ATO I — CENA I. Elsinore. Uma plataforma diante do castelo. Hamlet, Príncipe da Dinamarca · Capítulo 2 de 21
Obra Menu

ATO I — CENA I. Elsinore. Uma plataforma diante do castelo.

ATO I — CENA I. Elsinore. Uma plataforma diante do castelo.

Entram FRANCISCO e BARNARDO, duas sentinelas.

BARNARDO.

Quem está aí?

FRANCISCO.

Não; responde-me tu. Para e declara-te.

BARNARDO.

Viva o rei!

FRANCISCO.

Barnardo?

BARNARDO.

Ele mesmo.

FRANCISCO.

Chegas pontualíssimo à tua hora.

BARNARDO.

Acabou de soar meia-noite. Vai deitar-te, Francisco.

FRANCISCO.

Por este alívio, muitas graças. Faz um frio amargo,

e eu estou enfermo no coração.

BARNARDO.

Tiveste guarda tranquila?

FRANCISCO.

Nem um rato se mexeu.

BARNARDO.

Pois boa noite.

Se encontrares Horácio e Marcelo,

companheiros de minha vigia, manda-os apressarem-se.

Entram HORÁCIO e MARCELO.

FRANCISCO.

Creio ouvi-los. Alto lá! Quem vem?

HORÁCIO.

Amigos deste chão.

MARCELO.

E súditos do Dinamarquês.

FRANCISCO.

Dou-vos boa noite.

MARCELO.

Ah, adeus, honrado soldado. Quem te rendeu?

FRANCISCO.

Barnardo tomou meu posto. Dou-vos boa noite.

Sai.

MARCELO.

Olá, Barnardo!

BARNARDO.

Dize: quê? Horácio está aí?

HORÁCIO.

Um pedaço dele.

BARNARDO.

Bem-vindo, Horácio. Bem-vindo, bom Marcelo.

MARCELO.

Então, esta coisa apareceu outra vez esta noite?

BARNARDO.

Nada vi.

MARCELO.

Horácio diz que é apenas fantasia nossa,

e não permite que a crença se apodere dele

acerca dessa visão temida, por nós duas vezes vista.

Por isso roguei que viesse conosco

vigiar os minutos desta noite,

para que, se de novo vier tal aparição,

ele aprove nossos olhos e lhe fale.

HORÁCIO.

Ora, ora, ela não há de aparecer.

BARNARDO.

Senta-te um pouco,

e deixa-nos assaltar mais uma vez teus ouvidos,

tão fortificados contra a nossa história,

com aquilo que vimos por duas noites.

HORÁCIO.

Pois bem, sentemo-nos,

e ouçamos Barnardo falar disso.

BARNARDO.

Na noite passada,

quando aquela mesma estrela, a oeste do polo,

havia feito seu curso para iluminar a parte do céu

onde agora arde, Marcelo e eu,

batendo então o sino uma hora...

MARCELO.

Silêncio, interrompe-te. Olha onde ele vem outra vez.

Entra o FANTASMA.

BARNARDO.

Na mesma figura, igual ao rei que morreu.

MARCELO.

Tu és letrado; fala-lhe, Horácio.

BARNARDO.

Não parece o rei? Repara nele, Horácio.

HORÁCIO.

Muitíssimo. Dilacera-me de medo e espanto.

BARNARDO.

Ele quer que lhe falem.

MARCELO.

Interroga-o, Horácio.

HORÁCIO.

Que és tu, que usurpas esta hora da noite,

junto dessa forma bela e guerreira

em que a majestade da Dinamarca sepultada

outrora marchava? Pelo céu, ordeno-te: fala.

MARCELO.

Ele se ofendeu.

BARNARDO.

Vede, afasta-se a passos graves.

HORÁCIO.

Fica! Fala, fala! Ordeno-te: fala!

Sai o FANTASMA.

MARCELO.

Foi-se, e não quer responder.

BARNARDO.

Que há, Horácio? Tremes e estás pálido.

Não é isto algo mais que fantasia?

Que pensas disso?

HORÁCIO.

Diante de meu Deus, eu não poderia crer nisto

sem o sensível e verdadeiro testemunho

de meus próprios olhos.

MARCELO.

Não se parece com o rei?

HORÁCIO.

Tanto quanto tu contigo mesmo.

Tal era a própria armadura que trazia

quando combateu a ambiciosa Noruega;

assim franziu o cenho uma vez quando, em colérica parlenda,

feriu os polacos trenados sobre o gelo.

É estranho.

MARCELO.

Assim, duas vezes antes, e justo nesta hora morta,

com passo marcial, passou diante de nossa guarda.

HORÁCIO.

Em que pensamento particular deva isto obrar, não sei;

mas, no grosso e alcance de minha opinião,

isto pressagia alguma estranha erupção em nosso Estado.

MARCELO.

Bom, senta-te agora e dize-me, tu que sabes,

por que esta mesma guarda severa e tão observante

fadiga, noite após noite, os súditos da terra;

e por que essa diária fundição de canhões de bronze,

e a compra estrangeira de instrumentos de guerra;

por que tal recrutamento de carpinteiros navais,

cuja dura tarefa não separa o domingo da semana.

Que pode estar para vir, para que esta pressa suada

faça da noite companheira de labor do dia?

Quem é que pode informar-me?

HORÁCIO.

Isso posso eu;

ao menos, assim corre o sussurro. Nosso último rei,

cuja imagem ainda agora nos apareceu,

foi, como sabeis, por Fortimbrás da Noruega,

a isso instigado por orgulho emulador em extremo,

desafiado ao combate; no qual nosso valente Hamlet,

pois assim o estimava este lado de nosso mundo conhecido,

matou esse Fortimbrás; o qual, por pacto selado,

bem ratificado por lei e heráldica,

perdeu, com a vida, todas aquelas terras

de que estava investido, em favor do vencedor;

contra as quais, uma porção competente

fora empenhada por nosso rei, e teria retornado

à herança de Fortimbrás

se ele tivesse sido vencedor; assim como, pelo mesmo acordo

e teor do artigo ajustado,

a sua coube a Hamlet. Agora, senhor, o jovem Fortimbrás,

de têmpera ainda não provada, quente e plena,

arrebanhou nas franjas da Noruega, aqui e ali,

um bando de resolutos sem lei,

por comida e sustento, para alguma empresa

que tem estômago de guerra; e que não é outra,

como bem parece ao nosso Estado,

senão recobrar de nós, por mão forte

e termos compulsórios, aquelas terras já ditas,

assim perdidas por seu pai. E isto, penso eu,

é o motivo principal de nossos preparativos,

a fonte desta nossa guarda e a causa suprema

desta pressa urgente e revista em nossa terra.

BARNARDO.

Creio que não seja outra coisa senão isso mesmo.

Bem se ajusta que esta figura portentosa

venha armada por nossa vigia, tão semelhante ao rei

que foi e é a causa destas guerras.

HORÁCIO.

É um argueiro a perturbar o olho da mente.

No mais alto e florescente estado de Roma,

pouco antes que caísse o poderosíssimo Júlio,

os túmulos ficaram sem moradores, e os mortos amortalhados

guincharam e balbuciaram pelas ruas romanas;

como estrelas com rastros de fogo e orvalhos de sangue,

desastres no sol; e a estrela úmida,

sob cuja influência se ergue o império de Netuno,

adoeceu de eclipse, quase até o dia do juízo.

E tais precursores de eventos ferozes,

como arautos que sempre antecedem os destinos

e prólogo do presságio que se aproxima,

céu e terra juntos demonstraram

a nossos climas e compatriotas.

Reentra o FANTASMA.

Mas, quietos, vede! Ei-lo ali, vem outra vez!

Cruzarei seu caminho, ainda que me fulmine. Fica, ilusão!

Se tens algum som, ou uso de voz,

fala comigo.

Se há alguma coisa boa a ser feita

que possa trazer-te alívio, e graça a mim,

fala comigo.

Se és sabedor do destino de teu país,

que, porventura, a presciência possa evitar,

oh, fala!

Ou se em vida acumulaste, escondido

no ventre da terra, tesouro extorquido,

pelo qual, dizem, vós, espíritos, tantas vezes vagais na morte,

fala dele. Fica e fala!

O galo canta.

Detém-no, Marcelo!

MARCELO.

Devo golpeá-lo com minha alabarda?

HORÁCIO.

Faze-o, se não parar.

BARNARDO.

Está aqui!

HORÁCIO.

Está aqui!

Sai o FANTASMA.

MARCELO.

Foi-se!

Fazemos-lhe mal, sendo ele tão majestoso,

ao oferecer-lhe aparência de violência;

pois é como o ar, invulnerável,

e nossos vãos golpes, zombaria maliciosa.

BARNARDO.

Estava prestes a falar, quando o galo cantou.

HORÁCIO.

E então se sobressaltou, como coisa culpada

ante uma temível convocação. Ouvi dizer

que o galo, que é a trombeta da manhã,

com sua garganta alta e de som agudo

desperta o deus do dia; e, a seu aviso,

seja no mar ou no fogo, na terra ou no ar,

o espírito errante e extraviado se apressa

a seu confim. E da verdade disso

este presente objeto deu prova.

MARCELO.

Desvaneceu-se ao cantar do galo.

Dizem alguns que sempre, ao chegar aquela estação

em que se celebra o nascimento de nosso Salvador,

a ave da aurora canta a noite inteira;

e então, dizem, nenhum espírito ousa vagar lá fora,

as noites são salubres, então nenhum planeta fere,

nenhuma fada arrebata, nem bruxa tem poder de encantar:

tão santo e tão cheio de graça é esse tempo.

HORÁCIO.

Assim ouvi dizer, e em parte o creio.

Mas vede: a manhã, vestida de manto ruivo,

caminha sobre o orvalho daquele alto monte ao oriente.

Demos por finda nossa guarda e, por meu conselho,

comuniquemos aquilo que vimos esta noite

ao jovem Hamlet; pois, por minha vida,

este espírito, mudo para nós, falará com ele.

Consentis que o ponhamos a par disso,

como é necessário a nosso afeto e convém a nosso dever?

MARCELO.

Façamo-lo, peço; e esta manhã sei

onde o encontraremos mais convenientemente.

Saem.

1/1
Menu

Fazer anotação