Faróis: Presago Faróis · Capítulo 23 de 49
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Faróis: Presago

Presago

Nas águas daquele lago

Dormita a sombra de Iago...

Um véu de luar funéreo

Cobre tudo de mistério...

Há um lívido abandono

Do luar no estranho sono.

Transfiguração enorme

Encobre o luar que dorme...

Dá meia-noite na ermida,

Como o último ai de uma vida.

São badaladas nevoentas,

Sonolentas, sonolentas...

Do céu no estrelado luxo

Passa o fantasma de um bruxo.

No mar tenebroso e tetro

Vaga de um naufrago o espectro.

Como fantásticos signos,

Erram demônios malignos.

Na brancura das ossadas

Gemem as almas penadas

Lobisomens, feiticeiras

Gargalham no luar das eiras.

Os vultos dos enforcados

Uivam nos ventos irados.

Os sinos das torres frias

Soluçam hipocondrias.

Luxúrias de virgens mortas

Das tumbas rasgam as portas.

Andam torvos pesadelos

Arrepiando os cabelos.

Coalha nos lodos abjetos

O sangue roxo dos fetos.

Há rios maus, amarelos

De presságio de flagelos.

Das vesgas concupiscências

Saem vis fosforescências.

Os remorsos contorcidos

Mordem os ares pungidos.

A alma cobarde de Judas

Recebe expressões comudas.

Negras aves de rapina

Mostram a garra assassina.

Sob o céu que nos oprime

Languescem formas de crime.

Com os mais sinistros furores,

Saem gemidos das flores.

Caveiras! Que horror medonho!

Parecem visões de um sonho!

A morte com Sancho Panca,

Grotesca e trágica dança.

E como um símbolo eterno,

Ritmos dos Ritmos do inferno.

No lago morto, ondulando,

Dentre o luar noctivagando,

O corvo hediondo crocita

Da sombra d'Iago maldita!

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