Faróis: Requiem Faróis · Capítulo 21 de 49
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Faróis: Requiem

Requiem

Como os salmos dos Evangelhos celestiais,

Os sonhos que eu amei hão de acabar,

Quando o meu corpo, trêmulo, dos velhos

Nos gelados outonos penetrar.

O rosto encarquilhado e as mãos já frias,

Engelhadas, convulsas, a tremer,

Apenas viverei das nostalgias

Que fazem para sempre envelhecer.

Por meus olhos sem brilho e fatigados

Como sombras de outrora, passarão

As ilusões de uns olhos constelados

Que da Vida dourarão-me a Ilusão.

Mas tudo, enfim, as bocas perfumosas,

O mar, o campo e tudo quanto amei,

As auroras, o sol, pássaros, rosas,

Tudo rirá do estado a que cheguei.

Do brilho das estrelas cristalinas

Virá um riso irônico de dor,

E da minh’alma subirão neblinas,

Incensos vagos, cânticos de amor.

Por toda parte o amargo escárnio fundo,

Sem já mais nada para mim florir,

As risadas vandálicas do mundo

Secos desdéns por toda a parte a rir.

Que hão de ser vãos esforços da memória

Para lembrar os tempos virginais,

As rugas da matéria transitória

Hão de 1á estar como a dizer: -- jamais!

E hei de subir transfigurado e lento

Altas montanhas cheias de visões,

Onde gelaram, num luar, nevoento,

Tantos e solitários corações.

Recordarei as íntimas ternuras,

De seres raros, porém mortos já,

E de mim, do que fui, pelas torturas

Deste viver pouco me lembrará.

O mundo clamará sinistramente

Daquele que a velhice alquebra e alui...

Mas ah! por mais que clame toda a gente

Nunca dirá o que de certo eu fui.

E os dias frios e ermos da Existência

Cairão num crepúsculo mortal,

Na soluçante, mística plangência

Dos órgãos de uma estranha catedral.

Para me ungir no derradeiro e ansioso

Olhar que a extrema comoção traduz,

Sob o celeste pálio majestoso

Hão de passar os Viáticos da luz.

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