ATO V — CENA I. Um cemitério. Hamlet, Príncipe da Dinamarca · Capítulo 20 de 21
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ATO V — CENA I. Um cemitério.

ATO V — CENA I. Um cemitério.

Entram dois COVEIROS, com pás etc.

PRIMEIRO COVEIRO.

Ela há de ser sepultada em sepultura cristã, quando buscou de propósito a própria salvação?

SEGUNDO COVEIRO.

Digo-te que sim; portanto, abre logo a cova. O juiz examinou o caso dela e decidiu que é sepultura cristã.

PRIMEIRO COVEIRO.

Como pode ser isso, a menos que ela se tenha afogado em defesa própria?

SEGUNDO COVEIRO.

Ora, assim foi achado.

PRIMEIRO COVEIRO.

Há de ser se offendendo; não pode ser outra coisa. Pois aqui está o ponto: se eu me afogo sabendo o que faço, isso demonstra um ato; e um ato tem três ramos: agir, fazer e executar. Argal, ela se afogou sabendo o que fazia.

SEGUNDO COVEIRO.

Não, mas escuta, bom cavador...

PRIMEIRO COVEIRO.

Dá-me licença. Aqui está a água; bom. Aqui está o homem; bom. Se o homem vai até esta água e se afoga, queira ou não queira, ele vai — marca bem isto. Mas, se a água vem até ele e o afoga, ele não se afoga a si mesmo. Argal, aquele que não é culpado da própria morte não encurta a própria vida.

SEGUNDO COVEIRO.

Mas isto é lei?

PRIMEIRO COVEIRO.

Sim, por Maria, é; lei do inquérito do juiz.

SEGUNDO COVEIRO.

Queres a verdade disso? Se ela não fosse dama de família, teria sido enterrada fora da sepultura cristã.

PRIMEIRO COVEIRO.

Ora, aí disseste. E é ainda maior pena que gente grande tenha licença neste mundo para se afogar ou se enforcar mais que seu igual cristão. Vamos, minha pá. Não há fidalgos mais antigos que jardineiros, cavadores de valas e fazedores de covas: eles sustentam a profissão de Adão.

SEGUNDO COVEIRO.

Ele era fidalgo?

PRIMEIRO COVEIRO.

Foi o primeiro que jamais portou armas.

SEGUNDO COVEIRO.

Ora, ele não tinha nenhuma.

PRIMEIRO COVEIRO.

Quê, és pagão? Como entendes a Escritura? A Escritura diz que Adão cavou. Poderia ele cavar sem braços? Vou propor-te outra pergunta. Se não me responderes a propósito, confessa-te...

SEGUNDO COVEIRO.

Vamos lá.

PRIMEIRO COVEIRO.

Quem constrói mais forte que o pedreiro, o construtor de navios ou o carpinteiro?

SEGUNDO COVEIRO.

O fazedor de forcas; pois sua armação sobrevive a mil moradores.

PRIMEIRO COVEIRO.

Gosto bem de teu engenho, em boa-fé; a forca faz bem. Mas como faz bem? Faz bem aos que fazem mal. Agora, tu fazes mal em dizer que a forca é construída mais forte que a igreja; argal, a forca pode fazer bem a ti. Outra vez, vamos.

SEGUNDO COVEIRO.

Quem constrói mais forte que o pedreiro, o construtor de navios ou o carpinteiro?

PRIMEIRO COVEIRO.

Sim, responde-me isso e desatrela.

SEGUNDO COVEIRO.

Por Maria, agora sei dizer.

PRIMEIRO COVEIRO.

Dize.

SEGUNDO COVEIRO.

Pela missa, não sei dizer.

Entram HAMLET e HORÁCIO, à distância.

PRIMEIRO COVEIRO.

Não espanque mais os miolos por causa disso, pois teu asno lerdo não melhora o passo com pancadas; e, quando te fizerem esta pergunta da próxima vez, diz: “um fazedor de covas”. As casas que ele faz duram até o dia do juízo. Vai, vai até Yaughan; traz-me uma caneca de bebida.

Sai o SEGUNDO COVEIRO.

Cava e canta.

Na juventude, quando amei, amei,

pareceu-me mui doce então;

contratar, oh, o tempo para meu proveito,

oh, nada me parecia em vão.

HAMLET.

Este sujeito não tem sentimento de seu ofício, para cantar enquanto abre uma cova?

HORÁCIO.

O costume fez disso nele uma propriedade de leveza.

HAMLET.

É justamente assim; a mão de pouco emprego tem o sentido mais delicado.

PRIMEIRO COVEIRO.

Canta.

Mas a idade, com seus passos furtivos,

agarrou-me em sua garra,

e embarcou-me para a terra,

como se eu jamais tivesse sido tal.

Arremessa uma caveira.

HAMLET.

Aquela caveira tinha língua dentro, e pôde cantar um dia. Como o patife a bate contra o chão, como se fosse a queixada de Caim, que cometeu o primeiro assassinato! Isto poderia ser a cabeça de um político que este asno agora sobre-oficializa, alguém que quis enganar o próprio Deus; não poderia?

HORÁCIO.

Poderia, senhor meu.

HAMLET.

Ou de um cortesão, que sabia dizer: “Bom dia, doce senhor! Como passais, bom senhor?” Isto poderia ser meu senhor tal-de-tal, que louvava o cavalo de meu senhor tal-de-tal quando pretendia pedi-lo; não poderia?

HORÁCIO.

Sim, senhor meu.

HAMLET.

Ora, exatamente; e agora pertence à senhora Verme; sem maxilar, e golpeado na cachola pela pá de um sacristão. Eis aí fina revolução, se tivéssemos o jeito de vê-la. Custou tão pouco criar estes ossos para que agora se jogue boliche com eles? Os meus doem só de pensar.

PRIMEIRO COVEIRO.

Canta.

Uma picareta e uma pá, uma pá,

e também um lençol mortal;

oh, uma cova de barro a cavar

para tal hóspede é coisa ideal.

Arremessa outra caveira.

HAMLET.

Aí vai outra. Por que não poderia ser a caveira de um advogado? Onde estão agora suas sutilezas, seus sofismas, seus casos, suas posses e seus truques? Por que consente agora que este bruto patife lhe bata no casco com uma pá suja, e não lhe fala de sua ação por agressão? Hum. Este sujeito talvez tenha sido, em seu tempo, grande comprador de terras, com seus estatutos, reconhecimentos, multas, duplas garantias, recuperações. É esta a multa de suas multas, e a recuperação de suas recuperações: ter a bela cabeça cheia de bela terra? Suas garantias não lhe garantem mais de suas compras, e duplas ainda, do que o comprimento e a largura de um par de escrituras? Os próprios títulos de suas terras mal caberiam nesta caixa; e o herdeiro em pessoa há de ter nada mais que isto, hã?

HORÁCIO.

Nem um jota mais, senhor meu.

HAMLET.

Pergaminho não é feito de peles de carneiro?

HORÁCIO.

Sim, senhor meu, e de peles de bezerro também.

HAMLET.

São carneiros e bezerros os que procuram segurança nisso. Falarei com este sujeito. — De quem é esta cova, senhor?

PRIMEIRO COVEIRO.

Minha, senhor.

Canta.

Oh, uma cova de barro a cavar

para tal hóspede é coisa ideal.

HAMLET.

Creio que seja tua, de fato, pois tu mentes dentro dela.

PRIMEIRO COVEIRO.

Vós mentis fora dela, senhor; e portanto não é vossa. De minha parte, não minto dentro dela, e ainda assim é minha.

HAMLET.

Tu mentes dentro dela, por estares nela e dizeres que é tua. Ela é para os mortos, não para os vivos; portanto, tu mentes.

PRIMEIRO COVEIRO.

É mentira viva, senhor; voltará de mim para vós.

HAMLET.

Para que homem a cavas?

PRIMEIRO COVEIRO.

Para nenhum homem, senhor.

HAMLET.

Para que mulher, então?

PRIMEIRO COVEIRO.

Para nenhuma também.

HAMLET.

Quem há de ser sepultado nela?

PRIMEIRO COVEIRO.

Alguém que foi mulher, senhor; mas, descanse sua alma, está morta.

HAMLET.

Quão absoluto é o patife! Precisamos falar pela carta, ou a equivocação nos arruinará. Pelo Senhor, Horácio, há três anos venho notando isto: a época ficou tão requintada que o dedo do pé do camponês chega tão perto do calcanhar do cortesão que lhe fere a frieira. — Há quanto tempo és fazedor de covas?

PRIMEIRO COVEIRO.

De todos os dias do ano, entrei nisso no dia em que nosso último rei Hamlet venceu Fortimbrás.

HAMLET.

Há quanto tempo foi isso?

PRIMEIRO COVEIRO.

Não sabeis dizer? Qualquer tolo sabe dizer. Foi justamente o dia em que nasceu o jovem Hamlet, aquele que está louco e foi mandado para a Inglaterra.

HAMLET.

Sim, por Maria; por que foi mandado para a Inglaterra?

PRIMEIRO COVEIRO.

Ora, porque estava louco. Lá recobrará o juízo; ou, se não recobrar, lá não é grande coisa.

HAMLET.

Por quê?

PRIMEIRO COVEIRO.

Lá não se notará nele; lá os homens são tão loucos quanto ele.

HAMLET.

Como ele ficou louco?

PRIMEIRO COVEIRO.

Muito estranhamente, dizem.

HAMLET.

Estranhamente como?

PRIMEIRO COVEIRO.

Por fé, perdendo o juízo.

HAMLET.

Sobre que fundamento?

PRIMEIRO COVEIRO.

Ora, aqui na Dinamarca. Fui sacristão aqui, homem e menino, por trinta anos.

HAMLET.

Quanto tempo um homem fica na terra antes de apodrecer?

PRIMEIRO COVEIRO.

Por fé, se não estiver podre antes de morrer — como temos hoje muitos cadáveres bexiguentos que mal aguentam ser postos dentro —, durará uns oito ou nove anos. Um curtidor dura nove anos.

HAMLET.

Por que ele mais que outro?

PRIMEIRO COVEIRO.

Ora, senhor, seu couro está tão curtido pelo ofício que manterá a água fora por muito tempo. E vossa água é terrível destruidora do vosso maldito corpo morto. Eis aqui uma caveira agora; esta caveira ficou na terra vinte e três anos.

HAMLET.

De quem era?

PRIMEIRO COVEIRO.

Era de um maldito sujeito louco. De quem pensais que era?

HAMLET.

Não, não sei.

PRIMEIRO COVEIRO.

Peste nele, patife louco! Uma vez derramou-me na cabeça um frasco de vinho do Reno. Esta mesma caveira, senhor, era a caveira de Yorick, o bobo do rei.

HAMLET.

Esta?

PRIMEIRO COVEIRO.

Essa mesma.

HAMLET.

Deixa-me ver.

Toma a caveira.

Ai, pobre Yorick. Eu o conheci, Horácio: sujeito de infinita graça, de excelentíssima fantasia. Levou-me nas costas mil vezes; e agora, como isso é abominável em minha imaginação! Meu estômago se revolta. Aqui pendiam aqueles lábios que beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora tuas zombarias? Tuas piruetas? Tuas canções? Teus lampejos de alegria, que costumavam pôr a mesa em gargalhada? Nem uma só agora para zombar de teu próprio riso escancarado? De queixo caído de todo? Vai agora ao quarto de minha senhora e dize-lhe: ainda que pinte o rosto com um dedo de espessura, chegará a este favor. Faze-a rir disso. — Peço-te, Horácio, dize-me uma coisa.

HORÁCIO.

Qual, senhor meu?

HAMLET.

Pensas que Alexandre tinha este aspecto na terra?

HORÁCIO.

Exatamente este.

HAMLET.

E cheirava assim? Pah!

Lança a caveira ao chão.

HORÁCIO.

Exatamente assim, senhor meu.

HAMLET.

A que usos vis podemos retornar, Horácio! Por que a imaginação não poderia seguir o nobre pó de Alexandre até encontrá-lo tapando um buraco de barril?

HORÁCIO.

Seria considerar com demasiada curiosidade considerar assim.

HAMLET.

Não, por fé, nem um jota. Mas segui-lo até ali com bastante modéstia, e verossimilhança a conduzi-lo; assim: Alexandre morreu, Alexandre foi sepultado, Alexandre retorna ao pó; o pó é terra; da terra fazemos argamassa; e por que, com essa argamassa em que ele se converteu, não poderiam tapar um barril de cerveja?

O imperioso César, morto e tornado barro,

poderia tapar um buraco e afastar o vento amargo.

Oh, que a terra que manteve o mundo em temor

remende uma parede para repelir o rigor do inverno.

Mas quieto! Quieto! À parte! Aí vem o rei.

Entram sacerdotes etc., em procissão; o corpo de OFÉLIA, LAERTES e Pranteadores seguindo; o REI, a RAINHA, seus cortejos etc.

A rainha, os cortesãos. Quem é que eles seguem?

E com tais ritos mutilados? Isto anuncia

que o corpo que seguem, com mão desesperada,

desfez a própria vida. Era de alguma posição.

Abaixemo-nos um pouco e observemos.

Retirando-se com HORÁCIO.

LAERTES.

Que outra cerimônia?

HAMLET.

É Laertes, um jovem muito nobre. Observa.

LAERTES.

Que outra cerimônia?

SACERDOTE.

Suas exéquias foram ampliadas até onde

temos autorização. Sua morte foi duvidosa;

e, se não fosse a alta ordem que sobrepuja a regra,

ela teria jazido em terra não santificada

até a última trombeta. Em vez de preces caridosas,

cacos, sílex e pedregulhos seriam lançados sobre ela.

Contudo, aqui lhe são permitidos seus ritos virginais,

seus ornamentos de donzela e a condução

de sino e sepultura.

LAERTES.

Nada mais deve ser feito?

SACERDOTE.

Nada mais deve ser feito.

Profanaríamos o serviço dos mortos

se cantássemos solene réquiem e tal repouso a ela

como às almas partidas em paz.

LAERTES.

Deitai-a na terra,

e de sua carne bela e impoluta

possam brotar violetas. Digo-te, padre grosseiro,

minha irmã será anjo servidor

quando tu jazeres uivando.

HAMLET.

Quê, a bela Ofélia?

RAINHA.

Espalhando flores. Doçuras à doce. Adeus.

Eu esperava que fosses esposa de meu Hamlet;

pensei adornar teu leito de noiva, doce donzela,

e não cobrir de flores tua cova.

LAERTES.

Oh, que tripla dor

caia dez vezes tripla sobre aquela cabeça maldita

cujo ato perverso privou-te

de teu juízo engenhosíssimo. Afastai a terra por um pouco,

até que eu a tome mais uma vez em meus braços.

Salta para dentro da cova.

Agora amontoai vosso pó sobre os vivos e os mortos,

até fazerdes desta planície uma montanha

que ultrapasse o velho Pélion ou a cabeça celeste

do azul Olimpo.

HAMLET.

Avançando.

Quem é aquele cuja dor

traz tal ênfase? Cuja frase de tristeza

conjura as estrelas errantes e as faz parar

como ouvintes feridos de assombro? Sou eu,

Hamlet, o Dinamarquês.

Salta para dentro da cova.

LAERTES.

Agarrando-se a ele. Que o diabo tome tua alma!

HAMLET.

Não rezas bem.

Peço-te, tira teus dedos de minha garganta;

pois, embora eu não seja bilioso nem precipitado,

trago em mim algo perigoso,

que tua prudência deve temer. Fora com tua mão!

REI.

Separai-os.

RAINHA.

Hamlet! Hamlet!

AtoS.

Senhores!

HORÁCIO.

Meu bom senhor, aquietai-vos.

Os Criados os separam, e eles saem da cova.

HAMLET.

Ora, lutarei com ele por este tema

até que minhas pálpebras não possam mais mover-se.

RAINHA.

Oh, meu filho, que tema?

HAMLET.

Eu amava Ofélia; quarenta mil irmãos

não poderiam, com toda a quantidade de seu amor,

compor a minha soma. Que queres fazer por ela?

REI.

Oh, ele está louco, Laertes.

RAINHA.

Pelo amor de Deus, suportai-o!

HAMLET.

Pelas chagas de Deus, mostra-me o que farás:

queres chorar? Queres lutar? Queres jejuar? Queres rasgar-te?

Queres beber vinagre? Comer um crocodilo?

Eu o farei. Vens aqui para ganir?

Para encarar-me, saltando na cova dela?

Sê enterrado vivo com ela, e eu também o serei.

E, se tagarelas de montanhas, que lancem

milhões de acres sobre nós, até que nosso chão,

queimando a cabeça contra a zona ardente,

faça de Ossa uma verruga. Não; se queres bravatear,

eu bravatearei tão bem quanto tu.

RAINHA.

Isto é pura loucura;

e assim o acesso há de trabalhar nele por algum tempo;

logo, tão paciente quanto a pomba fêmea,

quando seus dourados filhotes rompem a casca,

seu silêncio ficará pousado e abatido.

HAMLET.

Escuta, senhor;

qual é a razão de me tratares assim?

Sempre te amei. Mas não importa.

Que o próprio Hércules faça o que puder:

o gato miará, e o cão terá seu dia.

Sai.

REI.

Peço-te, bom Horácio, acompanha-o.

Sai HORÁCIO.

A LAERTES.

Fortalecei vossa paciência com nossa fala da noite passada;

levaremos a matéria ao impulso presente. —

Boa Gertrudes, põe alguma guarda sobre teu filho.

Esta cova terá um monumento vivo.

Uma hora de quietude logo veremos;

até lá, que nosso procedimento siga em paciência.

Saem.

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