Capítulo XI Mocidade Morta · Capítulo 11 de 19
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Capítulo XI

XI

E o coração transbordando doloras de infelicidade — ele penetrou na treva farfalhante de um recanto agreste de arrabalde. Entre vultos de troncos eretos e frondes esgalhadas cinerava, como a greda de um túmulo, o muro acaçapado de casinhola pobre, por onde esgrouviavam sombras doudas, espectros ébrios de ramarias agitadas pel invernia ululante.

Camilo empolgou a maçaneta da entrada, mas empurrou a porta devagar, com temor d'escancará-la brutalmente à rajada fria da noite. No entanto, alguém tossiu lá dentro, e este augúrio temeroso de enfermidade melindrada, fê-lo estremecer, entrar prestes, fechando rápido o batente.

Uma lâmpada de petróleo, com o seu zimbório lácteo de quebra-luz, sobre a mesa do centro, cortava as paredes em duas barras de claridade — a de cima, serena como a estagnação dum crepúsculo, amaciava a policromia rude do papel ramalhudo, subindo igual para o alvo teto onde descansava o fantasma de uma lua diluída, que a chama refletia pelo círculo estreito da chaminé de vidro; outra — intensa, jorrada d'opérculo do abajur, batia na bárbara folhagem sarapintada da parte baixa das paredes, acusando efeitos d'água-forte nos móveis e, na mancha escarlate do pano de sobre a mesa, alegrava cruezas Jjáspeas nos morins de costuras desdobradas. Em contraste escuro opunhamse-lhe a baeta esverdinhada do mandrião caseiro de uma rapariga clorótica e o esgarçado xale dum cavernoso busto de senhora, cuja cabeça pálida, amarelecendo à meia luz do abajur, lembrava suavidades de pátina de velha pintura italiana na dormência isolada dos palácios inabitados.

Aos passos do moço, esta penitente cabeça lívida volveu vagarosa para ele, envolveu-o na fixação cismarienta e misericordiosa do seu olhar; por seus lábios clareou o outono de um sorriso e, com a carícia untuosa das mães doentias na voz abafada, indagou dele cuidados que o acompanharam. Camilo — respondeu tomando-lhe a emagrecida mão marfinada, beijou-a meigamente, poisou a boca, quase com religiosidade, nos fios brunidos da prata que adornava a sua simpática, sofredora verônica de boa e bem-querida. Depois, como se cumprisse um hábito, estendeu, indiferente, a ponta dos dedos à rapariguinha — clorótica de rosto escaveirado, oblongo, disforme de feto, engastoado com dous imensos esferóides oculares, úmidos da melancolia concentrada das pupilas negras, que lhe davam à fisionomia a repelente passividade dos ídolos rudimentares e completada pela mísera magreza do peito onde a Puberdade tentava, dificilmente, levantar os pomos raquíticos do seu Frutidor infeliz.

Enquanto ele tranqúilizava este coração amigo, dizendo-lhe felicidades que não tivera, mentindo-lhe esperanças que não sonhara, aqueles bugalhos extasiados em pálpebras sangilíneas, enormes c persistentes, fixavam-se nele, ávidos, a íris rútila, toda uma expressão d'esforço arrancado de desespero e resignações, protuberando, deslocando das órbitas os grandes glóbulos claros como estranhos óvulos gosmentos de monstrengos. Mas, nem atendeu-os, ele!

Sentara-se, ainda com o chapéu à cabeça, à trocar palavras soltas com sua mãe. E sim. .. . e não. .. . — la dizendo a esmo, esmorecidamente. .. . — E sim. .. . e não. .. . E suas falas sussurravam apenas, eram como discreto ruge-ruge dos folhos engomados de volumosos vestidos flamengos na paz deste interior cal- ' mo, d'aspecto limpo e grave de lareira holandesa, que seus olhos estavam notando com pausas de alívio, revendo com carinhos minuciosos de retomado, trazendo ao seu espírito a segurança dum conforto em que se temperavam suas forças vergadas ao desalento, conduzindo-o até a sua alma, balsamicamente, num revigoramento de vitalidade excitada.

Afinal, não cra tão desgraçado como se julgara! .. .. Restava-lhe, na solidão do seu viver, esta incomparável criatura que o martírio macerara, dedicação constante e terna, que ele, embora deslembrando cuidados e afagos, lia na santificação da fisionomia, na cova violácea das órbitas, no descarnado estreme do corpo, imagem esculpida pelo sofrimento com o escopro agudo das dores em uma harmonia dolente de ruína. Ah! bem ele sabia existir ali, nesta lembrança de uma beleza romântica, litanias desvairantes de um passado, assunto de angustioso romance sentimental de onde se destacam, de onde se desprendem, nas surdinas cvocadoras da Ilusão, as esquálidas, cerosas, lunáticas figuras lendárias das noctâmbulas do Amor, amortalhadas de noivas, noivas formosas do noivado sepulcral dos vermes, coroadas de trevo e rosmaninho, engrinaldadas de feno e tojeiras, as capelas nupceiais da Loucura, e saem procissionalmente pelas margens desertas dos tranqúilos lagos, resfriados à reverberação dos Idílios mortos, desfolhando malmequeres brancos, salmodiando, soluçando, gemendo versos soturnos dessa tristíssima, apunhalante canção de Ofélia. .. .

Foi em criança que este segredo inflamou à sua cabecinha fútil, delineando hieróglifos cabalísticos de fosforescência sobre a treva de um vácuo.

Um dia, estalou no seu espírito a curiosidade impertinente de afetuoso companheiro das primícias colegiais, que lhe perguntava pelo pai. Ele arregalou os olhos, acordando dessa ignorância:

— Meu pail. .. . — E um atordoamento obscureceu-lhe o senso. Esteve por confessar que nada sabia, mas os olhinhos cúpidos do outro não se despegavam dos seus, havia a injúria de uma suspeita má no glabro rosado daquele rosto seráfico, e mentiu, mentiu com um desembaraço imaginativo que pasmou a cerendice infantil do bisbilhoteiro, boquiaberto, atônito, diante do valor do colega tão manso e tão modesto, tendo, no entanto, um pai recamado de títulos, fabulosamente rico, viajando a Europa na comitiva de um rei!

Camilo partiu para a casa escatdando numa vergonha. Por horas, por dias, teve a pergunta nos lábios, a arder-lhe na língua. Por fim, ele próprio, começou a sentir uma terrível curiosidade, supliciado pelo temor d'inquirir de um caso que sua mãe nunca lhe falara; mas, sem saber por quê, se acovardava, se reduzia à vista daquela mulher pálida como a Senhora do oratório, boa e carinhosa, cujo pisar tinha vagares meditativos de aparição e em cada gesto a soberania venerável duma paciente.

Então, no seu respeito de criança, desproporcionado no remanso severo em que se educava, corria vexado para os ângulos da sacada, a cuspinhar na rua, alvejando um determinado ponto do lajedo, embaixo, numa distração imbecil por não compreender a razão desse mistério que lhe doía nº'alma nas íntimas contorções de rancor contra a agressiva interrogação do condiscípulo.

Por uma feita, uma velha parenta, a propósito de semelhanças fisionômicas, descobriu-lhe a roxidão quaresmal do velador, que guardava o coração de sua mãe em perene Endoença: fora uma paixão romântica, irresistível e flamante.

Os seus dezoito anos liriais, recendentes e imáculos, transformaram-se, d'improviso, em tuberosa infernal e tentadora: vieram pelos cismares enluarados as árias d' Elvira soluçadas ao piano, a fascinação dos devaneios ao ritmo dos noturnos, quando os dedos se erguem molemente do teclado, escorrendo ardentias sonoras extravasadas d'alma; vieram os vôos silfídicos, estonteadores das valsas, sob a crepitação fcérica dos cristais iluminados; as rimas plangentes que joalheriaram pautas esmaceidas — como suspiros finais de gozo — em bilhetes perfumados; as visualidades da elegância num porte airoso de mancebo lobrigado nas páginas de livros que as lágrimas marcaram;

todas as sedutoras, perversas, cambiantes magias mefistofélicas do Desvario. .. . E ela, trêmula, tresloucada, tímida e febril, demorara num anscio de volúpia a recusa do pudor aos cicios rogativos ce ardentes de um belo Fausto. .. .

Depois. .. . Ora! o poema das Margaridas é tão sabido! .. .." Depois, essas garras enluvadas em carícias, que tinham escaldado as mãos dela, se abriram em esbanjamentos delirantes, roubaram-lhe com a sua virgindade, num rapto romanesco, o oiro dos seus maiores, a constelação lapidada dos seus escrínios, e uma vez esfalfado, saciado, empobrecido, repentinamente e numa esfíngica urdidura de causas, arrebentou o crânio no cano de um revólver, chancelando com o suicídio uma humilde carta de perdão.

Dias após ele nascia e essa desgraça, começada na desonra, terminada numa tragédia, afastara sua mãe da sociedade, levando-os, ambos, a uma dolorosa reclusão de luto. :

Descerrou-se para ela a porta pesada do martírio, o oculto purgatório da obscura luta pela existência dos que não têm amparo e trazem nas espaldas a inicial tisnada do opróbrio. Com exageros de trabalho, que a longanimidade tornava produtivos, educou o filho e o mantinha nos transes difíceis do seu fatalismo boêmio, sem uma queixa, serena no padecer, só e resignada na sua precariedade honesta, que a nobreza dos seus sentimentos e os esmeros educativos exemplarizavam com o asseio corretíssimo de todos os seus atos, envolvendo-os em uma Ihanceza digna, tradicionalismo de costumes distintos relembrados na prática de uma outra existência feita no exílio, a que o infortúnio levou-a como a queda dum poderio conduz à mansuetude dos desterros as exterioridades reprimidas das naturezas fidalgas.

As intermilências da saúde, já cedendo sob a tenacidade dos sacrifícios, fizeram-na procurar um retiro silvestre onde o ar fosse puro para os seus pulmões feridos e, para os seus monótonos dias d' excluída, conseguira uma companheira de teto, enfermeira e amiga — uma órfã desprotegida —, essa rapariguinha clorótica, feiosa e óssea, de olhos disformes, pasmados sobre Camilo num encanto de hipnose, quase sem pestanejos a poder da retensão fitante, e dessorando o esforço numa umidade viscosa, pela agonia de querê-lo.

Revolvendo, mentalmente, os sucessivos cpisódios desse passado, Camilo sentia a satisfação amarga de compreender-se, de anatomizar o seu próprio Ser, nestes retaliamentos de análise, sensibilizando-se mais profundamente nºafetibilidade por sua mãe, qu'ele ora notava, enternecido, na serenidade meiga das suas ocupações, madonal na doçura velínea de seus cansaços c afãs. E todas as delicadezas de su'alma, todas as vibrações ilesas do seu recesso, todo o poder simpático das suas faculdades, iam para ela, unissonamente, idolatramente, aurcolar-lhe a cabeça com o resplendor apoteósico do seu culto: Bendita, miscericordiosa Senhora da Resignação! .. ..

Ao menos, o anestesiamento deste consolo iludia o seu nevrosismo, e mesmo a certeza da realidade, a percepção do seu Eu, não lhe irritavam nem carregavam a supuração do tédio: "Era o que devia ser. Nada mais" — concluía, a refletir, acalmado pelo sossego honesto desta larcira, onde as agulhas reluziam às mãos escarvadas desses dous entes, que trabalhavam, ali, que trabalhavam nos seus linhos alvos à luz veladora da lâmpada, que trabalhavam continuamente, silenciosamente. Depois, pelo mesmo torçal de idéias, como no tornear dum fuste espiralento crescem e recrescem as mesmas conjunturas enfeixadas, seus pensamentos remontavam outra vez à sentimentalidade envolvedora desta isolada existência, ele e sua mãe, a sós, escondidos do mundo, sob um teto pobre, entre paredes que não encarceravam ódios. .. . Sem dúvida, em outros lares, haveria gozo; a vida correria contínua, maciamente, como um fio de mel aromático da ânfora das zagalas do Himeto,"

no tempo pascal da recolta aos favos. .. . Nenhum, no entanto, teria nem mais amor, nem mais doce, confortante simplicidade que o seu esconderijo! Decerto, nenhum! — Que lhe importavam, pois, os acidentes da Sorte? o isolamento do viver, a incompreensibilidade dos outros". .. .

Nascia-lhe, deste íntimo entendimento, uma rijeza d'ânimo para suportar as desventuras, que sua hiperestesia aumentava com a nitidez e a grandeza das pesquisas microscópicas, dentre as quais ressaltava este percebido insucesso para o reqúestro, esta falha de masculinidade para o gozo comum da mulher. .. . que ele, agora, desprezava, insexualizando-se numa elevada espiritualização de desprendimento da Carne, té a suposição alucinante da hipocrisia abjeta do próprio Amor, na sua mais imperiosa mutualidade de tendências gestativas, sublimizadas pela estesia poetizante de cada ser.

A digressão reminiscente, penosa e demorada que fizera pelo Passado, exumando dores, ressuscitando épocas, agitou-lhe, excitou a complicada filigrana do seu aparelho nervoso, predispondo-o a trabalhar nas suas frases atormentadas de incontentável, consubstanciando a irregularidade heteresial na contextatura sintética de páginas originais, com a fina penetração das autopsicologias. Ergucu-se sonambulizado, esquecido de si próprio, conduzindo-se para o interior. E seus passos perderam-se à distância. .. .

A entanguida acompanhou-o com o olhar, atenta de ouvidos, cabeça inclinada para onde ele se fora. Após, momentos decorridos num silêncio, o raspo arrastado de um móvel soou, abafado. .. . Pelo tope duma porta, través a vidraça do caixilho, a vermelhidão de uma luz feita abriu um quadro na treva quieta do corredor.

Ela compreendeu-a. Camilo sentara-se a trabalhar. Era sempre assim quando se recolhia cedo, e seus olhares volveram lentos, desenganados, mádidos, arrastando-se por onde ele passara, lambendo o rasto esvaído da sua sombra, esfregando-se pela erradia exalação do seu corpo de moço, ' inapercebida para outrem, para ela — infiltrante, inconfundível, intensa! — e vieram tontos deste servilismo de desejos pasmar nas paredes da sala, atônicos, estranhos, abstratos. .. .

Minutos logo, volveram a devagueiar aflitos, de um para outro ponto, estonteados e desiludidos; mas, encontrando o piedoso semblante da senhora, toda curvada à sua tarefa, o envolveram num afago, demoraram-se a contemplálo, dominados, vencidos pela semelhança dessa máscara com est'outra que Í estava dentro de si, moldando os seus pensamentos, revestindo a sua atividade cerebral, vivendo da sua vida como se ela fosse, de fato, a sua existência consciente, o seu espírito. .. . E ficou-se, atentamente, a notá-la, extasiada, esquecida dos seus afazeres, abandonada à sua imaginação.

Súbitas, nas comissuras das suas pálpebras oftálmicas, apontaram tremulinas de mágoas; suas pupilas, enoitadas de segredos, levantaram-se vagarosas, como discos ascendentes de astros carbonizados sobre a concha de opala de um imaginário céu de melancolias, para a maciez albente do teto, em busca do fantasma da lua diluída, que se imobilizara lá-cima — claridade espectral de um sonho que ela devia encontrar sempre, embora houvesse trevas, no mesmo ponto e sempre merencória, em toda a parte e sempre a mesma, porque era a irradiação do seu almejo, o luar fantasmagórico de su'alma amorosa e casta, que ninguém talvez entendesse, que ninguém talvez quisesse, mas transbordando puríssima do impulso púbere do seu corpo pela febre de seus olhos, já lindos, já lindíssimos, magnoliando-lhe o rosto com a beatífica beleza tuberculosa das Heloísas macilentas, tanta amargura, tanta angústia, tanta sinceridade idólatra transudavam no expressivismo agônico do seu fitar!

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