Capítulo 17 - O poço de pega rápida
O poço de pega rápida ficava sob a laje de serviço do eixo norte.
Ali, a obra misturava décadas. Havia escoras de madeira antigas, anéis metálicos recentes, mangueiras novas e paredes remendadas com argamassa de cores diferentes. A luz de emergência falhava em intervalos curtos. Cada falha deixava o poço entregue ao brilho das lanternas.
Aristeu estava na plataforma inferior, ao lado da válvula de descarte.
Usava colete laranja, capacete sem adesivo e luvas sujas de graxa. À frente dele, uma mangueira menor cuspia concreto em pulsos lentos para dentro de uma canaleta. O volume ainda era baixo. O bastante para manter pressão, insuficiente para preencher a parede.
Dois policiais chegaram pela escada superior e pararam ao ver a mão dele sobre o volante.
— Afaste-se — ordenou Salomé pelo alto-falante do rádio.
Aristeu levantou o rosto.
— Vocês chegaram cedo demais.
Janara ouvia tudo do terceiro nicho. O gráfico de pressão subia em dentes curtos. Nivaldo mantinha as mãos no registro, esperando ordem.
— A válvula de descarte está com ele — informou um policial.
— Se ele abrir total, desvia para onde? — perguntou Salomé.
Janara respondeu:
— Para a parede antiga.
— Se fechar?
— A curva estoura.
Aristeu conhecia esse impasse. Havia montado o clímax sobre ele: manter a linha viva para forçar escolha entre prova, equipe e parede de Aquilino. Otacílio quisera encerrar tudo com uma concretagem administrativa. Aristeu queria a parede aberta, mesmo que a cidade perdesse mais gente no processo.
— Meu pai ficou de pé três horas — disse Aristeu. — Três horas respondendo.
Salomé desceu dois degraus.
— Aquilino Brandão será retirado com perícia.
— Vocês falam isso porque acharam um gerente.
— Achamos Mercado Novo, V-17, a sala e Enéas vivo.
— Vivo porque eu deixei ar.
— Vivo porque Nivaldo ouviu. Porque Rejane guardou chave. Porque Gilvan escreveu. Porque sua lista falhou.
Aristeu apertou a válvula. A pressão saltou no gráfico.
— Janara? — chamou Nivaldo.
— Segura. Ainda segura.
Cibele entrou no canal fechado.
— Tenho acesso à bomba auxiliar. Posso derrubar giro por oscilação de energia, sem desligar seco.
— Faça em rampa — disse Janara.
— Trinta segundos.
A luz do poço piscou. O motor reduziu um pouco. Aristeu percebeu e girou o volante para compensar. A mangueira cuspiu concreto mais grosso pela canaleta.
— Estão tentando matar a linha — disse ele.
— A linha já matou demais — respondeu Salomé.
Ele riu, sem alegria.
— Linha mata quando alguém manda.
Nivaldo sentiu o tubo aliviar sob a mão.
— Caiu um pouco.
— Mais meia volta — disse Janara.
Ele girou. A válvula principal resistiu, cedeu, resistiu outra vez. O gráfico entrou em amarelo baixo.
No poço, Aristeu abriu o descarte com força. O concreto mudou de canaleta e começou a seguir por uma calha antiga. Janara viu o destino na planta: o fluxo corria para o setor original do acidente, a parede onde Aquilino e Piauí haviam sido apagados.
— Ele está alimentando a parede do pai — disse.
Salomé avançou com a equipe. Aristeu puxou uma chave longa do chão.
— Ninguém toca naquela parede antes de mim.
Um policial tentou contornar pela lateral. Aristeu bateu a chave contra a grade, fazendo faísca. O gesto era ameaça e sinal. Da tubulação respondeu um eco metálico produzido pelo próprio impacto.
Nivaldo ouviu.
— Truque de novo.
Janara tomou a decisão. Se fechasse PR-3 por completo, a curva poderia romper. Se deixasse aberta, a calha levaria concreto para a parede de Aquilino. Havia a forma vazia do quarto nicho, já recebendo alívio. Precisava ampliar aquele descarte sem comando remoto.
— Nivaldo, volta para a válvula azul. Abre até o fim quando eu mandar.
— Vai jogar pressão na forma velha.
— A forma aguenta mais que a curva.
— E se soltar?
— Corre para longe depois de abrir.
Ele correu.
Cibele continuava reduzindo a bomba em rampa. O sistema acusava falha, recuperação, falha. Cada queda tirava força de Aristeu. Cada recuperação mantinha a linha viva o suficiente para evitar golpe seco.
Salomé chamou pelo rádio:
— Aristeu Varga, solte a ferramenta.
— Varga foi nome que sobrou — respondeu ele. — Brandão ficou no concreto.
— Seu pai tinha nome antes de você escolher os outros.
Ele hesitou.
Janara escutou essa hesitação pelo gráfico. A pressão parou de subir.
— Agora, Nivaldo.
A válvula azul abriu com estrondo. A linha de alívio recebeu a carga. A forma velha gemeu. Poeira caiu das juntas. O concreto desviou da calha de Aristeu e perdeu força antes da parede histórica.
— Fecha PR-3 em meia volta — disse Janara.
Nivaldo voltou ao terceiro nicho quase caindo. Girou o registro principal. A pressão desceu para verde alto.
No poço, a mangueira de Aristeu bateu no chão, fraca. Dois policiais avançaram. Ele tentou segurar a grade, escorregou na lama de cimento e caiu de joelhos. Salomé tomou a chave longa com a ajuda de um bombeiro.
— Prisão em flagrante por tentativa de homicídio, sequestro e destruição de prova — disse.
Aristeu ficou olhando para a calha, onde o concreto parava antes de alcançar a parede.
— Vocês deixaram ele lá outra vez.
Janara entrou no poço com Nivaldo minutos depois, quando a pressão estabilizou. Estava suja de poeira até o rosto. Parou diante de Aristeu algemado.
— Seu pai será retirado inteiro, com nome e laudo. Piauí também.
— Laudo.
Ele cuspiu a palavra.
— Foi um laudo que matou os dois.
— Foi gente — disse Salomé.
Aristeu levantou os olhos para ela.
— Gente assina laudo.
— E gente responde por ele.
A cena dispensava ornamento. Havia motor reduzindo, concreto escorrendo para forma vazia, rádio registrando hora, câmeras corporais acesas e trabalhadores parados na borda do poço.
Janara pediu abertura da parede histórica apenas depois de escoramento completo. Ninguém cortaria por impulso. Ninguém quebraria concreto para satisfazer Aristeu. Aquilino e Piauí sairiam sob luz, método e testemunhas.
Cibele confirmou bomba zerada. Salomé mandou lacrar o quadro. Tâmara enviou ao promotor a sequência dos certificados, cargas e centros de custo. Otacílio, na viatura, recusava falar sem advogado. A recusa também foi registrada.
A equipe técnica abriu a parede antiga às nove e dez.
O primeiro corte revelou uma cavidade esmagada por preenchimento parcial. Havia escoras antigas empilhadas do lado de fora, nunca usadas no resgate. Dentro, a perícia encontrou capacete de operário e plaqueta de equipe. Dois cintos estavam perto da parede. Marcas de ferramenta riscavam a face interna.
Nivaldo reconheceu três riscos paralelos no cano que atravessava a câmara.
— Bateram daqui.
Janara segurou a lanterna. A parede interna tinha arranhões em alturas diferentes. Um conjunto baixo, perto do piso. Outro mais alto, junto ao tubo.
Aquilino e Piauí haviam tentado abrir caminho de dentro.
Salomé pediu pausa para fotografar. Aristeu, mantido na plataforma superior, tentou virar o corpo para ver. O policial o segurou.
— Ele vai sair sem você tocar — disse.
Outra frase pronta tentou nascer. Janara barrou de novo. O texto precisava de precisão, nunca de solenidade fácil.
Os restos foram retirados em sacos separados, com identificação provisória. A plaqueta de Aquilino estava partida. A de Piauí conservava o apelido gravado por punção.
Piauí, enfim, tinha algo que o relatório jamais dera: prova física de que esteve ali.
A perícia encontrou também uma colher de pedreiro quebrada, presa entre duas pedras. O cabo trazia iniciais riscadas por lâmina. `A.B.`. Perto dela, um pedaço de madeira tinha marcas de impacto na ponta, sinal de tentativa de alavanca. Aquilino ou Piauí tentara transformar ferramenta comum em saída.
Salomé pediu que Aristeu fosse levado antes da remoção completa. A defesa poderia acusar contaminação emocional da cena. O promotor concordou. Aristeu resistiu ao primeiro passo, depois caminhou olhando para o piso.
— Ele vai saber que eu voltei? — perguntou, sem levantar a voz.
Nivaldo respondeu antes de Salomé.
— Vai saber que demoraram dezessete anos.
Aristeu fechou a boca. A frase acertou onde confissão nenhuma acertaria: entre a dor legítima e o crime que ele construiu em cima dela.
Quando a maca forense passou, Nivaldo tirou o capacete. Outros trabalhadores fizeram o mesmo. Salomé manteve a área gravada, sem transformar respeito em espetáculo.
Aristeu acompanhou tudo sem falar.
Na saída, ele olhou para Nivaldo.
— Você ouviu.
— Ouvi Rejane. Ouvi Gilvan. Ouvi Enéas. Também estou ouvindo os mortos agora.
— Então sabe.
— Sei que batida pede resgate. Você usou para escolher vítima.
Aristeu baixou a cabeça.
O caso humano terminava ali, em termos de captura. Em termos de cidade, começava uma obra maior: retirar concreto de cima de nomes.