Faróis: Envelhecer Faróis · Capítulo 7 de 49
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Faróis: Envelhecer

Envelhecer

Flôr d’indolência, fina e melindrosa,

Captivante sereia da esperança,

Cêdo tivéste a crença dolorosa

De quanto a vida é velha e como cança...

Na languida, na mórna morbideza

Do teu amargo e triste celibato,

Tu te fechaste para a Natureza

Como a lua no célico recato.

No fundo delicado dos teus seios

Foste esconder os sentimentos vagos

E todos os dolentes devaneios

Das estrellas sonhando á flôr dos lagos

Todas as altas céllas de ouro e prata

De teu claustro de Virgem sem affecto

Fecharam sobre tu’alma ti: norata

Austéras portas, com fragôr secreto.

No entanto havia no teu corpo ondeante

As delicias subtis de um céo fugace...

E éra talvez o encanto mais picante

A graça aldeã do teu nariz rapace.

Teus olhos tinham certa mágoa nobre

E certo fundo de doirado abysmo.

E a malicia que logo se descóbre

Em olhos de felino narcotismo.

Mas na bocca trazias todo o occulto

Tóque sombrio de ironia grave...

E como que as bellezas do teu vulto

Abriam azas peregrinas de ave.

Tinhas na bocca esse elixir ardente

Da volupia mortal dos gosos e éssa

Chamma de bocca, feita unicamente

Para no goso envelhecer depréssa.

E envelheceste tanto, muito cêdo,

Sumiu-se tão depressa o teu encanto,

Foi tão fallaz o seductor segredo

Do teu carnal e languido quebranto!

Envelheceste para os vãos idyllios,

Para os estranhos estremecimentos,

Para os brilhos iriantes dos teus cilios

E para os sepulchraes esquecimentos.

Envelheceste para os vãos amores,

E para os olhos, para as mãos que abrias

Como dous talismans de brancas flôres

E de leves e doces harmonias...

Presa, sem ar, sem sol, crepusculada

No celibato que não tem perfume

De todo envelheceste abandonada,.

Já como um ser que não provóca ciume.

Envelhecer é reduzir a vida

A sentimentos de tristeza austéra,

Enclausural-a n’uma grave ermida

De luto e de silencio sem chiméra.

E envelhecer na juventude flórea,

Do celibato emmurchecido lyrio,

É ficar sob os pállios da illusória

Melancholia, como a luz de um cyrio...

Envelhecer assim, virgem e forte,

É cerrar contra o mundo a rósea porta

Do Amor e apenas esperar a Morte,

A alma já muda, ha muito tempo morta.

Envelheces de tédio, de cançaço,

D’illusões e de scysmas e de penas,

Como envelhéce no celeste espaço

O turbilhão das estrellas serenas.

O Amor os corações fez interdictos

Ao teu magoado coração captivo

E apagou-te os sublimes infinitos

Do seu clarão fecundador e vivo.

Hoje envelhéces na clausura immensa,

Dentro de um sonho pállido fenéces.

Tua belleza véste névoa densa,

Em surdinas e sombras envelhéces.

De pranto e luar, n’um desolado mixto,

Cáe a noite na tua puberdade

E como a Rediviva do Imprevisto,

Erras e sonhas pela Eternidade!

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