Capítulo VII Mocidade Morta · Capítulo 7 de 19
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Capítulo VII

VII

Uma tarde, nas colunas da Folha explodiu o Zur.

Camilo soltou o primeiro grito num ousado folhetim, escalpelando as condições antiestéticas do meio fluminense e, sob a ironia fundibulária da sua prosa, apresentava o Zut como um — bando rebelde — proclamando a liberdade absoluta das escolas, salvando e dignificando a Arte.

"Zut, este simples vocábulo, por mais frívolo que pareça, resume uma revolta; é uma divisa de Cruzada. Nascido da ruidosa alegria da mocidade, silvando entre um assobio de corrimaça, e a gargalhada de um ridículo, será como a onda do pocta do Année Terrible" — fluxo marítimo cuspido à praia, mas, de imprevisto, tornando-se dilúvio. .. ."

À porta da Havanesa comentou-se o folhetim, em grupo. Agrário distribuiu dez números da Folha aos rapazes, e Artur de Almeida leu a meia voz, na calçada, sob a oscilação trêmula do crepúsculo penetrante, as cinco colunas do rodapé, com aplausos do Sabino, do Franklin, do Alves Pena que exultava com a vitória dos "seus artistas". Quase à noite, chegou o Braguinha a grunir despeitos porque Camilo não se referia à música.

— E demais — dizia a sacudir-se, a gingar, atrapalhado com o pincenez que desmontava-se a todo o momento — eu não sei o que seja Zur. Estudei dez anos o latim, fui seminarista, conheço o vernáculo como a estes cinco dedos e a respeito de Zur. .. . palavra de honra! estou raso como uma porta.

O fuinha Sousa chegou, também, a chalacear com o título:

— Qu'é? Vocês sabem? .. ..

O grupo crescia, Reuniram-se-lhe o Vieira, com o seu maço de recibos a cobrar, um lenço nas roscas do pescoço, debruçado em ângulo sobre a gola; o Zebrão, um pintor de estatura agigantada, espadaúdo e bruto, cujo nome Sebrão os companheiros corrompiam n'alcunha ofensiva; um marselhês chamado Julien Story que pintava por não ter ocupação; o rebelde Sforzani a mascavar palavrões com a ponta dum cigarro de fuzileiro; o Lóssio, um dos Insubmissos, que abandonara a aula d'escultura; o queixoso Valeriano Costa com o seu profundo curso de perspectiva, outros e outros. .. . A rebeldia avolumava-se.

Formou-se uma legião ao rebate de Camilo.

Sebastião Pita, derrubado das suas ilusões, também queria fazer-se rebelde. Pedia, suplicava, já choramingando, que aceitassem a sua Partida de Colombo na primeira exposição; e, com uma esperança parva no olhar, apertava sob o braço o embrulho da sua tela repudiada. Um sussurro suspeitoso e odiento colmeava por entre o ajuntamento, em permuta de planos. Depois da leitura do folhetim falava-se em voz segredante, com cautela nas frases e nos olhares.

De então a curiosidade farejava por aquelas portas, à hora presaga dos poentes.

Vultos timoratos cosiam-se com os umbrais, dissimulantes, perscrutadores. Artistas gafados que iam fazendo a sua bolsa como a sorte os ajudava, engendravam ardis para se acercar das rodas, com disfarces d'esculcas.

Cousas fabulosas estonteavam arrevesos sibilinos de morcegos a respeito dos rebeldes. O grupo reunia-se secretamente, tomava atitudes misteriosas de conluio, era de supor que tivesse uma sinaxe', a caverna druídica das sessões, o homízio de uma catacumba e se correspondesse com símbolos maçônicos!

Agrário, apontado como cabecilha intimorato dessa revolta, tendo se retirado definitivamente d' Academia, expusera a sua tela preterida no concurso — o Sacrifício de Abraão — e a imprensa, embasbacada diante das barbaças empoladas do austero bíblico que corava, envergonhado, no seu terrível colorido acadêmico, rompeu des'logo, sacudida d'indignação, contra a injustiça. A Folha flamejava, como um gládio vingador, apontando os Julgadores à execração pública, e vergastava-os, zurzia-os com flagelações de apóstrofes, numa convulsão de cóleras antigas.

Daqui, dali, de um e de outro ponto, surdiam represálias aos que não vinham comungar com os Insubmissos, e logo as perseguições, os desrespeitos, as desforras espoucaram. Já não era a Academia o espectro mau, a sombra maldita que se antepunha à claridade das inovações, à luz levantina do progresso da Arte; outro elemento a combater antojava-se ao desenvolvimento do gosto público — a incapacidade dos velhos artistas.

Contra esses, que formavam o privilégio do Sanhedrim da Arte, as usanças retrógradas e tirânicas das bolorentas leis, seria precisa uma avalanche formidável que os solapasse, porque conservavam o monopólio da profissão e o esclarecimento atendido da Estética. Eles eram, por sua vez, um esteio moral d' Academia, a coluna d' Hércules do Sancionado. Fazia-se urgente golpear o esteio dos preconceitos, derribar a mole erecta do inquestionável. Volveram-se contra eles. Le Grand, um retratista notabilizado na burguesia comercial, sofreu o primeiro e violento embate da derrocada.

Uma tarde, Alves Pena apareceu na porta da Galeria "Moncada" com um embrulhinho misterioso. Acercaram-se dele, curiosamente. E o boêmio, na sua impertubabilidade cínica, desmanchou vagarosamente o embrulho, retirando pedaços e pedaços de papel, pedaços e pedaços de pano. Ao termo dessa operação, que ele praticava com lentidão e gozo, uma asquerosa imundícia ficou-lhe na mão, sobre um molambo.

Camilo cuspiu, com náusea:

— Porco! .. .. Isto é uma indignidade.

Alves Pena, porém, aproveitando-se da inadvertência do empregado da Galeria, foi sujar um retrato de benfeitor de Irmandade que o Le Grand expusera.

— É o justo prêmio — afirmou, com a consciência tranquila dum executor da lei.

As chufas, os anúncios deprimentes, as obscenidades, choviam sobre os quadros expostos nas duas galerias da Rua d'Ouvidor. Elas, por fim, já se negavam a expor. Um terror alastrava na ala dos contrários.

E todas as noites, após a confabulação d' Havanesa, Alves Pena guiava o grupo para o chope da Guarda Velha ou seguia Camilo para a Brasserie Pelotense, onde se questionava os projetos de uma exposição e as vinganças futuras. Artur de Almeida persistia na idéia de um Salon, à maneira dos dissidentes em Paris, mas Franklin discordava por achá-la imitadora, propunha um assédio à burguesia, trabalhando cada qual para expor o maior número de quadros em diversos pontos da cidade, assim o rude burguês não daria um passo sem esbarrar com o nariz numa tela que tivesse arte, que fosse o protesto irrecusável contra o que até então lhe tinham empulhado. .. . Seria um processo novo e eficaz.

Uns propendiam para o projeto do Artur, e esses formavam a maioria;

outros, raros porém, inclinavam-se para a inovação do Franklin. No entanto, de parte a parte, o entusiasmo faiscava sob a influência conciliadora de Camilo.

— Sejamos coerentes — aconselhava ele — aceitemos as cousas como elas são e não como as desejáramos. Antes de tudo, e isso para afirmar a existência de vocês, precisamos de uma exposição, que seja um documento, que se torne um fato. .. . — Aplaudiram-no, unânimes, com júbilo. E dali partiram a procurar assuntos, dispostos à vitória. Sabino, antes de agarrar-se ao trabalho, queria modificar o nome, porque o seu lhe parecia vulgaríssimo e desagradável à retenção memorial da posteridade. Sabino Gomes era chulo, desgracioso, mole. .. . Desejava um nome que soasse como um rufo de caixa de guerra, à maneira do de Courbet, ou tivesse a extensão de uma nota triunfal como o de Delacroix! Estes, sim; eram nomes! E cansava-se, ciliciava-se, na combinação de anagramas dissonantes, impenetráveis, cacofônicos que produziam imprevistos irrisórios, até que lhe fizeram notar que o seu nome trazia o fatalismo benéfico de uma semelhança — Gomes era o apelido de um já imortalizado, do glorioso Carlos, o Carlos Gomes. Assim seria outro Gomes notabilidade, que deixaria ao Futuro a dúvida biográfica de uma privilegiada família de artistas: o Carlos Gomes músico e o Sabino Gomes pintor. E — Agrário explicava — "o acaso carregara mais na tinta ao Sabino para não atrapalhar aos Vasari", Resolvida esta importante questão, Sabino decidiu entrar em labor, arqueando com o sacrifício de vender alguns cacaréus e contrair dívidas para adquirir uma tela grande e larga como uma porta d'armazém. Meteu-se no afã duma exposição histórica — Vercingétorix" diante de César — coadjuvado pela boa vontade de Alves Pena, que se prestou a duas sessões para O Vercingétorix, munido duma cabeleira de teatro e cruzando pelas gâmbias peludas cadarços de lãzinha vermelha como atilhos de coturnos. César, o dominador, foi apanhado no bosquejo de três horas sonolentas, por provada dedicação de um barbeiro, amigo do rapaz. Espapaçou-se na tela um César sacristão e dengoso, com adiposidades suínas de apolentado, que lhe traíam as origens aldeiãs; mas, uma fita branca, diademando a cabeleira e um lençol fazendo de clâmide — deixavam suspeitas d'autenticidade do sexo. Apesar da celebrização que lhes emprestava o quadro, eles julgaram de melhor aviso continuar a obscuridade de seus destinos que se esfalfarem com bocejos e impassibilidade de postura em frente de Sabino; desertaram de seus postos e a tela ficou abandonada no fundo dum mísero quarto sem luz, enchendo, em diagonal, do teto para o soalho, a parede desmantelada com a largueza do seu arabesco clássico, lançando num desenho seguro e limpo, que faria inveja a um artista.

Ao mesmo tempo o Sousa andava numa azáfama, nervoso, mais gago e mais original, a caricaturar-se em todas as posições d'elegância e exageros de roupa, a reproduzir-se por todos os sistemas de desenho, a lápis, a pena, a carvão, consumindo três volumosos álbuns de capa de linho; e o Artur de Almeida, num sótão da sua serena habitação de filho-família, atacou resolutamente uma tela doze com prodígios de transformação anatômica num busto de Favorita, opulento de cor, mas em que se inculcava, irritante pelo detalhe, a erótica preocupação de um sovaco cabeludo. Franklin falava a miúdo n'Arrependida que estava compondo ninguém sabia onde, conquanto ele dissesse, a martirizar as duas falripas loiras do buço tardio, "que não se apressa' ria, havia de mostrar quais eram suas idéias de arte, porque Arte não é isto que rola por aí. .. .". O Lóssio, o escultor, também preparava uma cousa em gesso, que viria embasbacar o burguês e fulminar as Múmias d' Academia. Camilo afadigava-se com a peregrinação diurna à casa dos Insubmissos, religiosamente resignado, com o seu bigode chinês caído sobre os recalcos desdenhosos da boca emudecida e, no seu passo largo e vadio, de cada uma trazia desilusões que, temerosamente, ocultava, ensacava no íntimo. Um dia, em casa do Vieira que aguarelava um quadro, não lhe foi possível sofrear a estupefação:

— Mas, qu'é isto?

O gorduchito sorriu, frisando a finura do seu entendimento de artista moderno. — Está em mau lugar. .. . chegue-se mais para aqui. .. . mais um pouco. .. . olhe agora.

Camilo observou:

— Hum! sim. Vejo melhor. É um rio. .. . com dous barcos. .. .

— Nada. .. . nada. .. . É uma estrada. .. . Lá estão dous bois. .. . Repare com atenção. .. . Não vê uma árvore no fundo?

— Uma árvore?

E Camilo apertava as pálpebras movendo a cabeça, inclinando o busto para trás. — Uma árvore! .. .. hein? .. .. uma árvore! .. .. — Enquanto o aguarelista, amparando-o com ambas as mãos pelos ombros, procurava, cauteloso, colocálo no raio da perspectiva.

— Daqui. .. . Neste ponto. .. . Repare.

— Ah! .. .. bem. Então aquilo lá no fundo é uma árvore?

— Com certeza! Você sabe que a escola moderna tem dessas cousas, não detalha, é tudo simples, manchas e tons.

Camilo deixou-o falar. Estava vencido diante daquela formidável bota O único recurso que encontrou para desembaraçar-se foi o de elogiá-lo, animadoramente.

Ao voltar duma dessas acabrunhadoras visitas, em uma fresca manhã em que as pernas o levavam, preguiçosamente, por lajedos esbandalhados de ruas poeirentas, sentiu uma pancadinha no ombro.

Volveu o rosto. Era o Valeriano Costa, com o seu carão de caboclo nostálgico, que lhe rogava o favor de "dar uma chegada à casa de um amigo. .. . ali perto, para mostrar-lhe um trabalhinho que estava concluindo. .. . Destinava-o à exposição".

Camilo cedeu. Enquanto caminhavam o Valeriano rosnava contra a sorte, exaltando o seu profundo curso de perspectiva, dizia-se vítima d' Academia e do estrangeirismo que ameaçava apoderar-se da arte nacional. .. . E a sua queixa tinha o quer que fosse de cavernosa e tocante, como uma voz plangente que viesse de geenas das galés.

— É aqui — disse ele, parando numa soleira.

Um corredor escuro e úmido estendia-se, sem fundo, à força da luz vernal que batia fora, nas fachadas brancas.

Penetraram nele, galgaram os dous lanços duma escada íngreme, esbeiçando degraus gastos que resmungavam sob os passos; em cima havia uma suja parede sem cor, tristemente ensolarada pela tosca clarabóia do teto esfumado.

— Sem cerimônia, vá entrando.

Ao termo deste segundo corredor pararam defronte de pesada porta pintada de branco, escarrada de manchas, amarelecendo no deleixo. Valeriano bateu com o cabo do guarda-sol d'alpaca. Uma máquina, que rodava vertiginosamente, parou, súbito, lá dentro. Houve um raspo seco de cadeira, arrastar de passos; depois a porta despegou-se do umbral num estalido desengatado de trinco, desdobrou nos gonzos, devagar.

Um sujeito, de versuda cabeleira e bigodes marciais no escarvado rosto lívido, arredou-se um pouco, cortesmente, para Ihes dar entrada. Era um homem muito alto e tísico, com os ombros montados no pescoço, enrolado numa manta sebosa; o casaco miserável pendia-lhe no corpo carcomido semelhando asas desconjuntadas duma ave sortílega.

Valeriano Costa fez a apresentação de Camilo, que o honrava com a sua amizade. — É, Senhor Castro, um jornalista considerado. .. .

O tísico dilatou uma boca sarrenta, dignificado, cheio d'admiração e respeito, e foi logo apanhar uma cadeira imunda, que estava num canto, atopetada de panos, para oferecer descanso ao moço.

— Só um instantinho — dise Valeriano — vou buscar o trabalho.

E embarafustou por uma porta, ao fundo da sala. O sujeito sentou-se diante da sua máquina Singer, de pedalo; tinha o aspecto desolado dum penitenciário, todo curvo como uma vara de pântano; mudamente, enleado com a presença do jornalista, começou a estender tabaco desfiado sobre uma mortalha de milho, arrumando o canutilho do cigarro com a unha rapinosa do polegar. Por duas janelas abertas, em frente aos muros claros dum sobrado, entrava uma grande claridade alegre na sala, forrada de restos descorados dum papel que fora branco; por cima o teto em losangos escurecia emporcalhado pela moscas, o soalho negro tinha placas d'escarros e neste quadrado nu, sem mobília, desmantelado, batido pela luz franca, compreendia-se a indiferença L duma miséria devassada, sem resistências, a agonizar. O Valeriano voltou com uma tábua em que branquejava a folha de um papel preso, nas quatro extremidades, por lentilhas douradas de carrapatos de desenho.

— Cá está. .. .

Foi colocar a tábua no chão, d'encontro à parede. Na brancura do papel, em traços rústicos de nanquim, avultava um informe desenho carregado, num corte oblíquo, em perspectiva; sobre esse corpo bruto, representando os muros duma fonte pública, surdia do centro dum terrado barroco, o remate decorativo duma esguia pirâmide cujo ápice ostentava a esfera armilar do escudo brasileiro, fisgada das três setas de São Sebastião.

— Sabe o que é?

— Sei. É o chafariz do Largo do Paço.

Valeriano sorriu envaidecido a explicar as dificuldades da perspectiva.

Os seus olhos esbugalhados, laivados de bílis, saíam do desenho a perscrutar a impressão de Camilo, mergulhando no seu olhar melancólico, com uma angústia interjectiva.

Camilo percebeu a febre que inquietava o pobre desenhista, tranqúilizou-o com engano e piedade:

— Sim, senhor! .. .. É uma prova. .. . é de quem sabe o que estudou. .. .

Os olhos de Valeriano volveram ao desenho, voltaram ao moço, rolando;

desconfianças atávicas no revolver dos globos, mas o jornalista congelava uma grande calma na fisionomia macilenta e triste; e ele, confiado, respirou com soberba:

— E é a quem faz isto que se despreza, que se ameaça com um concurso permitido a estrangeiros, que se deixa morrer à fomel. .. .

O tísico uivou na sua cadeira, num travo prosaico de alentejano:

— Morrer à fome. .. . não! que não lhe faltam amigos. .. . e bons, pobres, é verdade, mas honestos. .. .

Valeriano teve um vislumbre de agradecimento na caraça brônzea, arrebatou-se numa confissão íntima, contou a Camilo que se não fosse aquele amigo ele não teria o que comer nem o que vestir, vivia daquela dedicação. .. .

Ah! era esta a vida de um pobre artista num país que enche os bolsos do mundo inteiro! .. ..

— Nesta terra — trovejou surdamente o tísico, erguendo-se — não se quer quem saiba. .. . Ela é de quem mais rouba. Eu por mim lho digo, que também sou um artista, de outra arte é verdade, mas sou artista, porque ser alfaiate é ter uma arte. .. .

Camilo restringiu, com dificuldade, num sorriso concordante, a franca risada que lhe ia rasgar a boca, e os olhos desconfiados do Valeriano abaixaram-se, humilhados.

O tísico, porém, continuava numa afluência de queixas longamente represadas.

A sua elevada estatura, d'ombros curvos, crescera na sala vazia; mais hirsuta tornara-se-lhe a cabeleira, os gestos das suas manoplas esqueléticas continham arrebatamentos a ferver-lhe no sangue e todo o seu arcabouço anfracto lembrava um profeta apocalíptico a bramar, a injuriar numa voz subterrânea e arfante. De momento a momento pigarreava, sugava fumaraças largas que recolhia à garganta, despejando-as pelas narinas, despejando-as com as apóstrofes; mas um dos tragos, sob a emissão duma palavra, convulsionou-o em acessos de tosse. E foram minutos de ânsia, a esburgar os pulmões corroídos, que ele cuspia a esmo, pelas paredes, pelos cantos, no soalho negro.

Então Camilo despediu-se com uma consolação para o Valeriano — prometeu defender a sua causa nas colunas da Folha, e pisou a calçada com uma opressão n'alma. Realmente, tudo isso desapontava-lhe, desiludia. .. . Mas, que poderia ele fazer? Convencê-los de que iam errado? que pouco sabiam para tentar um confronto com osacadêmicos? .. .. Não, certamente; seria desazo, ofenderia pretensões. .. .

Acurvou-se ao acaso, mentindo-se, a si próprio, em complacências que se arrastavam por seu espírito como uma gosma senil arrancada com esforço;

mentindo aos outros, em superabundantes elogios que aqueciam vaidades como uma ternura sensual; mas, por horas, em momentos de concentração e verdade, resfriava-se aterrorizado dos resultados futuros dessa covardia. E entregava-se à inação dos vencidos, desabava para a casmurrice das cervejarias onde ia encontrar o Colaço parado diante do chope, a fumar sossegadamente, a sonhar com Wagner, idealizando uma música espiritualmente regressiva, que vivesse na sinceridade religiosa de Palestrina e tivesse o poder sugestivo do gênio de Bayreuth.

Agrário, por este tempo, aparecia raramente, afirmando que lhe eram poucos os minutos para os seus estudos. Às vezes, à noite, bebia um chope com os rapazes, mas com um pretexto qualquer despedia-se, à pressa, prometendo voltar no dia seguinte.

A grande exposição tão falada, tão questionada que parecia já uma realidade, foi adiada por falta de local apropriado; os dissidentes cansaram em arranjar um salão digno, com clarabóia, boa luz e entrada de escadaria. Desistindo dessas vantagens obtiveram a sala de um fotógrafo, mas surgia a necessidade de ornamentá-la, fazer um biombo de veludo grenate para os quadros, pregar estores às vidraças, correr um capacho pelo corredor até a sala, e para tanto não havia dinheiro, adiaram a exposição. Desistiram por mais uma vez dessas suntuosidades, resolvidos, então, a levantar um mesquinho, ordinário biombo de paninho roxo, mas somados os gastos faleciam recursos para a compra das molduras, outra vez adiaram a exposição. De novo voltaram a tentá-la, sujeitar-se-ilam às velhas paredes manchadas da sala oferecida; cada qual arranjaria as molduras que pudesse, fabricando-as com suas próprias mãos;

prescindiriam de catálogos e especiais convites impressos, era uma economia e um meio direto de realizá-la, mas desta vez adiaram-na. .. . para todo o sempre, porque, arranjadas as cousas, não havia trabalhos!

Os únicos que podiam expor eram o Sousa e o aguarelista Vieira. .. .

A decepção encachaçou o grupo, vergou-o à golilha da impossibilidade como a um bando de sentenciados. Demais — os principais interessados não reclamavam. Agrário tornara-se invisível, havia oito dias que não tinham notícias dele; Camilo, cada vez mais magro, ósseo e pálido, ia declivando por uma melancolia de spleen que ele procurava rebater com abusos de cerveja.

Para se o encontrar era necessário correr as brasseries solitárias, onde o desencavavam no recolhimento de um canto, quase sempre só ou com o Colaço, defronte do seu chope espumarento. E daí uma luta para se lhe arrancar as palavras. O spleen trazia-lhe rudezas e violências, mesmo no desdém pelo entusiasmo dos companheiros tinha assomos de ira, e os sarcasmos lhe vinham espontâneos aos lábios com a saliva. Que fazer?

Duas semanas depois, reuniu-se parte do grupo em um Café. A proposta partiu do Sabino. Foi ele quem, aprumado, num segredante puxar de cadeira, e com voz gutural a fazê-la baixa, lançou a primeira idéia. Propunha, sensatamente, um acordo — entre eles que formavam o Zur, e o Estado, que mantinha a velha Academia. Conduziu com cuidado a proposta à evidência dos acontecimentos — estavam sem meios de estudos, eram paupérrimos, ninguém os coadjuvava nas suas aspirações e se achavam incompatibilizados com a corporação acadêmica, assim fariam um abaixo-assinado pedindo ao Governo para fechar a Academia reduzida à frequência de meia dúzia de discípulos, e instituir ateliers livres.

Em derredor as cabeças inclinaram-se, aprovando; mas, numa cadeira, luziram dous olhos redondos, esbugalhados tranquilamente para o ar, como se procurassem com vagar, resignados e preguiçosos, uma quimera perdida e fugitiva. E esses dous olhos à flor de um rosto cavo, muito branco, donde saía sob o queixo agudo uma pequenina touça de pêlos acastanhados, duma fineza virgem de primeira barba, pararam, cheios de claridade, sobre os companheitos. Eram os olhos do Lóssio. Todos, a um tempo, volveram-se para o colega.

Ele ia dizer alguma cousa, trazer a firmeza de um argumento à proposta. E no mutismo da roda caíram essas duas palavras, lentas, largas, claramente pronunciadas, vagarosas como seus olhos:

— Bem pen-sa-do.

Correu em torno, fechando os lábios, um sorriso respeitoso.

— Pois está feito! — disse por fim o Sabino. — Procuremos seu Agrário para assinar em primeiro lugar.

— Qual Agrário nem meio Agrário! — exclamou o Sousa, alvorotado; e curvando o busto para a mesa, queixo sobre o castão da bengala, o seu álbum de linho sobre as coxas, terminou: — Vão saber por onde ele anda. .. . vão saber.

— É verdade! Que fim levou Agrário?

À pergunta do aguarelista crispou-se a boca do Franklin como se quisesse acentuar uma descrença; entr'olharam-se desconfiados, temendo indiscrições preconcebidas. Então, Artur de Almeida noticiou que o companheiro estava de "rabicho" com a francesinha do Zur.

Ah! a francesinha do Zur! Maldita frase! Entrou imediatamente a preocupar a todos. Falaram dela com entusiasmo, bastava ser francesa! O Lóssio, no entanto, protestou contra o culto às francesas. Ele, por sua parte, queria as italianas, que eram mulheres da cabeça aos pés. Paixão só na alma de uma filha de Sorrento. Às italianas! as italianas! interjectava ele, rolando os grandes olhos para o teto do Café. — Ah! as italianas! .. ..

— Eu cá, sou pelas francesas — acudiu o Franklin.

Arthur de Almeida e o Sousa eram pelas espanholas. — Salero! Que diabo! a espanhola tem sangue, gosta de touradas e serenatas. Mandem uma espanhola arregaçar a saia e vocês hão de ver sapatinhos escarlates e meias amarelas. São as cores quentes, impetuosas, que desesperam a gente a poder de tanta vida! E o perfume, vocês sabem? o perfume das espanholas? Ah! se vocês soubessem! .. .. É cheirar o peito de uma rola e cheirar a pele de uma andaluza. O mouro andou pela Ibéria, e os tais Abbu-r-rahman deixaram sol d' Oriente naquele povo. Viva la gracia!

— Afinal — atalhou Sabino — a nossa brasileira não fica a dever nada às melhores mulheres do mundo. Os nossos jambos são saborosíssimos.

— Certamente — concordou o Arthur —, certamente. Uma boa mulata de ancas grandes, hein! .. .. peituda. .. . Ah! filhos! .. ..

Risadinhas nervosas casquinaram. Artur já se não podia conter no entusiasmo, passava ao gesto, mordendo os lábios, aspirando forte, olhos alquebrados, braços estendidos, visionando o corpo sensual de uma mulher: Í

— Deixem-se de histórias, mulatame na ponta!

Mas estacaram. Camilo chegava, entediado, mole, desfeito em nojo:

— Isto é horrível! é horrível! — disse com uma careta enjoadiça. E sentou-se, derreado: — Vocês não imaginam, há dous dias que não durmo, não me alimento, não sei da minha cabeça, não vivo! Telésforo me rouba o j sono, Telésforo me tira o apetite, Telésforo me emporcalha. Para onde volto os olhos, no ar que inspiro, nos passos que dou, encontro este maldito Telésforo de que os jornais andam indigestos, arrotando-o desde o cabeçalho até a última letra da quarta página. E já não sei que faça para me livrar desta perseguição. Se deixo de ler, os conhecidos me falam dele; se fujo dos conhecidos, os muros, as esquinas, as vitrines, os quiosques estão cheios de anúncios da sua exposição; se me deixo ficar em casa, os vizinhos, o caixeiro da taverna, o moço do açougue, a cozinheira, os mascates, mo lembram, porque Telésforo é j uma epidemia, Telésforo é um bacilo. Í Fez-se um silêncio: um assombro pairou em todos os olhos, dilatou alguns lábios. Até este momento Telésforo merecera-lhes respeito, era o Messias que devia chegar às portas da Cidade, com o ramo verde da reforma e ao som das aleluias dos crentes. .. . Havia dias os jornais anunciavam a sua chegada e o sucesso europeu da sua enorme tela, a maior entre os primores na arte h de pintar batalhas. O seu nome excedia ao de Bellangé, escrevia-se-o na mesma linha em que houvessem posto o de Horácio Vemet, obscurecia a glória moderna de Neuville! º E, agora, nesta desconsideração, eles sentiam alguma cousa de heresia, quase uma blasfêmia. Camilo compreendeu-os.

— Percebo que vocês estranham o que eu digo — observou ele, mansamente. — Talvez seja uma injustiça! Aretino pretendeu conspurcar Miguel Ângelo e, em Paris, houve quem sujasse o grupo da Dança de Perraud, na Ópera. .. . Mas, que querem? sou assim e, assim me expressando, estou de acordo comigo próprio; é do acordo íntimo que nasce a força de afirmar. .. . 9 O Vieira teve um sorrisinho mordaz, não se pôde conter:

— Então os que o elogiam, na Europa, são uma tropa de bestas! .. ..

— Não serão bestas! — volveu o rapaz —, mas ou interessados em elogiá-lo, ou indiferentes ao resultado do elogio que, generosamente, dispensam.

"Aqui, neste canto de terra selvagem, há quem possua uma carta encomiástica de Victor Hugo; um senhor qualquer rabiscou umas cousas, fez imprimir os seus rabiscos, mandou um exemplar deles ao grande poeta e o grande poeta agradeceu-lho, dizendo que o tinha lido, apesar de não saber ! patavina de português, mas, com o auxílio do latim conseguira entendê-lo! .. ..

o que faz supor que o livro desse escritor seja ininteligível aos que não sabem declinar o hora, horae. Agora, vá um de nós, pobres-diabos de bugres com cartola parisiense, dizer a esse escritor que o seu livro é uma borracheira! .. ..

Que vale uma eloquente crítica indígena diante de uma simples frase elogiativa J do poeta? .. .. AÍ tem o senhor Vieira o valor desses aplausos. Uma obra de arte não se faz pelo elogio, é ela que se impõe ao elogio. .. . quero dizer, o seu autor não convida críticos ao seu arelier, não procura amizades na imprensa, não pede opiniões dos "condecorados", entrega-a, confiadamente, ao público; julguem-na os que puderem. E, desde que o senhor me fez esta pergunta, eu estou com o direito de fazer-lhe outra. Quem foi que mandou à imprensa patrícia essas notícias que ela publica diariamente? Acredita o senhor, porventura, que fosse um ato espontâneo dela? que ela se desse ao trabalho de Í manusear revistas de que nunca recebeu senão o número de onde extractou h esses artigos? .. .. Ah! meu caro senhor, eu sou, infelizmente, um cozinheiro da imprensa, conheço esses truques e lá no meu toco de trabalho tenho também, Já traduzida e impressa, uma meia dúzia de encômios à "estupenda criação do gênio brasileiro" assinada por outros gênios que ninguém conhece. Olhe, veja se consegue a intimidade do Telésforo quando ele pisar a terra conquistada e V procure, na sua bagagem, as rumas de edições dessas vitórias, que ele há de trazer aos milheiros.

O risinho mordaz do artista-cobrador amareleceu nos lábios como se os tivessem untado com cera encardida. Franklin alteou o busto, e sacudiu a cabeça aprovando.

— Mas, seu Camilo — arriscou o Artur de Almeida com um jeito habitual de pescoço, de quem o sente estreitado no colarinho —, algum mérito ele há de ter.

— E eu lho não contesto. É forçoso atendermos às condições do nosso ) meio, para avaliar desse mérito, que você pretende descobrir: a artezinha que possuímos está cediça, a senilidade invadiu a Academia; chegou a hora da derrocada, os deuses foram-se. O Pedro Américo já deu o que podia, o Meireles ' está esgotado; dessa geração entanguida, que foi o fruto temporão de uma ' árvore transplantada e não cuidada, resta-nos o que se pode ver na Pinacoteca k e a nova glorificação do Bernardel! li, ?º na escultura. .. . Depois, o luxo e as delicadezas d' espírito, que são expressões concretas da civilização, vieram aparecendo com o tempo nesta sociedade roceira e meã. .. . Compreende-se que luxo e que requinte espiritual poderia produzir uma civilização que nos chega como restos, nos alijamentos do grande continente ocidental! .. .. Mas, pouco importal. .. . O que é certo é que esperávamos alguém, pedíamos alguma cousa. Surgiu Telésforo! E surgiu num tempo que o acaso tornou feliz. Não lhe saíram à frente concorrentes temerosos, é ele só, é o único! Há certas épocas que produzem caricaturas de gênios; então na história das artes os casos não são raros. Eis o seu mérito. Por si, o esforço foi pequeno, tudo mais resultou de circunstâncias favoráveis — a falta de concorrência séria, a proteção imperial, a apatia do meio. .. . até a necessidade de vibrar na esmorecida fibra patriótica, concorrendo para o prestígio da monarquia quando as aspirações republicanas entram no domínio das realidades. .. . Considerem bem estas cousas e hão de ver que a verdade está comigo.

Por sua vez o Sabino meneiou a cabeça concordando. O Sousa ergueuse, gemendo a sua preguiça como se lhe doessem anquilósis, desculpou-se da retirada com afazeres inadiáveis e saiu em passadas inglesas, levando sob o sovaco o seu inseparável e grande álbum de linho cinzento.

—. .. E, com franqueza — continuou Camilo —, a esse que surge por i entre girândolas de admiração, eu prefiro os meus velhos românticos. .. . No entanto, temos aqui um artista digníssimo que vive obscuro como um habitante da Tebaida. '

— Cesário Rios? .. .. — murmurou Sabino, cheio de crença.

— Sim, o Cesário Rios, esse convicto e modesto pedreiro da Cativa, que possui o mérito de não imitar ninguém sem conseguir nenhuma novidade.

— Mas o que executa lhe sai da cabeça — atalhou Lóssio, destragando o fumo do cigarro que acabava de acender; enristara o indicador, no ar, para grifar a observação. i

— Muito bem! — apoiou o Artur — muito bem!

E dava com a cabeça para os lados, concitando os companheiros.

— Muito bem! — disseram.

A concordância estendeu uma pausa reverenciosa. O grande salão do café continuava vazio e soturno; caixeiros recostavam-se às mesas em que brilhava a louça branca dos serviços sobre bandejas de electro-plateó"; numa das entradas, por trás do mostrador de cigarreiro, um caforina de rosto macio e alvo, com bigodinho em arrebique, cochilava sobre um jornal.

E, no silêncio, sussurrou a voz de Camilo:

— O peior é a idade. O Rios está velho e embezerrou no que aprendeu.

— Não — contestou o Lóssio —; o maior defeito do Rios é ser brasileiro. Este povo quer gente de fora; nacionais — rua!

O Franklin estendeu-lhe a mão, com entusiasmo:

— Toque.

A palestra recaiu no Cesário Rios. Tinham-no tomado por ídolo porque necessitavam de alguma admiração e o escultor, até ali vivendo no seu atelier, desiludido, reumatizado por um grande dissabor de sonhos extintos, representava o obscuro orgulho de um convicto. Mas, visivelmente, a sua persistência descambava para a improficuidade, posto que fossem confiados e incessantes os seus esforços criadores. Às vezes, um gesso vazado com facilidade, um bloco cortado na linha clássica, deixavam perceber a firmeza da mão que os trabalhara, porém, a esse gesso ou a esse mármore falhavam o amor febril das almas novas, o delicado cuidado entre o meticuloso e o apaixonado das primeiras ambições de glória.

A veneração que teciam em torno do seu nome era mais um acinte à gente d' Academia que entusiasmos por sua obra. Cesário Rios constituíra-se um protesto contra as facções, vivia só, quase como um cenobita, sobranceiramente desdenhando da intimidade dos aceitos. Durante a existência do Costa Barbosa, que fora o laureado professor d'escultura, os gessos acadêmicos sofreram sempre confrontos irritantes; ainda hoje a sua respectabilidade de artista idoso e "prêmio de viagem" ameaçava pretensões oficiais e notoriedades fáceis. Sobre isso, Cesário Rios possuía uma qualidade simpática ao exagero nativista dos moços — era um brasileiro de sangue, sem atavismos estrangeiros a não ser em colateralidade remota, e sofrendo pela sua desproteção a concurrência dos que vinham, mas com uma notável e silenciosa resistência sistemátia de sua presença em todas as exposições.

Era este conjunto de detalhes característicos, que levava os rapazes a procurarem a sua convivência, exaltando-o como um mártir do trabalho e do indiferentismo coevo.

— Ah! — exclamou o Lóssio — se vocês vissem o Gênio das Indústrias que ele está terminando! .. .. Aquilo é que é vigor. .. . hum! .. .. aquilo é que é toque. .. .

Apenas conheciam as primeiras massas da grande estátua ornamental que o governo lhe havia encomendado para um estabelecimento público, a maqueite fora modificada em grande parte e prometia uma obra de valor.

Camilo lembrou a oportunidade de ir surpreender o "velho" no trabalho, seria uma prova de respeito. Aceitaram-na e, quando se erguiam, entrava o Alves Pena que rondava os Cafés, à procura dos "seus artistas".

— Para onde vão? .. .. É assim que recebem um velho dedicado? .. .. — perguntou ele, estacando, com a sua bonita mão num gesto usual, fechando um círculo entre o polegar e o índex.

— Vamos para a Arte — respondeu Artur de Almeida.

— Neste caso. .. . — retorquiu o boêmio, dando com o ombro — iremos.

— Menos eu. .. . — discrepou Vieira, a estender os dedos aos colegas. — Que tenho serviços. .. . são quatro filhos a sustentar! .. .. e mulher! e sogra! .. ..

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