Capítulo 3 - A engenheira afastada Enterrado nas Profundezas · Capítulo 3 de 18
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Capítulo 3 - A engenheira afastada

Janara Alvim ampliou a fotografia até os pixels apagarem a textura do concreto.

O código CV-4087 ocupava o centro da tela. A etiqueta estava rasgada sobre a data, ainda assim o lote, o horário de saída e a resistência da mistura permaneciam legíveis. No canto inferior, uma faixa azul indicava a fornecedora.

Sandro esperava do outro lado da mesa. Tinha chegado seis minutos antes das dezoito com o computador, o caderno de Enéas dentro de uma pasta transparente e a postura inquieta de quem passara o dia reunindo respostas que aumentavam a pergunta.

O escritório de Janara funcionava no piso superior de um sobrado. Embaixo, uma loja de ferramentas fechava as portas. O ruído metálico da grade subiu pela escada e cessou depois do giro da chave.

— Você confirmou o lote? — perguntou Janara.

— Saiu ontem às vinte e três e dez. Reparo emergencial no eixo leste.

— Volume?

— A fornecedora recusou.

— Para preencher esse corredor até o teto, precisariam de dois caminhões. Talvez três, conforme a profundidade.

Sandro abriu uma fotografia da rampa.

— Um caminhão entrou depois das três.

Janara observou a crosta de concreto junto à sarjeta. O material tinha pequenos fragmentos escuros misturados à massa clara.

— Fibra de aço — disse. — Usam em reparo estrutural, revestimento de túnel e peças sujeitas a impacto.

— Serve para fechar uma infiltração?

— Serve para muita coisa. A pergunta certa é qual projeto definiu a mistura.

Sandro empurrou o caderno de Enéas na direção dela.

— A irmã autorizou que eu trouxesse. A polícia recolhe amanhã cedo.

Janara calçou luvas descartáveis. Abriu o caderno pela última página e leu as duas frases a lápis. Voltou quatro folhas. As medições começavam no dreno cinco. Enéas anotara distâncias com precisão de milímetros e repetira três pontos em dias diferentes.

— Ele encontrou a mesma divergência três vezes — explicou. — Sete metros entre a posição do muro e a face externa prevista.

— Sete metros vazios?

— Sete metros ausentes da planta atual. Pode haver solo, uma sala técnica ou um trecho de acesso. Ele escreveu “vazio lateral” porque algum equipamento detectou mudança de densidade.

— A parede fica antes do PV-37.

Janara retirou as luvas e levantou. Um armário de aço ocupava a parede atrás da mesa. Ela abriu a fechadura e puxou uma caixa cinza. O selo de papel colado à tampa tinha sua assinatura e a data de dois anos antes.

Sandro leu a etiqueta.

— Estação Baturité.

— Minha cópia de defesa.

Dentro havia relatórios, fotografias impressas e um disco rígido embalado. Janara separou uma planta dobrada. O papel cobriu quase toda a mesa quando aberto.

— Esta revisão foi emitida seis meses antes do meu afastamento.

Ela apontou o dreno cinco, o corredor leste e o poço PV-37. Entre o dreno e o poço havia um compartimento estreito identificado como câmara de alívio.

— Aqui estão os sete metros.

— Para que servia?

— Equalização de ar durante a escavação. Também dava acesso ao dreno profundo. O projeto previa eliminar a câmara depois da conclusão do revestimento, com inspeção e preenchimento controlado.

— Ela foi eliminada?

— Recebi uma ordem informando que sim. Pedi o ensaio de preenchimento. Nunca chegou.

Janara encontrou uma fotografia datada. Mostrava o mesmo corredor ainda aberto. Um operário segurava uma mira topográfica perto da entrada da câmara. Na borda direita, aparecia parte de um homem com colete laranja.

Sandro aproximou o rosto.

— Dá para identificar?

— O crachá ficou fora do quadro.

— Quem chefiava o turno?

— Aristeu Varga.

Janara voltou à cadeira. O nome trouxe a lembrança de uma madrugada no canteiro, dois anos antes. A central a chamara depois que sensores registraram deslocamento perto do poço de ventilação. Quando chegou, encontrou uma fissura atravessando a junta entre dois painéis. A abertura tinha largura suficiente para receber a ponta de uma régua.

Ela ordenara a retirada da equipe e pedira escaneamento do trecho. O exame mostrou uma faixa sem preenchimento atrás do revestimento. A direção queria injetar argamassa e retomar o serviço antes da visita do financiador. Janara exigiu acesso ao vazio para descobrir sua extensão.

Na noite seguinte, uma parte do piso cedeu sob uma plataforma. Um montador caiu de três metros e fraturou a bacia. O relatório atribuiu a falha à água acumulada depois de uma semana de chuva.

Janara recebeu a versão final durante a internação do trabalhador. Seu parecer técnico aparecia reduzido a duas frases, seguido por uma conclusão que liberava a retomada.

Ela recusou a assinatura.

Quarenta e oito horas depois, perdeu o acesso ao canteiro. O comunicado externo chamou o episódio de divergência superada. O acordo trabalhista garantia o pagamento de seis meses e exigia que documentos internos permanecessem sob sigilo. Janara assinou após ouvir dois advogados explicarem o custo de enfrentar o consórcio.

Guardou uma cópia de cada arquivo entregue à comissão de segurança.

— O acidente citado nas notícias aconteceu neste corredor? — perguntou Sandro.

— Perto do poço. A faixa vazia seguia para o eixo leste.

— A mesma câmara?

— Eu suspeitava disso. Faltava acesso.

— Enéas encontrou.

Janara olhou outra vez para o caderno. O topógrafo desenhara um retângulo além do muro e marcara dois pontos circulares no interior. Ao lado, escrevera `ar`.

— Ele fez leitura com georradar ou ultrassom — disse. — Estes pontos podem indicar tubos.

— A foto mostra o duto cortado.

— Um espaço lacrado precisa de ventilação durante a execução. Se alguém removeu o trecho depois, fechou a única entrada de ar visível.

Sandro passou a mão pelo cabelo.

— O trabalhador ouviu batidas às duas e cinquenta.

— Qual trabalhador?

— O remetente anônimo. A ocorrência chama a pessoa de Freire.

Janara procurou na memória.

— Nivaldo Freire. Manutenção de bombas. Ele estava na obra quando fui afastada.

— Confia nele?

— Confio em uma medição dele. Sobre o resto, preciso ouvi-lo.

Sandro mostrou a captura do registro. Janara leu o horário e pediu o arquivo original. Ele abriu os metadados.

— A ocorrência foi criada às duas e cinquenta e um. A primeira foto veio um minuto depois.

— Quem assinou o formulário?

— O campo sumiu na captura.

— A plataforma registra usuário e terminal. A polícia consegue requisitar.

— Enviei tudo para Salomé Ramires. O caso aguardava distribuição.

— A delegada da divisão de pessoas desaparecidas?

— Ela trabalhou em crimes patrimoniais. Agora coordena uma equipe distrital.

Janara dobrou a planta pelas marcas antigas. Parou antes de fechar a caixa.

— A polícia recebeu a mochila de Enéas?

— Amanhã cedo.

— Precisa receber hoje.

Sandro pegou o telefone e ligou para a irmã. Explicou que a engenheira identificara uma divergência técnica e pediu autorização para encaminhar o caderno imediatamente. Escutou por alguns segundos.

— Ela quer falar com você.

Janara aceitou o aparelho.

— Senhora Lessa, meu nome é Janara Alvim. Examinei apenas as páginas visíveis e usei luvas. Seu irmão registrou uma cavidade ligada a uma área que conheço.

A resposta veio alta o bastante para Sandro ouvir o tom, sem distinguir as palavras.

— Sim. Esse registro pode ajudar a localizar o setor exato. A senhora consegue levar a mochila à delegacia central agora?

Outra resposta.

— Eu encontro a senhora lá.

Janara devolveu o telefone.

— Ela sai da clínica em dez minutos.

— Você vai à delegacia?

— Vou entregar minha planta e pedir abertura imediata.

Sandro fechou o computador.

— O acordo de sigilo?

— Protege informação comercial. Uma pessoa desaparecida transforma a situação jurídica.

— O consórcio vai dizer que sua cópia está desatualizada.

— Está. Por isso importa. A alteração precisa de memorial, assinatura e registro de execução. Se a câmara desapareceu no papel, alguém aprovou o desaparecimento.

Janara levou a caixa até uma copiadora no fundo da sala. Digitalizou a planta em quatro partes, conferiu a escala e salvou os arquivos em dois dispositivos. Sandro observava o procedimento.

— Você sempre guarda duas cópias?

— Desde Baturité.

— O trabalhador que caiu voltou à obra?

Janara encaixou o último trecho na copiadora.

— Ficou sete meses sem andar. Depois abriu uma oficina com o irmão. Recebi uma fotografia no primeiro dia.

— Ele culpou você?

— Nunca conversamos sobre culpa. Ele perguntou se eu tinha visto o vazio antes da queda.

— E você?

— Vi a leitura. A direção adiou a abertura.

— Foi por isso que guardou os documentos?

Janara retirou a folha.

— Guardei porque o relatório dizia que a água causara tudo. A água entrou depois que o piso cedeu.

Ela fechou a caixa e colocou o caderno de Enéas novamente na pasta. O telefone de Sandro vibrou sobre a mesa. Salomé Ramires retornava.

Ele atendeu no viva-voz.

— Belmonte, recebi suas mensagens — disse a delegada. — De onde saíram as fotos do túnel?

— Um funcionário enviou anonimamente. O registro cita Freire. Estou com Janara Alvim.

— A engenheira da fissura?

Janara se aproximou.

— Eu mesma.

— A senhora confirma risco imediato?

— Confirmo uma cavidade omitida e uma concretagem recente. O duto foi cortado. Caso exista alguém no interior, cada hora reduz o ar disponível.

— Consigo isolar a mochila e o caderno hoje. Para entrar na obra, preciso sustentar local e urgência.

— Tenho a planta anterior, medições do topógrafo e o lote de concreto.

— Traga tudo. Vou chamar um perito estrutural.

— Um perito geral levará tempo para entender as revisões — disse Janara. — Posso indicar os pontos de leitura.

— A senhora entra como assistente técnica depois de formalizar a origem dos documentos.

— Certo.

Salomé pediu que chegassem pela entrada lateral e encerrou a ligação.

Janara pegou o casaco. Antes de apagar o computador, ampliou uma vez mais a fotografia do muro. Havia quatro pontos de amarração da forma. Perto do ponto superior direito, alguém desenhara um X a lápis.

Ela comparou com o projeto estrutural.

O X ficava fora das vigas e dos cabos principais. Quem o marcou conhecia abertura controlada. Nivaldo deixara uma indicação para a equipe que viesse depois.

Janara salvou a imagem.

— O muro segura o quê? — perguntou Sandro.

— O próprio peso. Construíram um fechamento onde o projeto previa acesso técnico.

— Dá para abrir?

— Dá. Primeiro medimos gases, localizamos tubos e escoramos a borda. Depois perfuramos perto da barra superior.

— Quanto tempo?

— Com equipe pronta, menos de uma hora.

— E sem equipe?

Janara colocou a planta debaixo do braço.

— Alguém já gastou dois dias para fechar. Vamos descobrir quem ganhou esse tempo.

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