Faróis: Olhos do sonho Faróis · Capítulo 16 de 49
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Faróis: Olhos do sonho

Olhos do sonho

Certa noite soturna, solitaria,

Vi uns olhos estranhos que surgiam

Do fundo horror da terra funeraria

Onde as visões somnambulas dormiam...

Nunca taes olhos divisei acaso

Com meus olhos mortaes, allucinados...

Nunca da terra neste leito raso

Outros olhos eu vi transfigurados.

A luz que os revestia e alimentava

Tinha o fulgôr das ardentias vagas,

Um demonio noctambulo espiava

De dentro d’elles como de igneas plagas.

E os olhos caminhavam pela treva

Maravilhosos e phosphorecentes...

Emquanto eu ia como um ser que léva

Pezadellos phantasticos, trementes...

Na treva só os olhos, muito abertos,

Seguiam para mim com magestade,

Um sentimento de crueis desertos

Me apunhalava com atrocidade.

Só os olhos eu via, só os olhos

Nas cavernas da treva destacando:

Pharóes de augurio nos feraes escolhos,

Sempre, tenazes, para mim olhando...

Sempre tenazes para mim, tenazes,

Sem pavôr e sem medo, resolutos,

Olhos de tigres e chacaes vorazes

No instante dos assaltos mais astutos.

Só os olhos eu via! -- o corpo todo

Se confundia com o negrôr em vólta...

Ó allucinações fundas do lodo

Carnal, surgindo em tenebrosa escólta!

E os olhos me seguiam sem descanço,

N’uma perseguição de atras voragens,

Nos narcotismos dos venenos mansos,

Como dous mudos e sinistros pagens.

E nessa noite, em todo o meu percurso,

Nas voltas vagas, vans e vacillantes

Do meu caminho, esses dous olhos de urso

Lá estavam tenazes e constantes.

Lá estavam clles, fixamente elles,

Quiétos, tranquillos, calmos e medonhos...

Ah quem jamais penetrará n’aquelles

Olhos estranhos dos eternos sonhos!

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