Faróis: Recolta de estrellas Faróis · Capítulo 1 de 49
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Faróis: Recolta de estrellas

Recolta de estrellas

(A Tiburcio de Freitas)

Filho meu, de nome escripto

Da minh’alma no Infinito.

Escripto a estrellas e sangue

No pharol da lua langue...

Das tuas azas serenas

Faz manto para estas penas.

Dá-me a esmola de um carinho

Como a luz de um claro vinho.

Com tua mão pequenina

Caminhos em flôr me ensina.

Com teu riso fresco e suave

Oh! dá-me do encanto a chave.

Do teu florão d’Innocencia

Dá-me as rosas da Clemencia.

Como outro Jesús bambino,

Esclarece-me o Destino.

Traz luz ao mundano pégo

Onde sigo, mudo e cégo...

Com teus enleios e graça

Nos meus cuidados perpassa.

Este peito accênde, inflamma

Na mais sacrosanta chamma.

Faz brotar nevados lyrios

Das cruzes dos meus martyrios.

Dá-me um sol de estranho brilho,

Flôr das lagrimas, meu filho.

Rebento triste, orvalhado

Com tanto pranto chorado.

Filho das ancias, das ancias,

Das mysteriosas fragrancias.

Filho de aromas secrétos

E de desejos inquietos.

De suspiros anhelantes

E impaciencias clamantes.

Filho meu, thesouro mago

De todo este affecto vago...

Filho meu, torre mais alta

De onde o meu amôr exalta.

Amphora azul, de onde o incenso

Dos sonhos se eléva denso

Contellação flammejada

De toda esta vida anciada.

Crysol onde lento, lento

Purifico o Sentimento.

Iris curioso onde gyro

E allucinado deliro.

Signo dos signos extremos

Destes tormentos supremos.

Orbita de astros onde pairo

E em febre de luz desvairo.

Vertigem, vertigem viva

Da paixão mais convulsva.

Traz-me uncção, traz-me concórdia

E paz e misericórdia.

Do teu sorriso a frescura

Rios de ouro abra, na Altura.

Abra, accenda labarédas,

Illuminando-me as quédas.

Flôr nocturna da luxuria

Brotada de haste purpurea.

Dos teus olhos dadivosos

Escorram óleos preciosos...

Oleos candidos, dos mundos

Maravilhosos, profundos.

Óleos virgens se derramem

E o meu viver embalsamem.

Embalsamem de eloquentes,

Celestes dons prefulgentes.

Para que eu possa com calma

Erguer os castellos da alma.

Para que eu durma tranquillo

Lá no sepulchral Sigillo.

Ó meu Filho, ó meu eleito

Deslumbramento, perfeito.

Traz novo esplendor ao facho

Com que altos Mysterios acho.

Meu Filho, frágil e térno,

Soccórre-me do atro Inferno.

Onde vibram gladios duros

Por ergástulos escuros.

E cruzam flammineas, fortes,

Negras vidas, negras mortes.

Onde técem Satanazes

Sete circulos vorazes...

1.º de Outubro de 1895.

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