Capítulo 14 - A rota da ventilação
V-17 atendia três setores que o mapa atual tratava como independentes.
Cibele abriu a tela de rede sobre a mesa da sala de apoio. O diagrama oficial mostrava linhas interrompidas, válvulas desativadas e trechos preenchidos. O sensor ativo de Mercado Novo dizia outra coisa: havia ar circulando por baixo do eixo norte.
— O desenho público corta a rota aqui — disse, apontando o encontro de duas galerias. — A leitura de pressão prova ligação aberta.
Janara comparou a tela com a planta antiga de sua pasta. A ligação existia antes da revisão `OS-17441R`. Depois da revisão, o trecho recebeu hachura de maciço e saiu da rotina de inspeção.
— Enéas encontrou os sete metros porque mediu por fora da hachura — disse.
— E foi levado pelo trecho que a hachura fingia fechar — completou Salomé.
O hospital desativado, Mercado Novo e V-17 formavam um triângulo subterrâneo. A distância cabia em deslocamento por carrinho de manutenção. Aristeu podia mover uma pessoa entre os pontos sem cruzar catraca pública, desde que possuísse chaves de ventilação e acesso às tampas internas.
Gilvan confirmara o desenho com uma letra.
`V`
Sandro enviou novo documento à delegacia pelo canal criado por Salomé. Era o registro completo da fornecedora sobre a primeira parede. No campo de recebimento, Otacílio assinava com iniciais e número funcional. No campo de acompanhamento, constava o carimbo do gerente localizado em Mercado Novo.
Sandro escreveu junto:
`Envio sem retenção. Recebido da fonte às 4h57.`
Salomé leu e mandou arquivar. Ainda manteve o repórter fora do perímetro.
Tâmara trabalhava ao lado de Janara, com o laptop apoiado numa caixa de ferramentas. A planilha de pagamentos já cruzava onze etiquetas. Também reunia doze ordens de serviço e quatro empresas subcontratadas. Havia sempre uma rubrica flexível. Algumas vezes era perda técnica. Outras vezes, reforço emergencial, preenchimento de vazio ou estabilização provisória.
— O dinheiro cobre duas coisas — disse. — Material real e mentira contábil.
— Onde entra V-17?
Tâmara filtrou o código. A tela trouxe uma ordem aberta às cinco e oito da manhã. Autorizava vinte e oito metros cúbicos de concreto de pega acelerada. O serviço começaria às seis, com justificativa de risco estrutural.
Ela salvou a consulta em três formatos e enviou ao órgão de controle antes de continuar. Salomé observou o cuidado.
— Medo de apagarem?
— Medo, hábito e experiência.
Tâmara explicou que sistemas de obra raramente eliminavam um registro de uma vez. Primeiro mudavam o nome do serviço. Depois transferiam centro de custo. Por fim, anexavam um laudo bastante técnico para cansar quem investigasse. A ordem de V-17 já vinha com as três camadas prontas.
— Quem montou isto sabia que seria lido por advogado, engenheiro e contador — disse.
Janara aproximou a cadeira.
— Então Otacílio escreveu para todos nós.
— Quem assinou? — perguntou Salomé.
Tâmara ampliou a tela.
`Diretoria de Implantação — Otacílio Brenner`
O campo de validação vinha com certificado digital ativo. O sistema aceitara a ordem sem alerta.
Cibele tentou contato com a central de concreto para bloquear o despacho. A linha corporativa caiu em atendimento gravado. Salomé acionou a viatura na fornecedora. Janara pediu que ninguém mexesse na ventilação até calcular a pressão.
— Se V-17 respira por essa rota, fechar a linha pode cortar ar de Enéas.
— Se o concreto chegar, sela a rota — respondeu Salomé.
— Então precisamos encontrar onde a rota respira antes de tocar na bomba.
Nivaldo conhecia parte do caminho. O eixo norte tinha uma casa de registros usada em obras antigas, com acesso por escada estreita atrás de uma subestação. O cadastro atual chamava o lugar de sala elétrica desativada. Para quem trabalhara ali, continuava sendo o armário de ventilação.
Ele pediu uma chave manual ao chefe do resgate. O homem hesitou. Salomé autorizou acompanhamento policial.
— Você entra como testemunha técnica. Qualquer risco, sai.
Nivaldo aceitou sem dramatizar. Apenas amarrou a lanterna no capacete e conferiu a máscara.
A escada para a casa de registros descia em curvas curtas. Cada degrau tinha pó de cimento antigo. No fim, uma porta gradeada guardava três volantes vermelhos. O do meio vibrava pouco. Cibele encostou o sensor portátil na tubulação.
— Ar circulando. Alguém abriu este registro depois da meia-noite.
Havia marcas de luva no volante e uma mancha de graxa no chão. Nivaldo agachou.
— Graxa de eixo de carrinho, sem limpeza.
Janara pediu foto em escala. Depois leu a pressão. A linha não alimentava apenas V-17. Uma derivação estreita seguia para uma antiga câmara de equalização.
— Enéas pode estar além da derivação.
Nivaldo abriu o ouvido para a tubulação antes de tocar nela. Disse que cano antigo entregava mais que desenho. Quando havia bomba distante, o metal trazia ritmo contínuo. Quando havia registro recém-aberto, vinha um assobio curto na junta. Naquele ponto, o som chegava em duas camadas.
— Tem ar puxado por cima e ar consumido por baixo.
Janara conferiu o medidor. A diferença era pequena, porém real. Ela anotou pressão, temperatura e hora. O cálculo ajudaria a estimar volume de câmara e tempo de respiração.
— Enéas mediu com trena. Nós vamos medir com ar — disse.
Cibele conectou o analisador. O equipamento captou um ruído elétrico de baixa frequência, diferente do sensor de Gilvan. Era um alarme antigo, alimentado por bateria reserva.
— Tem circuito vivo no fim da linha.
Salomé recebeu mensagem do laboratório. A voz grave do áudio da sala de repetidores tinha compatibilidade preliminar com Otacílio. O laudo formal demoraria, porém a sequência de fala, respiração e pausas bastava para pedido de prisão temporária junto aos outros elementos.
Ela encaminhou ao promotor. A decisão veio em doze minutos.
Otacílio virou foragido antes das seis da manhã.
Aristeu já estava desaparecido desde sexta.
A diferença entre os dois crescia a cada nova prova. Otacílio movia ordens, certificados e prazos. Aristeu movia corpos, painéis e concreto. Um precisava do sistema funcionando. O outro queria abrir a parede original, mesmo que destruísse a obra.
Na casa de registros, Cibele encontrou uma etiqueta colada atrás do volante central. O papel fora dobrado muitas vezes antes de ser preso ali.
`A.B. / Piauí — linha ainda responde`
Nivaldo leu em voz baixa:
— Aquilino Brandão.
Janara viu outra inscrição, riscada com marcador.
`Varga, pare.`
A letra era de alguém treinado em campo, angular e rápida. Cibele fotografou para confronto. O bilhete tinha poeira acumulada nas bordas, porém a fita adesiva era recente. Aristeu voltara ali nos últimos dias.
O papel trazia marcas de dobra compatíveis com bolso de camisa. Salomé pediu envelope separado. Aristeu talvez carregasse aquele lembrete havia anos. Talvez alguém o tivesse deixado para ele na tentativa de impedir nova concretagem. As duas hipóteses levavam a rotas diferentes, e nenhuma permitia tocar o objeto sem método.
Nivaldo evitou olhar muito tempo. A nota reduzia Aquilino e Piauí a iniciais, do mesmo jeito que os relatórios antigos faziam com quase todos. Ele respirou pelo filtro e falou para a câmera corporal:
— Linha localizada. Registro central aberto. Etiqueta manuscrita preservada.
Dar nome ao achado antes da emoção ajudava a manter a prova viva.
— Ele acredita que a linha do pai continua aberta — disse Janara.
— Ou precisa que alguém acredite nisso — respondeu Salomé.
A engenheira encarou o tubo vibrando. A leitura de ar revelava espaço conectado. Isso bastava para busca. Qualquer interpretação além disso ficaria para depois.
O rádio da equipe externa anunciou que o primeiro caminhão deixara a usina às cinco e trinta e sete. A viatura ainda estava a caminho da fornecedora. Pela rota, o veículo alcançaria V-17 em vinte minutos.
Salomé ordenou bloqueio viário.
Tâmara levantou o rosto do laptop.
— A ordem tem uma cláusula automática. Se a primeira carga sofrer bloqueio, o sistema aciona fornecedor reserva.
— Quantos caminhões?
— Dois. Um já saiu. Outro fica liberado às seis e cinco.
O recurso era típico de obra com prazo rígido. Em caso de pane, a diretoria podia acionar outra concreteira e manter a execução. O mesmo valia para protesto ou interdição parcial. No papel, evitava desperdício e multa. Nas mãos de Otacílio, garantia que uma ordem criminosa sobrevivesse ao primeiro bloqueio policial.
Salomé pediu ao promotor extensão expressa para fornecedores reserva. O texto precisava alcançar placa, nota fiscal, centro de custo e qualquer carga vinculada ao código de V-17.
— Sem brecha administrativa — disse.
Janara pediu a ordem completa. A justificativa técnica dizia risco de entrada de ar contaminado por rota antiga. Recomendava preenchimento imediato para proteger trabalhadores e impedir dano ao eixo norte.
— Esse texto usa o medo correto — disse. — Se alguém lê sem o mapa antigo, autoriza.
— Quem escreveu? — perguntou Salomé.
Tâmara abriu o histórico de edição. O documento tinha sido criado pelo usuário de Otacílio. A última alteração vinha de um terminal dentro da própria obra, às cinco e doze.
O terminal pertencia ao almoxarifado de V-17.
Salomé enviou duas equipes para o local. Nivaldo guiaria uma pelo armário de ventilação. Janara ficaria no cálculo da linha. Cibele manteria o sensor aberto.
Antes de subir, Nivaldo tocou três vezes no tubo com a chave.
Nada respondeu.
Ele esperou.
Do fundo da linha veio um pulso metálico fraco, arrastado pela tubulação.
Um toque.
Cibele conferiu o analisador.
— Bateria remota acionada. Alguém ouviu.
Janara marcou V-17 na planta com lápis vermelho.
Enéas estava vivo em algum ponto da rota de ventilação.