar o arquivo — disse Sandro. — Depois tentou recuperar.
— Aristeu prendeu mesmo assim — respondeu Salomé.
— Isso afasta qualquer critério de justiça.
— Critério existe. Ele pertence ao autor dos crimes e muda conforme a necessidade.
Tâmara recebeu uma mensagem do órgão de controle. A ficha física de Piauí fora localizada dentro de uma caixa de equipamentos baixados. O nome civil aparecia legível, junto ao endereço de uma irmã em outro estado.
Salomé enviou equipe para contato familiar e determinou sigilo até a confirmação.
Janara voltou à planta. Marcou o ponto do colapso antigo, a cela de Rejane e o lugar onde Enéas fora visto. Os três ficavam ao longo da galeria retirada dos mapas.
— Aristeu usa a área desde antes do muro — disse. — A parede serviu para fechar o lado da obra depois que Enéas encontrou a diferença.
— E o homem de capacete branco? — perguntou Sandro.
— Alguém com autoridade para entrar, dirigir a operação e ordenar concretagem — respondeu Salomé.
O telefone da delegada tocou. A equipe que buscava Aristeu encontrara o apartamento vazio. Dentro de um armário havia mapas do subsolo, recortes sobre desaparecidos e cópias de ordens de serviço. Uma parede do quarto carregava onze etiquetas de concreto, organizadas por data.
A mais antiga tinha dezesseis anos.
Salomé pediu fotografias e busca por locais associados a cada lote.
O primeiro crime comprovado de Aristeu podia ter começado um ano depois da morte de Aquilino e Piauí.
No mapa preso à porta do armário, três pontos estavam circulados. Um correspondia ao hospital. Outro ficava sob uma estação já inaugurada. O terceiro marcava um poço de ventilação que ainda recebia concreto naquela tarde.