Capítulo IX
IX
O desrespeitoso gracejo dos rapazes, na exposição de Telésforo, ultrapassou do restrito testemunho em que se deu para o conhecimento de "todo o mundo" literário e artístico.
A boca babugenta do Feliciano trouxe-o para os ateliers, a indignação do "grande artista" não soube ocultá-lo nas reservas do seu critério nem o desculpar com o generoso esquecimento da sua longanimidade. Pelas redações comentava-se o caso, em rodas circunspectas, em torno das escrivaninhas de respeitáveis articulistas macilentos; nos ateliers desfibravam-no com recriminações. Excedia da insolência esse desrespeito a Telésforo, o Extraordinário, sagrado pelo óleo ciborial da prosa clássica do grave e potentoso Conselheiro Costa Vargas, a pena notabilíssima que sustentava os créditos castiços do idioma português n'algaravia ignara do falar crioulo, e, ao considerarem as honras que engrinaldaram, nas terras cultas d' Ocidente, o ilustre nome do autor desse paradigma da pintura marcial, sentiam no arrojo dos moços a criminalidade duma inabsolvível tentativa de lesa-majestade.
A procela das censuras não se encastelou, porém, à vista dos rapazes.
Entretanto, algum tempo depois, eles começaram a notar, sem que pudessem precisar a causa, uma má vontade para tudo quanto lhes dizia respeito. Era-lhes difícil, mesmo impossível, conseguir notícias de seus ideiados quadros ou efêmeros projetos; o próprio Agrário, que fora saudado, incondicionalmente, com adjetivação feérica, considerado um halo a formar-se sobre a cabeça laureada da Arte, não mais lograva uma simples referência nas linhas esparsas dos noticiários e Camilo, por duas vezes, tinha sido admoestado pelo redator da Folha, um luzeiro de metro e doze, escuro como os mestiços insulares d' África, que trazia a sua ciência médica e suas convicções republicanas numa enorme sobrecasaca cinzenta e cartola de castor.
O moço jornalista embasbacou com a reprimenda, quis explicações ao ouvila reiterada e o chefe, a quem se atribuía erudição lexicóloga, empertigou a cabecinha arrogante, hieroglifou com o indicador um desprezo soberano, porém supondo inexpressão nesse gesticular que escapava à inferioridade, respondeu-lhe capcioso e maciamente num aforismo latino — que era da precaução de atinados não esvaziar os alforjes na distribuição dos favores.
Camilo espichou o lábio, retorquindo com igual desdém, mas bem depressa esbarrou numa imperativa recusa de publicidade a um folhetim sobre o Impressionismo na pintura, em que o nome do amigo Agrário flamejava como o bolsão dos cavalheiros de saio escudado nos prelos das távolas.
Adergou, então, com o motivo, sem procurar estimá-lo na importância maior do que a que ligava às muitas conveniências e servilidades do redatorchefe e, para opor à subserviência do jornalista republicano o seu desassombro de moço, pensou em obter do gravador Forjaz o apoio pecuniário a uma publicação periódica, no gênero panfleto ou revista, em que pudesse escrever independentemente, desacorrentado do ferro das concessões e plantando a haste incurvável do seu galhardete revolucionário em anúncio de hostilidades abertas.
Mas, vagando pelos pontos costumários, subindo e descendo as escadas da Pension Beaumont onde raramente conseguia trocar palavras com o amigo que se tornara inencontrável, gastou semanas a rever, a ampliar, a modificar o seu projeto sem lhe dar solução, até que, já esmorecido e por um acaso, pisou os degraus do atelier do gravador Forjaz.
Antônio Forjaz era o resultado do seu próprio esforço, a energia vencedora duma vontade, Saído da sua aldeia beirã, nas vizinhanças escarposas da Serra da Estrela, ainda amadorrado dos mimos maternos, tomara rumo às areias faiscantes das praias brasileiras para tentar a posse do sonhado futuro dos comendadores; mas, refractário à especulação comercial, meteu-se numa oficina tipográfica e des'logo começou a ensaiar xilografias, que vira trabalhar por um velho parente a quem veio recomendado. À força de vontade e vocação o buril docilizou-se-lhe aos dedos; em pouco tempo as suas gravuras satisfizeram exigências industriais de que resultou para ele larguezas de bemestar. O seu atelier abriu-se a todos os artistas desprotegidos e necessitados, porque obtinha no desenho das madeiras os recursos para fugir à fome; a sua mesa, em casa da família que havia feito, era uma sucessão de tábuas de vinhático cobertas pela toalha alva da paz e da abundância, em derredor da qual sentavam-se os que tinham necessidade do pão alheio e os que tinham coração agradecido; à extremidade, presidindo a honesta refeição frugal, entre uma doce senhora, simples como uma sertaneja, bondosa e solícita, e duas moreninhas infantis, que eram as fibras da sua sentimentalidade, o seu rosto pálido de sedentário, de longas barbas quase brancas, tinha a calma patriarcal de um Abraão.
Camilo foi surpreendê-lo na sua banca de pinho, à luz franca de uma janela aberta para telhados de prédios térreos, o braço erguido sobre o bloco, a escavoucar uma gravura que visava pelo disco de grande lente fixa. Ao lado, num esbandalhado sofá de mogno, um sujeito magríssimo, ossos e nervos ressequidos, escassa cabeleira grisalha encrespada em torno da calotte nua, pince-nez de ouro montado no nariz, manuscava, com indolência, uma revista de Arte.
— Há que anos! .. .. há que anos não se o vê! .. .. — disse o Forjaz suspendendo, por instantes, o trabalho. Nunca estendia a mão a apertar senão os dedos maiores porque não largava o buril, e sem dar tempo a explicações perguntou-lhe como ia de saudinha.
O esqueleto preguiçoso levantou a caveira encurricada, fitou-o, franzindo a testa e crgueu-se com estouvamento:
— Ora, viva! seu revolucionário. Ora, viva!
Vestia um fato claro de casimira inglesa, uma enorme gravata de seda azul-escuro enchia-lhe o peito cavo, agarrada sob o botão do colarinho pelo aro de prata de pretensioso mosaico miniaturado.
— Ó Mestre Lourival! como vai esta bizarria?
Apertou, familiarmente, os ossos ao esqueleto que o fixava com os negros olhinhos inteligentes, duma vivacidade alegre de garoto, através dos cristais do pince-nez. O curto bigode, apenas mediocremente peludo nos talhos da boca, dava-lhe ao pequeno nariz afilado um retraimento característico das narinas, como se aspirasse, desagradavelmente, um cheiro enjoativo e, sob o maxilar, falripas lanígeras, retorcidas em duas pontas mefistofélicas, rompiam a dureza do queixo largo.
— À espera da trompa de Josafá — gracejou o Lourival, em resposta — . .. . Ou que o Zut me venha galvanizar. .. . Homem! a propósito. .. .
E desatrelou a língua. Possuía o dom precioso da palestra. Os assuntos ocorriam-lhe prontamente, as respostas saíam-lhe fáceis e eram trocadilhos, ditos d' espírito, reminiscências, anedotas, numa linguagem fluente, corriqueira, mas insinuante. Costejando pelos promontórios septentrionais da idade, o seu lastro de vida espiritual pesava valiosamente pela variedade desordenada dum bric-A-brac curioso, em que sobressaíam os entusiasmos democráticos da geração de 1854, filiada à escola progressista de Teófilo Ottoni 5º mas, por acidentes que lhe ofereciam assuntos de faceta ironia, atirou com a sua mocidade sobre uma escrivaninha de Secretaria d' Estado, onde começou a apodrecer alegremente para não encurricar-se na seriedade burocrata de "um bacalhau seco". Solteirão e boêmio à sua maneira, ganhando o bastante para uma existência meã, empregava as sobras dos seus vencimentos nºaquisição de modesta coleção de arte, que ele farejava e catava por todos os belchiores, regateando com impertinência para a posse de tudo quanto lhe parecia valioso e i original. Esta agradável e inofensiva monomania atraiu-lhe a camaradagem dos artistas, aos quais prestava o apoio da sua pena de folhetinista e crítico-amador.
O caso do Zur interessou-o. Ele se lhe referia com expressões simpáticas, a confessar que fora dos que, a princípio, embasbacaram com o termo, achando-lhe, contudo, um sabor boêmio e algazarrento; depois os seus ossos ringiram e desengonçaram numa tétrica macabrice, ao ritmo da dança de Saint-Saëns' mas por crises de gargalhadas com o susto de Telésforo e a caricata oscilação dos sarrafos pintados do Panteon. .. . E, não sabia Camilo que Telésforo andara de redação em redação a queixar-se da ofensa? .. .. Pois fora. Até parecia um Irmão Inácio esmolando da caridade cristã!
O Forjaz desembuchou uma risadinha e, sem largar do trabalho, disse que o caso não valia os comentários que se fazia. .. . Fora uma troça de rapazes, nada mais. .. . Posto que ele — explicou, parando de escavoucar — admirasse o talento de Telésforo, era um vencedor!
— Não se lhe contesta, Sr. Forjaz, não se lhe contesta o mérito — pulou o Lourival —, unicamente desconta-se-lhe o valor excessivo que lhe pretendem dar.
— Com sinceridade o Sr. Forjaz acredita nesta vitória? — perguntou Camilo.
— Como não? .. .. se eu lha reconheço.
— Neste caso, perdoe-me dizê-lo — está iludido. Telésforo será um vencedor da Vida, mas nunca um artista vitorioso. E, senão, diga o senhor que originalidade ele desenvolveu e apresentou na sua obra, qual a Escola que ele chefia? Tudo o que vemos nesse quadro, tudo, sem exceção de um ponto, já foi feito, já foi reproduzido, é um composto de regras usuais e cediças. O ilustre Telésforo não teve mais que combinar e arrumar o que encontrou à mão, a exemplo de outros, aos quais se nega os menos escorreitos encômios. Pedíamos, no entanto, uma maneira nova de pintar, o modelado seguro, palpitante dos mestres contemporâneos, um arrojo de cor ou de pincel, alguma cousa que nos empolgasse d'improviso ou nos atraísse paulatinamente, fascinando, e nos obrigasse a murmurar emocionados: — Aqui está um artista! E tem, o nosso amigo Forjaz, esta emoção diante da obra de Telésforo? Diga-me o Sr. Forjaz: — tem esta emoção? .. ..
Antônio Forjaz despegou-se outra vez do seu bloco:
— Mas, Sr. Camilo, por esta doutrina são raros, são raríssimos os que têm direito à glória.
— Certamente! — carregou de novo o Lourival, pulando no meio do atelier. Os berloques da sua châátelaine tiniram.
— Nem se discute! — ajuntou Camilo — Os inovadores, os gênios das reformas não têm a propriedade dos cogumelos; mas, quando não se possui a chama criadora, faz-se necessário, para conquistar os planos projetados pela glorificação, um mérito, um valor provado que destaque o indivíduo da vulgaridade. .. . Demais, não é, como pode supor o nosso bom amigo Forjaz, uma questão de indisciplina da idade, esta revolta contra a preponderância de Telésforo. Nós todos sabemos que os mestres de ontem sofrem os ardores rebeldes das gerações sucessoras. Vinci teve a oposição do nome de Miguel Ângelo, como esse a do de Rafael; nós todos sabemos que a obra-prima de Watteau" — o Embarque para Citera, — foi alvo das bolas de pão dos discípulos de David numa sala d' Academia de Paris, como — O Rapto das Sabinas
— não ficou incólume sob as chufas da meninada contemporânea do ainda estudante Delacroix. A mocidade não se exime ao domínio do em voga. Ela é a impulsora do seu tempo ou, em outros termos — o esforço vitorioso da própria moda. .. . Mas, amigo Sr. Forjaz, o nosso caso é outro. Não temos um nome a opor ao de Telésforo, uma simpatia para sufocar uma antipatia; não se trata de merecimentos em concurrência, nem de nomes em moda. O nosso caso é de justiça na distribuição das palmas. O que exigíamos de Telésforo, note o senhor que preciso o termo, o que exigífamos desse vencedor era a sua vitória. .. . Onde está ela? .. .. Ele criou alguma cousa? .. .. modificou as linhas do arabesco acadêmico? .. .. alcançou alguma perfeição no expressivismo das suas figuras? .. .. descobriu processos de pintura que nos dessem efeitos novos? .. ..
fundou a arte nacional? .. .. Espero que se me satisfaça estas interrogações, porque essa obra parece-me vazia de tais predicados.
O gravador curvou os ombros, subjugado, continuando a sua tarefa, e logo saiu o Lourival com outro argumento que fazia desconjuntar, estalar a reputação de Telésforo. O grupo dominante, que o Conselheiro Costa Vargas dissera "a mais grandiosa criação a que jamais o engenho humano deu forma objetiva na superfície do painel", não passa de flagrante reprodução da Batalha d'Austerlitz, de Gérard; os demais grupos são cópias flagrantes das composições de Horácio Vernet, de Yvon, de Philippoteaux. ºº Viva o gênio! Toque-se o hino.
Forjaz recuperou ânimo, não quis desfraldar-se da sua admiração sem opor às investidas dos críticos os últimos argumentos:
— Pois, senhores, estou boquiaberto! .. .. E ainda mais me pasma esta ovação que lhe fez a imprensa, unanimemente, sem discordância de um só jornal!
— Ora! — exclamou Lourival — a imprensa! A imprensa entende tanto de arte como eu de sânscrito. Não há muitos dias, encontrei o Conselheiro Costa Vargas extasiado de admiração diante de uns quadrinhos da mais reles, da mais infame carregação de bazar, e o chefe deste nosso Camilo, que publicou dous artigos sobre as decorações da Capela Sistina, perguntava-me, uma ocasião, o que vinha a ser pintura a frescol. .. . Aí está o que vale essa cousa informe, pegajosa e incolor que se chama crítica de belas-artes no jornalismo indígena. Aqui tem o nosso amigo, diante de seus olhos, um exemplo das habilitações dessa crítica: aqui me tem, a mim, Lourival d' Abreu, que apanhou nos livros umas tinturas de arte e prepara neurastenias com o esforço de receptividade das suas células emocionais.
Camilo tinha acendido um cigarro, esperando que Lourival terminasse para "lançar" o seu projeto. A oportunidade clareara com as referências do folhetinista. E, procurando cortar a probabilidade da volta à questão de Telésforo, falou na necessidade de uma propaganda ativa em favor da estética moderna, que nos chegava por informações de correspondências estrangeiras, nas colunas da imprensa. Fazia-se urgente a fundação de uma revista que desenvolvesse o gosto público, iniciasse-o nos progressos da arte européia, despertasse-lhe o interesse por esses assuntos. E isto só se alcançaria numa revista, numa publicação periódica que consentisse a seriedade dos artigos e a independência na externação das opiniões. .. . Poderia ser feita com cuidado, bem impressa, acompanhada de reproduções de alguns quadros notáveis. .. .
Seria uma publicação de valor, onde o amigo Forjaz teria margem para demonstrar os seus méritos de xilógrafo. .. . E não estava o amigo Forjaz por largar uns cobrinhos para a tentativa?
Forjaz coçou a barba sob o queixo, ponderativo e grave:
— É dinheiro perdido! .. .. Neste país o que se quer é isto que estou a fazer, grosseria, cousa de comércio. .. .
— E por que se não há de combater este defeito? — protestou Lourival.
— Sejamos fortes, resistamos à estupidez.
— Sim; porque, se não houver resistência seremos nós os esmagados
— acrescentou Camilo, encorajado pelo espontâneo concurso do companheiro.
— O Sr. Forjaz tem o exemplo em si. Considere o que pôde alcançar por seu esforço, considere que aproveitamento teria tido se, ao invés de se contentar com este trabalho puramente industrial, se dedicasse a produtos de arte, como os alemães. .. . E por que o Seu Forjaz não o fez? .. .. Certo que não foi por incapacidade, mas por circunstâncias mesológicas, porque o meio lhe não consentiu. .. .
O rosto macilento do gravador teve uma alegria e, num gesto de aquiescência que lhe curvava os ombros, atalhou:
— Só mais tarde, só mais tarde, Sr. Prado, poderei dar-lhe a resposta.
Por enquanto as cousas vão mal, vão muito mal. E, creia, sinto que lhe não possa prestar desde já o meu apoio, porque me tenho na conta dos seus mais exaltados admiradores. Creia.
— Que diplomata! — exclamou o Lourival, ajeitando o pince-nez; na falange do mínimo reluzia uma jóia, um rico gravado de ametista. Camilo admirou-a:
— Estás com uma preciosidade! Deixa-ma ver.
O esqueleto farsista estendeu a mão encarquilhada, a explicar como tinha desencavado a raridade nos bolsos de um mendigo, mas, caso estranho, detalhe de um inestimável sabor romanesco! — era um fecho de liga.
— De liga! — pulou espantado, na sua cadeira, o gravador Forjaz.
— Sim, de liga. Eu ainda possuo o fecho.
À confirmação do Lourival o gravador esgazeou os olhos, pasmo, emocionado diante daquele luxo asiático; e com a boca babada de assombro ia dizendo — que devia ter pertencido a alguma rainha. .. . E, então, esse misterioso mendigo talvez fosse um emigrado político, um príncipe niilista evadido da Sibéria. .. .
— Não sei. Comprei-o a um mendigo boêmio ou turco, ou nazareno, um mendigo imundo, cor d'enxofre e grenha trevosa. Numa tarde de lama, por intermitências das chuvadas de junho, aproximou-se de mim um maltrapilho a choramingar piedade, repeli-o com asco porque o desgraçado cheirava mal; ele teimou, insistiu, e como eu o ameaçasse com a hipérbole do concurso policial, sacou do bolso esta preciosidade, ofereceu-ma por qualquer preço. .. .
Estive para estender-lhe quinhentos réis, mas, temendo perder a ocasião, propus-lhe dous mil-réis, recusou; lancei mil-réis a mais, ele recusou ainda; desdobrei-lhe aos olhos ávidos uma nota de cinco, novinha em folha, farfalhante e dum lindo amarclo de oca, o desgraçado ganiu o quer que fosse, aceitou-a, talvez iludido com o seu valor. .. . Desde aí desconfio de consanguinidades semitas na minha origem. .. . Eis a história, algum tanto descorada no estilo para não chamar sono à necessária atividade do nosso amigo Forjaz.
— É interessante. .. . — murmurou Camilo, ia voltar ao caso da revista, reatar os pontos da proposta, quando o gravador insistiu na narrativa do Lourival.
—. .. E a cara dele, Sr. Lourival? .. .. e a cara dele não era a de um fidalgo, não tinha traços de gente fina?
— Se me não falha a reminiscência era um tipo entre São João Batista, das sacristias, e Murad-Bey. .. . Conheceu Murad-Bey? .. ..
— Não, senhor.
— Pois bem, pode acreditar na minha palavra; esse mendigo era o retrato vivo do famoso Murad-Bey, o célebre aliado de Kléber.
— Mas — retornou o gravador — eu creio que não há nada de estranhável nem de ridículo na minha suposição. .. . Esse mendigo esfomeado, com cara de fidalgo, essa jóia de valor. .. .
— Talvez — conjecturou Camilo para satisfazer a curiosidade do gravador — houvesse pertencido a alguma Favorita. .. .
O Forjaz meneiou a cabeça, concordante; Lourival, porém, rompeu numa contestação:
— Favorita com meias! — E os seus olhinhos brilhavam através dos cristais, a medir o jornalista. — Onde viu você semelhante cousa, senhor crítico de arte?
Camilo encafifou. Realmente, fora uma cincada desmoralizadora. Sorriu, desculpando-se com o estado febril em que a curiosidade trazia o amigo Forjaz, tornava-se-lhe urgente um calmante, um paliativo, embora sem resultado eficaz.
— É, o Lourival tem razão — voltou o xilógrafo, obstinado nas conjecturas —, tem razão; as Favoritas não calçam meias, segundo nos ensinam as gravuras e os quadros. Neste caso seria de melhor aviso atribuir esta liga a uma rainha. .. .
— É possível. .. . mas, inclino-me, com bons motivos, a supô-la utensílio duma meretriz.
— Duma meretriz! quê, Sr. Lourival?
Retorceu-se o Forjaz, abismado.
— Sem dúvida! Creio mesmo que já li, não sei onde. .. . Se me não engano num livro que atribuem a Richard Wallace? que no leilão de Alphonsine Plessis, mais conhecida por Margarida Du Plessis, a célebre Dama das Camélias, de Dumas Filho, figurava entre os lotes cobiçados um par de ligas com fechos d'oiro e ametistas gravadas. .. . Ora, essas ligas foram adquiridas a preço de luíses por um grande viveur, o Barão de. .. . três-estrelinhas, diz-nos discretamente o autor; é bem possível, pois, que o Sr. três-estrelinhas houvesse constelado com elas as deliciosas pernas dalguma estrela e como os astros do firmamento de Citera desabam no lodo, a garra desse mendigo pouco trabalho teria para ir até a sarjeta. .. .
— Ou, quem sabe? — acrescentou Camilo — esse mendigo não seria ele próprio um decaído! esquife abandonado duma nobreza que se perdeu nos esbanjamentos da fortuna? .. .. Nada de maravilhoso, amigo Forjaz, neste caso hipotético; os romances são a vida triste da triste humanidade. O fidalgo enquanto teve dinheiro impou de invencível e soberano pelo asfalto indigno de seus pés, porém, estendido para o casco ferrado dos seus "puro-sangue". Não contou o venturoso que os bilhetes bancários ficam na mão da Fatalidade, dando passagem para a Miséria! .. .. E um dia chegou em que os brasões de seus antepassados valeram menos que o caldo de sebo das tascas. O infeliz ensaiou, então, os expedientes, passou às maroteiras, caiu no descrédito que tem a porta d'entrada nas tavolagens e a saída no pátio das prisões. .. .
— Com licença — objetou Lourival —, tomo a liberdade de prevenirlhe que tenho o meu fraco pelos romances. .. . mas escritos.
— E eu declaro ao Sr. Lourival que o meu requinte imaginativo destinase ao Sr. Forjaz.
— Dou-lhe ouvidos, Sr. Prado, tenho muita honra em dar-lhe ouvidos, que a sua história é interessante. .. . talvez seja verídica!
— Qual verídica! isto é patranha, patranha à Minchhausen. º Quer o senhor saber a verdade do caso? .. .. Eu lha digo. Esse mendigo era. .. .
E Lourival andou nas pontas dos pés a espreitar os cantos, depois veio para eles, arrastou Camilo para junto do gravador, curvou-se confidencialmente e, temeroso, soprou-lhes nos ouvidos, numa delação aterrorizada:
—. .. Era. .. . Jack, o estripador! º Forjaz aplaudiu com um bom riso jovial, sem melindrar-se; Camilo arredou o farsista com desdém:
— Sai, mistificador!
Eentre os portais, erecto e mudo, surgiu um rotundo John, como se fora um agente secreto da polícia londrina acudindo à indiscrição duma cumplicidade.
Foi um espanto.
— Entre, Sr. Dr. Pais Ferreira, entre. Este teto é de amigos — disse-lhe o xilógrafo. Lourival perfilou-se à militar:
— Continência à Direção das Obras Municipais.
Pais Ferreira entrou grave, em passadas, num terno cinzento, de fraque e guarda-sol na mão e sob o sovaco um embrulho quadrado. Vinha suado e esbaforido, depositou sobre a banca do Forjaz a sua cartola de castor negro.
— Subi para descansar um pouco e, como a ocasião faz o ladrão, aproveito-a para roubar-lhes alguns minutos com uma bobagem, porque, agora, depois de velho, dei para cousas que só se toleram aos moços.
— Versos? — indagou Lourival, esticando o pescoço pelhanquento, de galinholo morto, e já as pupilas esfuziando irônicas.
Pais Ferreira crispou sarcasmos na boca sensual, relanceou olhares dubitativos para o lado de Camilo, mas o folhetinista apresentou-lhe o moço, assegurando-o de "que era um distinto camarada, digno de apreço e estima por seu talento. .. . Era notável crítico de belas-artes".
— À vista destas honrosas e, certo estou, justas referências — retorquiu Pais Ferreira, suspendendo a trabalheira de desatar o nó ao barbante do embrulho —, o dito por não dito, porque o meu pecado não pode ser indiferente ao ilustre senhor.
— É algum desenho? — Lourival inquiriu, teimoso, com — mais curiosidade.
— Andou por perto — esclareceu o doutor —, não é propriamente um desenho, tem do desenho, é pintura.
— Olá! vamos a esta habilidade. Como sabe eu tenho pela pintura uma predileção que me ridiculariza, tanto ela se aproxima da mania.
— Não se constranja, senhor doutor, não se constranja — aconselhou atenciosamente o Forjaz —; mostre-nos mais esta feição do seu talento, que há de ser digna. .. . Aqui o Sr. Prado é um amigo.
— Só com uma condição — disse Pais Ferreira volvendo-se para Camilo
—, é a de esquecer-se das suas habilitações. Quem está diante do senhor possui unicamente a boa vontade de um curioso que não é, em absoluto, destituído de alguma inteligência.
— Diga antes — de um grande talento — emendou Lourival.
— Oh! senhor. .. . — E Camilo desfez-se em cortesias, protestando contra a posse de qualidades que foram apontadas pelo companheiro. — Eu, também, sou um amador, sem os méritos do senhor doutor. .. .
— Sendo assim, cederei confiadamente — agradeceu Pais Ferreira; ia voltar ao nó, mas puxou o lenço, enxugou o largo rosto rubicundo, cortado por duas patilhas em costeletas, tão ruivas e ralas que, à distância, confundiam-se com a tinta apoplética da sua epiderme. Transpirava copiosamente; o colarinho vergara os bordos, metendo-se-lhe pela gola do fraque, sob as roscas do cachaço tourino. Volveu a trabalhar com seus dedos gordos e curtos no barbante atado, mas, por outra vez, deixou a tarefa para acender um cigarro.
Lourival acudiu à faina de desatar o nó, o xilógrafo também aprontou o buril para cortar o nastro quando ele, de cigarro na boca, decidiu a dificuldade com a chama do fósforo.
— Para a espada de Dâmocles o fósforo de Pais Ferreiral. .. . — exclamou Lourival a meter os ossinhos dos dedos pelo embrulho, porém o doutor foi presto, sacou do papel um quadrado de tela, cheio de figurinhas, sobrecarregado de cores, como páginas dum álbum de cromos para a distração infantil.
— Dei agora para isto, é uma mania se quiserem, mas que me distrai imensamente.
Colocou a tela sobre uma alta pilha de in-fólios, que adormeciam na paz poeirenta de antiquário consolo derreado. O Forjaz suspendeu o buril com respeito. E o doutor, vindo observar a colocação da sua obra, preambulava, modestamente, que era apenas um ensaio, uma tentativa de quem só contava com os seus próprios esforços.
Olhavam com curiosidade: em metro quadrado de tela havia uma barra azul, chapada e crua; laivos alaranjados formavam a descida gradativa do horizonte pincelado de amarelo-jalde, zebrado de borrões roxos como círrus crepusculares; uma linha quebrada em ângulos escurecia ao fundo, depois era um verde desesperado, sem gama, e uma variedade de bichos, de traços negros a fingir espiques, troncos, ramarias. .. . e pedras cinzentas, róseas, vermelhas, numa confusão irritante, numa dureza de recortes oleografados.
— Que tal? hein? .. .. — interrogava o amador.
E como não obtivesse resposta, explicou que "era uma paisagem característica em que procurara reunir os três reinos da natureza. Tudo isto, tudo, é observado cuidadosamente, é reproduzido com a máxima fidelidade". Aproximou-se do quadro, estendeu o dedo duro à umas cousas verdes:
— Temos aqui, por exemplo, a Cyathea camambaia dos tupis, a samambaia vulgar. .. . estoutra é a Alsophila Miersii, Alsophila procera da Serra dos Órgãos. .. . Enfim, a nossa incomparável flora, a que prestaram culto os Martius, os Agassiz, os Darwins'. .. .
A sua voz nasalada abria, longamente, as sílabas finais das palavras numa moleza adocicada e cantada; e o seu dedo gordo corria pelos borrões sarapintados a explicar os espécimens com o arrevesado nome das catalogações científicas. Depois bojou-se diante de Camilo:
— E que tal? hein?
— Magnífico! — gemeu o rapaz. — É uma arte que instrui.
Pais Ferreira sorriu glorioso.
— Diz bem. Eu sou dos que pensam que a arte tem uma missão nobre.
O inútil não existe. A paisagem pintada é o arquivo das belezas naturais de uma região. .. . E, senão, diga-me: Para quê Deus deu ao homem os pincéis e as tintas? Para quê? .. .. — E ficou com o olhar parado sobre o rapaz, momentos logo volveu-o para o gravador, para o Lourival, a insistir na sua interrogação:
— Para quê?
Fizera-se um silêncio. A luz forte escaldava as telhas do casario térreo ' em frente à janela; nalguma construção vizinha, pedreiros cantavam melopéias gementes, ritmando o impulso de pesos guindados e, do movimento das ruas, chegava, de vez em vez, o bruto rumor dos carroções, abafado pela distância;
os muros estremeciam, abalados.
—, .. .. Sem dúvida — concluiu o doutor — para imortalizar pela cópia as belezas do seu fértil jardim.
Mas, sem perder o gesto do dedo autoritário que se enristara no espaço, acrescentou com entusiasmo:
— Porventura, terá o artista um espírito pueril, que não medita, não raciocina, não tem deveres? .. ..
Camilo arfou, emudecido; agarrou um cigarro, chegou-lhe fogo quase a queimar os dedos. Lourival berrou uma concordância, que fez tremer o Forjaz absorvido n'audição deste delicado ponto d'estética.
Pais Ferreira respirou largo a sua alta missão na Terra:
— O nosso dever é este, é o de reunir a arte à ciência, num consórcio enobrecedor. .. . Por exemplo: — aqui têm os senhores estas pedras. Estão vendo? Ao princípio se lhes não dará grande importância, parecerão um capricho do pintor para embelezar um dado ponto do quadro, mas. .. . notando a sua cor, a sua forma, estes veios, se verificará que são um conjunto proposital para os olhos claros da ciência, quero dizer, do naturalista!
E continuou a discorrer sobre o seu quadro. Entrara na explicação das figuras. Com a nomenclatura zoológica ele dissertava sobre os hábitos de cada indivíduo, fazia uma extensa preleção catedrática, a que procurava amenizar com anedotas de excursionista.
E o dedo gordo marcava com autoridade:
— Isto, este bichinho insignificante para os senhores, é um exemplar dos sciurus da espécie Sciurus brasiliensis de Cuvier, º o nosso esperto caxinguelê, comum em todo este vasto Eldorado que se estende do Amazonas ao Prata. Na minha província, os caçadores. .. .
Camilo, encostado à parede, mãos mergulhadas nos bolsos, mordia o cigarro, resignadamente. Quase não ouvia a preleção do doutor. O seu pensamento volvera ao projeto da revista. Talvez o Forjaz cedesse. Era preciso entusiasmá-lo, falar-lhe mais persuasivo, deleitar o seu amor-próprio na promessa duma recompensa moral.
—. .. Tudo isto, tudo isto, é nosso, exclusivamente nosso — prosseguia Pais Ferreira.
Tinha regressado à Botânica, que, a par com seus propalados méritos d'engenheiro, formava o seu cabedal de diletantismo científico, galardoado com diplomas honoríficos de várias academias estrangeiras.
À proporção que falava ia despejando pelas narinas as fumaraças que chupava ao forte cigarro de palha. Lourival também consumia uma cigarrette caporal. O ar toldara-se de tabaco queimado, tornara-se acre. Forjaz pigarreava, escarrava, de jato, às paredes, excitado pelo fumo que lhe era insuportável. E no ambiente asfixiante, a voz monótona, cantada e melosa, de Pais Ferreira, provocava sonolências d'esfalfamento, numa prostração narcotizadora. De repente calou-se, e dando com o olhar no Lourival, que o observava, com a cabeça erguida, nariz no ar a desenhar-lhe uma expressão d'enfado, inquiriu dele "que dizia da sua obra?"
— Eu. .. . Eu. .. . — Lourival gaguejava, aflito, em busca de uma frase;
seus ossos enroupados moviam-se desordenadamente, as mãos procuravamna pelas algibeiras, nos botões do colete, nos berloques da chátrelaine, atarantadas e febris:
— Com franqueza, Pais Ferreira, nem sci o que hei de dizer. Tudo isto me assombra!
Pais Ferreira enrubesceu, aturdido.
—. .. Talvez, porque não presta? .. .. não é, hein? .. .. — interrogou com lentidão, suspeitoso, apreensivo.
— Ao contrário, homem! Antes pelo contrário. Porque nunca imaginei que, vivendo um pobre ente absorvido por cogitações da ciência, pudesse ter sensibilidade tão extraordinária! Você é um artista! .. ..
Lourival engasgou-se com a inflexão que pretendera dar à palavra, mas, acudiu, temendo molestar o doutor:
— Com sinceridade, você é um artista!
Mansamente ce envaidecido Pais Ferreira perguntou:
— Porventura não foi o nosso velho José Bonifácio um poeta? .. .. e dos Mais mimosos? .. .. º A palavra ficou boiando, abandonada nas ondulações da sua emissão.
Ele próprio concentrou-se, esgotado de idéias. Lourival tinha apanhado o chapéu de feltro branco, metera-o na cabeça, disposto a safar-se e trançava o seu braço ao de Camilo com intenções miscricordiosas. O engenheiro, porém, rogou-lhe o obséquio de atender, por alguns minutos, à uma leitura — "bem sabia que abusava da sua camaradagem, não obstante, conhecia-lhe o coração, tinha certeza de que se acolhia à mais provada condescendência. .. . Era uma notícia, que pessoa da sua amizade tivera a gentileza de escrever sobre a sua paisagem. .. . (porque ia expô-la) — asseverou, gravemente, em parêntesis.
O pince-nez do Lourival desengatou-se-lhe, e logo seus movimentos nervosos puseram os pobres ossos numa lastimosa atividade de dedos. Ao cabo d'esforços engatou o pince-nez e com um rancor disfarçado, esperou a leitura.
Pais Ferreira sacara do fundo do bolso umas tiras de papel, tinha-as desdobrado diante dos olhos e começou a ler os elogios com que se recomendava ao público "essa obra, talvez imperfeita para os exigentes, mas inegavelmente trabalhada com uma inteligente paciência que chegava à minúcia dos miniaturistas, donde o seu valor pela verdade dos importantes espécimens da incomparável riqueza brasiliense de que dava copiosa e sintética amostra".
— Agora, já não é ao insigne pintor a quem tenho a honra de apertar a mão em despedida, é ao ínclito literato. .. . Ambos extraordinários!
Pais Ferreira pretendeu dissuadi-lo dessa suposição, o artigo não era Í seu. .. . garantia sob palavra, mas Lourival não lhe deu ouvidos, arrastou Camilo para a escada, aos tropeços pelos íngremes degraus do atelier. Na rua estacou exagerado, aspirando o ar livre, sob a luz doirada do sol e rilhando os dentes, transfigurando a caveira numa carantonha vingativa e possessa, disse ansian- i do:
— Rendo graças a Deus por não estar armado! .. .. Senão. .. . teríamos uma tragédia — Pais Ferreira no Necrotério, Lourival nas masmorras.