Faróis: Canção do bebado Faróis · Capítulo 3 de 49
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Faróis: Canção do bebado

Canção do bebado

Na lama e na noite triste

Aquelle bebado ri!

Tu’ alma velha onde existe?

Quem se recórda de ti?

Por onde andam teus gemidos,

Os teus noctambulos ais?

Entre os bebados perdidos

Quem sabe do teu -- jamais?

Porque é que ficas á lua

Comtemplativo, a vagar?

Onde a tua noiva nua

Foi tão depressa a enterrar?

Que flores de graça doente

Tua fronte vem florir

Que ficas amargamente

Bebado, bebado a rir?

Que vês tu nessas jornadas?

Onde está o teu jardim

E o teu palácio de fadas,

Meu somnambulo arlequim?

De onde trazes essa bruma,

Toda essa névoa glacial

De flôr de languida espuma,

Regada de óleo mortal?

Que soluço extravagante,

Que negro, soturno fél

Põe no teu ser doudejante

A confusão da Babél?

Ah! das lagrimas insanas

Que ao vinho misturas bem,

Que de visões sobrehumanas

Tu’alma e teus olhos têm!

Bocca abysmada de vinho,

Olhos de pranto a correr,

Bemdito seja o carinho

Que já te faça morrer!

Sim! Bemdita a cóva estreita,

Mais larga que o mundo vão,

Que possa conter direita

A noite do teu caixão!

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