Capítulo XIV Mocidade Morta · Capítulo 14 de 19
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Capítulo XIV

XIV

Camilo bocejava à porta d'Havanesa, a esperar os companheiros. Ninguém lhe aparecia. Nem mesmo os dous mais perseverantes dissidentes eram pontuais.

Subia, então, para o Livramento, sombrio e desdenhoso, mas à — aproximação da casa da Don'Ana, retemperava-se-lhe o ânimo, refazia-se num saudável desprendimento de enjõos e irritabilidades. Galgava depressa os degraus do sótão para surpreender os dous na intimidade dos seus amores, revertendo para si o melhor das carícias com que se retribuíam, como se lhe fosse dado o poder de imiscuir-se n'alma de ambos, fluidificar-se, astralizar-se no espírito deles ou, por uma desconhecida hiperacuidade, se lhe fosse dado a suprema sensibilidade afetiva de uma dedicação progenitora que goza pelo sereno gozo da prole, que vive pela vida venturosa dos seus, na simpática inanimalidade duma velhice honrada, inteligente e meiga.

Uma vez deixou de subir ao sótão porque o pintor lá não estava e a Don' Ana disso lho participou, sem que ele a inquirisse. Lavrou por seu espírito superagitado uma desconfiança, suspeitou de que fosse um estratagema de Agrário para arredá-lo de Henriette quando ela estivesse só. A rapariga tranqiuilizou-o um dia em que lhe falou do tristíssimo retomo. Disse-lhe que nunca deixasse de subir, porque o isolamento a mortificava. O pintor também concordou, pediu-lhe que se considerasse dono daquele aposento, que não eram simplesmente bons camaradas, eram amigos, deveriam tratar-se de irmão a irmão.

Desde esse momento Camilo entrava livremente para o sótão e lá se deixava ficar amolentado, perna trançada, cigarro aceso, a chalrar.

Henriette tecia crochets ou costurava perto de uma janela. Por vezes o Doutor Heráclito passeava o jardim procurando, discretamente, lugar donde fosse visto; Camilo percebia-o, impacientava-se, despertava o reparo da francesinha:

— Lá está o gorila.

Henriette alvaciava' sorrisos, magnetizando-lhe o zelo com um olhar.

Se o Doutor persistia, se a francesa, por acaso, ficava à janela, Camilo externava contrariedades, despedia-se com pressa, frisando despeitos enigmáticos para ambos, sempre admirados dessas resoluções inopinadas. No dia seguinte lutava com a vontade de voltar, mas vacilava, enfraquecia e lentamente, passo a passo, esfiando razões, desfiando dúvidas, caminhava para a rua conhecida.

Houve ocasião em que procurou conter essa habitual passividade, arquejou enérgico, julgando-se resolvido. Apanhara Henriette debruçada ao parapeito e o Doutor, por entre as franças tramadas de um caramanchão, a sacudir disfarçadamente aos dedos uma flor comprometedora. Fora um flagrante.

Resistiria, agora, a essa ignóbil submissão, a essa inércia de idiota, e no seu furor de represálias cegava-se-lhe a percepção trivial do seguimento que levavam essas diuturnas emoções, obliterado da sindéresis peculiar aos mentais, desde o mais rudimentar discemimento té a clara interpretação do valor desses diagnósticos passionais, com uma assombrosa rudeza d'espírito, a ponto de perder completamente a noção da recíproca lealdade que se deviam, ele e Agrário, formando ciúmes dum fato que, se descaísse do desvario da hipótese ' para a segurança da verdade, apenas afetaria a fidelidade da rapariga com prejuízo para a confiança do amigo.

A relutância conseguiu a duração de uns dias. Insensivelmente, no quarto ou quinto, lá se foi ele para os lados da Gamboa, sob o peso grisento de um céu tempestuoso. Era inverno. O ar da tarde, muito úmido, golpeava o corpo, emperrando tendões; a lama cortava o calçado, despertando reumas nas cartilagens. Andava uma tristeza nas cousas. Camilo caminhava indeciso. Súbito, leve o empolgo duma saudade a esmagar-lhe o coração. Franqueou a porta da locanda.

Agrário estava desesperado com a luz, queria acabar um retrato e o diabo do tempo pregava-lhe esta peça!

Abandonou o cavalete, depressa acalmado da contrariedade e, a berrar uma canção de opereta, passou o braço sobre o ombro do amigo, levando-o para a janela aberta ao espaço proceloso, empolado de nuvens torcicolantes ) como ventres de monstros ofídicos que se escabujassem de roldão, em montões promíscuos, rolando pelos céus. O vento soprava forte. Longe, para os limites d'horizonte, se desenovelavam massas disformes e cinzentas, esgarçando-se, esgrenhadas, em ramas brancas de algodão, desdobradas; uma poeirada neblinosa caía sobre os planos mais afastados e o imenso chão do mar era turvo, dum verde pantanoso e compacto; mastros oscilavam, retremiam flâmulas marítimas, doudamente, freneticamente; cascos pesados de navios bh arfavam lentos, compassados, cavando a água que se encrespava raivosa em torno deles. Havia uma ânsia no ar. O vento soprava impetuoso, em rajadas velozes, arrebatando estorvos. Agrário e Camilo recuaram quase sem fôlego, e o ímpeto da borrasca recrudesceu, uivando e sibilando. Logo a opressão caliginosa do espaço se desfez; passou uma claridade álgida, rápida — o aguaceiro desabou. Desceram os caixilhos, precipitadamente, colhidos pelo assalto da chuva. As taramelas das portadas ringiram nos engates e agora aqui, já ali, mais além, se ouvia o bater de portas, o baque de utensílios, o tinir de vidraças partidas, sob o fragor do temporal pelas alturas, que vinha estalar nas telhas, nos muros, nas pedras.

E porque se fizesse noite Henriette teve pressa de acender o lampião.

Camilo deu de face com ela, reparou-lhe as pálpebras pinceladas de sanguínea, doloridas de lágrimas.

Que seria? .. .. Ela chorara. Fora, com certeza, por ter assim os olhos que o não recebera na saleta, a fugir de constatar o epílogo de uma rixa caseira talvez, talvez o traumatismo de um desgosto. .. .

Um alastrante, inesperado contentamento se apoderou dele, trazendolhe vivacidades comunicativas, ilógicas, incongruentes com o seu temperamento. Lembrou-se de uma porção de bons ditos, casos farsistas, pilhérias de rapaziadas, que o pintor acolhia às gargalhadas, também muito rememorado de facécias, de troças acadêmicas, tal se se desforrasse dalgum dissabor com ostentação de contrafeita alegria.

Enquanto as lufadas raivavam por fora e a chuva batia contínua, eles se abancaram ao derredor da pequena mesa, sob a quieta claridade do lampião armado do seu largo quebra-luz de papel creme, estriado em plissés. Descobriram uma garrafa de Villar d' Allen e havia um copo e um cálix. A noite estava convidando para o tépido regalo de uns goles, a luz caindo em cone sobre a mesa, respeitando penumbras tranquilas pela cornija das paredes, propinava gozos de intimidade, recordando aconchegos de lareira eslava, parlenda à meia voz, bom tabaco nos cachimbos, a lenha queimando seca no velho fogão d'inverno onde chia a chaleira para o repasto noturno.

Camilo ergueu-se, foi oferecer, solicitamente, a Henriette o seu cálix;

ela, porém, recusou-o, esquiva, sem lhe dar tempo de a fitar, entrou no quarto.

Então, ele, vexado e temeroso, mas percebendo as reticências de uma cena de arrufos nesse desabrido proceder, pasmou, de sobrancelhas erguidas, interjectivo e interrogando com a expressão a Agrário que esparramara Os braços sobre a mesa e descansava o queixo nas mãos engrenadas, escarranchando a cara com um riso boçal de Sileno, a que o clarão da lâmpada acentuava o charro esbeiçorramento da parvoíce dum lorpa de Hogarth. º Outra vez Camilo voltou ao oferecimento, insistente, um pouco teimoso.

Ela prosseguiu na recusa, protestando enxaqueca, o desprazer de beber. .. .

Os pedidos, os rogos do rapaz tornaram-se persuasivos, sussurravam labiosos, com inflexões smorzadas de súplicas. Henriette aceitou. Veio à saleta.

A sanguínea das pálpebras esmaecera e os botões celíncos das suas pupilas brilharam na vitrificação dum esmalte de Sêvres. Ainda por insistência do rapaz ela tomou lugar à mesa, sorriu à proposta que ele fazia de uma partida de bisca, à maneira burguesa, como uma pequenina família obscura e pacata.

E já, para garantir a paz, Agrário ofereceu do seu copo à amante.

Camilo exuitou:

— Bravo! Assim é que eu os quero ver. Assim.

Henriette saboreou os goles, bebericando, rendida e feliz, encostada no ombro do pintor, unindo à face dele a sua loira cabecinha leviana, agora do oiro fosco, translúcido dos velhos bronzes decorativos, obscurecidos em manchas tênues de pátina onde bruxuleia o meio-tom cálido dum vigor adormecido, pela luz macia do abajur que lhe deixava em contraste, à força da chama escapa pelo círculo do velador, n'ardidez dum colorido novo, o ruborejamento álacre da saúde sob a transparência nevada da sua fina pele de clara.

A vivacidade loquaz de Camilo fundiu-se paulatinamente, escorregadiamente, em invasora, absorvente concentração. Pouco a pouco ele perdeu as palavras, monossilabava, suspenso de lapsos e distrações, como se as torrentes desabadas, que o alentaram com reverdecimento de planta estiolada nos estorros verânicos, o abatessem, curvassem e castigassem, pela continuidade bruta das deságuas. Tentaram o jogo. Camilo entrou a embaralhar as vazas, ocultando bocejos; mal sabia como disfarçar o aborrecimento crescente. Por minutos caíra em espasmos sonolentos. E apenas abandonaram as cartas, levantou-se:

— Bem. Vou andando.

— Quê! — exclamaram ambos. Era uma loucura! Ele não ouvia a chuva? .. ..

Contudo relutou por sair, arrepanhou desculpas, mas, inutilmente. Agrário ameaçou extremos — "trancaria a porta" — Henriette arrebatou-lhe o chapéu, toda exclamativa: Zur!

Tiranizavam. Que podia ele contra a força? Nem um apito trazia! deixou-se cair na cadeira, inerme, indefeso, com um momo de resignação. Tinham voltado aos seus lugares. Para passar o tempo Agrário ensaiou silhuetas de Henriette, a sua própria, a do amigo, esquemas d' expressão, caricatura de tipos populares, perfis de companheiros; e, distraído, esquissando um contorno feminino, perguntou-lhe, por acaso:

— E o teu livro?

Camilo encarquilhou a boca com indiferença:

— Continuo a trabalhar. .. .

Agrário sorriu incrédulo e, enquanto o cigarro, pendente do lábio, se consumia num levíssimo fumo de pira, ascendendo frouxo e em fio e se alongando em volutas lentas té se fundir com a penumbra do espaço, o lápis corria ao impulso frenético da sua mão, debuxando, estonteado, incerto, um enorme livro esfolheado.

Camilo observava o desenho, recostado ao espaldar, o cotovelo na mesa e a destra em pala sobre os olhos. Por um resto da superxcitação passada, sentia certo gozo em acompanhar o movimento do lápis; atendia o seu esgrafiar, seguia-o nas suas voltas, nos seus traços, arabescando, pontilhando, contornando formas, que a sua imaginativa completava e engrandecia, em sequência vagarosa, mas logo num tropel rufado d'evocações satânicas.

Era um fólio atarracado, de páginas manuseadas, amorfanadas' pelo febril compulsar de uma garra mefistofélica que lhes abrira rasgões esgarçados d'unhadas, desesperando ríctus tétricos de marcas nas extremidades, quebrandoas com a violência agoniada dos delírios rábicos, numa voracidade aflitiva de apontamentos.

Dentre páginas pendiam tiras de missais apocalípticos, pingenteadas com lágrimas funéreas ou terminando em escâncaras medonhas de alados fabulosos, torcegando mandíbulas crocodilhentas à fúria esgazeada de bugalhos desengatados de órbitas cancerosas. Enovelava-se-lhe fina meada labiríntica, ora contínua, fibrosa, tecida com visgos de teias; ora numa serpentina de bocetes agudos, ouriçados, aduncos, d'armaria dum monstro. .. . E já s"enevoavam, confundidas numa mesma trama, vaporizando-se para os espaços em espirais ondulantes, em revoltear fumacento que se distendia, depois, num Sabat desembestado, povoado de gnomos barbaçudos, truculentos, ébrios e ridentes;

cornos encaracolados de feios Capros lascivos perseguindo, por sob frangalhos imundos, roliças formas excitantes de fêmeas que esteriçavam ósseos pescoços de horrendas carrancas de bruxas orgíacas; safadas cabeçorras de sádicos Faunos, impudentes Sátiros devassos carregando, nos cachaços nédios, Ninfas bêbedas que se escarranchavam na montaria, rebolando aos guinchos, entesando mamilos de seios pulcros à vampiros sôfregos e sugantes, descendo em revoada, arrebitando cartilagens epilépticas d'asas satânicas, com investidas obscenas de príapos pompeianos. .. .

— É este o teu livro. Vês?

— Como te iludes! .. .. — murmurou Camilo. — Eu o abri com a fanfarra alarmante da Luxúria, mas, à proporção que trabalho, e isto há muito tempo, vou esbatendo-o num êxtase de claustro. É quase um sonho.

— Então Frinéia deu pra Santa Teresa?

— Não. Não é isso. Parti da mitologia para o idealismo cristão e é, precisamente, neste ponto, que encontrei uma corrente purificadora.

— Hein! .. .. — fez Agrário abandonando o lápis — diz-nos isso, Camilo, são sempre interessantes essas cousas de convento, mesmo quando em serões.

— Estás te excedendo, a ironia é demasiada.

— Desculpa-me, mas estou aflito por saber o que tu fazes com o cristianismo.

— A cousa a mais simples, a mais lógica, num livro que se denominará Símbolos na Arte. Convenci-me de que interpretar, sem o guia jesuíta ou a mão condutora da teodicéia, essa balsâmica religião do divino Jesus, é penetrar em um novo mundo para a arte futura.

— Quase que descobres a pólvora, meu velho. Olha que os livros e as artes estão cheios de santos, e tresandam a incenso, que é um horror!

— Estás doudo. Só duas artes encontraram a forma cristã, ou melhor, se compenetraram da espiritualidade do cristianismo: foram a Música e a Arquitetura, O que parecerá uma incongruência pela dessemelhança interpretadora de ambas. A música sacra possui uma maravilhosa combinação de sons, uma tão fina expressão harmônica que traduz admiravelmente os êxtasis da Fé e o fervor da Prece, e a isso responde a arquitetura com à múrmura grandeza das suas naves, com a linha aspirante das suas ogivas, das suas colunas, das suas lorres, onde o religioso encontra a paz da alma, o agasalho do espírito, a elevação dos sonhos. .. . Reunidas as duas artes para a concretização do ideal, o conjunto alcança forçosamente o intuito primordial dos seus executores. À pintura, nem mesmo a decorativa, a antiga, a bela pintura mural, conseguiu este caráter; por enquanto tem sido secundária; e mais do que a esta a influência cristã falhou à estatuária, arte por excelência simbólica e mítica, mas que perdeu seu destino na ornamentação, fundindo-se na escultura. Neste ponto a degeneração foi completa. A Grécia construía templos para as estátuas, os séculos passaram e as estátuas foram feitas para os templos. .. . e depois, com o andar da civilização, passou-se a modelar bonecos para as salas. O boneco de sala dominou tudo, até mesmo a estatuária monumental, que se procura fazer, em nossos dias, como se fosse ornamento de salões ao alcance da curiosidade dos detalhistas. A linha, o conjunto do monumento estatuário, são cousas mortas, porque a imaginativa burguesa não vibra, não é um produto inteligente de nervos apurados, apenas se remexe com sobressaltos de moluscos, lambuçada com o apuro paciente dos japoneses de Iedo escarafunchando o estanho em uma fantasia indolente de opiados. Ah! nem tu sabes a raiva que esta artezinha titiladora me provocal. .. . Se ela se ficasse na sua especialidade, fazendo bibeloteria para as alcovas das meninas de luxo, dos consolos e dos contadores de palacetes, se não ultrapassasse do seu fim aplicativo de anéis e berloques, de tinteiros e pesos d'escrivaninha, eu a compreenderia como uma rica futilidade aceitável às exigências elegantes da vida. Mas esquecem o destino dela e fazem-na ultrajar a Arte para o gáudio de uns rotundos burguesões, aos quais a fortuna permite direitos de gente!

— Que queres? — disse Agrário. — É uma questão de época.

— Sim, é uma questão de época, eu sei, e por sabê-la" não irei, inconscientemente, na correnteza das aceitações. Mas, não a julgo uma questão de chapéus à moda. .. . No entanto, eu bem sei que a época influi poderosamente nesse transvio. .. . — comentou ele com tristeza, e repetia abstrato, monologando:

—, .. . influi poderosamente nesse transvio. .. .

Num gesto entediado estendeu o braço para a chaminé da lâmpada, fez arder a ponta do cigarro e continuou:

— E que se pode esperar dessa influência? É claro que ela, resultando da burguesia, sai dos moldes dos seus atos e aspirações, e estes dous fatores cingem-na caricaturalmente, aos rendimentos econômicos da sua capitaliza- ção bancária, à tolerância boçal das suas convenções, à comodidade soma dos seus gozos compensadores das humilhadas canseiras do corte às mantas de carne-seca, do peso dos fardos, das morrinhentas lucubrações do dolo e dos negócios desonestos. E, pois, a arte do seu agrado será a desses pechisbeques, cousas mais ou menos semelhantes às comendas que lhes ornam o peitoral;

e, por isso, o seu prazer estará na contemplação de obras que não ultrapassem da estreiteza da sua compreensão, tais como os bois de canga nas pequeninas paisagens do natural. .. . por uma analogia recordativa das estafas passadas. .. .

— Írribus, que sova! — gracejou o pintor. — Mas, tu hás de concordar que a escultura moderna, mesmo a estatuária, adiantaram alguma cousa.

— Que foi?

— Pelo menos a expressão, se o detalhe não está implícito no modelado.

Camilo sorriu:

— Que um mau amador dissesse tão grande heresia, compreende-se, mas, um artista, e artista novo, dar curso a semelhante barbaridade, era caso de arrancar impropérios a um casto! A expressão, meu caro Agrário, está fora de comentários, porque os gregos faziam da serenidade fisionômica um dever educativo. Os deuses, como majestades, deveriam ser imperturbáveis e tanto cuidavam desse particular que o período do criselefantismo combinou o oiro em todas as suas ricas nuanças para lhes dar ao corpo a beleza pomposa do sobrenatural, restringido à humana forma de colossos. E tu sabes que os gregos condenavam os aleijões, o povo era idólatra da perfeição física e os jogos clássicos constituíam tanto diversões públicas como concursos de belas formas desnudadas; até o trajo nacional era feito de maneira a evidenciar essa beleza sem destruir a liberdade dos movimentos. Os usos desse povo, a sua vida mental, o espírito da sua filosofia, o intento e a forma da sua literatura, explicarão, perfeitamente, essa grandeza concretizada na imagem de seus deuses e nas massas dos seus monumentos arquitetônicos. Demais, meu amigo, a calma não exclui a expressão. A Vênus de Cleômano' tem a angelitude tímida de uma donzela, a Calipígia o orgulho tranqúilo da sua beleza, a Vênus de Milo inculca a segurança da sua supremacia no concurso de Páris como o célebre Gladiador, de Apolônios," a fria força bruta dos seus extraordinários, leoninos panos musculares. .. . AÍ tens tu; esta questão foi, há muito, explanada e vencida. Quanto ao detalhe, que deve ser separado do modelado, sendo este O único progresso da arte contemporânea, por causa da participação escultural e talvez das diferenças físicas das raças de hoje, ele foi tão preciso e cuidado como está sendo em nosso tempo; dadas as ressalvas d'aplicação. Se algum dia passeares a Europa dir-me-ás, por tua observação, o que nos dizem os bons entendedores, da impressão causada pela soberba anatomia do Gladiador, pelo inexcedível trabalho do corpo do Hércules Famésio e do Sileno da biblioteca de Veneza. Observarás de perto as moldagens áticas, de uma verdade, de uma minúcia excessiva, por vezes amaneirada. .. . E, para que desejariam os k gregos respeitar as minudências, se as suas estátuas não serviam de piêce montante" nos banquetes, nem de omamento aos fogões de invemo? .. ..

Estacou com um frenesi. O cigarro tinha-se-lhe desenrolado nos dedos, pôs-se a recompô-lo nervoso, mas dominando-se. Henriette, com os olhos pálpitos, a pestanejar de sono, ouvindo-o, nesgava simulados sorrisos de atenta e admirativa, inconsciente das causas desta fluência questionadora, que resvalava das pasquinadas para capítulos d'estética.

A tempestade diminuíra de ímpeto, batia cantante lá fora, rolando pelas goteiras, estalando nas telhas; de quando em vez lufadas violentas passavam, roncando nas portadas, sibilando pelas frestas dos quícios. .. . depois só se ouvia a queda sonora da água, como um marulho de cachoeiras no recôncavo das florestas.

E Agrário, para provocar o amigo, alentou de novo a palestra:

— Tu tens dado saltos mortais pela Grécia, espatifaste o burguês, mas, a respeito da tal estatuária cristã, nem patavina!

O companheiro esvaziou o resto da garrafa no cálix, bebeu fleugmático, aos goles, forte dos seus argumentos, mentalizando o arrazoado da exposição como se demorasse, por certeza de vitória, o gozo d'esmagar a ignorância ridicularizadora do outro.

— Iremos lá. .. . Antes de tudo é preciso notar que não está nas Nossas Senhoras sofredoras ou gloriosas, nem no aspecto galinha choca das inúmeras representações da Caridade, esse simbolismo de que falei e o qual estás farto de ver, segundo dizes. Para concebê-lo na sua grandeza sintética e cortá-lo firme no mármore, para lançá-lo com a linha febril duma criação, é preciso, meu caro senhor Agrário, ir buscá-lo nas eras iniciais dessa religião. Eu, se fosse estatuário, procuraria dar-lhe forma porque o imagino, porque o sinto e vejo. Infelizmente. .. . — sacudiu os ombros, resignado e nulo: — Infelizmente, nem bonecos de miolo de pão eu os sei fazer! Mas. .. . Ah! se eu soubesse manejar um esboçador que obra não daria! .. ..

Henriette, cansada pela imutabilidade em que estivera, procurou outra posição na cadeira. Camilo suspendeu o que ia dizer; ela porém, passando as mãos pelas pálpebras a afugentar-lhes o sono, sorriu para ele, acariciou-o com uma consolação: — "que essa obra deveria ser bonita como as suas palavras."

Então ele reviveu neste elogio, respirou largo e orgulhoso nesta admiração que lhe parecia um salmo de glória, e cresceu na frase, expandiu-se com uma confiança de superior:

— Imaginem que eu iria surpreender o meu assunto no tempo das perseguições à cristandade nascente, quando a grande Besta, do Apocalipse, o monstro romano, rastejava pelo pó do circo para martirizar as crianças e as virgens.

Seria brutal, hein? .. ..

— E por que não escreves isto? .. .. — atalhou Agrário. — Farias uma obra prima.

Camilo chupou pelo cigarro, resfolegou o fumo pelas narinas; durante algum tempo esteve a olhar vagamente o abajur da lâmpada. O devaneio dum pensamento luzia nas suas pupilas. E, num rompante, despertando da sua meditação:

— Querem ouvir uma cousa? .. .. Querem?

Houve uma curiosidade nos amantes. Desembaraçado de gestos ele retirava dos bolsos uns papéis amarrotados, manchados de uso, obreiados de borrões negros de tinta. — "É um capítulo do meu livro" — informava, enquanto revistava as tiras procurando endireitá-las, desenrugar suas dobras.

Seus olhos corriam por elas, d'alto a baixo, em verificação; tremiam-lhe os dedos n'atrapalhação do rebuscamento. Agrário e Henriette esperavam emudecidos. O silêncio fizera-se maior. Lá fora a chuva estalava.

— Creio que está certo. .. . — disse ele, e continuou a ordenar os seus papéis, recorrendo à numeração, substituindo-os de lugar, emaçando-os sobre a mesa. Afinal apanhou a ruma com os dedos precípites, poisou-a na palma da esquerda e batendo com a destra sobre ela:

— Querem ouvir? .. ..

Disseram que sim. Ele explicou que era um esboço, um rascunho. Tinha incorreções, muitas falhas, mas era para dar uma idéia. .. .

Agrário o interrompeu:

— Deixa-te de histórias. Lê!

Ainda por momentos Camilo permaneceu duvidoso, a considerar as linhas rasuradas, cortadas por chaves de emenda, riscadas a golpes, rabiscadas em explicações, que faziam do manuscrito uma intrincável hierografia, mas, para fugir à opressão que começava a pesar-lhe, aproximou-se da lâmpada, embebeu as tiras na claridade, à distância dos olhos. A sua voz saiu trêmula, porém forte. Era uma descrição do circo romano, por uma tarde d'espetáculo:

— A multidão enorme, de cem mil espectadores, fora sacudida nos seus nervos por sensações bruscas e, para terminar o dia, esperava que lhe dessem o costumário suplício encenado de uns esfrangalhados cristãos, trôpegos velhos barbaçudos, esqueléticas crianças imundas, macilentas moças espectrais. .. .

À proporção que lia a sua voz era mais clara, cantava distintamente as sílabas, numa precisão de metrônomo. Atendiam-no com religioso recolhimento, sugestionados pela cristalinidade da sua prosódia. E a descrição, nesta leitura, ganhava intensidade iluminada de cenários, vivia pelo movimento, pela ação dos seus personagens:

—, .. . Houve um momento de largo silêncio. Só, nessa concentração d'expectativa, o ar se refrangia pelo resfôlego de milhares de narinas, e pelo arfo compassado dos peitos, o farfalho brando, vago, ruflante, dos grandes leques de penas de pavão que, nos vaivéns lentíssimos, relampejavam, em calmaria. Do alto do anfiteatro, escravos núbios sacudiam, de quando em quando, para a imensa roda d'arena, largos panos repletos de malacacheta triturada, aromáticos pós de canela e sândalo. Uma atmosfera pesada resplandecia numa névoa de visões fantásticas, faiscante como o esmeril das minas preciosas, perfumada e violácea.

"De um dos extremos da bancada ocidental, os espectadores delineavam-se como silhuetas de guaches na neblina d'oiro e roxo dum horizonte indiano. Doutro extremo, oposto ao ocaso donde o sol dardejava num incêndio jalde, o metal dos capacetes romanos reluzia à semelhança de faróis ardendo, sobrepujados pelo agoiro da loba faminta; diademas feéricos em cabeleiras violetas à força da luz e por efeito da distância, explosiam em prismas ofuscantes. .. . Alvas túnicas de vestais transluziam num tom lavado de oiro, brilhavam nos ebúrneos pescoços das virgens moedas pingenteadas e minúsculos fálus de âmbar, e a púrpura dos senadores ardia em amplas labaredas, envolvendo largos troncos musculosos de que emergem fortes cabeças glabras, de cabelos rasoirados. .. .

Depois entrava na descrição do cenário, colorindo com largueza, golpes certos d' impressionismo, os accessórios históricos desse ato:

— Um troço de ignóbeis servos, estreitos frontais cerdosos, de quadrúmanos, e cachaços tourinos de atletas, acabava de plantar no solo uma rústica, pesada cruz invertida, quando sob a lufada quente de milhares de bocas que se abriram exclamativas, apareceu a vítima escolhida, arrastada, violentamente, pelos pulsos carniceiros dum hercúleo serviçal, de saiote azul.

Era uma pálida cristã, donzela e tímida, d'olhos suavemente negros, duma doçura contemplativa e meiga.

A frase, nesse momento, escorria-lhe contínua e harmônica, sons que se transformavam, que se combinavam num bloco intangível, donde surgia o elance divinamente lindo, dessa figura de mártir, fazendo-se corpo na imaginativa dos que o ouviam, como se a tivessem diante dos olhos, num entalho magistral, na plasticidade de uma pedra amaciada pelo dessoro do plenilúnio das baladas, na qual parecesse tremer a nata magnolial dos coalhos lácteos. .. .

— Ela ficara ultrajadamente nua para a curiosidade da multidão, mas, essa nudez, não excita à luxúria, não irrita os instintos, é como uma forma androgínea, sem sexo e sagrada. No entanto, não lhe falta beleza à supliciada posição em que a deixaram; dir-se-ia que houve na crueldade um requinte estético, tão completa e eurítmica é a linha do seu conjunto! A brancura pálida de uma das suas pernas traça um contornado e formoso rolo oblíquo à extremidade do toro encruzado do lúgubre instrumento; a outra está forçada W"

em ângulo, presa pelo pequenino pé dolorido à juntura da cruz; seu corpo tem a lividez marfinada de uma antiga escultura de Templo, em que a luz vésper e o polvilho cintilante d'atmosfera põem ineditismos deslumbrantes de tons delicados, ora aveludando o ventre virgem num efeito macio e terno dum enorme nenúfar branco, ora lilaseando o busto, os seios puros numa transparente carnação, suavíssima, de aparição celeste. Para o alto distenderam o seu braço esquerdo, enquanto o outro fica-lhe curvado, com a mão sob o pescoço claro e fino de imagem dos cantares bíblicos. Desenastraram-se-lhes os negros cabelos em tumultos sobre os ombros, sobre os seios, como a esconder os esferóides pomados da sua nubência enflorada. Na ira, na presteza do erucificamento, as garras desumanas dos servos romperam a miserável túnica que a envolvia, e, agora, restavam dessa grosseira veste farrapos pendentes dos rudes laços duplos que equimoseiam sua carne; um frangalho repuxado e mole, num abandono de panejamento accessorial, desce do seu braço erguido à massa muscular exterior da coxa curvada. .. . E. .. .

Camilo emperrou a repetir a copulativa, a procurar na tira o seguimento da frase:

— E. .. .

Alfligia-se, sem poder decifrar o que escrevera; tartamudeava meios períodos, atrapalhado com o entrelaço das emendas.

— Bem — atalhou com uma resolução. — Aqui faltam umas cousas.

Passemos adiante. Começa o suplício. É este o momento. .. . Atende, Agrário.

E continuou:

— Ásperas soaram as grandes tulipas de prata dos arautos. Do arco trevoso de uma das caveas"? arrastou-se um monstro, zambro, desengonçado, pantera ou leão no fulvo pêlo eriçado, hiena nas cautelas hediondas do pisar.

Correu pelo povo um arrepio de terror; peitos ofegaram, todos os olhares ficaram paralisados nele, como num assombro. O monstro caminhava devagar, medindo o terreno, urrando, quase agachado no pó, mas já d'esguelha, desajeitado, contorcido pela deformidade das pernas trasciras, saiu aos boléus, horrivelmente ridículo, num trote macabro de aventasma.

"Outra vez, no extenso circo, as buzinas erguidas, reluziram, soaram ásperas.

"Um silêncio caiu. Ao ofego da respiração as moléculas cintilantes do ar retremularam, agitadas, semelhante a um enxame de microscópicos insetos luminosos.

"Então o monstro crgueu-se nas patas, aprumou o dorso c, sob o basto pêlo fulvo, viu-se o corpo de um homem. Dos imensos anéis superpostos das arquibancadas, naquele anfiteatro colossal onde viviam cem mil espectadores, cresceram para o espaço, solenemente, milhares de mãos espalmadas em Juramento. Era a saudação muda ao César. Mas, prestes, ao cessar o respeitoso aceno, o monstro retirou do cinto uma esmeralda côncava que aproximou à vista míope; precisando a posição da vítima, devagar recolheu a lente e caiu nas patas outra vez.

"Outra vez caminhou, agora em direção à cruz.

"E vai. E urra feroz, e bufa, e reboleia desesperado, às gatinhas. Pouco depois galopa, aos solavancos, aos galgões, aos guinchos e em frente da virgem pára, fareja com o focinho no ar, recua, roja-se no solo, espoja-se com esganiços depravados, arma-se num pincho.

"Ela não o vê. Ela não o olha. O seu rosto está levantado para o céu, resplendorado d'inspiração divina; há um brilho de astro nos seus olhos, uma doçura de graças na sua boca.

"Pronto, com um rugido, voa o monstro sobre ela, que treme ligeiramente, que procura fugir, debalde, à fúria do arremesso; mas, presa imbele, não tem defesa nem mais tenta se esquivar das garras, fica imóvel, torna-se insensível, toda a sua vida na grande luz da Fé.

"No rápido salto, a Fera raspou-lhe o busto alvo e macio com as curvas unhas aceradas e, como duas lágrimas, se desprenderam da came dela dous filões de sangue que deslizam céleres. E à vista da came ferida o desesperodo — Ri monstro recrudesce. '

"Não se lhe pode acompanhar o movimento desordenado e louco, não se pode atender ao assalto frenético, alucinado, bravio, que executa; unicamente se compreende que as suas garras rasgam, dilaceram, esfrangalham essa beleza imóvel que apenas ofega sem gemidos, que agoniza sem dores.

Nesse momento, de um lugar ignorado, talvez do fundo dos subterrâneos ou da base do anfiteatro, talvez dos muros das bancadas, não se sabe de onde, arrebenta uma melopéia dolorosa e grave, que irrompe, compassadamente, pelo espaço, num clangor de súplica. São os cristãos prisioneiros nas caveas, que cantam, imprecando de Deus o conforto para Ela. Ao clangor dolente de suas largas vozes clamantes, respondem, em estrondo, os rugidos e berros das feras enjauladas. O circo enche-se de uma procela bramante. Estrugem buzi- -) nas, reboam trompas, tantaneiam címbalos. O coro apocalíptico rompe das fúrias em maldição à prece lagrimosa da cristandade acorrentada! Retinge-se de sangue o ocaso, as alturas ruborejam num clarão, há sangue nas visões.

Sangue! Sangue! Em cada idéia borbulha o sangue, em cada olfato espumeja O sangue.

"Esse gozo, que arrebata e epileptiza a multidão, é vermelho, satanicamente vermelho, como vermelhas, horrivelmente vermelhas são as garras do monstro, a carne escoriada da vítima, a poeira ardente que retreme no ar, o rebramar dessa música infernal, delirante, ciclópica. .. . E tudo ameaça desabar numa loucura rubra, de labaredas crepitantes: o circo parece abalado, roído por fogaréus subterrâneos, que roncam pavorosos; o céu prestes a explodir num incêndio, a terra a estalar nas convulsões vulcânicas de um cataclismo.

Ecos retumbam. A borrasca atordoa. .. .

"Súbito, fez-se um aterrorizante silêncio. Todo o fragor cessou.

"Na cruz o corpo da Santa é um bárbaro troféu de carnificina. A fera gosmou a sua came impoluta, mordeu-lhe os polpos musculares, cravou as unhas na tumescência alva das regiões glúteas, num desespero de concupiscências. Da hímen clandestina e delicada" mais não resta senão o quente sangue extravasado, sangue que seus dedos arrancaram, que a mão brutal, febril, provocou dilacerando as genitais sem mancha, forçando-lhe a entrada ao grosso pulso d'homem, uivando de prazer, escabujando de gozo, babujo, caprino, rábido, sob os aplausos desvairados da multidão canibalesca.

"E o monstro arqueja cansado, retrocede a reparar sua infâmia. Como ele também o povo arqueja, suando d'emoção, à espera do endemoniado pensamento que o contém e enleva. Correm rápidos os instantes, porque a Besta,

— não satisfeita, quintessenciando a maldade, refinando as explosões sádicas, funambulou, corcoveou pinchos diabólicos d'urso dançarino, escorjando aos rinchos, tarantulento, pandiculariento, movendo-se num lúgubre cômico de fúria coreográfica ao tarampatão tantaneando o jongo bárbaro dos antropófagos cafres, agachou-se nº'arena, fungando as ventas, haurindo sangue, zurrou lascívias, regougou asperezas siflantes d'esfalfo e, num ímpeto, escarrou-lhe na vulva dilacerada, arrebentada, florejando numa papoula purpurina de chaga, ardendo o vivo gotejante da carne e por fim atirou-lhe com escárnio, a contento do povo, um punhado de areia, carantonhando o nojo que aquela devastação de chacal despertava pelo informe amálgama d'úlcera revolvida. .. .

"No delírio desse espetáculo, ninguém notou que os últimos raios sangiíneos do ocaso reverberavam sobre a carne poluída da virgem, o clarão vermelho dum triunfo! Ninguém reparou que Ela ainda vivia, mas que a sua vida estava nesse rosto duma palidez cetérea, de que são feitos as visões e os

— sonhos, as imagens sonâmbulas do Além, as evocadas silenciosas do Mistério! .. .. E Ela vivia! .. .. Ainda nos seus olhos a morte não havia fechado o tabemáculo radioso da alma, ainda nos scus lábios não se extinguira a graça da esperança! Que valeu ao anticristianismo o dilacerar desse corpo, a ignomínia desse ventre? Esse corpo exposto ao ultraje público tornou-se abstrato porque a injúria foi feita à Came, a mão infame do monstro só encontrou a matéria! Esse sangue gotejando na Terra, entranhou no mais recôndito das suas camadas a glória dos Mártires; esse ventre infamado na sua vulva, ferido e lacerado, deixou passar pela virgindade rota o germe produtivo da Crença, crescida e reproduzida por séculos e séculos sem termo. .. . E quando a noite veio, no silêncio do anfiteatro deserto, quando os servos volveram para arrastar esse corpo ao pasto das hienas ou às jaulas das feras, quem pôde ver, quem teve olhos para ver, viu bem distintamente que sua alma se desprendeu num brandíssimo suspiro de alívio. .. . Houve, nesse instante, uma claridade nos páramos siderais, que talvez parecesse o prenúncio do luar surgente. .. . Mas ao certo, foi sua alma que se abria nos céus, reunindo-se à eterna vaga da Luz Eterna, em que o universo gravita e que forma o resplendor de Deust! .. ..

Camilo parou extenuado. O calor que pusera na sua leitura, o interesse em dizer claro e impressionante, esforçando-se por completar com a palavra o valor da frase, deixavam-no exausto.

Henriette, vencida pelo sono, levantou-se, mas sorria-lhe num pequenino esforço contra o abatimento, com elogios para o animar. Agrário também ergueu-se. Houve um ruído de cadeiras arrastadas no sossego da casa. Passava da meia-noite. A chuva estiara.

— Está soberbo! Está admirável! — afirmou o pintor, alçando os braços num espreguiço bocejado: — Fizeste um primor.

Camilo agradeceu-lhe, comovido. Declarou que ainda faria umas emen- — das, umas modificações. E, como ouvisse bater meia hora num relógio, exclamou com espanto:

— Virgem Santa, que abuso!

Apanhou o chapéu, atrapalhado, ensacando no bolso a sua papelada, e repetia:

— Que abuso! .. .. Perdoem-me. Madame, até amanhã. Perdoem-me.

— Estás em tua casa. .. . — observou-lhe o amigo, mas encolheu-se esquerdeado, sem meios de lhe oferecer um leito, pelo menos de improvisar um repouso. Camilo apressou-se. E, àquela hora perdida, ao frio penetrante da madrugada, destinando-se a um arrabalde noutro extremo da cidade, numa distância de léguas, ele desceu do sótão acompanhado por Agrário, atravessou a calma ressonante da casa fechada, andando na ponta dos sapatos a temer o rumor dos passos. No alto de uma porta uma claridade velava. O ruído quase imperceptível do dormir punha na treva um murmúrio misterioso.

A rua estava solitária, o ar cortava. Camilo sentiu um desânimo, veio' lhe uma tristeza de ingratidão sofrida, como se lhe houvessem enxotado de casa, abandonando-o nas sarjetas enlameadas daquele enxurro. Chegou a queixar-se da friagem, levantando a gola para se agasalhar. E mergulhando as mãos nos bolsos considerou com o olhar o isolamento da rua.

O pintor murmurou também o quer que fosse de sentido por não poder oferecer-lhe pouso, ao menos um agasalho. .. .

E após a indecisão de um mutismo:

— Boa noite, Agrário.

— Adeus, Camilo.

A porta bateu seca. Tiniram ferrolhos.

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