Faróis: A flor do diabo Faróis · Capítulo 4 de 49
Obra Menu

Faróis: A flor do diabo

A flor do diabo

Branca e floral como um jasmim do Cabo,

Maravilhosa resurgio um dia

A fatal Creação do fulvo Diabo,

Eleita do peccado e da Harmonia.

Mais do que tudo tinha um ar funesto,

Embora tão radiante e fabulosa.

Havia subtilezas no seu gesto

De recordar uma serpente airosa.

Branca, surgindo das vermelhas chammas

Do Inferno inquisidor corrupto e langue,

Ella lembrava, Flor de excelsas famas,

A Via-Lactea sobre um mar de sangue.

Foi n’um momento de saudade e tédio,

De grande tédio e singular Saudade,

Que o Diabo, já das culpas sem remedio,

Para formar a egrégia magestade,

Gerou, da poeira quente das areias

Das praias infinitas do Desejo,

Essa langue sereia das sereias,

Desencantada com o calor de um beijo.

Sobre galpões de sonho os seus palacios

Tinham bizarros e galhardos luxos.

Mais grave de eloquencia que os Horacios,

Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

Somno e preguiça, mais preguiça e somno,

Luxurias de nababo e mais luxurias,

Molles coxins de languido abandono

Por entre estranhas florações purpureas.

Ás vezes, sob o luar, nos rios mortos,

Na vaga ondulação dos lagos frios,

Boiavam diabos de chavelhos tortos,

E de vultos macabros, fugidios.

A lua dava sensações inquiétas

A’s paisagens avernicas em torno

E alguns demonios com perfis de ascetas

Dormiam no luar um somno morno...

Foi por horas de Scysma, horas ethéreas.

De magia secreta e triste, quando

Nas lagoas lethificas, sidéreas,

O cadaver da lua vae boiando...

Foi n’uma d’essas noites taciturnas

Que o velho Diabo, sabio d’entre os sabios,

Desencantado o seu poder das furnas,

Com o riso augusto a flammejar nos labios,

Formou a flor de encantos exquisitos

E de essencias esdruxulas e finas,

Pondo n’ella oscillantes infinitos

De vaidades e graças femininas.

E deu-llie a quintessencia dos aromas,

Sonoras harpas de alma, extravagancias,

Pureza hostial e púbere de pômas,

Toda a melancolia das distancias...

Para haver mais requinte e haver mais viva,

Doce belleza e original caricia,

Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva

E uma aureola secreta de malicia.

Mais hoje o Diabo já senil, já fóssil,

Da sua Creação desilludido,

Perdida a antiga ingenuidade docil,

Chora um pranto nocturno de Vencido.

Como do fundo de vitraes, de frescos

De gothicas capellas isoladas,

Chora e sonha com mundos pittorescos,

Na nostalgia das Regiões Sonhadas.

1/1
Menu

Fazer anotação