Faróis: Inexoravel Faróis · Capítulo 20 de 49
Obra Menu

Faróis: Inexoravel

Inexoravel

Ó meu Amor, que já morreste,

Ó meu Amor, que morta estas!

Lá nessa cova a que desceste,

Ó meu Amor, que já morreste,

Ah! nunca mais floresceras?!

Ao teu esquálido esqueleto,

Que tinha outrora de uma flor

A graça e o encanto do amuleto;

Ao teu esquálido esqueleto

Não voltará novo esplendor?!

E ah! o teu crânio sem cabelos,

Sinistro, seco, estéril, nu...

(Belas madeixas dos meus zelos!)

E ah! o teu crânio sem cabelos

Há de ficar como estás tu?!

O teu nariz de asa redonda,

De linhas límpidas, sutis

Oh! há de ser na lama hedionda

O teu nariz de asa redonda

Comido pelos vermes vis?!

Os teus dois olhos -- dois encantos --

De tudo, enfim, maravilhar,

Sacrário augusto dos teus prantos,

Os teus dois olhos -- dois encantos --

Em dois buracos vão ficar?!

A tua boca perfumosa

O céu do néctar sensual

Tão casta, fresca e luminosa,

A tua boca perfumosa

Vai ter o cancro sepulcral?!

As tuas mãos de nívea seda,

De veias cândidas e azuis

Vão se extinguir na noite treda

As tuas mãos de nívea seda,

Lá nesses lúgubres pauis?!

As tuas tentadoras pomas

Cheias de um magnífico elixir

De quentes, cálidos aromas

As tuas tentadoras pomas

Ah! nunca mais hão de florir?!

A essência virgem da beleza,

O gesto, o andar, o sol da voz

Que Iluminava de pureza,

A essência virgem da beleza

Tudo acabou no horror atroz?!

Na funda treva dessa cova,

Na inexorável podridão

Já te apagaste, Estrela nova,

Na funda treva dessa cova

Na negra Transfiguração!

1/1
Menu

Fazer anotação