Faróis: Luar de lagrimas Faróis · Capítulo 48 de 49
Obra Menu

Faróis: Luar de lagrimas

Luar de lagrimas

I

Nos estrelados, límpidos caminhos

Dos Céus, que um luar criva de prata e de ouro,

Abrem-se róseos e cheirosos ninhos,

E há muitas messes do bom trigo louro.

Os astros cantam meigas cavatinas,

E na frescura as almas claras gozam

Alvoradas eternal, cristalinas,

E os Dons supremos, divinais esposam.

Lá, a florescência dos Desejos

Tem sempre um novo e original perfume,

Tudo rejuvenesce dentre harpejos

E dentre palmas verdes se resume.

As próprias mocidades e as infâncias

Das coisas tem um esplendor infindo

E as imortalidades e as distancias

Estão sempre florindo e reflorindo.

Tudo aÍ se consola e transfigura

Num Relicário de viver perfeito,

E em cada uma alma peregrina e pura

Alvora o sentimento mais eleito.

Tudo aí vive e sonha o imaculado

Sonho esquisito e azul das quint'essências,

Tudo é sutil e cândido, estrelado,

Embalsamado de eternais essências.

Lá as Horas são águias, voam, voam

Com grandes asas resplandecedoras...

E harpas augustas finamente soam

As Aleluias glorificadoras.

Forasteiros de todos os matizes

Sentem ali felicidades castas

E os que essas libações gozam felizes

Deixam da terra as vastidões nefastas.

Anjos excelsos e contemplativos,

Soberbos e solenes, soberanos,

Com aspectos grandíloquos, altivos,

Sonham sorrindo, angelicais e ufanos.

Lá não existe a convulsão da Vida

Nem os tremendos, trágicos abrolhos.

Há por tudo a doçura indefinida

Dos azuis melancólicos de uns olhos.

Véus brancos de Visões resplandecentes

Miraculosamente se adelgaçam...

E recordando essas Visões diluentes

Dolências beethovínicas perpassam.

Há magos e arcangélicos poderes

Para que as existências se transformem...

E os mais egrégios e completos seres

Sonos sagrados, impolutos dormem...

E lá que vagam, que plangentes erram,

Lá que devem vagar, decerto, flóreas,

Puras, as Almas que eu perdi, que encerram

O meu Amor nas Urnas ilusórias.

Hosanas de perdão e de bondade

De celestial misericórdia santa

Abençoam toda essa claridade

Que na harmonia das Esferas canta.

Preces ardentes como ardentes sarças

Sobem no meio das divinas messes.

Lembra o vôo das pombas e das garças

A leve ondulação de tantas preces.

E quem penetra nesse ideal Domínio,

Por entre os raios das estrelas belas,

Todo o celeste e singular escrínio,

Todo o escrínio das lágrimas vê nelas.

E absorto, penetrando os Céus tão calmos,

Céus de constelações que maravilham,

Não sabe, acaso, se com os brilhos almos,

São estrelas ou lágrimas que brilham.

Mas ah! das Almas esse azul letargo,

Esse eterno, imortal Isolamento,

Tudo se envolve num luar amargo

De Saudade, de Dor, de Esquecimento!

Tudo se envolve nas neblinas densas

De outras recordações, de outras lembranças,

No doce luar das lágrimas imensas

Das mais inconsoláveis esperanças.

II

Ó mortos meus, ó desabados mortos!

Chego de viajar todos os portos.

Volto de ver inóspitas paragens,

As mais profundas regiões selvagens.

Andei errando por funestas tendas

Onde das almas escutei as lendas.

E tornei a voltar por uma estrada

Erma, na solidão, abandonada.

Caminhos maus, atalhos infinitos

Por onde só ouvi ânsias e gritos.

por toda a parte a rir o incêndio e a peste

Debaixo da Ilusão do Azul celeste.

Era também luar, luar lutuoso

Pelas estradas onde errei saudoso...

Era também luar, o luar das penas,

Brando luar das Ilusões terrenas.

Era um luar de triste morbideza

Amortalhando toda a natureza.

E eu em vão busquei, Mortos queridos,

Por entre os meus tristíssimos gemidos.

Em vão pedi os filtros dos segredos

Da vossa morte, a voz dos arvoredos.

Em vão fui perguntar ao Mar que e cego

A lei do Mar do Sonho onde navego.

Ao Mar que e cego, que não vê quem morre

Nas suas ondas, onde o sol escorre...

Em vão fui perguntar ao Mar antigo

Qual era o vosso desolado abrigo.

Em vão vos procurei cheio de chagas,

Por estradas insólitas e vagas.

Em vão andei mil noites por desertos,

Com passos, espectrais, dúbios, incertos.

Em vão clamei pelo luar a fora,

Pelos ocasos, pelo albor da aurora.

Em vão corri nos areiais terríveis

E por curvas de montes impassíveis.

Só um luar, só um luar de morte

Vagava igual a mim, com a mesma sorte.

Só um luar sempre calado e dútil,

Para a minha aflição, acerbo e inútil.

Um luar de silêncio formidável

Sempre me acompanhando, impenetrável.

Só um luar de mortos e de mortas

Para sempre a fechar-me as vossas portas.

E eu, já purgado dos terrestres

Crimes, Sem achar nunca essas portas sublimes.

Sempre fechado a chave de mistério

O vosso exílio pelo Azul sidéreo.

Só um luar de trêmulos martírios

A iluminar-me com clarões de círios.

Só um luar de desespero horrendo

Ah! sempre me pungindo e me vencendo.

Só um luar de lágrimas sem termos

Sempre me perseguindo pelos ermos.

E eu caminhando cheio de abandono

Sem atingir o vosso claro trono.

Sozinho para longe caminhando

Sem o vosso carinho venerando.

Percorrendo o deserto mais sombrio

E de abandono a tiritar de frio...

Ó Sombras meigas, ó Refúgios ternos

Ah! como penetrei tantos Infernos!

Como eu desci sem vós negras escarpas,

A Almas do meu ser, Ó Almas de harpas!

Como senti todo esse abismo ignaro

Sem nenhuma de vós por meu amparo.

Sem a benção gozar, serena e doce,

Que o vosso Ser aos meus cuidados trouxe.

Sem ter ao pe de mim o astral cruzeiro

Do vosso grande amor alvissareiro.

Por isso, ó sombras, sombras impolutas,

Eu ando a perguntar as formas brutas.

E ao vento e ao mar e aos temporais que ululam

Onde é que esses perfis se crepusculam.

Caminho, a perguntar, em vão, a tudo,

E só vejo um luar soturno e mudo.

Só contemplo um luar de sacrifícios,

De angústias, de tormentas, de cilícios.

E sem ninguém, ninguém que me responda

Tudo a minh’alma nos abismos sonda.

Tudo, sedenta, quer saber, sedenta

Na febre da Ilusão que mais aumenta.

Tudo, mas tudo quer saber, não cessa

De perscrutar e a perscrutar começa.

De novo sobe e desce escadarias

D’estrelas, de mistérios, de harmonias.

Sobe e não cansa, sobe sempre, austera,

Pelas escadarias da Quimera.

Volta, circula, abrindo as asas volta

E os vôos de águia nas Estrelas solta.

Cada vez mais os vôos no alto apruma

Para as etéreas amplidões da Bruma.

E tanta forca na ascensão desprende

Da envergadura, a proporção que ascende...

Tamanho impulso, colossal, tamanho

Ganha na Altura, no Esplendor estranho.

Tanto os esforços em subir concentra,

Em tantas zonas de Prodígios entra.

Nas duas asas tal vigor supremo

Leva, através de todo o Azul extremo,

Que parece cem águias de atras garras

Com asas gigantescas e bizarras.

Cem águias soberanas, poderosas

Levantando as cabeças fabulosas.

E voa, voa, voa, voa imersa

Na grande luz dos Paramos dispersa.

E voa, voa, voa, voa, voa

Nas Esferas sem fim perdida a toa.

Ate que exausta da fadiga e sonho

Nessa vertigem, nesse errar medonho.

Ate que tonta de abranger Espaços,

Da Luz nos fulgidíssimos abraços.

Depois de voar a tão sutis Encantos,

Vendo que as Ilusões a abandonaram,

Chora o luar das lágrimas, os prantos

Que pelos Astros se cristalizaram!

1/1
Menu

Fazer anotação