Faróis: Ressurreição Faróis · Capítulo 24 de 49
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Faróis: Ressurreição

Ressurreição

Alma! Que tu não chores e não gemas,

Teu amor voltou agora.

Ei-lo que chega das mansões extremas,

Lá onde a loucura mora!

Veio mesmo mais belo e estranho, acaso,

Desses lívidos países,

Mágica flor a rebentar de um vaso

Com prodigiosas raízes.

Veio transfigurada e mais formosa

Essa ingênua natureza,

Mais ágil, mais delgada, mais nervosa,

Das essências da Beleza.

Certo neblinamento de saudade

Mórbida envolve-a de leve...

E essa diluente espiritualidade

Certos mistérios descreve.

O meu Amor voltou de aéreas curvas,

Das paragens mais funestas...

Veio de percorrer torvas e turvas

E funambulescas festas.

As festas turvas e funambulescas

Da exótica Fantasia,

Por plagas cabalísticas, dantescas,

De estranha selvageria.

Onde carrascos de tremendo aspecto

Como astros monstros circulam

E as meigas almas de sonhar inquieto

Barbaramente estrangulam.

Ele andou pelas plagas da loucura,

O meu Amor abençoado,

Banhado na poesia da Ternura,

No meu Afeto banhado.

Andou! Mas afinal de tudo veio

Mais transfigurado e belo,

Repousar no meu seio o próprio seio

Que eu de lágrimas estréio.

De lágrimas de encanto e ardentes beijos,

Para matar, triunfante,

A sede ideal de místico desejo

De quando ele andou errante.

E lágrimas, que enfim, caem ainda

Com os mais acres dos sabores

E se transformam (maravilha infinda!)

Em maravilhas de flores!

Ah! que feliz um coração que escuta

As origens de que é feito!

E que não é nenhuma pedra bruta

Mumificada no peito!

Ah! que feliz um coração que sente

Ah! tudo vivendo intenso

No mais profundo borbulhar latente

Do seu fundo foco imenso!

Sim! eu agora posso ter deveras

Ironias sacrossantas...

Posso os braços te abrir, Luz das esferas,

Que das trevas te levantas.

Posso mesmo já rir de tudo, tudo

Que me devora e me oprime.

Voltou-me o antigo sentimento mudo

Do teu olhar que redime.

Já não te sinto morta na minh'alma

Como em câmara mortuária,

Naquela estranha e tenebrosa calma

De solidão funerária.

Já não te sinto mais embalsamada

No meu carinho profundo,

Nas mortalhas da Graça amortalhada,

Como ave voando do mundo.

Não! não te sinto mortalmente envolta

Na névoa que tudo encerra...

Doce espectro do pó, da poeira solta

Deflorada pela terra.

Não sinto mais o teu sorrir macabro

De desdenhosa caveira.

Agora o coração e os olhos abro

Para a Natureza inteira!

Negros pavores sepulcrais e frios

Além morreram com o vento...

Ah! como estou desafogado em rios

De rejuvenescimento!

Deus existe no esplendor d’algum Sonho,

Lá em alguma estrela esquiva.

Só ele escuta o soluçar medonho

E torna a Dor menos viva.

Ah! foi com Deus que tu chegaste, é certo,

Com a sua graça espontânea

Que emigraste das plagas do Deserto

Nu, sem sombra e sol, da Insânia!

No entanto como que volúpias vagas

Desses horrores amargos,

Talvez recordação daquelas plagas

Dão-te esquisitos letargos...

Porém tu, afinal, ressuscitaste

E tudo em mim ressuscita.

E o meu Amor, que repurificaste,

Canta na paz infinita!

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