Faróis: Ebrios e cégos Faróis · Capítulo 49 de 49
Obra Menu

Faróis: Ebrios e cégos

Ebrios e cégos

Fim de tarde sombria.

Torvo e pressago todo o céu nevoento.

Densamente chovia.

Na estrada o lodo e pelo espaço o vento.

Monótonos gemidos

Do vento, mornos, lânguidos, sensíveis:

Plangentes ais perdidos

De solitários seres invisíveis...

Dois secretos mendigos

Vinham, bambos, os dois, de braço dado,

Como estranhos amigos

Que se houvessem nos tempos encontrado.

Parecia que a bruma

Crepuscular os envolvia, absortos

Numa visão, nalguma

Visão fatal de vivos ou de mortos.

E de ambos o andar lasso

Tinha talvez algum sonambulismo,

Como através do espaço

Duas sombras volteando num abismo.

Era tateante, vago

De ambos o andar, aquele andar tateante

De ondulação de lago,

Tardo, arrastado, trêmulo, oscilante.

E tardo, lento, tardo,

Mais tardo cada vez, mais vagaroso,

No torvo aspecto pardo

Da tarde, mais o andar era brumoso.

Bamboleando no lodo,

Como que juntos resvalando aéreos,

Todo o mistério, todo

Se desvendava desses dois mistérios:

Ambos ébrios e cegos,

No caos da embriaguez e da cegueira,

Vinham cruzando pegos

De braço dado, a sua vida inteira.

Ninguém diria, entanto,

O sentimento trágico, tremendo,

A convulsão de pranto

Que aquelas almas iam turvescendo.

Ninguém sabia, certos,

Quantos os desesperos mais agudos

Dos mendigos desertos,

Ébrios e cegos, caminhando mudos.

Ninguém lembrava as ânsias

Daqueles dois estados meio gêmeos,

Presos nas inconstâncias

De sofrimentos quase que boêmios.

Ninguém diria nunca,

Ébrios e cegos, todos dois tateando,

A que atroz espelunca

Tinham, sem vista, ido beber, bambeando.

Que negro álcool profundo

Turvou-lhes a cabeça e que sudário

Mais pesado que o mundo

Pôs-lhes nos olhos tal horror mortuário.

E em tudo, em tudo aquilo,

Naqueles sentimentos tão estranhos.

De tamanho sigilo,

Como esses entes vis eram tamanhos!

Que tão fundas cavernas,

Aquelas duas dores enjaularam,

Miseráveis e eternas

Nos horríveis destinos que as geraram.

Que medonho mar largo,

Sem lei, sem rumo, sem visão, sem norte,

Que absurdo tédio amargo

De almas que apostam duelar com a morte!

Nas suas naturezas,

Entre si tão opostas, tão diversas,

Monstruosas grandezas

Medravam, já unidas, já dispersas.

Onde a noite acabava

Da cegueira feral de atros espasmos,

A embriaguez começava

Rasgada de ridículos sarcasmos.

E bêbadas, sem vista,

Na mais que trovejante tempestade,

Caminhando a conquista

Do desdém das esmolas sem piedade,

Lá iam, juntas, bambas,

-- acorrentadas convulsões atrozes --,

Ambas as vidas, ambas

Já meio alucinadas e ferozes.

E entre a chuva e entre a lama

E soluços e lágrimas secretas,

Presas na mesma trama,

Turvas, flutuavam, trêmulas, inquietas.

Mas ah! torpe matéria!

Se as atritassem, como pedras brutas,

Que chispas de miséria

Romperiam de tais almas corruptas!

Tão grande, tanta treva,

Tão terrível, tão trágica, tão triste,

Os sentidos subleva,

Cava outro horror, fora do horror que existe.

Pois do sinistro sonho

Da embriaguez e da cegueira enorme,

Erguia-se, medonho,

Da loucura o fantasma desconforme.

1/1
Menu

Fazer anotação