Faróis: Recorda Faróis · Capítulo 2 de 49
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Faróis: Recorda

Recorda

Quando a onda dos desejos inquietantes

Que do peito transborda,

Morrer, emfim, nas amplidões distantes

Recórda-te, recórda...

Revive dessa musica já finda

Que nas estrellas dórme.

Volta-te ao mundo seductor ainda

Da Illusão multiforme!

Vólta, recórda eternamente, vólta

Aos pharóes da Esperança,

Do Sonho estranho as grandes azas sólta

Á celeste Bonança.

Recórda mágoas, lagrimas e risos

E soluços e anceios...

Revive dos nevoeiros indecisos

E dos vãos devaneios.

Revive! Gósa! Desolado, embóra,

Sorrindo e soluçando,

Erguendo os véos de já passada aurora,

Recordando e sonhando...

Cada alma tem seu intimo recato

N’uma estrella perdida

E cada coração intemerato

Tem na estrella uma vida.

Applica o ouvido á correnteza fria

Dos golphões da materia

E recórda de que lama sombria

É composta a miséria.

Recórda! Sonha! Nas estrellas érra,

Beduino do Espaço.

Aos sonhos brancos, que não são da Terra,

Dá, sorrindo, o teu braço...

Dá o teu braço, pelos céus sorrindo

E recordando parte

E has de entender os claros céus, sentindo

Que andas a recordar-te.

Bate á porta dos Astros solitarios

Dos eternos Fulgôres,

Em busca desses mortos visionarios,

Almas de sonhadores.

Ah! vólta á infancia dos primeiros beijos,

Dos momentos sidereos,

Volta á sêde dos ultimos desejos,

Dos primeiros mysterios!

Ah! volta aos desenganos primitivos,

Volta á essencia dos annos,

Volta aos espectros tristemente vivos,

Ah! volta aos desenganos!

Volta aos serenos, floridos oásis,

Volta aos hymnos profundos,

Volta ás efflorescencias dos Lilazes,

Volta, volta a esses mundos!

Fique na Sombra e no Silencio d’alma

Todo o teu ser dolente,

Para tranquillo, com ternura e calma,

Recordar docemente...

Na Sombra então e no Silencio denso,

Como em mágicas plagas,

Faz accender o alampadario immenso

Das Recordações vagas...

Pousa a cabeça, meigamente pousa

Nesse augusto Quebranto

E nem da Terra a mais ligeira cousa

Te despérte do Encanto.

Para o Amor, para a Dôr e para o Sonho

Nas Esphéras transbórda...

E entre um soluço e um segredo risonho

Recórda-te, recórda...

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