Capítulo XVII Mocidade Morta · Capítulo 17 de 19
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Capítulo XVII

XVII

— Sabe? .. .. Li a obra que me inculcou. .. . A Relíquia"". .. .

— Ah! Sim!

— Não é má, não é de todo má, como humorística, falta-lhe, porém, pureza de frase, o português castiço e terso do nosso imortal Francisco Lisboa, a quente imaginação do grande Alencar.

Camilo piscava os olhos, atarantado. E o Doutor com um alçar da destra, em fidalgo gesto de alto entendimento:

— Ah! meu amigo, a literatura portuguesa está enterrada nos Jerônimos, no túmulo do Herculano. .. . Agora, é a nossa vez. .. .

— De enterrarmo-nos? .. .. — perguntou Camilo, ofegando.

Heráclito sorriu, bateu-lhe no ombro:

— Tem graça! .. .. É a nossa vez de assombrar o mundo.

— Pois. .. . é assombrá-lo, Doutor, que nos não falta o feitio. .. .

Camilo suava com a palestra do Heráclito, travada no corredor da Pensão. Ultimamente não podia entrar alí que não caísse na presença do Doutor.

Fosse proposital ou fosse acaso, a porta da sua boa sala mobiliada, na frontaria da casa, ficava aberta sobre o corredor. Para esquivar-se do encontro o rapaz procurava meios de penetrar na locanda, fazia-se cauteloso ou apressado, caminhava nos bicos dos sapatos ou invadia a casa com a precipitação de quem leva uma notícia urgente, mas o doutor apanhava-o de surpresa, voava sobre seus passos:

— Olá! meu jovem amigo.

E era uma perseguição de amabilidades, perguntas, palestras políticas, novidades sensacionais, oferecimentos atraentes. Por uma ocasião, vindo Camilo no seu passo abafado e prudente, saíiu-lhe o Doutor ao encontro, com os braços acolhedores:

— Aqui tenho uma lembrança que lhe reservei. Deve ser, creio, bem agradável a um homem de letras. Perdoe-me a insignificância. .. . — ia dizendo enquanto intrometia nos dedos do rapaz um volume embrulhado.

Camilo, que se lhe esquivava, hostilmente, apenas teve a simples cortesia de lho agradecer num resmungo e abalou para o sótão.

Foi diante de Henriette que ele abriu o invólucro do presente:

— Isto é uma preciosidade! — comentava, a desdobrar o ordinário pedaço dum Farol de província. — Com certeza uma maravilha saída das estantes da Pompadour, um roubo feito à biblioteca do Trianon! — Dezfez o embrulho. Um espanto, desmesurado pelo trejeito cômico, torceu-lhe a boca. Ema uma grosseira, roída, deteriorada edição da Douda de Montépin'!

Hoje, mais do que nunca, a importunação do Heráclito o exasperava.

Ele voltava, depressa e submisso, à casa donde saíra com lágrimas, compreendendo-se um incapaz, achincalhado no seu orgulho de homem, que devia ter descido à nivelação dos eunucos pela suspeitosa timidez demonstrada. E nem sabia por que voltava. Existia nisso um fatalismo, uma obsessão animal, talvez um impulso mórbido. Mas não sabia. Voltava porque tinha necessidade de voltar.

Se tivesse deliberado nunca mais entrar nessa casa, automaticamente para aí teria caminhado. No entanto a cilada do doutor acordava-o desta insciência de ato, e agarrava-o diante da sua vergonha, punha-o como em frente de um espelho mágico em que ele via nitidamente a flutuação de sua alma abandonada à dormência misteriosa desta paixão estranha. E decidido:

— Bem. O Doutor desculpar-me-á. .. .

— Vai subir? Como tem passado a nossa convalescente?

— Até ontem, antes da noite, deixei-a boa.

— Estimo. Creia que muito estimo, porque Madame Henriette é digna de todas as atenções, é digníssima.

Esboçou uma gentileza com toda a dilatação sensual da sua enorme boca de gorila.

— Se não fosse incômodo subiria também. .. .

Camilo empalideceu, fez um ah! muito longo, comprometedor, desprevenido de recursos e ia deixar-lhe a mão, quando o Doutor com um movimento resoluto puxou a porta, deu volta à chave:

— Creio que não há inconveniente, é uma visita de vizinhos, prazerosa delicadeza. .. .

— Sim. .. . Certamente. .. . Pois não. .. . — balbuciava o rapaz, atropeladamente.

Subiram. Henriette, ao enfrentar com o Doutor, purpurejou-se, tremeram-lhe os lábios, mas soube sorrir com o encanto da sua pequenina, voluptuosa boca de adolescente, procurou os olhos de Camilo trangúilizando-o, inulilmente, porém, porque aquele possessivo, aquela frase — a nossa convalescente — ficaram dentro dele, oprimindo o seu coração. A nossa, ele dissera.

A nossa! e por quê? Que direito de intimidade assistia àquele estranho, conhecido à mesa comum de uma casa de aposentos, para chegar à externação de uma posse, irrefletida embora, mas, sem dúvida, desejada e em luta? .. ..

E na sua requintada emotividade de artista, na sua psicose dúctil de nevrotizado, a interpretativa deu-lhe, pela vez primeira, a mais dolorosa e completa análise deste ente amado.

Aquele possessivo não passava do flagrante de uma natureza revolvida pelos instintos. O doutor desejava-a. Mestiço e forte, imperiosamente a branca e débil deveria atraí-lo, chamá-lo, magnetizá-lo para o contraste combinador dos seres. Estava, pois, agindo inconscientemente, pela oculta dinâmica das tendências.

Ela, por domínio das mesmas leis, arrastava-se fatalmente para ele, alquebrantada pela persistência do reqúesto.

Foram estas razões que a conduziram, desprevenida, ao quarto do cambista e à concubinagem com Agrário. Provavelmente das mãos deste homem, depois de usada por ele, sairia para as mãos de um bruto, acabaria nos braços de um hércules. Era o seu organismo que pedia estes extremos; era sua infância miserável — o escasso fogo da lareira, os molambos aproveitados no casal; ecra su'alma nascida à face do grande mar bramante, melancolizada nas invernias saraiventas dos crepúsculos, afeita à admiração da coragem, do arrojo, da perseverança dos marítimos; era o seu isolamento no mundo, quando a adolescência rasgava diante das suas pupilas os véus difusos do formilhamento da vida, sozinha numa capital imensa, sem afetos puros, sem teto, e depois levada para o Desconhecido onde ela não passava de molécula obscura de um todo anônimo; era o seu corpo, a sua carne, a combinação anatômica do seu Íntimo ser, que exigiam dela esta simpatia, que lhe impunham esta necessidade do homem sadio, do homem robusto, do fauno cabriolante e concupiscen- ' te, do bode morrinhento e sádico. Como esperar desta criatura a sinceridade de uma aguda paixão serena, a penetração idólatra por um pálido doentio, filigranado de nervos, espiritualizado para as subtilezas da arte e da existência? Bem se compreendia a si, para falscar neste cruel diagnóstico. Mas, contudo, era este o tipo de mulher que ele também desejava no seu extravagantismo d'esteta e na sua felina sensualidade de nevrótico.

Este rosto, assim, deste mesmo oval; assim, desta mesma epiderme;

o nariz pequenito e petulante, os olhos azuis e sagazes; esta boca formada no lanço dum beijo, guarnecida de miúdos dentes alvos; o hibridismo atordoante desta fisionomia, ora ingênua como duma criança, ora maliciosa e impudica, a que os respingos das sardas mordiam de sintomas lascivos;

a orelhinha vexada, a meio escondida na crespa fiapagem de oiro brando;

este conjunto estrutural, elegante e formoso em que as roupas tomavam aspecto novo, vestiam amorosamente, eram a construção ideal da b mulher que ele queria, que ele ambicionava através o esteticismo de seus desejos. Tivesse, esta pobre rapariga, uma alma delicada de visionária, romantizassem-na desde criança, restringissem sua primeira educação à quietude sonhadora de um convento, e outro ser-lhe-ia o idealismo, a carne ter-se-ia subordinado ao espírito, outras deveriam ser suas tendências. Talvez!

A imperfeita natureza erra sempre, mas errou muito na Mulher. Mais que nos homens, a animalidade tem nos recônditos desses artificializados, preciosos seres, os impulsos indômitos das feras quando em épocas. Eles trazem no âmago do corpo uma tuberosa envenenada — a corola lúbrica do útero, que lhes comunica a tormentosa agitação dos infernos. .. .

A saleta, com as duas gelosias dobradas para fora, à claridade ampla dum sol verânico, estava cheia da larga voz autoritária do Heráclito. Na calma do azul havia a profundidade imponderável do mistério que seduz. E sob a luz desse céu, sob o conforto dos olhos de Henriette, ele contava, comunicativamente, cousas alegres.

Camilo penetrara muito no alvéolo desta paixão para atender às puerilidades do Doutor. Duas vezes interrogado respondeu sem tino; vieram-lhe arregaços de sorrisos sem motivo.

Henriette notou a distração e, compreendendo-a, empregou o encanto do seu olhar numa carícia indagativa para que ele falasse.

E o Doutor, amabilíssimo:

— Aposto em como construía alguns versos.

— Engana-se. Nunca os fiz.

— Pois ainda está neste bom tempo, há muito pouco que eu me deixei disso.

— Ah! o senhor fez versos?

— Alguns de pé quebrado. Passatempo da ociosidade. É um tributo da mocidade que, às vezes, alcança a velhice, como no meu caso — explicou sobranceiro, salvando a circunspecção utilitária da sua pessoa. Ajustou a gravata ao colarinho por hábito de correção, e continuou:

— Entretanto, nas minhas raríssimas horas vagas, dou-me à amena leitura dos meus poetas, que são poucos, apenas dous, o grande Gonçalves Dias e o arrojado Castro Alves. Que pensa, meu jovem amigo, desses dous corifeus da nossa poesia?

— Eu? Nada.

— Nada! — interjectou o Doutor admiradíssimo.

— É d'espantar esta negativa, sou o primeiro a reconhecê-lo. Mas, confesso rudemente, em questões de arte literária sou e serei de uma rudeza antipática. Por que mentir, Doutor? Eu só acho bom, só amo e elogio os artistas que me comovem, os que entram na minha alma, os que me despertam para novas emoções; e, por isso, possuo a qualidade excepcional de não convencer a ninguém que Baudelaire, que é o meu poeta, seja superior a Musset", Cada qual que pense consoante o seu temperamento.

Heráclito acompanhou com um movimento de sobrancelhas um gesto — dos lábios, indicando desprezar a questão. Nesse momento Henriette, que fora — remexer numa cestinha, a um canto, depôs sobre a mesa três copos e uma garrafa de cerveja Guiness.

— Bravo! Madame — gracejou Camilo. — É do que necessitávamos.

Tenho como verdade que, n'abjeção desta vida, só a cerveja merece exceção.

Agora chegou a minha vez de perguntar: o Senhor Doutor o que pensa da cerveja?

Heráclito mentalizou com gravidade a resposta, depois, recebendo, agradecidamente, das mãos da rapariga o copo bordado duma orla d'espessa espuma creme, conservou-o levantado em frente ao busto, explicando com vagar:

— Não sou apreciador desta bebida. Isto é uma fermentação desagradável de vegetais terapêuticos que muito convém aos gélidos germânicos. Dou preferência ao vinho, o belo vinho que nos aquece o sangue! Mas. .. . — voltou a ponderar — a melhor cousa que existe na trabalhosa vida, decerto, meu amigo, não é o vinho. .. .

Camilo sorveu da sua cerveja, limpou os lábios ao lenço, afetando serenidade, e assaltou-o logo:

— Será, porventura, a Mulher?

— Sim. .. . é uma opinião, mas eu quero estar sempre ao lado desta. .. .

—. .. da opinião, provavelmente — emendou o rapaz.

O Doutor enrubesceu, riu, concluindo:

—. .. se me afigura mais justificável.

— É a opinião de todo o mundo.

— E portanto. .. . — reticenciou vitorioso, fisgando o ar com o indicador, como uma batuta que acentua o final dum compasso.

— E portanto? .. .. — Camilo inquiriu.

— A mais admissível.

— Discordo. A mais admissível, não; queira me perdoar, a mais submissa.

— Por quê? — indagou, alteando a cabeça.

Camilo procurava a oportunidade para estonteá-lo, tinha-na segura.

— Porque todo o mundo move-se pela mesma maneira, é um corpo automático, irrefletido e oco. Pensar como o meu vizinho, como o compadre do meu vizinho, como o irmão do compadre do meu vizinho, como o amigo do irmão do compadre do meu vizinho, como o primo do amigo do compadre. .. .

— Perdão — atalhou o Doutor — prescindo da nomenclatura. .. .

— Não, senhor. Isto deve ir pela ordem natural das correlações, desejo salvaguardar os detalhes mesmo em risco da sua paciência. Pois, dizia eu, como o primo do amigo do compadre do irmão do meu vizinho. .. . é não pensar. A uniformidade do pensamento é a sua negação, porque unifica a faculdade mais extraordinária e mais variável que o homem deve possuir. Eu, meu caro Senhor Doutor Heráclito das Neves, eu quero pensar como eu penso.

— É mais que um orgulho, é uma pretensão — observou o Doutor, respirando, descansado com a incontada conclusão do rapaz.

— Embora! .. .. mas é uma dependência. Entretanto — tornou Camilo, percebendo o infeliz desvio que levara a questão, — entretanto, todo o mundo tem razão, tem carradas de razão. A onosarquia, meu caro senhor, é um fato.

Heráclito franziu os sobrolhos. O termo era-lhe estranho. Compreendendo a disfarçada admiração do Doutor, que, talvez por amor-próprio, não constatara ignorância, Camilo rejubilou, sem alarde, com essa lancetada cerfeira à segurança da sua inviolabilidade espiritual.

— Desconhece o termo, já sei. Garanto-lhe que é meu, exclusivamente meu, da minha propriedade e do meu direito sem foro ou ônus judicial ou extrajudicial. Uma glória, este termo! Arranjei-o do grego onos — onagro, o burro ancestral, o velho burro-avô, e arché — autoridade. Não que eu saiba grego, foi uma leitura ocasional, combinação de dicionários. Há o snobismo, cuja significação está entre a hipocrisia e o idiotismo; eu pretendi, por uma velha rivalidade latina, suplantar o inglês, esgaravatei a onosarquia, que me parece singular, pelo menos me contenta; pode-se-lhe dar um jeito e tem-se o onosarquismo — a burrice autoritária! Consegue ser cousa moderna, tem o sabor dos exotismos e, talvez dentro de uns dez anos, a geração futura o impinja abundantemente. .. . Olhe, os jornalistas hão de gastá-lo a fartar. .. .

— Como novidade.

— Como novidade e como preciosidade. Nós precisamos de termos novos como de novas sensações. Há quase cem anos que consumimos os legados literários da língua. Estão exaustos esses acervos. Mas, ao caso. O onosarquismo é um fato. E não há nada mais cabal, mais harmonizador, mais útil, mais equitativo que a burrice. Ela é um poder centrípeto, uma força motriz, engrenagem principal de todo o maquinismo social. Começa por se opor ao transcendentalismo e à especulativa, duas perversões espirituais, e termina por anular a desprezível canseira do raciocínio pela cega aceitação das conveniências.

O Doutor berrou exclamações de chacota:

— Oh! oh! Magnífico!

E sempre autoritário, sem perder a sua linha de "homem notável":

— Então a burrice é o centro de gravitação humana?

— Precisamente. O senhor pôs os pontos nos ii. Se não fosse a onosarquia, meu caro senhor, o mundo seria um composto de pequenas tribos ou núcleos, em lutas constantes ou em profunda indiferença de tribo para tribo. O que faz a comunidade civilizada é esta força, que escapou à sagacidade dos grandes filósofos antigos e modernos. Imagine o senhor que nos falhasse esse "poder moderador", indubitavelmente colocado entre o talento e a obtusidade vulgar, entre os sábios e a ignorância comum; que todos os seres humanos fossem aferidos intelectual e espiritualmente por uma mesma escala. .. . Imagine que descalabro não resultaria dessa completa igualdade! O homem seria, nada mais, nada menos, que um animal pacato e grave, a existência das nações limitar-se-ia ao ronceiro trabalho das granjas, os encantos da vida, esta série de delícias que nos distraem, consolantemente, da rapidez da trajetória entre as fraldas d'amamentação e o lençol do ataúde, seriam umas cousas mais que insossas e rústicas. É preciso, portanto, a existência de um "poder moderador", um poder que seja como uma retorta de tudo quanto a Inteligência e o Espírito produzam para o uso dos inferiores, dos que são incompletos e inscientes. E esse poder, Senhor Doutor, realmente existe, é a onosarquia.

Assim como no nosso sistema planetário, os rudes movem-se ao derredor do Burro, por identidade orgânica. Descerei ao particular, entrarei no detalhe para melhor explicar-me. Lance o Senhor Doutor Heráclito das Neves, lance o olhar para o meio em que vive, o seu meio político. Tome desse meio um caso raro, se é que o tem. Suponhamos que o tenha. Este caso raro será, pois, um político de talento.

Heráclito pigarreou, susceptibilizado. Camilo emendou, com afetada delicadeza:

— Abro exceção para o meu complacente ouvinte, ilustrado, conspícuo membro do Partido Liberal. .. .

— Obrigadíssimo — murmurou o Doutor.

— É raro — continuou o moço —, é raríssimo o caso. Um político de talento como eu o imagino, com eu o desejaria, é mais difícil de nos cair às mãos do que foi a Cromwell, vitorioso, achar quem decepasse a cabeça ao infeliz Stuart, porque eu imagino um político completamente diferente do tipo comum dos mais afamados, dos mais conceituados políticos.

O Doutor, que acabava de cruzar, soberanamente, os braços sobre o largo peito, atalhou:

— Provavelmente um Napoleão Bonaparte com a diplomacia de Talleyrand. .. .

— Mais, muito mais distante, meu caro Senhor Heráclito. Imagino um profundo interpretador de todos os segredos psíquicos da entranha humana, conhecedor da sociologia, ampla e criteriosamente estudada em todos os seus ramos, e, sobre isso, um audaz espírito de moço, ambicioso como esse Napoleão, que o senhor acaba de citar, mas com as delicadezas de um esteta, a alma de Luís II da Baviera', Impossível, como vê.

"Admitamos, porém, que essa criatura humana se houvesse desligado das secundinas maternas, que um ventre bendito a procriasse e que ela fosse uma realidade em carne e osso como nós nos orgulhamos de ser. Que aconteceria a esse homem? É curiosa a previsão. Demais sabedor para suportar o intrincado enredo da casuística politiqueira, romperia com as normas do seu partido, desrespeitando a letra obrigada do Credo; demais analista para voejar sobre superfícies, sua luta seria destruidora, solapando o que se não poderia reconstruir sem sacrifícios individuais, donde provada inutilidade política;

— rebelde e intelectual, revoltar-se-ia contra a disciplina e contra os conchavos;

esteta, pensando na Arte, amando a exterioridade, idolatrando os espirituais, tornar-se-ia um esbanjador dos dinheiros públicos, um perturbador da ordem social, um louco. .. . Em uma palavra: essa criatura seria um flagelo, segundo o vulgar emprego deste termo. .. .

"Tomarei, agora, o oposto a este indivíduo, isto é: o aceito, o útil. .. .

Porque, em verdade, o Burro é, zoologicamente, inferior ao leão, mas nos limites da utilidade lhe é superior. Nesse tipo de antítese tudo é negativo. O seu espírito não passa de uma luz de candeia fechada entre cem muros de bronze. O que ele pensa, o que ele sente, é animalmente instintivo, pensa por associações morosas, elos dum mesmo tamanho e sempre duma mesma espessura; sente por acúmulo de vibrações tais que seriam capazes de derrocar, de polvilhar as montanhas da Suíça e os Andes. .. . Pois bem, é esse indivíduo que convém, é ele que representa a segurança pública, a ordem de uma nação, a força de um povo! Compreendem-no, aclamam-no.

"Ele é como uma serra granítica que contivesse, por um flanco, a floresta, e por outro o mar, impedindo que as duas forças se encontrassem. Ele é o medianeiro, o meio-termo, o obstáculo que não cede para avante, nem recua;

é, em suma, a Mediocridade, sem explosões, sem vibrações, sem ideais. .. . O Burro, na sua compleição utilitária. O Burro que não tem contrações d'alegria nem expressão de dor, que se não excede da marcha costumária, que se não despenha dos alcantis, nem tropeça no estreito trilho das cabras. .. . Não é um ente imaginário, é uma verdade, um tipo que está, diariamente, sob as nossas vistas, que vive conosco, que nos fala, que nos governa. .. . É o Burro de sobrecasaca, medalhado, sério, pacato, resistente. Na política chamam-lhe estadista, dizem-no profundo em finanças, cabeça de partido, esteio moral das classes conservadoras; nas artes tem o qualificativo de trabalhador e mestre, representa o respeito às fórmulas herdadas, o bom-senso literário, o obstáculo às inovações, o crítico abalizado; na ciência é o meritíssimo senhor conselheiro, o eminente, o provecto, com um pergaminho dependurado do pescoço e uns óculos nas ventas; na sociedade tem ele a designação de honrado . progenitor, prestimoso vizinho, afetuoso compadre! Porque o onosarquismo, meu caro senhor, é onímodo e poliforme; sem perder a sua essência, tem várias aparências e se reveste de aspectos diferentes — tanto se enfronha numa casaca de aristocrata, como no balandrau negro da burguesia, que é a sobrecasaca da circunspecta vulgaridade; ora se o vê em fardas, ora em batinas; cabe-lhe tão bem uma blusa como uma jaqueta. O seu aspecto varia, a sua aparência possui disfarces, mas no fundo, dentro desse físico grave e austero, ou desse tipo rubicundo e risonho, ou desse nervoso e macilento, está o onosarquismo, que deveria ser o axioma de Hobbes.'

"Sob tão diversas formas encontra-se-o por toda a parte, em todos os tempos e em todas as regiões. É por isso, meu caro senhor, que Pascal descreveu a Opinião, como uma esfinge com cabeça de burro. .. . Quando sai uma descoberta dos laboratórios ou uma idéia dos gabinetes d'estudo, o onosarquismo abocanha uma e outra, submete-as a um particular processo de assimilação mental e, depois, espalha-as para o uso comum. E o princípio descoberto, a verdade encontrada, a lei concludente, tomam uma forma bem diversa da sua estrutura primeira, reaparecem completamente modificados ou depurados.

"Basta-nos uma prova, a mais. Temo-la na grande Revolução Francesa.

Como o senhor sabe, foi do cérebro dos Enciclopedistas, notavelmente do cérebro do famoso Denis Diderot, e do de seus continuadores Condorcet e Danton'", que saíram os princípios dessa imensa reforma. Como filosofia era uma obra poderosa e ampla, cuja aplicação daria os mais extraordinários benefícios à humanidade. Mas o onosarquismo, na sua infalível assimilação, tornou esses princípios um proveito puramente individual, destinando-os a uma classe, utilizáveis para as dissimuladas aspirações de um meio. .. . Não sei se me exprimo com clareza? .. ..

— Tem sido inexcedível! — obtemperou o Doutor, com uma subtileza d'experimentado parlamentar.

— Neste caso, aí tem o Senhor Doutor Heráclito rapidamente provada a autoridade do Burro, o onosarquismo; força equilibradora, elemento de prosperidade e fortuna, princípio inestimável de ordem social. A vida espiritual dos homens, socialmente considerada, é uma eterna gravitação em torno dessa força.

Heráclito descruzou os braços, com fleugma. Sorria. Depois, esfregando e acariciando as mãos disse:

— Brilhantemente exposta, a sua teoria! .. .. E ninguém salva-se da influência desta força niveladora, desse extraordinário poder igualitário, como acaba de provar, senão o meu jovem e distinto amigo.

Henriette, como movida por uma força desconhecida, não conseguiu reter uma risada, mas tão inesperada, tão incompreensível e nervosa, que Camilo teve um tremor, como sacolejado em todas as mais secretas fibras do seu corpo. O rosto tornou-se-lhe branco, arderam-lhe as pupilas. E desembaraçando-se dum pigarro de cólera, redarguiu ao Doutor:

— Perdão. .. . eu exponho a minha teoria, jamais teria a incivilidade de o

— envolver nela, tendo-o por meu único e inteligente ouvinte.

As pálpebras de Henriette bateram ao peso de um rubor; e Heráclito, mordiscando os lábios, explicou com calma:

— Nem eu o julgo capaz de tão feio proceder. .. . Sinto-me achatado sob a verdade esmagadora da sua exposição.

Abriu-se um silêncio.

Pela janela a tepidez voluptuosa da manhã declinando aveludava a paz de em torno, a luz doirava a caligem do casario amontoado e extenso, mosqueando telhados velhos, sangrando em cavas de barrancos as telhas novas de um novo teto. Estendida, para lá dos zincos fabris, a faixa do mar rutilava como uma chama de prata. Grimpas denticuladas de serras, ao longe, muravam o horizonte, sobre o azul profundo.

Mas logo a voz do Doutor expandiu-se:

— O meu jovem amigo deveria desenvolver esta original teoria em um livro, obra pensada e séria.

Ergueu-se, desdobrando no espaço a sua elevada estatura de forte. Viu horas no seu belo cronômetro de oiro, despediu-se protestando afazeres:

". .. tinha uma conferência política, negócios eleitorais. .. ." E, atencioso, afável, numa leve curvatura:

— Meu talentoso amigo, até logo. .. . Madame, au revoir. .. .

Desceu lento. Os sapatos ringiam nos degraus.

— Que besta! — murmurou Camilo. Alagou-o um rancor feroz por esse feliz, sereno na vida, bem-acolhido e bem-colocado. .. . e a risada de Henriette, aquela terrível risada histérica sob o sarcasmo do Doutor, aprovativa e injuriosa, piafou dentro da su'alma, sacudindo-lhe num tremor de raiva. Inopino, numa crise, gritou à cara de Henriette:

— Tu sabes? .. .. tu sabes? .. .. Eu não quero aqui esse idiota! .. .. nem mais — uma vez. .. .

Tremia; as faces ficaram-lhe descoradas e cavas, as pupilas esfuziavam.

A rapariga pasmou, assombrada, mais branca que ele. Depois, uma vermelhidão manchou-lhe o empalidecimento. Ansiou, opressa, resfolegando 1 numa comoção. À custo, inda arfando, como um pássaro cansado, falou medrosa:

— Mas. .. . qué que tens? .. .. que é? .. .. Sossega.

Camilo vacilou com uma sombra nos olhos, estremeceu vibrado até o mais íntimo dos seus filamentos nervosos e desabou sobre a cadeira, a chorar convulsivamente.

A estupefação da rapariga aumentou. Oscilou atordoada, ameaçada por uma síncope. Depois ficou indecisa, idiota, torturando as mãos, uma dencontro à outra. .. . até que, num ímpeto, numa explosão inconsciente da natureza feminina, correu para ele, tomou-lhe a cabeça entre as palmas, meigamente a falar, à murmurar, a sussurrar:

— Que tens? .. .. Dize-me. .. . conta-me. .. .

Camilo desviou-se dela, frouxamente, desleiando-se dos seus braços, das suas mãos:

— Deixa-me. .. . Deixa-me. .. .

E parou o olhar no soalho, atropelado mentalmente numa confusão de idéias. Respirava cansado; apoiara o cotovelo à curva do espaldar e com a mão amparava o rosto mortificado pela vergonha: "Tanta energia! tanta dissimulação! para cair num momento, para baqueiar teatralmente como uma mulher, como uma criança! Mas, que infeliz era ele! .. .."

A voz de Henriette suspirava, ainda, confortos pueris; rogava, implorava que lhe dissesse o que sentia. — Tornara-se-lhe humilde, arrancava-se-lhe do peito como uma confissão de penitente, fazendo-se súplice, escrava, vencida, castigada.

Ele recusou-a, num repelão, com bruteza:

, — Deixa-me. .. .

Mas, arrependido, volveu a explicar com mansidão:

— É uma crise nervosa. .. . Eu sou assim. .. .

Henriette, magoada com a repulsa, encostou-se a um peitoril, levando o olhar para as distâncias, resplendentes de sol, sob o azul diáfano, deslumbrantemente limpo. No alto da sua fronte esgarçavam-se cabelos nºaragem branda, que soprava; uma pequenina madeixa, desanelada, retremulava, flamava como uma diminuta labareda d'oiro. .. .

Camilo continuava imóvel. Havia no seu coração uma dor que o entorpecia, que o fazia mais desgraçado e menos violento — a quase certeza de que iria pôr termo à sua indefinida posição diante desta rapariga. .. . Mas, desejando esse desenlace, temia-o, prevendo a sua desventura.

De revés, percebia o corpo de Henriette à janela, num delicado volume

— branco tênue, das cambraias do seu vestuário caseiro; a massa dos cabelos em apanho habitual para o alto, em torçal grampeado, e o róseo do rosto em perfil, escurecido num tom vítreo de faiança decorativa, sobre o largo quadro da janela aberta. Já o silêncio, em que permanecia, o constrangia penosamente, dando-lhe a sensação de se ter encerrado num esquife de chumbo, cujo tampo, eriçado de farpões de ferro, estava prestes a cair e a cingir-se-lhe ao corpo. Tomou uma resolução: levantou-se, deu alguns passos para a mesa, estendeu a mão ao chapéu. .. . Tinha um pressentimento de que ela lançar-se-ia em seus braços, num grito estrídulo, de desespero, num arrebatamento dramático e comovente. Henriette, porém, não se moveu, prendera-se a fixar os longes do horizonte, quieta e enigmaticamente.

Ele falou-lhe, apreensivo, mísero na sua humildade:

— Adeus. .. . Henriette.

Vagarosamente, ela volveu-se. Os olhares de ambos pararam, mediramse por momentos; ambos ininteligíveis, desconhecidos. .. . e, ao mesmo tempo, cada um desviou os olhos do semblante do outro, pelo temor de se odiarem, talvez! .. ..

— Já te vais? .. .. Demora um pouco mais. .. . podes ter alguma cousa na Tua — disse ela, por fim, com uma serenidade que amortalhava a alma do infeliz.

— Preciso de caminhar. Nestas ocasiões só me sinto bem quando ando.

Adeus. .. .

Correu pelos ouvidos de Camilo um sussurro de morte, um murmúrio vago, esmorecido, de despedida — adeus! .. .. — que ele ouviu já nos últimos degraus da escada. Apenas: Adeus! .. ..

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