Faróis: Piedosa Faróis · Capítulo 26 de 49
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Faróis: Piedosa

Piedosa

A Nestor Vitor

Não sei por que, magoada Flor sem glória,

A tua voz de trêmula meiguice

Desperta em mim a mocidade flórea

De sentimentos que não tem velhice.

Guslas de um céu remotamente mudo

Gemem plangentes nessa voz que voa

E através dela, abençoando tudo,

Um luar de perdões desabotoa.

Vejo-te então sublimemente triste

E excelsa e doce, num anseio lento,

Vagando como um ser que não existe,

Transfigurada pelo Sofrimento.

Mas, não sei como, vejo-te por brumas,

Além da de ouro constelada Porta,

Na ondulação das lívidas espumas,

Morta, já morta, muito morta, morta...

E sinto logo esse supremo e sábio

Travo da dor, se morta te antevejo,

Essa macabra contração de lábio

Que morde e tantaliza o meu desejo.

Fico sempre a cismar, se tu morresses

Que angustia fina me laceraria,

Que músicas de céus saudosos, desses

Céus infinitos sobre mim fluiria...

Que anjos brancos soberbos, deslumbrantes,

Resplandecentes nos broqueis das vestes,

Claros e altos voariam flamejantes

Para buscar-te, dos Azuis Celestes.

Sim! Sim! Pois então tanta e atroz fadiga,

Tanta e tamanha dor convulsa e cega

Há de ficar sem doce luz amiga,

Da lágrima dos céus, que tudo rega?!

As batalhas cruéis do sacrifício,

As transfigurações dos teus calvários,

Essas virtudes, rolarão com o vício

Pelos mesmos abismos tumultuários?!

Toda a obscura pureza dos teus feitos,

A tua alma mais simples do que a água,

Essa bondade, todos os eleitos

Sentimentos que tens de flor da Mágoa;

Nada se salvará jamais, mais nada

Se salvará, no instante derradeiro?!

Ó interrogação desesperada,

Errante, errante pelo mundo inteiro!

Nada se salvará da essência viva

Que tudo purifica e refloresce;

De tanta fé, de tanta luz altiva

De tanta abnegação, de tanta prece?!

Nada se salvará, piedosa e pobre

Flor desdenhada pelo Mal ufano,

Só o meu coração e verso nobre

Hão de abrigar-te do desprezo humano.

Na transcendência do teu ser, tão alta,

Vejo dos céus como que os dons, a esmola,

O indefinido que de ti ressalta

Me prende, me arrebata e me consola.

E sinto que a tua alma desprendida

Do terrestre, do negro labirinto

Melhor há de adorar-me na outra

Vida Melhor sentindo tudo quanto eu sinto.

Porque não é por sentimento vago,

Nem por simples e vã literatura,

Nem por caprichos de um estilo mago

Que sinto tanto a tua essência pura.

Não é por transitória veleidade

E para que o mundo reconheça,

Que sinto a tua cândida Piedade,

As auréolas de Luz dessa cabeça.

Não é para que o mundo te proclame

Maravilha das mártires, das santas

Que eu digo sempre ao meu Amor que te ame

Mesmo através de tantas ânsias, tantas.

Nem é também para que o mundo creia

Na humilde limpidez da tua alma justa,

Que o mundo, vil e vão, desdenha e odeia

Toda a humildade, toda a crença augusta.

Mas sinto porque te amo e te acompanho

Pelas montanhas de onde sóis saudosos

Clarões e sombras de um mistério estranho

Espalham, como adeuses carinhosos.

Sinto que te acompanho, que te sigo

Tranqüilo, calmo desses vãos rumores

E que tu vais embalada comigo,

Na mesma rede de carinho e dores.

Sinto os segredos do teu corpo amado,

Toda a graça floral, a graça breve,

Todo o composto lânguido, alquebrado

Do teu perfil de áureo crescente leve.

Sinto-te as linhas imortais do flanco,

E as ondas vaporosas dos teus passos

E todo o sonho castamente branco

Da volúpia celeste desses braços.

Sinto a muda expressão da tua boca

Feita num doce e doloroso corte

De beijo dado na veemência louca

Dos céus do gozo entre o estertor da morte.

Sinto-te as nobres mãos afagadoras,

Riquezas raras de um valor secreto

E mãos cujas carícias redentoras

São as carícias do supremo Afeto.

Sinto os teus olhos fluidos, de onde emerge

Uma graça, uma paz, tamanho encanto,

Tão brando e triste, que a minha alma asperge

Em suavíssimos bálsamos de pranto.

Uns olhos tão etéreos, tão profundos,

De tanta e tão sutil delicadeza

Que parecem viver lá n’outros mundos,

Longe da contingente Natureza.

Olhos que sempre no tremendo choque

Dos sofrimentos íntimos, latentes,

Tem esse toque amigo, o velho toque

Original das lágrimas ardentes.

Ah! sÓ eu vejo e sinto esse desvelo

Que transfigura e faz o teu martírio,

O sentimento amargurado e belo

Que e já, talvez, quase mortal delírio...

Sinto que a mesma chama nos abraça,

Que um perfume eternal, casto, esquisito,

Circula e vive com divina graça

Dentro do nosso trêmulo Infinito.

E tudo quanto me sensibiliza,

Fere, magoa, dilacera, punge,

Tudo no teu olhar se cristaliza,

No teu olhar, no teu olhar que unge.

Sinto por ti o mais febril e intenso

Carinho quase louco, doentio...

Carinho singular, curioso, imenso,

Que deixa na alma um resplendor sombrio.

E e de tal forma esse carinho raro,

De tal encanto e tão sagrada essência,

De tal Piedade e tal Perdão preclaro,

Que canta na estrelada Refulgência.

Ah! nunca saberás quanto exotismo

De sentimento me alanceia e pulsa,

Vibra violinos de sonambulismo

Nest'alma ora serena, ora convulsa!

Tens luz de lua e tens gorjeios de ave

No mundo virginal dos meus sentidos,

E és sonho, sombra de Angelus suave

Nos nossos mútuos e comuns gemidos.

E sonho, sombra de Angelus, tão brandos,

Imortalmente tão indefiníveis

Que todos os terrores execrandos

Cobrem-se para nós de íris sensíveis.

É assim que eu te sinto, erma, sozinha,

Frágil, piedosa, nos singelos brilhos

Erguendo aos braços, nobremente minha,

Os dolentes troféus dos nossos filhos.

Erguendo-os como cálices amargos

De um vinho ideal de já mortas quimeras,

Para além destes céus mudos e largos

Na ampla misericórdia das Esferas!

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