Faróis: Pandemonium Faróis · Capítulo 6 de 49
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Faróis: Pandemonium

Pandemonium

(A Mauricio Junim)

Em fundo de tristeza e de agonia

O teu perfil passa-me noite e dia.

Afflicto, afflicto, amargamente afflicto,

Num gesto estranho que parece um grito.

E ondula e ondula e palpitando vaga,

Como profunda, como velha chaga.

E paira sobre ergástulos e abysmos

Que abrem as boccas cheias de exorcismos.

Com os olhos vêsgos, a fluctuar d’esguelha,

Ségue-te átraz uma visão vermelha.

Uma visão gerada do teu sangue

Quando no Horrôr te debateste exangue.

Uma visão que é tua sombra pura

Rodando na mais trágica tortura.

A sombra dos supremos soffrimentos

Que te abaláram como negros ventos.

E a sombra as tuas voltas acompanha

Sangrenta, horrivel, assombrosa, estranha.

E o teu perfil no vácuo perpassando

Vê rubros caractéres fiammejando.

Vê rubros caracteres singulares

De todos os festins de Balthazares.

Por toda a parte escripto em fogo eterno:

Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!

E os emissarios espectraes das mortes

Abrindo as grandes azas flammi-fortes...

E o teu perfil oscilla, treme, ondula,

Pelos abysmos eternaes circula...

Circula e váe gemendo e váe gemendo

E suspirando outro suspiro horrendo.

E a sombra rubra que te váe seguindo

Tambem parece ir soluçando e rindo.

Ir soluçando, de um soluço cavo

Que dos venenos traz o torvo travo.

Ir soluçando e rindo entre vorazes

Satanismos diabolicos, mordazes.

E eu já nem sei se é realidade ou sonho

Do teu perfil o divagar medonho.

Não sei se é sonho ou realidade todo

Esse accordar de chammas e de lodo.

Tal é a poeira extrema confundida

Da morte a raios de ouro de outra Vida.

Taes são as convulsões do ultimo arranco

Presas a um sonho celestial e branco.

Taes são os vagos circulos inquiétos

Dos teus gyros de lagrimas secrétos.

Mas, de repente, eis que te reconheço,

Sinto da tua vida o amargo preço.

Eis que te reconheço escravisada,

Divina Mãe, na Dôr acorrentada.

Que reconheço a tua bocca presa

Pela mordaça de uma sêde accêsa.

Presa, fechada pela atroz mordaça

Dos fundos desesperos da Desgraça.

Eis que lembro os teus olhos visionarios

Cheios do fél de barbaros Calvarios.

E o teu perfil azas abrir parece

Para outra Luz onde ninguem padéce...

Com doçuras feéricas e meigas

De Satans juvenis, ao luar, nas veigas.

E o teu perfil fórma um saudoso vulto

Como de Santa sem altar, sem culto.

Fórma um vulto saudoso e peregrino

De força que voltou ao seu destino.

De ser humano que soffrendo tanto

Purificou-se nos Azues do Encanto.

Subio, subio e mergulhou sósinho,

Desamparado, no lethal caminho.

Que lá chegou transfigurado e aéreo,

Com os aromas das flores do Mysterio.

Que lá chegou e as mortas portas mudas

Fez abalar de imprecações agudas...

E váe e váe o teu perfil ancioso,

De ondulações phantasticas, brumoso.

E váe perdido e váe perdido, errante,

Tremulo, triste, vaporoso, ondeante.

Váe suspirando, n’um suspiro vivo

Que palpita nas sombras incisivo...

Um suspiro profundo, tão profundo

Que arrasta em si toda a paixão do mundo.

Suspiro de martyrio, de anciedade,

De allivio, de mysterio, de saudade.

Suspiro immenso, atterrador e que érra

Por tudo e tudo eternamente attérra...

O pandemonium de suspiros sôltos

Dos condemnados corações revôltos.

Suspiro dos suspiros anciados

Que rasgam peitos de dilacerados.

E mudo e pasmo e compungido e absorto,

Vendo o teu lento e doloroso gyro,

Fico a scysmar qual é o rio morto

Onde vae divagar esse suspiro.

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