Capítulo XVIII
XVIII
Agora, Camilo vai esmoendo o tédio amargo pelos tortuosos escaninhos da reclusão voluntária, fugindo de quem lhe reanime lembranças, acabrunhado pela insolvabilidade das dívidas que contraiu, vexado da inutilidade em que se arrasta. Toda a energia que em seus recessos encontra ele a emprega nesta obscura luta, singular e íntima, de esforços contra impossíveis, debatendo-se sem apelo na incerteza do destino. Mas, para vencer os ímpetos da sua paixão, para dominar as crises da sua sensibilidade, regressa teimosamente ao passado, recolhe-se ao abrigo das antigas amizades c mascara-se nesta mansidão indiferente dos desambiciosos, como se houvesse encontrado a resignação do sofrimento numa suave filosofia de humildade. A vagarosa extensão de seus dias passa-os, ele, na sala do Clementino Viotti, aquecendo sua carcaça dolorida de nevralgias numa confortante, velha poltrona de couro, a ler brochuras francesas, enquanto o Viotti, o amargo Viotti dos primeiros tempos, curvado sobre a alta mesa de cavaletes, calcula cimalhas e levanta paredes que um Carrazedo, mestre de obras, choramingadamente paga com falcatruas de judeu. Há quase sempre um grande silêncio na sala, cuja sacada de gradil se abre para o abandono úmido dum beco, no Estácio de Sá. Clementino Viotti já não tem apóstrofes, já não tem objurgatórias contra o antiesteticismo — arquitetural da cidade; a bílis o envenenou, derramou-se por todos os tecidos do seu organismo; não fala, rumina sem palavras o rancor de gorado, encanecido aos trint'anos, acasmurrado no trabalho ingrato que o trouxe do escritório dos engenheiros a este canto sossegado. Um cheiro infiltrante, de resedás em flor, evola-se da calma edênica e ciciante de inculto jardim vizinho, onde os caramanchéis descuidados distendem lindas redouças caprichosas sobre um muro limoso c triste. Às sestas, nas horas angélicas do meio-dia, cigarras estridulam nas franças e ramarias. Não há transeuntes, apenas três habitações quictas formam a existência deste ignorado remanso.
Camilo, enterrado no estofo da poltrona, esburgando os brônquios fracos, devora páginas sobre páginas, mudamente. Por vezes, na tranquilidade do dia, surgem-lhe saudades do tempo gozado no sótão do Livramento, Henriette reaparece ao seu espírito, enche-se-lhe a mente de pedaços de telas fluídicas, esquissando cenas, reproduzindo fatos. Todos os seus pensamentos voltam-se para ela, mais desejável nessa intangibilidade, ao fundo alborente da neblina recordativa. As páginas começam a rolar inutilmente por seus dedos. Vão passando, vão passando. .. . E era por uma hora em que ela teve o êxtasis de um sorriso de sonho, alvo como uma garça numa marinha azul. .. . e foi no momento em que ela descansou o calor de suas palmas nas mãos dele. .. .
e. .. . "Que faria Henriette? Por que se escorriam tão tristemente esses oito dias sem que lhe viesse uma notícia, ao menos um bilhete indagando da sua ausência. .. ."
Ao cair da tarde chega o Carrazedo, esbandalhado das esfalfas, chapéu à nuca, sapatarros rinchadores. Um pigarro crônico corta-lhe os palavrões costumários que a ponta mascada do charuto envolve na nojenta baba contí: — nua; c, arrastando as solas, pesando as gorduras de baixote nas sólidas pemas de ativo, o carão pletórico por escanhoar, alerta os tratantes lúzios verdes, cuspinha pros lados, queixando-se, lamuriando a lenga minhota dos seus dizeres, a coçar a cabeça despenteada, a limpar com o dorso do polegar as comissuras cabeludas dos lábios babados, numa irritação de velho cacoete.
Então Camilo sacode as joelheiras, abala para a rua.
Como outrora, esquece o tempo n'amiga brasserie do Knopp, na mesma convivência do Ramos Colaço que lá está no mesmo lugar, encafuado no vão da escada, jungido à sua displicência de viver, mais envelhecido e pesado, com uma longa barba de filósofo germânico, porém às voltas com os seus leitmotive wagnerianos, a sonhar a beleza orquestral duma grandiosa ópera por escrever.
Mas, numa dessas tardes, quebrou-se-lhe o ânimo de resistir. E sem recriminar-se, alheiado de tudo que fizera para o voluntário motivo desta au- — sência, pensou na possibilidade de encontrar nº Havanesa, como à partida de Agrário encontrara o recado da Don'Ana, um bilhetinho comovente, amarelecendo no pó destes tão longos, tão tristes oito dias! .. .. Seria possível.
Seria bem possível. .. .
E veio descendo para a Ouvidor, absorto no gozo da reconciliação, que encenar-se-ia terna e amolecedora como uma noite vesperal de noivado, quando, de surpresa, o refluxo ondulante de uma multidão curiosa o deteve.
Ia retroceder, o ajuntamento mortificava-o, mas um estranho esfuziar de vaias, guinchos d'alegria e algazarra de gargalhadas atraíram-o.
Às quinas estreitas da rua apinhava-se uma turba, Indivíduos afligiamse por ver, em bicos de sapatos, pescoços estirados; as sacadas entabuletadas — dos dentistas enchiam-se de espectadores numa festiva alacridade de mulheres e risos. Cautelosamente, Camilo adiantou os passos e pôde distinguir um amarrotado, alto chapéu, listrado a cores vivas, que reviravolteava, surgia e desaparecia no ajuntamento, aos boléus, aos trancos, em parelha com informe objeto empunhado, talvez farrapos de bandeira, frangalho de lona talvez, a esgrimir com bengalas e pára-sóis, que o acometiam. E desabavam gargalhadas e redomoinhavam uivos de prazer, em gritaria galhofeira de epítetos: ó pintamonos! .. .. ó borra-borra! .. ..
O chapéu escorchado emergia do aglomero dos chapéus como um puff charlatão de maravilhas, mas logo escomava à direita, escomava à esquerda, zurzido'" às bengaladas, desequilibrado a murros, a cacholetas, que a multidão lhe atirava num diabólico delírio de pagodeira; e o informe objeto, que amparava os golpes, traçando círculos defensivos no ar, desfraldava um trapo onde o floretear dos pára-sóis batia. Aumentava a grita ce a pinha humana crescia, a sufocar, na turbulência dos apertões. Aos vaivéns da troça Camilo ficou envolvido n'arruaça de modo a aproximar-se do farsante. Em meio da rua, no granito sujo da Ouvidor, uma figura funambulesca, sarapintada de listrões multicores, agitava-se douda, escorraçada, a berrar: " — É a partida de Colombo, ó burros! É a Pinta, é a Santa Maria, 6 camelos!" — E esperneava, esbaforida, rouca, suarenta, a desengonçar-se já pinchando, já crescendo, numa capadoçagem acrobata, acometendo furiosa contra os açuladores que a sitiavam.
Nesta fantástica figura zebrada de listrões, o carão rapado besuntado de laivos coloridos, berrando com a boca em sangue que chagava os lanhos verdes de uns lábios clównicos, a esgazear bugalhos aflitos em cavernosas órbitas de vermelhão c trejeiteando desespero nas faces sujas de oca, sujas de azul, sujas de siena; neste extraordinário doudo carnavalesco, tremelicante e pandemônico, Camilo reconheceu o Sebastião Pita, o mísero Sebastião Pita da eterna Partida de Colombot. .. . E um terror de que ele também o reconhecesse, de que o chamasse em seu socorro, envolvendo-o no mesmo ridículo, impulsionaram-no a cobrir-se com a estatura de um moço que esganiçava em falsete, possesso nos gestos, concitamentos a esbordoar o inofensivo maníaco. Outros correspondiam, com a gíria dos turbulentos, aos intuitos agressivos, perdida a noção da piedade, revolvidos pelos choques contrapostos dos instintos, nº alegria satânica da coletividade, que transborda para a selvageria.
Do gracejo a multidão passou à brutalidade. Não mais lhe contentavam os murros à cartola, as bengaladas ao objeto que o doudo manejava, os estortegões que o irritavam. Um amarelento, de dentuça africana, traços mamelucos na ossamenta facial, duma dureza de máscara de pau, vibrou-lhe um soco na boca. O Pita recuou com um urro de dor, carantonhou uma obscenidade que saiu envolvida em sangue de mistura com a grossa salivação do cansaço. À risada estalou nervosa, rugiu. De repente, ele rodopiou nos calcanhares, recurvado e dolorido ao raspão duma chibatada nas espáduas. E, acometido de novo, batido como um bruto, vergastado como se criminoso fosse, recomeçou a dança macabra da defesa, com agilidades símias, correspondendo ao assalto.
A cartola voara pelos ares, em pedaços; na sua feia cabeçorra rapada o sangue rasgava filões, listrando a mais o carão pintalgado; as vestes abriamse em rasgões. .. . E os movimentos safam-lhe precípites, desordenados, furiosos. .. . A Polícia acudiu. Dous soldados tinham conseguido entranhar-se na massa alvorotada e convulsa, agarraram-se ao braço dele, sacudindo-o com bruteza. Então, despegou-se-lhe das mãos a arma singular que manejava, bateu secamente no granito, estendeu-se aos pés da súcia — era a Partida de Colombo, esfrangalhada, esbandalhada, pendendo em restos do chassis desconjuntado. Quiseram exterminá-la com as patas, mas, num safanão raivoso, ' o doudo desprendeu-se dos soldados, agachou-se, colheu os pedaços da sua obra, a única, a que Ihe povoara de sonhos o cérebro imperfeito e que lhe acendera, neste dia, a aurora boreal da loucura, numa deflagração de luz apoteósica! E, com os restos da tela espatifada debaixo do braço, cingida à axila, estreitada à sua carcaça, truanesco no reles carnaval das roupas, quedouse, entregue à vontade dos agentes de segurança pública. Tinham-lhe metido na cabeça, em arreveso caricatural, o farrapo do chapéu, apenas a orla ridícula com a farripagem de uma copa arrebatada. Um suspiro tufou-lhe o peito. E seguiu. No vermelhão de suas pálpebras duas lágrimas assomaram, trêmulas e claras; e outras vieram, despegaram-se, rolaram, velozes, sobre a tinturaria ridicularizante de suas faces, a que o ríctus de uma dor silenciosa forçava o jogralismo lúgubre de uma caveira, a sorrir, bostegada da lama das covas.
Estalaram gargalhadas. A garotagem moveu-se em cauda, dardejando a vaia, e ele desapareceu no fim da rua, talvez para sempre, fechando a porta da existência consciente com este tintamarresco escândalo de truão louco. .. .
Camilo permaneceu estático, subjugado pelo imprevisto, como se houvera sido vítima de um ataque de loucura repentina. Tremiam-lhe as pernas, um calafrio eletrizou seus nervos; suores porcjavam-lhe da testa: parecia-lhe que o olhavam curiosamente, que estavam a rir dele. Uma névoa passou por seus olhos. Mas, fez um esforço, desligou-se da multidão. Passos adiante, à porta d' Havanesa, encontrou o Sabino e o Franklin. Os rapazes tinham assistido ao princípio da lamentável cena. O Pita aparecera por ali, naqueles trajos, E seguido de uma troça, a tela ao ombro, a berrar a marcha triunfal da Aida.
Depois correram curiosos, formou-se a multidão. O pobre rapaz fazia discursos, gesticulava, tentava pendurar ao encanamento dos arcos da iluminação a sua Partida de Colombo, a garotagem assanhou-se. .. .
A triste narrativa curvava-o num abatimento doloroso, vergava-o à realidade duma existência que declina irremediavelmente, a esgotar-se com o lentor das consumpções, hora por hora, inutilizando a vontade, desmoronando ambições. Para se distrair entrou em palestra com o Sabino. Quis saber do que ele fazia.
— Sofro, agonizo. .. . mas hei de tentar enquanto puder!
— E você, Franklin?
O rapaz encolhera-se ao portal, a ameigar o buço tardio; teve um movimento entediado, de ombros:
— Não penso mais nisso. .. . Acabou-se. .. .
— E os nossos entusiasmos! .. .. Recordam-se? .. ..
Sabino abanou a cabeça afirmando. Calaram-se. Camilo esteve a olhar, indiferentemente, o povo que passava; depois, ferido por uma lembrança, entrou, dirigiu-se ao caixeiro e voltou lento, desanimado, numa prostação supliciada, macilento. Nada! Nenhum recado. Nada! E já um atordoamento se fizera nele, sem saber em que pensar. O tédio reapareceu. A glacilidade dos companheiros envenenava-o. Por fim disse:
— Estive a me lembrar de ti, Franklin, há dias. Sabes? .. .. Tu prometias ser o nossofrondeur. Recorda s -te do susto que pregaste ao Telésforo? Há um ano. Não há?
— Sim. Há um ano e dous meses. Foi em outubro de 87 — Sabino explicou, e batendo com a ponteira da bengala na calçada: — Sonhos! .. .. Sonhost! .. ..
— E o Rios, por onde anda? — indagou Camilo.
— Está num brejal, por aí, num lugar onde a morte chega mais depressa. .. .
Recaíram no mutismo. Os insucessos das tentativas, a impotência da união, desalentavam-os como sempre, ferindo fagulhas de desconfianças recíprocas. Um amargor de abandono alquebrava-os com melancolias de remitência palustre.
Entretanto, estavam no ruído ouvidoriano, à hora efervescente da passagem, às três da tarde. Mas, olhavam desatentamente, de olhos esquecidos, essa promiscuidade que fervia por entre os estreitos renques de casarias irregulares, num rumorejante movimento feiral. Na superabundante massa negra dos vestuários irrompiam irritantes casimiras gaias de trajos capadócios, negligências sintomáticas de roupas burguesas, desasseio miserável de valdevinos, uma pompa disparatada de fantasias femininas em contraste com as harmonias dos cortes elegantes em magníficos tecidos de luxo. Amarelidões mestiças e de ingurgitamentos crônicos entristeciam os transitórios conjuntos; mas logo, entrecruzando-se, confundindo-se, mesclando-se na multidão, vinham roscamentos de peles germânicas, pupilas aniladas de olhos londrinos, palidez fina de cútis fidalgas, loiros escandinavos de cabelos, amorenados cálidos de mulheres patrícias, destruindo a soturna monotonia dos rebanhos humanos que a capital agita na sua estreita calçada de rua preferida. Camelois arribados, bugigangueiros indígenas arrastavam-se, ganindo ou gemendo a mercancia de suas indústrias. Militares, meneiando rebenques de prata, fardas em abandono e desarmados, faziam grupos. O rumor pesava.
De quando em quando, indivíduos abraçavam-se efusivamente, com exclamações exúberas, palmadando-se nos ombros. Pregões de jornais esfuziavam no zonzonear crescente. Azevieiros gingavam, pelintramente, ladeando raparigas rutilantes de artificialismo; cães vadios farejavam-se, repassavam, requestando-se indecorosos; e mendigos imundos, velhos patifes cheirando à sarjeta, ignóbeis mulheres esfrangalhadas, criancinhas resmelengas, agarravam-se ao encalço dos transeuntes, sob a indiferença boçal de carapinhosos policiais recostados pelas esquinas, relaxados. De quando em quando, chacareiros endomingados em roupas negras ou em surrados fatos barrentos, vagueavam mercadejando flores em piramidais corbelhas, de lata, embastonadas. , Sujeitos esquálidos, disfarçando privações, paravam à porta dos Cafés, borbulhentos de povo, onde filarmônicas guinchavam sentimentalidades de óperas estafadas ou ritmavam requebros lascivos dos lundus crioulos. Pelos umbrais das confeitarias, nos anteparos das faiscantes vitrines dos ourives, às soleiras dos armazéns de modas, reuniões de gente gesticuladora, falante e noveleira, grifavam dizeres à passagem de ostentosas senhoras ricas que pisavam firmes, afrontando d'alto a convergência atrevida dos olhares, e largos rostos cloróticos de meninas tropicais seguiam direitos como cabeças de cera, sob espaventosos chapéus em cabide. .. . Para os lados da Praça de São Francisco, o ondular escuro da população coalhava a estreiteza do espaço, numa enchente movediça. Tremia no ar um pulvísculo d'oiro fosco, nuançado em tonalidades de velho bronze, rarefazendo-se à distância, azulando-se, e de chofre batido por um clarão do sol rolante numa forte mancha, à faixa perpendicular e dura de um muro. Em debuxo, ao longe, entre frondes esgalhadas, a silhueta verdinegra da estátua de Bonifácio desenhavam se num fundo difuso de horizonte, onde se abria a dúbia caiagem da Escola
— Politécnica. Para baixo, descendo às proximidades do cais, o tortulento coalho, movendo-se desordenado, dominava em tons carregados, caliginosos, sob
— uma densidade violácea, enfraquecendo para o lilás-doirado das longitudes equatoriais, donde surgiam luminosos golpes róseos e alaranjados nos ângulo Tlos de paredes, em aberturas do encruzamento das ruazinhas tortuosas.
Arrastado pelo acabrunhamento deste viver sem amplidões, num canal
— — de granito e estúpidos edifícios de arquitetura pelintra e desgraciosa, Camilo ) lembrou-se do primeiro tempo aí passado, dias perdidos nas lojas dos Cafés e nos passeios desmantelados da rua, que a inexperiência fazia ver numa ceno— grafia de esperanças, iludindo a visão com perspectivas de melhores épocas, pela substituição provável do cenário. .. . Ah! que sonhara, aí, neste canal
— desasseiado e corrente! .. .. Aí se formaram e aí cresceram as quimeras de um Futuro, antevisto lá-baixo, na cintilação dos enganos e dos prometimentos, prateado à luz gloriosa de um sol, como a cúpula de uma fabulosa construção, luzindo, faiscando a multiplicidade prismática de suas pedrarias d'incrustação e relevos d'esculturas, maravilhosamente erguida para o supremo gozo dos conquistadores! .. .. Com este doentio recordar, vieram-lhe dolentes e amadas saudades do que se ficou para atrás no desdobramento do tempo, do que se perdeu no desenrolar dos anos. .. .
Recordava-se desse Clementino Viotti, alma de visionário, imaginando a sumptuosidade d' Oriente nesta desidiosa metrópole, torta, labiríntica e suja como um bairro judaico. .. ., desse Pereira Lemos que mergulhara suas idolatrias mitológicas nos confortos de um home inglês com os proventos de um consulado na colossal e fervilhante Cifty. .. ., do Ramos Colaço, bandeirante maníaco do ideal em busca dos sons que reboaram nas velhas naves góticas e acalentaram os histerismos das monjas meditativas. .. ., e de outros. .. . e de mais Outros. .. . que se desnortearam. .. . que estavam longe talvez, nos férteis continentes da Vida ou no seu atormentado oceano, lutando desamparados, debatendo-se em arrancos, talvez desaparecidos. .. . submersos. .. . por onde? Nem ele sabia!
Agrário fora desse grupo. Era o original Agrário, o rebelde Agrário, o
— alegre, falador, irrequieto Manet indígena — vingando-se das desilusões no espanto ao burguês com escandalosas gravatas e botins esfiapados! .. .. Então todos eles sonhavam. .. . então batiam a pedra dos alicerces de suas fantasias, acastelando ideais sobre ideais, numa sucessão mirabolante de torre chinesa, de porcelana pintada, com lambrequins pingenteados de guizos d'oiro que as ilusões bafejantes, como aragens brandinhas, tintimbalavam num retinir álacre À de festas! .. .. Dos vinte andares facetados dos seus devaneios o guizario, pendente como sequins de um colar de favorita, reluzia, tremeluzia, em agitação elétrica, doirando toda a torre esmaltada, pelo frenético faiscar de seus metálicos, pequenos glóbulos, dando, por instantes, a estranha impressão da fiapagem de uma cabeleira solta, que envolvesse a torre, tal se sobre ela se desenastrassem os cabelos loiros de Henriette! .. .. Sim, de Henriette. .. .
E todo ele, no seu íntimo, ficou-se a rondar, estonteado, em torno desta figurinha loira que o assaltou, que encheu o seu espírito numa teimosia perene de obcecação.
Depois, voltando-se para os camaradas, num gesto brusco:
—. .. Ce pays nous ennuie, ô Mort! Appareillons. .. .' Rapazes. .. . Adeus.
'