Capítulo 16 - Pressão de linha
O segundo caminhão apareceu na câmera da avenida às seis e vinte e oito.
Entrava pela rota de carga antiga, atrás dos galpões de pré-moldados. A viatura que bloqueava o retorno principal demoraria quatro minutos para alcançar o portão lateral. Quatro minutos, na leitura de Janara, eram quase toda a margem de segurança.
— Se ele acoplar a mangueira, quanto tempo até PR-3 receber pressão? — perguntou Salomé.
Janara olhou a planta estendida no chão.
— Menos de dois minutos após a bomba girar.
Nivaldo já descia para a galeria velha. O acesso ficava dentro de uma sala com piso metálico, atrás de um quadro de energia que o cadastro atual chamava de reserva. A escada era vertical, com gaiola de proteção partida no meio. Janara foi logo atrás. Levava medidor de gases, lanterna e rádio preso ao ombro.
Cibele ficou na sala de controle improvisada. Uma tela mostrava o sistema de bombas. Outra acompanhava a rede de comunicação. A terceira mantinha aberta a planta antiga. O comando remoto oscilava entre duas tentativas de acesso. `obrenner` entrava, caía, voltava. O perfil técnico interno surgia em pulsos curtos, como mão apertando botão em equipamento antigo.
— Salomé, preciso de ordem para isolar o quadro local — disse Cibele.
— Faça preservando registro.
— Vou espelhar antes.
Ela iniciou captura de tela contínua e exportou o log para disco externo lacrado. Depois cortou a rota de comando falso que saía da sala de repetidores. O sistema principal reagiu com alerta sonoro.
`Falha de comunicação — PR-3`
A mesma falha servia para provar invasão e para assustar trabalhador de campo. Cibele desligou o som.
No portão lateral, o segundo caminhão parou diante de dois homens com colete do consórcio. Um deles segurava ordem impressa. A câmera afastada escondia o rosto. A postura entregava familiaridade com canteiro: pés afastados, braço erguido e dedo apontando para a baia de lançamento.
Salomé pediu ampliação. O homem vestia capacete branco, sem identificação frontal.
— Otacílio está no portão — disse.
O motorista desceu. A gravação sem áudio mostrava discussão. O capacete branco caminhou até a lateral do caminhão e tocou o lacre.
— Equipe externa, detenham Otacílio Brenner — ordenou Salomé.
A viatura apareceu pela curva. Otacílio correu para o galpão de pré-moldados.
No subsolo, Janara alcançou a base da escada com as pernas tremendo pelo esforço. Nivaldo apontou para a direita. A galeria velha tinha paredes ásperas, feitas antes da padronização atual. A cada vinte metros, um registro manual surgia dentro de nicho pintado de amarelo.
— PR-3 fica no terceiro nicho — disse ele.
O rádio chiou.
— Janara, caminhão retido. Otacílio fugiu pelo galpão. Aristeu ainda na linha — informou Salomé.
— Entendido.
Ela evitou olhar para cima. A galeria era baixa. A tubulação atravessava o teto em curvas antigas, remendadas por abraçadeiras novas. Em três pontos, soldas recentes indicavam intervenção clandestina.
Nivaldo parou diante do primeiro nicho e encostou a mão no tubo.
— Bomba parada.
— Por enquanto.
No controle, Cibele viu o perfil técnico interno ativar comando local. A tela acusou abertura parcial de válvula.
— Ele acionou manual no poço de carga — disse.
— Bomba principal?
— Ainda travada. Só válvula.
O caminhão reserva estava retido, porém a primeira betoneira continuava carregada na avenida principal. A carga podia seguir para qualquer bomba se alguém liberasse o engate. Salomé deslocou equipe para as duas betoneiras e mandou recolher chaves.
Otacílio atravessou o galpão com dois policiais atrás. Passou por pilhas de formas metálicas, derrubou cavaletes e tentou sair pelo pátio de ferragens. Um segurança do consórcio, vendo o mandado na mão do investigador, fechou o portão manual. Otacílio tentou voltar.
— Diretor Brenner — chamou Salomé pelo rádio aberto da equipe externa. — A prisão temporária está decretada.
Ele parou junto às barras de aço.
— Vocês vão provocar ruptura.
— Abaixe as mãos.
— A linha precisa descarregar em algum lugar.
— Abaixe as mãos.
Otacílio obedeceu depois que dois policiais apontaram armas. Algemado, ainda falava de pressão, perda, seguro e colapso. Salomé mandou gravar cada frase. Era defesa e confissão operacional ao mesmo tempo.
— Aristeu vai abrir PR-3 — disse Otacílio, enquanto era colocado na viatura. — Ele acha que Aquilino está atrás da parede. Se vocês fecharem tudo, a curva rompe.
Salomé transmitiu a frase para Janara.
No terceiro nicho, Nivaldo encontrou o volante travado por corrente nova.
— Ele sabia que alguém viria por aqui.
Janara examinou a corrente. O cadeado era pequeno, modelo de almoxarifado. Poderiam cortar. O problema estava na posição: a corrente impedia giro completo, deixando o registro aberto em um quarto. Se rompessem errado, a válvula poderia saltar para abertura total com a pressão acumulada.
— Precisamos aliviar antes de fechar.
— Alívio fica onde? — perguntou Salomé pelo rádio.
Nivaldo apontou para a planta.
— Quarto nicho, linha morta.
— Morta no cadastro — corrigiu Janara.
Foram mais trinta metros. A galeria estreitou. O piso tinha lama fina misturada a cimento seco. O quarto nicho guardava uma válvula azul, antiga, sem corrente. Nivaldo testou com o ombro.
— Travada.
Janara leu a pressão portátil. A linha recebia aumento lento. Alguém iniciara bombeamento em volume baixo.
— Cibele, confirme bomba.
— Giro mínimo pela bomba auxiliar. Comando local.
Aristeu encontrara uma forma de alimentar PR-3 sem a carga plena. Bastava para encher a tubulação e preparar o golpe quando o caminhão se conectasse.
Nivaldo tirou a chave de cano da mochila. Janara segurou a lanterna sobre a válvula azul. O primeiro esforço falhou. O segundo arrancou uma crosta de tinta. No terceiro, a peça cedeu alguns graus e soltou ar carregado de pó.
— Devagar — avisou Janara.
O alívio soprou para uma forma vazia, abandonada atrás da galeria. O indicador de pressão caiu pouco.
— Agora o registro principal — disse.
Voltaram ao terceiro nicho. Cibele mantinha o canal limpo e acompanhava as curvas no gráfico. Salomé já tinha Otacílio preso e duas betoneiras retidas. O único movimento restante vinha de Aristeu, dentro da obra, próximo da linha do pai.
O rádio recebeu a voz dele.
— Você conhece o som, Nivaldo?
Nivaldo olhou para Janara.
— Conheço.
— Então escuta.
Da tubulação vieram três golpes metálicos.
Pausa.
Três golpes.
Nivaldo fechou os olhos por um segundo, depois abriu com raiva quieta.
— Isso é chave batendo no tubo. Pessoa livre, perto de curva.
Janara transmitiu:
— Aristeu está simulando resposta para impedir fechamento.
A voz voltou:
— Meu pai batia assim.
Nivaldo apoiou a chave no cadeado.
— O pai dele batia para viver. Ele bate para matar.
O corte do cadeado levou quarenta segundos. Janara segurou o volante para impedir salto. Nivaldo girou meia volta, parou, esperou a pressão cair, girou outra meia. O metal rangeu.
No gráfico de Cibele, PR-3 desceu de zona vermelha para amarela.
— Continuem. Mais uma volta.
A bomba auxiliar tentou compensar. Aristeu aumentou giro local. A linha tremeu, soltando pó do teto. Janara mandou Nivaldo parar.
— Se fechar agora, rompe na curva.
Ela procurou na planta o trecho mais fraco. A curva ficava antes do ponto de Aquilino, exatamente onde a obra antiga mudava de concreto para anel metálico. Se a pressão rompesse ali, soterraria a equipe e destruiria a prova histórica.
— Cibele, consegue abrir a linha de descarte pela central?
— Remoto bloqueado.
— Manual?
Nivaldo respondeu:
— Fica no poço de pega rápida.
O mesmo lugar onde Aristeu estava.
Salomé assumiu a decisão.
— Equipe tática aproxima pelo poço. Janara, mantenha PR-3 em meia carga. Cibele, preserve log e corte qualquer áudio falso. Nivaldo, só gira quando ela mandar.
Uma frase pronta quase veio à cabeça de Janara. Ela segurou o impulso antes de transformar o risco em solenidade. Aquilo era apenas mais uma decisão dentro de uma sequência de decisões.
— Nivaldo, fica comigo — disse.
— Estou aqui.
No gráfico, a linha subiu outra vez.
O poço de pega rápida começou a receber o peso da história inteira.
Salomé pediu atualização de cada frente. O portão lateral estava seguro. Otacílio seguia algemado na viatura, com celular apreendido e mãos fotografadas para comparação de graxa. As betoneiras permaneciam lacradas, vigiadas por policiais e por técnicos da fornecedora chamados como testemunhas. Enéas já chegara ao hospital. Gilvan saíra da sala de emergência para tomografia.
Faltava o ponto que Aristeu ainda controlava.
Janara respirou dentro da máscara e olhou para Nivaldo. A obra inteira empurrava os dois para uma escolha rápida, do tipo que depois vira relatório de emergência. Foi assim que o consórcio sempre vencera: dando ao medo uma aparência de procedimento.
— Nada de gesto heroico — disse ela. — Só pressão, válvula e tempo.
Nivaldo assentiu.
— Obra mata quando alguém pula etapa.
A resposta dele ajudou a firmar o método. O resgate de Aquilino falhara dezessete anos antes porque alguém decidira que etapa era luxo. Agora cada segundo teria nome, leitura e responsável.