Capítulo 12 - A sala de repetidores
Cibele encontrou a porta atrás de um painel acústico.
A sala aparecia na planta do hospital como depósito de roupa limpa. O cabo do falso nó R-12-A atravessava o teto, descia por uma coluna e terminava diante de uma parede revestida com placas perfuradas. Duas placas tinham parafusos recentes.
O mandado complementar autorizava abertura e apreensão dos equipamentos.
A perícia retirou o painel às três e vinte da manhã. Atrás dele, uma porta metálica ocupava um vão estreito. A fechadura aceitava a chave que Rejane escondera na meia.
Salomé girou a chave usando luvas.
O cômodo tinha quatro metros de comprimento. Estantes abrigavam repetidores antigos, fontes de alimentação e caixas de cabos. Uma mesa sustentava computador, gravador de áudio e leitor de cartões. Espuma acústica cobria parte das paredes.
Nenhum equipamento estava ligado à rede pública.
Cibele seguiu as conexões. Uma bateria industrial alimentava o conjunto. O computador recebia dados por cabo físico e enviava sinais ao transmissor encontrado na câmara. Um relógio interno mantinha os horários sincronizados.
— Estação de edição e distribuição — disse.
O perito fotografou a mesa. O teclado tinha pó sobre quase todas as teclas, exceto barra de espaço, setas e cinco letras. Um caderno ao lado registrava códigos de arquivos e minutos de áudio.
O programa instalado no computador era um editor comum, disponível gratuitamente. A tela inicial mostrava faixas de voz cortadas em trechos curtos. Cada palavra recebia código de origem, data e posição. O autor podia montar uma ordem com gravações retiradas de meses diferentes.
Cibele examinou os atalhos recentes. Um deles normalizava volume. Outro acrescentava o ruído de fundo do setor escolhido. A montagem tentava fazer qualquer frase soar como transmissão contínua.
— O efeito dependia de rotina — explicou. — Quem trabalha aqui reconhece voz, canal e ruído. Escuta a ordem e age antes de questionar a origem.
— Quantas mensagens foram montadas? — perguntou Salomé.
— O índice cita cento e vinte e sete. Precisamos abrir o disco para separar teste de uso real.
Um calendário impresso marcava concretagens, trocas de turno e afastamentos. Em algumas datas, havia somente iniciais. Em outras, constavam horários de caminhões e nomes de vítimas.
Salomé reconheceu o padrão:
`RC_01`, `EL_04`, `GB_02`.
Rejane Côrtes, Enéas Lessa, Gilvan Barreto.
O disco rígido estava criptografado. O cartão retirado do transmissor continha uma chave parcial e caminhos de diretório. O laboratório iniciou cópia integral antes de qualquer tentativa de abertura.
Cibele examinou os repetidores. O aparelho R-12-A original permanecia na estante, com patrimônio intacto. O transmissor instalado perto do muro copiara seu identificador. Ao lado havia etiquetas de outros seis nós retirados de serviço.
— Ele podia mover a origem falsa entre as obras — explicou.
— Isso cobre as onze concretagens? — perguntou Salomé.
— Cobre lugares com rede semelhante. Nos demais, precisaria de rádio comum.
Uma folha presa sob a mesa listava frequências, turnos e nomes de centrais. Cibele encontrou a própria escala de trabalho e a gravação usada para montar a falsa liberação do PV-37.
Também encontrou ausências programadas. O autor sabia quando cada técnico deixaria a central.
— Alguém tinha acesso à escala corporativa — disse.
— Aristeu recebia? — perguntou Salomé.
— Chefia de turno recebe o setor. A lista completa fica com a diretoria de implantação.
Otacílio podia acessar todas as escalas.
Cibele reconheceu a impressão do documento. A grade vinha do sistema usado pela diretoria, com colunas que o painel comum ocultava: férias, substituições e contatos de emergência. Alguém imprimira a versão administrativa e anotara os repetidores disponíveis em cada turno.
Ela trabalhara na instalação do R-12-A antes da demolição do hospital. Lembrava da posição dos cabos e da dificuldade de manter energia naquele subsolo. A sala secreta reaproveitava o circuito construído para equipes de cirurgia e manutenção. O autor conhecia o mapa antigo ou recebera ajuda de quem acompanhara a instalação.
— Aristeu entrou na obra depois da rede — disse.
— Otacílio já estava no consórcio — respondeu Salomé.
O perito separou a folha para exame de impressão e origem.
Um perito localizou duas impressões no caderno. A primeira correspondia a Aristeu, já identificado por objetos do apartamento. A segunda aguardava comparação.
No fundo da estante, Nivaldo encontrou uma caixa de junção ligada ao cabo da Estação Mercado Novo. O indicador emitia pulsos verdes.
— Tem equipamento ativo do outro lado.
Cibele conectou o analisador. O fluxo continha leituras de oxigênio, temperatura e pressão. O sensor verdadeiro estava num setor inferior da estação.
— Desta vez há pessoa usando o ar — disse. — O consumo muda entre as leituras.
Janara recebeu os valores por rádio. A queda de oxigênio era lenta. O compartimento possuía ventilação limitada.
— Quanto tempo? — perguntou Salomé.
— Entre três e cinco horas até atingir nível perigoso, conforme o volume.
— Pode ser Gilvan?
— Pode haver mais alguém — respondeu Janara.
A equipe em Mercado Novo usou o identificador do nó para triangular o cabo. O traçado levava ao elevador de carga e descia até uma antiga plataforma de manutenção.
Cibele pediu acesso aos dados brutos do sensor. Além das leituras, o aparelho enviava um pulso irregular a cada minuto. Os intervalos formavam grupos.
Três pulsos. Pausa. Um. Pausa. Três.
— É código? — perguntou Salomé.
— O sensor possui botão de calibração. Alguém pressiona manualmente.
Nivaldo ouviu a sequência pelo alto-falante.
— Três batidas pedem resposta. Um indica pessoa. Três repetem o pedido.
— Conseguimos responder?
Cibele enviou três pulsos pelo comando de teste.
O retorno demorou vinte segundos.
Um pulso.
— Vivo — disse Nivaldo.
Salomé transmitiu a localização à equipe de resgate. A busca passou a seguir o cabo, preservando a estrutura ao redor.
A família de Gilvan forneceu uma frase de segurança que ele usava em inspeções: ao receber três sinais, responderia uma vez enquanto estivesse sozinho e duas se houvesse outra pessoa. Cibele repetiu o teste.
O sensor devolveu um pulso.
— Uma pessoa capaz de responder — informou ao resgate.
Janara calculou o volume do compartimento a partir das plantas de Mercado Novo. A leitura de consumo indicava alguém respirando havia horas. A equipe teria pouco tempo depois que a ventilação cessasse.
O laboratório concluiu a cópia do disco. A chave parcial abriu uma pasta temporária sem liberar o conjunto inteiro. Dentro havia áudios ainda em edição.
O primeiro registrava Gilvan.
— Eu assinei pelas fotografias — dizia ele. — Otacílio afirmou que a inspeção já tinha sido feita. Pedi para corrigir depois que vi a divisória.
Aristeu perguntava:
— Quem sabia que o compartimento estava lá?
— Equipe de forma, diretor, encarregado da bomba.
— Você avisou alguém?
— Liguei para o diretor.
— E depois?
— Assinei.
O arquivo terminava.
O horário da gravação era dezenove e dois. Gilvan permanecia vivo pouco mais de oito horas antes.
Salomé comparou a fala com o relatório do S-9. Gilvan admitia ter assinado a inspeção a partir de fotografias e procurado correção depois. A participação dele tinha consequência administrativa e penal. O confinamento transformava essa falha em sentença escolhida por Aristeu.
— A gravação serve para investigar o laudo — disse. — Também prova sequestro. Uma coisa jamais autoriza a outra.
O perito marcou o trecho para preservar a distinção no relatório.
O segundo áudio tinha duas vozes masculinas. A primeira pertencia a Aristeu. A perícia usaria comparação formal, porém o timbre e a fala coincidiam com as gravações anteriores. A outra voz era mais grave.
— Você perdeu o controle — dizia o homem.
— Controle foi o nome que vocês deram ao concreto.
— Entregue o topógrafo e encerre.
— Depois de abrir o poço.
— O poço desaparece esta noite.
— Gilvan está lá.
— Escolha sua prioridade.
Cibele verificou a origem do arquivo. A gravação fora feita na própria sala às dezesseis e quarenta de sábado.
Salomé enviou a voz grave para comparação urgente com entrevistas públicas de Otacílio Brenner.
No caderno de edição, a página daquele dia tinha dois horários:
`18:00 — GB / Mercado Novo`
`02:00 — fechamento P-4`
O segundo código correspondia à antiga plataforma de manutenção.
— A mensagem para Sandro usou o horário real — disse Salomé. — Queriam que ele esperasse até o limite.
O computador guardava um rascunho do pacote enviado ao jornal. A pasta fora criada por usuário identificado como `OB_impl`.
Otacílio Brenner, diretoria de implantação.
— Ele usou o repórter para atrasar a busca e empurrar Gilvan para Aristeu — concluiu Salomé.
— Aristeu sabia? — perguntou Cibele.
— A gravação mostra conflito. Ainda precisamos saber quem decidiu o envio.
Os registros do computador ajudaram a responder parte da pergunta. O pacote fora montado às dezessete e onze. O usuário `OB_impl` inserira a condição de confirmação antes do contato policial. Às dezessete e trinta e seis, outro usuário abrira o rascunho por vinte segundos. O identificador correspondia ao perfil técnico usado no transmissor de Aristeu.
— Os dois viram a mensagem — disse o perito.
— Otacílio escreveu. Aristeu abriu antes do envio — concluiu Salomé. — Ainda falta saber se concordou ou apenas tomou conhecimento.
Uma versão anterior do texto aparecia na lixeira. Dizia apenas:
`Gilvan sabe onde está Enéas.`
Otacílio acrescentara o prazo e a instrução que induziram Sandro a esperar.
O rádio chamou. A equipe de Mercado Novo alcançara a plataforma P-4. Encontrara um compartimento atrás de painéis pré-moldados e iniciava abertura.
O sensor indicava oxigênio abaixo do limite.
Cibele manteve o canal de dados aberto. Enviou três pulsos.
Um pulso voltou, mais lento.
Enquanto o resgate cortava a primeira barra, o computador da sala recebeu uma tentativa de conexão externa. O endereço vinha da rede administrativa do consórcio.
O perito isolou o cabo antes que qualquer arquivo fosse alterado.
Na tela de registro, o usuário que tentara entrar apareceu por menos de um segundo:
`obrenner`.
Otacílio ainda tinha acesso ao sistema e sabia que a polícia encontrara a sala.