Capítulo II Mocidade Morta · Capítulo 2 de 19
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Capítulo II

II

Foi no segundo andar de obscura locanda, em prédio encravado no labirinto da cidade, na Pension Beaumont, que se inventou o Zur, preito de alegria à graça de uma estranha rapariga, que os bizarrismos da Mocidade celebrizaram, entre fumos azulados de cigarrilhos, para o motejo de um tempo de irreverências.

Agrário de Miranda começava a sua carreira de artista com o sucesso de uma preterição no concurso de viagem. Mas, por infelicidade a excelente ocasião de cobrir-se com simpatias públicas, pelo vozear dos protestos, perderase no inesperado luto que a morte de um protetor lhe trouxera, deixando a sua vida entregue aos insuficientes recursos com que as canseiras de seus pais, do fundo provinciano de uma lavoira mesquinha, coadjuvavam-o n'aprendizagem acadêmica.

À índole mundana do moço pintor, inclinada à exibição da sua pessoa, que se presumia de ostensiva e atendida pela extravagância de vestuários e pela petulância de atitudes, nos lajedos ouvidorianos, essa perda impressionou rudemente, desvendando-lhe obscurismos humilhantes, inaccessibilidades desalentadoras. Deparou-se-lhe, para consolo do esmorecimento, um condiscípulo dos silabários, que distendia ócios nauseantes de repulsivo à frequência dos primeiros cursos médicos, ambicionando glorificações no jornalismo, com iniciação pela farandolagem verbosa e gesticuladora dos Cafés.

Era este o Camilo Prado, professo na boêmia de um limitado grupo de uns três, o Pereira Lemos, autor de caprichosos sonetos parnasianos, dum fino relevo de cinzel helênico, que imprimia aos preferidos assuntos mitológicos a correção dos perfis clássicos; um Clementino Viotti, arquiteto sem viagem, abandonado pela Academia, e o Ramos Colaço, recém-chegado das brumas hibernais da científica Alemanha, onde estudara com proveito os segredos da Música.

Agrário de Miranda veio juntar-se-lhes, comungando nos fraternos intuitos de desancar os Bárbaros, letra inicial desse obscuro rito de rapazes sonhadores, que se davam ao luxo de uma divisa cognominativa. Denominavam-se — Insubmissos — para realce de suas qualidades de rebelados e raros em contraposição ao burguês subserviente e comum. E, dos brutos lajedos da Ouvidor, das portas da charutaria Havanesa, aberta em prédio esquinado com a ruela Uruguaiana, passavam a uma recolhida sala de cervejaria, no silêncio de pouco distante beco, à consumir chopes espumarentos entre controvérsias e questiúnculas, para volverem aos mesmos pontos, em retomo vicioso, vegetativos e quiméricos, sobre os mesmos trilhos diuturnos.

Um dia, o mitológico Pereira Lemos foi despachado cônsul na Inglaterra: havia subido aos conselhos da Coroa um parente seu, e Camilo entrava para a redação de um jornal vespertino — A Folha — desprezando a honra de uma esmeralda entre enoveladas serpes d'oiro no indicador autoritário, de pergaminhado.

— Lá se vai a boa roda — murmurou o Colaço. — Isto é gente pirotécnica. .. . fogo de artifício! .. ..

Ao contrário, a natureza de Camilo amoldara-se perfeitamente àquela obscuridade bravia de apaixonados e rebeldes, e não havia momento de descanso que ele o não aproveitasse na cervejaria predileta. Já por esse tempo a sua mórbida idiossincrasia tinha humorado, estalando pela fragilidade das repressões educativas, em impulsos irreprimíveis para a Arte, a que ele dizia ter voltado costas por exigências de família. Velhos parentes, encapuchados nos preconceitos da mediania, almejavam considerações de pergaminhos em um dos membros da sua linhagem. A desgraça desabara sobre ele, comentava Camilo, "porque, em verdade, e modéstia à parte, da sua família era o único membro que escapara da gangrena da parvoíce, não obstante compreender, agora, que o amputaram. .. ."

E aos poucos, nesse abandono de predisposições inaproveitadas, indiferente às censuras e queixumes dos seus, às incertezas e vicissitudes de um futuro, ele esquecia a acalentada esperança de um nome de articulista, lantejoulado na popularidade da imprensa. A delicadeza do seu espírito magoara-se com as grosseiras sensações da bufarinheira vida de jornal, em que os bonzos e os adufes políticos põem, na palavra escrita, trejeitos e esganiços selvagens dos folgares de taba, e para a timidez da sw'alma foi um líquido escarótico a palrice aguilhoenta da trêfega boêmia das redações. Bem depressa, os intentos fundibulários de agitador patriota mudaram-se, metamorfosearam-se, inapercebidamente, em meditativa, isolada confabulação com os livros de história das artes. Então, absorvido por essa voluptuosa viagem espiritual às regiões remotas, que branquejam nas reixas pontilhadas de páginas impressas como a tenuidade das miragens lobrigadas por entre a rede metálica das lumeeiras de masmorras, entregava-se a revolver, com subtilezas de crítica e requintes de forma, difíceis problemas da psicologia de artistas, Ou à recompor cenários de épocas estéticas, de que prometia uma obra emocional e quente, escrita com a força palpitante das suas artérias, animada por uma evocação mágica do mais extraordinário esforço descritivo.

TInfluíra nessa conversão, sem dúvida, a ombreada camaradagem com o Clementino Viotti, que n'ardência da sua imaginativa de mestiço, combinação de violências coloridas de um italiano de Nápoles com o lirismo contemplativo de uma mulata patrícia, se não se arrancava fulo, convulsivo, tremendo, em objurgatórias contra a "podre Academia e a infame Sociedade", bramava como um João Batista precursor, apostrofando o antiesteticismo arquitetura! da metrópole, por ele sonhada em maravilhoso conjunto de soberana graça e gloriosa força — serenidades atenienses e grandezas d'Oriente

— a deslumbrar Civilizações na ribamar da Guanabara encantadora, espumejante d'efervescências cérulas sobre o alabastro de escadarias monumentais! .. .. Ramos Colaço também, do seu descanso sombrio de bebedor, lavrara as tendências do rapaz querido, semeando o grão fecundo da Arte neste espírito virgem. E horas e horas desmemoriadas, vergados sobre os chopes, embebidos na transcendência dos assuntos, ali ficavam-se os dous, em conversa que o Colaço desdobrava com exclusivismos wagnerianos a desenvolver, a contornar utópicas volutas de ideais que se contorciam naquele recanto sossegado de sonhos, como filamentos de oiro em torno de infindável torçal de seda azul, em caprichosos desenhos decorativos.

Agrário, ao princípio, recebeu dessa convivência uma impressão amolecedora e balsâmica; julgou ter achado um meio jamais previsto, onde se vivia mentalmente, à semelhança das priscas idades gregas dos ginásios. Os desesperos que lhe ardiam nos gorgomilhos difundiam-se numa maciez saborosa de polpos sacarinos. Aí ele encontrava o ânimo para resistir, o conforto para as decepções, a luz para caminhar e, sem saber por quê, repetindo uma frase de Camilo, considerava essa reunião de camaradas — "um grupo forte de bravos Cavaleiros da Espiritualidade, na vigília d'armas para a Cruzada de Amanhã."

Logo, porém, começou a se afastar, resfriado no fervor do efêmero culto. As impressões primeiras amorteciam aos poucos, reduziam-se à importância de uma novidade que o uso esgarça e deslustra.

Desagradava-lhe aquela reclusão anacorética, excluída de "todo o mundo, sem ver mulheres, sem gozar a vida"; ao demais, era fraco bebedor de cerveja, preferia os vinhos capitosos e grenates, o borbulhar álacre do Champanhe, a doçura inebriante dos licores, que aquecem os músculos, que desentorpecem os nervos em frêmitos de luxúria. Mas, se Camilo estivesse ele entraria e permaneceria, porque ao renascimento da camaradagem colegial pospunha certa gratidão pelo alarido encomiástico que o amigo fazia em torno do seu nome, doirando-o com a antonomásia de Manet brasileiro! Esta gloríola, desbaratada na frivolidade do motivo, chamejava na sua vaidade, deslumbrando-o. Em outros jornais, nas linhas fáceis dos noticiários, respondia-se à prodigalidade louvaminheira com fosforejamentos de promessas. À sua reputação de artista principiava a luzir, sumida e longínqua, prenunciando um mundo que se forma. E retribuindo esta dedicação, com o sacrifício da sua presença no conventículo da cervejaria, formava a sua roda, o seu "cenáculo", que lhe fora o vezo conhecido na Academia, arrastando outros colegas, outros queixosos e desiludidos, a postarem-se ao redor da mesa, na dúbia claridade asiladora desse discreto ângulo de parede, como sectários neófitos duma Verdade iniciada.

Depois chegou a vez do Clementino Viotti.

A necessidade levou-o para um escritório d'engenheiros e só abria mão dos compassos ao pôr-do-sol, estropiado e embrutecido. Raras ocasiões, e ainda assim entediado, preguiçoso, bocejante, conseguia transpor a porta da brasserie, abandonar-se numa cadeira, sorver a sua cerveja. A estas horas lá estava o Colaço, esfalfado da peregrinagem diuma de professor particular.

Enquanto esperava os companheiros, o wagnerista desfrutava, encafuado e feliz, o lazer das suas folgas; mas se volviam-se-lhe os olhos, na sucessão dos chopes, à parede fonteira, cresciam-lhe impertinências, arreliava-se, arranhado no seu método germânico e nos seus inabaláveis princípios de simetria, com a desalinhada colocação de duas medalhas de gesso prateado, que provavam a excelência da fábrica Ritter numa exposição de Hamburgo.

Então o Viotti acalmava-o:

— Que queres, Tannhãáuser, que queres? .. .. Nesta terra tudo está torto, desde a consciência dos homens até a calçada das ruas.

E o wagnerista, a rosnar:

— Eu sei, eu bem sei. .. . O que é preciso é um dilúvio de petróleo flamante neste monturo. Um fim de Gomorra! Uma maldição bíblica!

—. .. Ou um bom cacete nas manoplas brutescas de um ditador — concluía Camilo, preparando o seu lugar. Era infalível. A sua demora nunca fora contada para mais de segundos empós a hora dos tratos da véspera e, ultimamente, aparecia sobraçando livros, cujo assunto servia de basto tema de palestra. Estava-se, por essa época, no zênite do Impressionismo. Falava-se muito dos seus processos, dos seus exageros, das suas vantagens pinturescas. À novidade das suas audácias, lanhando o cerdoso couro do Sancionado", arrancava-lhes concordante grita de entusiasmo. Camilo discorria sobre as telas impenitentes de Édouard Manet, sobre as paisagens vernais de Pissarro e os motivos escandalizantes de Caillebotte. Os nomes de Claude Monet e Madame Morizot vinham, às citações, fulgurando entre círculos de fogo, paradeiros resistentes do incondicional, que os isolavam da vulgaridade aplaudida. Com o dedo nervoso e sarrento ele vincava páginas de brochuras novas, apoiandose no apostolado reformador de Zola, na análise vesicante de Huysmans; citava a crítica facetada de Ortigão e traduzia, declamava os períodos incisivos, de exame glácido e seguro, da prosa aceirada de Félix Fénéon': "Esta é grande Arte! a natureza ao ar livre, a verdade uma e única!"

—. .. E que sabem vocês disto? .. .. — perguntava ele à roda emudecida a escutá-lo. — Vocês estão atrasados trint'anos! Nem sequer conhecem os processos de Huet, de Rousseau. .. . os velhos dissidentes, ignoram a independência de Courbet, a reação romântica contra a escola de David, a reação naturalista contra o delambimento de Cabanel'"! .. .. E aí está em nosso tempo, diante do nosso nariz, uma Arte nova desmantelando todos os estafados moldes conhecidos, de interpretação e feitura, sem que vocês dêem fé da sua existência. .. .

Chegava o Sabino, encolhido na sua modéstia, pupilas absortas nos noctambulismos das ilusões, uma humildade nos traços africanos da sua máscara imberbe e ossuda. As vagas dos que partiam eram duplamente preenchidas pelos que Agrário arrebanhava. Aos poucos vinham outros: o Franklin, o Artur de Almeida. .. . Não raramente aparecia o Sousa, um fuinha caturra, com o seu eterno álbum encapado de linho cinzento, roupas de figurino caricaturado, que ele próprio confeccionava, e olheiras forçadas à rolha para fingir noitadas orgíacas, de que se ufanava. Também, por momentos, rondava a mesa o Samuel Braga, o Braguinha, raquítico e esverdinhado, sob o peso duma juba romântica, cavaignac d' Artagnan, vidros de míope sobre o nariz pontudo; era um laureado do curso de piano no Conservatório de Música. Mas, a sua presença armava conflitos, ou por fabulosas narrativas à Tartarin! ?, que os companheiros rebatiam com chacotas, ou por questões profissionais com o Colaço, que lhe não suportava as idolatrias italianas.

Em breve tempo, porém, o grupo entrou a dispersar-se. O primeiro a desertar foi Agrário, que descia, rápido, às maiores privações. A fome, a maltrapilhagem, os empréstimos difíceis, emparedavam-o em uma constante aflição. A resistência falhara-lhe. Lembrou-se, então, de um primo, ajudante de guarda-livros nos escritórios comerciais de respeitada firma inglesa, o Melo Castro, que vivia à larga num aposento da Pension Beaumont, e lá foi bater à sua porta, por um nascer ensolarado de dia estival.

Havia muito tempo que se não viam. Melo Castro admirou-se, com exclamativas.

— — Não me recrimines — disse-lhe Agrário. — Eu sou um desgraçado que recorre à tua esmola. Preciso de quem me valha.

Melo Castro retorcia vagarosamente a ponta do seu bonito bigode loiro, parando sobre ele as pupilas verdíneas, atendendo-o. Era um sanguíneo, magro, de rosto escanhoado e duro. Tinha uma frescura de lavagem na pele, e um perfume de óleo fino desprendia-se dos seus cabelos, menos loiros que o bigode, cortados com esmero, assentes em uma placa encurvada em traço firme de pente, pelo lado direito, sobre a testa.

— Mas, como queres que eu te ajude?

— Ora! como hei de querer? Da maneira que puderes. Empresta-me dinheiro; se o não tens, dá-me, pelo menos, uma esteira neste quarto.

O guarda-livros arrepiou num calefrio; mas devagar, com paciente calma de analisador, retorcendo sempre o bonito bigode loiro, notou que o primo curtia necessidades — deixara crescer a barba, uma forte barba azeviche de frade capucho; faltava-lhe corte na cabeleira, em todo ele havia um constrangimento, um mal-estar disfarçado: a gravata, caindo em asas mortas de borboleta sobre a gola do paletó, ocultava suspeitosamente o desasseio da camisa; o último lampejo do brio amarelecia no celulóide dos punhos e colarinho;

joelheiras monstruosas davam-lhe às calças deformidades d'elefantíasis; os botins cambavam, derreados. .. .

E envergonhou-se da desgraça de Agrário, enrubesceu diante daquele parente necessitado, d'aspecto desprezível de boêmio, como se lhe pudessem acusar origem baixa, atavismo de gentalha de província internada pelos bairros confinantes, junto à muralha dos quartéis, onde mulheres escanifradas e piolhentas ensaboam roupas, cachimbando. Vergonhoso, decerto, era ver um quase irmão reduzido àquele estado. E, mais humilhado que condoído, disselhe:

— Bem. Se tu quiseres vem morar aqui. Quanto a dinheiro. .. . nem níquel!

— E os meus móveis?

— Tu tens móveis! — exclamou Melo Castro admiradíssimo.

Agrário não pôde conter o riso. Fora uma blasonada ridícula à sua posição. E emendou com desdém:

— O meu cavalete, a cama, uns cacaréus. .. .

— Ah! sim — compreendeu o guarda-livros. — Podes trazê-los. Aqui há espaço.

— Mas, para isso, meu caro e generoso primo, preciso dinheiro.

— Homem, queres saber de uma cousa? — redargúiu Melo Castro, resolvido a definir a situação — aqui tens esta mansarda. Serve-te dela como te aprouver, és meu primo-irmão e meu amigo, eu cumpro um dever socorrendo-te. A respeito de dinheiro, porém, estou a tinir: vou alcançado no crédito e nenhum motivo me obrigará a aumentar a lista dos credores. É esta a verdade nua e crua. Resolve-te.

Agrário ouvia-o quase desatento. Os arranjos domésticos do primo despertavam-lhe reparos meticulosos. Uma mobília de vinhático reluzia, polida e espanada; sobre o largo toucador mulheril, decorado por seu simples e elegante serviço de porcelana inglesa, o artista notou uma variada bateria de frascos de essências, bocetas de pós preciosos, púcaros de perfumadas gorduras epidérmicas; seus olhares aguçavam-se pelo quarto, examinando invejosamente os objetos: a caixa maciça do guarda-casacas, a limpidez do espelho que lhe cobria a longa porta chanfrada; lá, para um canto da parede, o fofo colchão da cama, a alvura dos lençóis, a ordem do guéridon, um macio pelego para os pés. .. .

— És cuidadosof! .. .. Vives bem. .. .

Mirou-se na longa porta do guarda-casacas: uma apoplexia de vexame sufocou-o, umedeceram-se-lhe os olhos em frente desta imagem miserável de farroupilha, e não tendo Melo Castro dado ouvido às suas observações, despegou-se de diante do espelho com um gemido:

— Bem. Obrigado. .. . Até logo.

Ao cair da noite o pintor encetou a mudança. Ele e Camilo Prado trouxeram embrulhados alguns objetos. O transporte dos móveis consumiu três dilatados dias de vaivéns afanosos, porque os traziam sob disfarces e fingimento. Foi precisa a prática de estratagemas contrabandistas, foi preciso o arrojo velhaco de ladrões das fronteiras, para saírem incólumes do interdito extrajudicial dum sublocatário lesado. A cama, um diabo de trambolho complicado de pinho e vinhático, transformou-se num impossível. Cansaram em planos e projetos para retirá-la, mas só partida, serrada em pedaços, feita em discretas porções inajustáveis ao depois. Camilo, corroído pelas modernices cépticas, filosofou com sarcasmos a todas as camas do mundo. Era' o traste Mais fraste que o comodismo humano inventara: possuía todos os defeitos — como móvel não passava de uma pretensão aparatosa do burguês, acarretando gastos supérfluos em linhos, painas e sedas. .. . Para quê? Para tornar-se um imóvel! Como utensílio, não se podia negar, eram prejudicialíssimas — relaxavam os músculos, prostituíam as energias.

— De resto, é o que tu vês — arengava ele, queimando o cigarro e com visagens de nojo —, um empecilho", atropela a liberdade dum homem! Até obriga-o a saldar, indiretamente, suas dívidas! Vais pagar ao idiota do sublocatário contra a tua vontade, porque este maldito trambolho resiste aos nossos planos de mudança. Isto reduzido a cobres compensará o desfalque. De sorte que, meu amigo, por causa da sua inamovibilidade, não poderás completar a ação mais digna de um rapaz de talento — ferrar um calote! Eis para que foram inventadas as camas: destruir a tranquilidade das consciências e. .. . multiplicar os casamentos.

E como Agrário ria, achando-lhe espírito, ele ajuntou serenamente:

— Tu tens a filosofia de Fígaro", ris de tua própria desgraça. .. .

Aboletado no pequeno e asseiado aposento de Melo Castro, tranquilizado com a certeza de um teto que lhe não reduzia os já escassos recursos de alimentação, Agrário volveu ao seu vezo de fazer cenáculo, criando o seu concílio de adeptos, em que pontificavam opiniões e doutrinas de Camilo.

Agora as reuniões tinham lugar no segundo sobrado da Pension, posto que, desde as primeiras, o guarda-livros franzisse arreganhos superciliares, desaprovando aquele ajuntamento quotidiano na sua mansarda, sem respeitos pela excessiva disciplina do seu Íntimo viver. Não obstante, durante o dia, o jovial conciliábulo dos Insubmissos sucedia-se fregitentemente. O grupo, por uma parte perdera o Viotti e o Colaço, por outra ganhara mais alguns concordantes; vieram o Sforzani, um marinhista já reputado; o Valeriano Costa, que arrastava a sua fealdade de caboclo miseravelmente pela vida, com um curso de perspectiva em que se dizia "profundo"; um sorumbático Requião que pintava letras nas horas vagas e o ruivo, o rubicundo João Vieira, o crônico, surrado por doze anos de Academia, que se dava a aguarelas e cobrava para uma Sociedade Beneficente, porque João Vieira sobrecarregava com a responsabilidade de uma prole! Porém, essas reuniões, não excediam dos motejos e algazarras de bons rapazes alegres; mais de política e volúpias cuidavam eles, com calor de frases, do que de tracejar e combinar tramas revolucionárias nos domínios da Arte.

À boa disposição de Agrário para fórmulas que tivessem o guizoriar da novidade, a marca parisiense da moda, Camilo enflorou, em palestra confidencial, idéias de uma agremiação, e para instituí-la falou nas gerações francesas que firmaram épocas, relatou e inventou casos da mocidade romântica, a tradicional bohême galante, unida por um Ideal, nevrosada pelas mesmas aspirações, que saíra a demolir, a subverter princípios, para erguer sobre os escombros de vetustas barbacãs clássicas os torreões minareteados dos seus sonhos.

Agrário acolheu a exposição do amigo com palmas, jubilosamente. Era o que ele desejava.

— E bravô! Bravô! Viva a rapaziada!

O outro recuou, ansiando, agredido por esta achincalhante exclamativa, mas de novo enfrentou-o, posto que assombrado e lívido.

— Deus meu! Deus meu! — exclamou. — Estou a dizer cousa séria, a impelir minh'alma para estas simples, amigas palavras, e tu saltas daí com uma frase de festa da Penha. .. . Pipocas!

O pintor pasmou:

— Mas, qu'é, homem? Ora, dá-sel. .. . Isso é entusiasmo. Eu estou de acordo com o que dizes. Também quero a reforma, a reforma ou a revolução, como gritam os políticos.

Camilo teve o olhar fito nele, demoradamente; após, com um retalhado sorriso gotejando amargores, com o gesto paciente, explicou — que não era caso para gritarias e estonteamentos. Deveriam tentar uma reforma, exemplificada no movimento atual da França. Seria um movimento consciente, trabalhoso, honesto, de intuitos práticos. Para conquistar esse progresso, não poderiam remontar-se ao tempo da brava jeunesse de Gautier? !, do gigante, trovejante Théo. Os ardentes impulsos quixotescos do romantismo inarmonizavam-se com a circunspecção analítica do tempo vigente. A mocidade de hoje, grisalha, excogitadora e morbosa, não tem pulso de atleta, capaz de transformar em caraça d'entrudo o focinho suíno de um respeitável imbecil. Assim, a imposição dependia de perseverança, o que já estava definido numa frase final da Oeuvre, que sai da boca de Sandoz: — Allons nous en travailter!"

— O trabalho será, pois, o nosso murro-de-hércules, será a nossa força convincente. Mas, trabalho com entusiasmo, trabalho enérgico, que se o tenha simbolizado na persistência encorajada dos malhadores das forjas. Façamos das nossas aspirações uma oficina em que cada um de nós terá a sua bigorna e a sua tarefa. O academicismo nos impõe suas formas, não é?

Desprezemo-lo e desprezemo-las. Costas à Academia! E vamos fazer em nossa oficina o contrário do que é letra dos seus códices, do que é dogma dos seus cânones, porque faremos novo e bom, vivo e forte! Foi assim, meu amigo, À que a paisagem se libertou da parte accessorial dos quadros, surgiu vitoriosa da geometria dos sombrios processos oficiais. Quando os poussinistas ficaram entregues às paredes dos seus vazios ateliers, foi que ela se fezarte pela ) independência do sincero Paul Huet, de Théodore Rousseau, do rústico e adorável Corot. .. º"º E é isso o que devemos fazer.

"Nós não somos criadores, não trazemos a chama messiânica, somos os continuadores, os apóstolos; não temos mais que seguir as pegadas dos que inovaram, ou pelo menos dos que reformaram.

"A arte de pintar está paralisada neste país, enfezou nos cueiros. Enquanto ela, na Europa, se serve de uma técnica vigorosa, possui todos os segredos da refração da luz, do prisma solar; todos os recursos da química, que lhe dão a transparência das tintas, a segurança dos valores, a límpida simplicidade dos tons, aqui continua nos arcaicos processos onânicos da pintura friccionada, esbatida e raquítica, sem nervos, sem sangue, sem alma! É uma masturbação à blaireau.

"E o que pode resultar deste vício secreto senão a clorose desanimadora, o contágio desmoralizador que estamos observando? Vocês vivem na Academia, como se vivessem num internato de padralhões sórdidos, sob o jugo da rotina e a infecção do sodomismo, bestializam-se e esgotam-se. Para cada parede que olham, em cada passo que fazem, têm o mau exemplo, uma arte sem valor técnico e sem espiritualidade. A Pinacoteca aí está, reparem em suas coleções. Que pobreza! que impotência! Não se nota na maioria dessas obras uma alma, um temperamento. Concepções tomadas de empréstimo ou servilmente imitadas, execução frouxa, fraca, inútil; aí tudo é negativo, é reles ou é chato; não afirma um talento, não constata saber. Os panejamentos tanto podem ser panos como pedras, as carnes aproximam-se dos rabanetes pela cor, ou das neves amorangadas dos saraus, pela densidade. Um horror! .. ..

E preparando o cigarro, enquanto Agrário, pensativo, pregara os olhos no soalho, voltou teimosamente à sua idéia:

— Olha, ninguém poderia iniciar este movimento como tu o podes. À tua habilidade de pintar está acima de complacências, desenhas tão bem ou melhor que os teus mestres, gozas de simpatias na imprensa e de provada afetuosidade dos teus companheiros; és corajoso e forte, e sobretudo, mais que outros, possuis alma de artista, sabes ver, sabes sentir. Rompe de vez com a chatice pública, manda ao inferno a Academia. Pouco te custa.

O pintor teve um sorriso subtil, mas ergueu os ombros desanimado:

— Vontade tenho-a eu, vontade me não falta. .. .

— E. .. . então?

— Então! — fez uma pirueta, erguendo-se da cama onde estivera sentado, e de pernas abertas, polegares nas cavas do colete, com a sua estudada canalhice de experiente e prático: — É que eu não posso. Tu sabes que estas cousas não estão na vontade do artista, são um conjunto fatal de circunstâncias. .. .

Camilo interrompeu-o:

— Basta! basta! Tu escangalhas, desapiedadamente, o meu bom humor. .. . Olha, meu velho, tu saíste do internato de padralhões, eu te dizia há pouco. Saíste. E foi de lá que trouxeste este ranço. Tem paciência, o conjunto estabelecido por Taine' só é aplicável às velhas nações históricas. Nós outros, americanos, somos produtos de um amontoado de todas as raças, em que predomina mais esta do que aquela e, portanto, a nossa vida espiritual resulta d'afinidade da raça predominante que, para nós, brasileiros, é a latina, por seu ramo português. Como perceberás, é esta uma questão complicada de que podemos prescindir e a que me furto, por felicidade tua e descanso meu. Deixando de parte a formidável preleção étnica, em que fomos tropeçar, vejamos em síntese, cujo desvalor está explicado pela intimidade da nossa palestra, as linhas gerais desta causa, direi melhor — deste motivo. Tu não ignoras, eu creio, que somos um povo independente por sua política, temos as nossas leis, a nossa administração interna, somos uma nação oficialmente constituída.

Ora bem. Mas. .. . aqui temos uma adversativa esbarradora. .. . Mas, esses atributos não pressupõem nacionalismo, na verdadeira accepção do termo. Insensível, inapercebidamente, opera-se conosco a fusão dos mais dessemelhantes elementos, estamos num adiantado período cósmico. O que vier, após laborar de séculos, será outro povo, perfeito ou imperfeito, mas, sem dúvida, desviado completamente do primitivo que, por sua vez, foi assimilado, fundido, apurado, como se tem dado com os cessantes, minguados fatores aborigens. A nossa preceptora espiritual, por primazia de maioridade e por estabelecidos princípios de idoneidade, é a Europa. Dela recebemos as idéias coordenadas, etiquetadas, prontas para o consumo de seres mentais; dela recebemos as fórmulas indispensáveis ao direito de partícipes da comunhão civilizada, os moldes restritos do progresso. Sendo assim (o que me parece irrefutável) a Arte, para todas as nações que nasceram da civilização d'Ocidente, é uma e a mesma, e apenas variando em particularidades d'expressão, que vêm do acordo com o traço psíquico da raça dominante em cada meio de produção. Daí concluiremos que, nº América de hoje, talvez de amanhã, sobretudo na sua parte meridional, não existe essa característica que acentua, pelo involuntário concurso dos produtores, a origem nacional da obra artística. .. .

Agrário debruçara-se à janela, azoinado, sem saber o que opor à estirada do amigo. Porém, de repente, rodou nos tacões, agitou os braços aflitivamente:

— Mas, Camilo, que hei de eu fazer?

— Oh! senhor. .. . Nada mais simples: aproveita o teu talento, entrega-te à tua própria idiossincrasia. Toma a tua palheta, vai para a natureza, estuda-a, observa, revolve, esmiúça, procura nela o que ela há de ter unicamente para a tua visualidade, fixa essa nota, desenvolve-a, vive para ela, dá-lhe a tua alma. .. .

— E depois?

— Depois, terás conseguido a tua arte, nota bem — a tua arte! — e outros virão fazer com a mesma independência, animados pelo exemplo triunfante do teu lutar. Depois cairão os estafados preceitos do academicismo, o sistema-métrico das concepções guiadas, os dogmas estéticos do ensino oficial. AÍ tens tu, é o início da revolução com que sonho.

A palavra apaixonada, cálida, sonhadora de Camilo Prado, bateu nos ouvidos do pintor como um rolo de ferro rojando pelo bojo fônico de um bronze — reboou, alarmou.

Subitamente, despertaram-se-lhe os rancores. A Academia pareceu-lhe um monstro visguento, sorrateiro e pinchado; os óculos do Comendador Betâmio e a garra mumiática do Comendador Nogueira carregavam-na com torcicolos de quimeras chinesas nas lacas e marfins sagrados. .. . E era contra esse monstro esguelhudo, acocorado, sinistro, que esgazeava a estrabice hipócrita dos echacorvos? , que mastigava esgares de vinganças premeditadas com as mandíbulas senis e esfuracadas; e era contra essa insuportável influência de caturras ensobrecasacados, condecorados, respeitados, que ele se devia revoltar, desforrando-se da injustiça sofrida. A revolta! este termo correu pelo labirinto veioso do seu organismo, penetrou na tecedura de seus nervos, escoou-se-lhe para a medula, incendiando-o. A revolta! desde então, coriscaram em seus lábios críticas, apodos, apóstrofes; desde então, ele moveu-se remordido pelos despeitos, inquietado com a prurigem das vinganças. A voz de Camilo fora-lhe o bafio morno do morbus, a lufada asiática dos arciais que levanta a rocada crosta da verminação dos pauis, contaminando os seres, envenenando o ar. Por seus pensamentos flamaram fogaréus satânicos do laboratório convernoso de Megeras, uma atmosfera asfixiante, de miasmas, ficava-lhe n'alma, a estonteá-lo, e nesse ambiente recôndito, que só ele tinha em si próprio, o seu orgulho batido, a sua presunção repelida e vexada deliravam.

Se se revoltasse, sobrepujaria os que ora estavam de cima, nos garatujados palanques das galas sociais; aterrorizaria os scus juízes com o arrojo do seu ato e talvez com o prestígio das simpatias adquiridas; o seu nome, vago como um astro indeciso, resplandeceria de repente; para ele todas as atenções — o elogio, o amor, a proteção, a glória! Teria, como esse Telésforo de Andrade, que o Império mantinha prodigamente na Europa, sobre as rimas das esterlinas, sobre os pacotes recontados dos bilhetes bancários, o coro das homenagens, os roupões descolcheteados das felicidades. Em torno dele deslumbramentos de riqueza: sumptuosidades de palácios, magnificência de areliers famosos, a romana existência cesarina da fortuna! Ainda em torno dele, deslumbramentos de gozos: ao estender do braço, ao aceno indicativo dos lábios, num soberano gesto de sultão, as mais belas mulheres! mulheres morenas da Ibéria. .. . mulheres loiras da Germânia. .. . mulheres gracis' da Gália. .. . mulheres de todas as regiões, como os sumptuosos banquetes desse tempo soterrado na História, de que falavam Camilo e o Colaço, num país flavo de sol, sob tendas de seda lavrada, onde havia uma imperatriz de nome cantante e terno, que acolhia os amantes nas colgaduras do seu palanquim doirado, suspenso nos ombros de vinte e quatro escravos! .. .. E por que não se revoltar? Nunca essa palavra despertou-lhe tanto calor, tantas idéias! nunca, como hoje, seduzira-o tão fortemente!

E, a fio na cama, cigarro ao lábio, passava em revista mental as obras de seus mestres. Camilo tinha razão, tudo isso era chato, nulo, abjecto! Ele, por si, julgava-se capaz de vencer, sem esforço, essa pequenina arte gafada e trôpega. .. . E se tivesse a ventura de estudar na Europa, durante cinco anos, que não faria ele? .. .. Ah! bastar-lhe-iam quatro, três anos, nessa Paris desejada. .. .

Um sorriso arregaçou-lhe a boca, untuosamente, numa pegajosa doçura de favos sorvidos; suas pupilas clarearam em alvoradas, distendeu-se por seus músculos uma volúpia. .. . Paris emergira nas distâncias nevosas de um sonho, desdobrara-se na sua visão, grande e ofuscante com suas cúpulas, as suas torres, os seus palácios. .. . Era bem a Paris dos seus pensamentos, era bem essa Terra Prometida dos gozos, opulenta e risonha quermesse de encantos, esta que lhe aparecia. .. .

E ela inteira, rumorejante e esplanada, vivia no aroma das suas flores, na respiração dos seus boulevards, no hálito das suas alegrias, que formam uma tentadora atmosfera de seduções, cheia de Misérias. .. . mas plena de Amores. Ah! Paris! .. .. Paris! .. ..

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