Capítulo 15 - Concretagem autorizada Enterrado nas Profundezas · Capítulo 15 de 18
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Capítulo 15 - Concretagem autorizada

O caminhão entrou na avenida de serviço às cinco e cinquenta e quatro.

A viatura fechou o retorno junto ao viaduto. O motorista desceu com a nota fiscal impressa, irritado e assustado. A carga estava correta. O lacre estava intacto. O destino, V-17. A ordem, válida no sistema da obra.

Salomé recebeu a imagem do documento pelo telefone.

— Segurem o caminhão. Sem descarregar, sem lavar betoneira.

— A mistura perde ponto — avisou o motorista, ao fundo.

Janara pediu a composição. Concreto de pega acelerada, aditivo alto, fibra de aço. Depois de iniciado o lançamento, a margem de manobra cairia minuto a minuto.

— Quem pediu sabe que a carga vira argumento — disse. — Quanto mais espera, mais a empresa pressiona para usar.

O motorista abriu os braços para a câmera da viatura.

— Minha ordem é entregar. Se vencer no balão, cobram de mim.

Salomé pediu que gravassem a fala. A pressão econômica fazia parte do mecanismo. Otacílio contava com isso: ninguém queria assinar perda de carga cara, parar avenida, atrasar turno e chamar diretoria no domingo de madrugada. A máquina empurrava o concreto para o buraco mesmo quando todo mundo via o risco.

Janara perguntou ao motorista quem liberara a saída. Ele mostrou uma mensagem automática recebida às cinco e trinta e um. O sistema dizia `prioridade de segurança`. A palavra segurança virara senha para acelerar tudo.

O segundo fornecedor ainda constava como reserva. Tâmara ligou para o fiscal tributário de plantão e solicitou bloqueio de nota vinculada ao mesmo código. A autorização digital permitia duplicar envio por contingência. Se um caminhão ficasse retido, outro poderia sair por rota diferente.

— Otacílio construiu redundância — disse.

— Aristeu precisa de uma carga só — respondeu Janara. — Se ele tiver mangueira no poço, qualquer betoneira serve.

A equipe que entrou por V-17 encontrou o almoxarifado vazio. A luz estava acesa. Sobre o balcão havia uma prancheta com o formulário de recebimento já carimbado. A assinatura do responsável local tinha sido copiada de um documento antigo.

O computador ainda estava ligado. Cibele acessou a tela sem alterar arquivos. O último usuário autenticado pertencia a Otacílio, por acesso remoto. Às cinco e doze, ele alterara a justificativa e anexara um laudo de risco.

Tâmara abriu o laudo no próprio laptop.

O documento levava a assinatura digital de um gestor técnico morto havia nove meses.

— A chave dele continuou ativa — disse.

Salomé pediu verificação imediata. O setor de tecnologia confirmou: o certificado fora renovado automaticamente dentro do cadastro corporativo, sem prova de vida funcional. Alguém manteve o perfil aberto para emergências contratuais.

Tâmara buscou renovações anteriores. O mesmo certificado aprovara três serviços pequenos depois da morte do gestor: compra de material, extensão de seguro e ajuste de cronograma. Valores baixos, suficientes para manter o perfil vivo sem chamar atenção. A ordem de V-17 era o primeiro uso de alto risco.

— Prepararam a chave durante meses — disse.

— Ou descobriram que ela ainda abria porta — respondeu Salomé. — O efeito penal vem igual.

— Emergência contratual agora significa crime em curso — disse Salomé.

O mandado de bloqueio operacional saiu às seis e três. Mesmo assim, a ordem interna seguia ativa nos tablets de campo. A equipe de V-17 recebeu alerta vermelho: `fechamento obrigatório por risco de gases`.

Nivaldo viu dois trabalhadores se aproximarem da mangueira principal.

— Larguem isso — gritou.

Um deles mostrou a tela.

— Ordem da diretoria. Risco de contaminação.

O rapaz que segurava o tablet tremia. Tinha colete novo e botas limpas demais para aquele setor. Nivaldo reconheceu o tipo: contratado recente, treinado a obedecer alerta vermelho antes de entender a planta. Se ele abrisse o engate, passaria o resto da vida dizendo que cumpriu procedimento.

Nivaldo se colocou entre o trabalhador e a mangueira.

— Procedimento também manda parar quando tem gente do outro lado.

— O sistema diz área vazia.

— O sistema mentiu desde terça.

Janara tomou o rádio.

— Aqui é Janara Alvim, engenheira estrutural designada pela polícia. Qualquer lançamento sem minha autorização coloca trabalhador vivo em risco. Afastem-se da linha.

O nome dela ainda pesava na obra. Alguns lembravam a engenheira que perdera o crachá por contestar uma concretagem. Dessa vez, a ordem dela veio junto de viatura, resgate e promotor.

Os trabalhadores recuaram.

No subsolo, Cibele seguia o cabo do alarme antigo. O fio descia por uma canaleta enferrujada e entrava numa parede de blocos. Atrás dela, a câmera térmica registrou calor fraco.

— Fonte humana ou bateria quente — disse.

Janara pediu leitura de gases. Oxigênio baixo, dióxido de carbono subindo. A parede podia ser aberta em três pontos, porém dois encostavam em conduítes. O terceiro exigia escoramento curto.

— Abrimos aqui — disse, marcando com giz.

O rádio falhou por dois segundos. Depois, uma voz masculina entrou na frequência da obra.

— A engenheira já errou uma vez.

Cibele travou o canal e procurou a origem. A voz usava transmissor próximo, sem montagem. Aristeu estava dentro do alcance de V-17.

Janara reconheceu o ataque. Dois anos antes, a empresa repetira a mesma frase em reunião: ela exagerara o risco, atrasara cronograma, criara pânico.

— A queda daquele piso veio depois que ignoraram meu alerta — respondeu, olhando para os bombeiros. — Continuem o escoramento.

Aristeu riu pelo rádio.

— Todo mundo escora depois.

Salomé pediu triangulação. Cibele já seguia a potência. O sinal vinha da derivação de ventilação, entre a casa de registros e o poço principal.

— Ele está perto da rota de Enéas — disse.

Outra voz entrou no canal, baixa e tensa.

— Varga, pare a transmissão.

Otacílio.

Aristeu respondeu sem pressa.

— Você mandou fechar.

— Eu mandei encerrar.

— Palavra bonita para concreto.

— A polícia achou Mercado Novo.

— Então vão achar todos.

A conversa durou poucos segundos. Cibele gravou a frequência e marcou direção. Salomé ordenou aproximação em duas frentes. Uma equipe seguiria pelo poço. Outra manteria a abertura junto ao calor detectado.

Janara pediu prioridade para a parede.

— Se for Enéas, cada minuto conta.

O corte começou às seis e dezoito. A serra alcançou bloco oco, depois argamassa fresca. Alguém reforçara o interior naquela madrugada. A massa ainda cedia sob pressão. Nivaldo trocou a lâmina por ponteiro manual para reduzir vibração.

— Tem tubo atrás — avisou.

Janara mediu a posição. O tubo levava ar do registro central para a câmara. Se quebrasse, a ventilação acabaria.

— Pelo lado esquerdo.

O bombeiro abriu uma janela do tamanho de uma mão. Ar quente saiu do vão. Cibele aproximou a câmera.

Na imagem granulada, um rosto virou devagar.

Enéas estava sentado com as costas contra a parede, uma faixa improvisada no braço e os óculos presos por fita. Tinha sangue seco na testa. Ao ver a luz, levantou dois dedos.

— Há outra pessoa? — perguntou Salomé.

Ele balançou a cabeça.

— Aristeu?

Enéas apontou para baixo, depois desenhou no ar um círculo com a mão.

— Poço — traduziu Nivaldo.

A equipe ampliou a abertura. Enéas saiu consciente, desidratado e com dor na perna. Antes de receber sedação, agarrou a manga de Janara.

— Ele quer o lugar do pai aberto.

— Onde?

Enéas tentou falar. O paramédico pediu pausa. Salomé autorizou uma pergunta objetiva.

— V-17?

Ele fez sinal negativo com a cabeça e escreveu no bloco:

`linha de pega rápida`

Janara sentiu o encaixe técnico. A concretagem autorizada em V-17 podia servir de distração. A linha de pega rápida era outra tubulação, usada para lançar concreto sob pressão em formas distantes. Se Aristeu controlasse o desvio manual, poderia mandar a carga para a parede de Aquilino ou para qualquer compartimento ligado à rota antiga.

Tâmara confirmou no sistema. A ordem de V-17 incluía uma instrução secundária, escondida como teste de bomba:

`pressurizar linha PR-3 por 11 minutos`

PR-3 cruzava a área do acidente de Aquilino e Piauí.

— Ele precisa da bomba funcionando — disse Janara. — V-17 é a desculpa. PR-3 é o alvo.

Salomé mandou bloquear energia das bombas. A central respondeu que o quadro principal aceitava comando remoto e manual. O remoto já estava sob tentativa de acesso externo.

Na tela de Cibele, dois usuários disputavam o sistema. Um era `obrenner`. O outro usava perfil técnico sem nome, conectado de dentro da obra.

Otacílio tentava desligar para apagar rastros ou impedir Aristeu. Aristeu tentava manter a linha pressurizada.

O primeiro caminhão continuava retido na avenida. O segundo, apesar do bloqueio, havia saído por fornecedor reserva às seis e vinte e um.

Faltavam nove minutos para chegar ao poço de carga.

Janara abriu a planta no chão e marcou PR-3 com giz. Nivaldo reconheceu o traçado.

— Registro manual fica na galeria velha. Duas voltas fecham o desvio.

— Quem alcança? — perguntou Salomé.

— Eu conheço a escada.

Janara olhou para a leitura de pressão, depois para o relógio.

— Eu vou com ele. Se fecharmos errado, rompe na curva e enterra a equipe de resgate.

Cibele guardou o analisador na mochila.

— Eu corto o comando falso daqui.

Salomé distribuiu as equipes. Enéas foi levado para a ambulância. Gilvan seguia vivo no hospital. A primeira parede de Mercado Novo estava aberta. Otacílio e Aristeu, enfim, figuravam no mesmo mapa, puxando o sistema em direções contrárias.

O concreto deixara de ser prova antiga.

Agora estava a caminho.

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