Capítulo XII Mocidade Morta · Capítulo 12 de 19
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Capítulo XII

XII

Num dia lúcido de junho, ao vigor penetrante dum frio azul, poeirento d'ouro novo do sol a pino, Camilo sacudiu ombros ao tédio — bateu passos firmes de caminhada, antegozando o imprevisto de impressões consoladoras em fortalecentes aspectos de paisagens, ou sensacionalidades curiosas de recantos rudes da Cidade.

Ao acaso! Que lhe importava a escolha? .. .. Pela sucessão dos desenganos chegara a uma espécie de resignação estóica de obscuridade desdenhosa, vencendo o enjôo da existência com a extraordinária energia provadora dos penitentes reclusos. Ao acaso, pois. E como o dia estivesse lindo, tonificando o corpo pela oxigenação do ar glácido, vitalizando os músculos com elasticidades rejuvenescentes, deixou-se ir, saindo de ruas para entrar em ruas, a esmo, levado pelo desejo de andar e de ver, sem se admirar do exagero da marcha conseguida até as vizinhanças salobras das marinhas fabris da Gamboa.

Subitamente, o chamamento álacre de voz amiga e ps, pst insistentes fizeram-o estacar. Agrário saltou, açodado, de um bonde. Correu para ele, sobraçando telas novas, a gesticular, a gritar:

— Olá. .. . pst. .. . Ó Camilo. .. .

E agarraram-se, aos abraços.

— Tut. .. . Por aqui!

— E tu! .. .. A que andas?

A surpresa trazia-lhes sorrisos espasmódicos no dilatar dos lábios, punha-lhes interjectivas extasiadas nas pupilas. E mal sabiam que dizer, atordoados de alegria, num alvoroto de felicidade inesperada.

— Mas, dize-me tu: que fazias por estes confins? — interpelou Agrário.

— Eu? nem sei. .. . Foram as pernas que me trouxeram, ou o Anjo da Conciliação quem me guiou. .. . E tu? Estás pintando trapiches? .. ..

— Qual! .. .. Eu vivo neste canto do mundo, um pouco adiante, no Livramento. Vamos lá. Quero mostrar-te o meu atelier.

Seguiram calçada além, acotovelados, interessados em saber, cada qual, que se havia feito nesse longo tempo de ausência. Camilo resumiu tudo quanto tinha a contar em uma frase simples e motejadora — vivera como um sapo, desprezível e estúpido! — porém, Agrário dava à língua, esmiuçando ao amigo o seu viver de dous meses, dia por dia, desde a misteriosa e romanesca resolução de fugir com Henriette, deixando o cambista estupefacto. Ao princípio, correu o tempo em plena bonança, houve dinheiro e amor; mas, dificuldades surgiram cedo, encresparam-se necessidades. A subsistência a dous, tinha obrigações aterrorizantes. Agarrara-se aos retratos de comendadores, concorrendo com o Le Grand, que deveria andar furioso.

E agarrara-se bem, de unhas e dentes, porque com eles era que se arranjava, deles lhe vinham os cobres para manter com decência a extravagante fantasia de viver com uma maítresse! .. .. Começava-lhe, já, o fastio da posse, disfarçado em receios do futuro, impossibilidades de estudos na Europa, comentários maldizentes de comprovincianos que iriam desacreditar suas prelensões nas graves rodas de ricaços generosos e bairristas. .. . ". .. .Uma enfiada de maçadas. Era o diabo!"

E fazendo-o parar diante de uma antiquária casa térrea, d'entrada larga, soalhada de lajes de granito:

— É aqui o nosso ninho.

Entraram. Camilo relanceou com o olhar em derredor. O aspecto desagradava-lhe, parecia-lhe o de uma locanda reles de vila, com o eterno pó nos velhos trastes imutáveis, a resguardada luz das sestas, a mesma paz vadia das Moscas e um mofento cheiro de roupa servida, erradio e característico. Mas, no alto da escada, à porta do sótão onde domiciliava o pintor, a cabecinha jovial de Henriette sorria, toda doirada.

E logo apagou-se-lhe a má impressão da moradia, revendo este claro rosto de rapariga bonita, que lhe falava numa meia língua encantadora, de cançonceta brejeira, com retintilantes silabadas duma delícia acre de framboesas maduras. Nunca vira-o tão de perto, nunca sentira em suas barbas este hálito fresco de fruto, como agora! Teve uma comoção.

Foi ela quem lhe tomou o chapéu e quem empurrou as gelosias das duas janelas para dar claridade à saleta, deslumbrando-o com o belo panorama do mar alcançado daí, num horizonte circular de baía.

— Oh! magnífico! .. .. Magnífico! — exclamou Camilo. — Estás, Agrário, num Belvedere. Isto vale tudo!

Parou à janela, estendendo os olhos sobre o teto negro das casarias, pobres habitações arrumadas umas às outras, arqueando à podridão do madeiramento carcomido. Para os lados, assediando, comprimindo os casebres operários, brutas paredes sujas dos trapiches, galerias d'estaleiros, chaminés fumegantes de fábricas. Para distante, num aberto de praça, o quadro branco de um mercado; depois — uma floresta hibernal de mastros; e ao longe, sob o azul glácido, tranqúilo do céu, o chão azulino do mar onde modorravam bulhentos bojos de patachos à carga, cetáceas galeras nos seus ferros, uma ilhota de carvão, a negra faixa oblíqua de um transatlântico, e além, alvacimentos guachados de areias longínquas, meadas verdíneas de morros, gibosidades cobaltas de serras. .. .

— Soberbo. Hein? — disse-lhe Agrário batendo no ombro. E já no seu casaco de brim, um cigarro queimando ao lábio: — Agora, uma novidade — forço-te a jantar conosco. Passas mal, mas dar-nos-ás o prazer da tua companhia.

Camilo deixou-se ficar sem protesto, esquecido de si próprio, ignorante dos prejuízos que poderia trazer à economia daquele casal. A graciosidade de Henriette, com seu tipozinho de mundana, satisfazia-o, enchia-o de bem-estar, trazia-lhe uma ternura por esta concubinagem moça, gozada num extremo — da cidade, por uma hora feliz de belo dia fresco e extenso, como se a vida assim s'escorresse — sempre esta fluidez bendita de ambiente e sempre a mesma louçania garrula"? de mulherinha boêmia: céu imáculo e puríssimo azulamento nas pupilas, oiro de luz a neblinar o espaço e luz de oiro na cabeleira seca, farripada e esgarça sobre a testa pequena de frívola!

Bruscamente, o pintor puxou para o meio da sala, à luz de uma das janelas, o grande cavalete de carvalho, corrediço e mecânico, traste novo comprado com os últimos ganhos do trabalho.

— Olha, Camilo, somos bastante íntimos para nos constrangermos com cerimônias. .. . Desculpa-me a pressa que tenho em esboçar este calunga. .. . Senta-te, ou anda. .. . Faze o que quiseres, é como se estivesses em tua casa.

— À vontade, Agrário, à vontade — retorquiu-lhe o amigo e foi reparar as brochuras sobre uma mesa, a um canto de parede. Henriette, porém, veio para ele, garrida e desenvolta, a indagar "se se lembrava dela" — e riram, confusos, sem saber o motivo deste rubor discreto.

Agrário abancara-se num tamborete de campo, defronte da tela; tinha uma fotografia à mão e pusera-se a fitá-la, procurando o contorno geral da cabeça. — Era uma cabeçorra suína, de apolentado e rico senhor de negócios e falcatruas, pasmada para diante com os lúzios esbugalhados em useiro atender de cifras. — Dividiu a tela com o fusain à frente do nariz, pálpebras cerradas: de um golpe marcou o centro, logo, em dous rabiscos apagados, :

levíssimos, a altura da cabeça, o comprimento do pescoço, a largura do busto.

A francesinha arranjara um tema de palestra para entreter Camilo, discorria sobre uma brochura que ele folheava, ao acaso, um livro de Loti que ela i dizia amar; qualificando-o de chic, à falta de melhor termo; referiu-se também a Bourget, passou a gabar Paul de Kock, que lhe parecia inimitável na graça. .. . e, decerto, ninguém sabia ser mais alegre!

Camilo disse algumas cousas vagas, citou Zola, Flaubert, citou Villiers de L'Isle Adam," atarantadamente, emocionado pela presença desta irradiante alegria carnal que voltava à sua retina. Desorientado, embrutecido, volveu os olhos para o lado de Agrário; Henriette murmurou uma desculpa e afastou-se, e ele em passos inconscientes aproximou-se do cavalete.

O pintor esboçava e, já notando a fotografia em busca dos detalhes, já afastando-a para ter o conjunto dominante, foi esquissando rápido, em traços bruscos, algumas vezes desgarrados e confusos que desapareciam à pressão do dedo. A figura surgia. Vinha como uma esmorecida lembrança que se chama à memória, imperfeita, vaga, indecisa; esfumada ao princípio, empós mais nítida pela persistência do fusain que rebuscava as linhas enegrecendo de vez a mais, tentando minúcias, acusando pontos. O carvão riscava mais, muito ao de leve; mas, por momentos, a mão carregava-o; dos traços mais forçados, que pareciam rasgões, uma poeira finíssima caía toldando a Mas-sa suave da tela. E aos poucos a cara foi aparecendo, avivando-se, num tom dulcíssimo de trevas diluídas, sobre a claridade serena da lona, como se aquele rosto espapaçado, completamente perdido da sua forma humana, sofresse o trabalho lento de uma ressurreição e viesse do nada criando-se outra vez, tomando de tudo as suas propriedades esparsas, fundindo-as, combinando-as, recuperando sua feição originária e primeva pela força agregativa de um poder criador. À proporção que descia ao busto os ! traços rareavam, tornavam-se apenas indicativos. Um aqui, outro d'outro l lado, formavam o toro do pescoço; depois, ladeando-os, quebras pontiagudas do colarinho, e como remate, nervosamente, para a direita, para a esquerda, ásperos, retesos, deslocados, trêmulos. .. . acusando o peito, o friso da camisa, a cava larga do colete, os panos dobrados da gola. .. .

— E pronto! — exclamou Agrário pulando do tamborete.

Camilo agarrou-o pelas espáduas:

— Bravo! Bravíssimo! Ah! se eu tivesse a tua habilidade seria um chefe d'escola.

— Zut! como diz ali, a madama: mestre-escola é que serias.

Henriette correu ao cavalete, estacou diante da tela a considerar a semelhança do esboceto com a imagem fotográfica. O seu corpo flexível e támido, da rara elegância dos desenhos improvisados de Grévin," transfigurava-se aos olhos de Camilo numa leveza gracil" de visão eterizada, perturbadora pelo indefinido conjunto que se lhe apreendia — porque em suas formas, agravadas pela cassa branca do vestido, havia o garbo flocoso dum cisne e o exalo sensual duma neófita celebrante de Vênus, o quer que fosse dessa carne rósea d'antiguidade, fresca das águas das piscinas, que encheu de voluptuoso encanto os mármores famosos do glorioso Feminino! E durante a análise que ela fazia, a fingir-se entendedora, procurando, como os que sabem, as posições para obter os efeitos, ele atendia-lhe, com matinas estivais nº'alma jubilosa, às suas menores harmonias do conjunto, os mais subtis traços da sua delicada estrutura, descobrindo detalhes encantadores. De revés, com olhares furtivos, notava e estimava cariciosamente cada uma dessas minudências, quase num gozo mole de senil, que ia do ressalto gorduchito do submento, separado, por um diminuto filão, do queixo mordiscado duma reentrância umbilical, ao azulado vaporoso da barba onde crescia, superficialmente, uma pelúcia d' ouro. .. .

Descia, então, com o olhar voluptuoso, às extensas linhas contornantes, ao arfo aninhador dos seios, à desesperadora mancha branca do vestido que, apenas, desenhava a grande pera invertida dos quadris. .. . E, quando ela sorria, numa festa d'escarlates brandos e neves sem frio, pequeninas tentações emergiam nas suas faces, em duas fossetas minúsculas, numa excitante graça de amor.

Agrário, porém, veio despertá-lo.

— Sabes? Camilo. Henriette vale por vocês todos, entende de crítica d'arte. .. . como eu do cultivo dos repolhos!

Ela protestou — conhecia-se desautorizada, mas não lhe faltava bomgosto. .. . E, dissessem-lha? º, o bom-gosto não supria a incultura? .. .. A prova tinha o pintor nas suas observações, até no último retrato fora ela quem lhe avisara de um desagradável efeito, que foi corrigido. .. . — grifou.

— E queres tu saber que defeito foi esse? A falta de dobras em uma das mangas! — berrou o pintor, às gargalhadas.

Henriette fez-se escarlate, houve um brilho na sua cabeleira e bem depressa, com a ladinice peculiar à raça, clarecou a alegria de seus dentes no caprichoso recorte da boca, a rir, a rir.

Uma campainha tintilou, retiniu lá-baixo. Era a chamada ao jantar.

— Aos feijões. Camilo. Aqui as horas são inglesas.

À longa mesa entoalhada de linho, em uma das extremidades, estavam já três hóspedes, moços estudantes e faladores. Um deles, de pince-nez sobre o nariz cheiradiço, soergueu-se da cadeira, fez uma cortesia a Henriette:

— Madame, allez-vous bien?

Ela correspondeu com um sorriso e arranjou, à sua direita, lugar para

"ea Camilo que retomara o seu ar cerimonioso e tímido. No mesmo instante a sala encheu-se de ylang-ylang," entrou uma senhora morena, clorótica, em percales brancos e laçarias azuis. O estudante de nariz cheiradiço sugou as narinas, olfatando:

— Flora surgiu!

A morena arrebitou um momo, contrariada, arrastou num safanão a cadeira.

Camilo, calado, dedilhando o cabo da faca, notava os hóspedes, perserutava-lhes os hábitos, observava-os, disfarçando a análise com o calculado interesse que punha em reparar as paredes desalentadoras, com o seu surrado papel de cenas chinesas, onde só restavam quiosques em tons grisentos e, de espaço a espaço, na sucessão do mesmo motivo, um borrão de sangue coagulado no saio de uma figurinha insípida; e ao fundo, aos lados do grande guarda-louça de vinhático, sobreposto a um corpo de cômoda, as molduras variolosas de duas antigas Goupil"? , Moisés Salvo das Águas e a Visita de Marco Antônio a Cleópatra.

Outra senhora tomou lugar à mesa; era alta, aloirada, rosto claro e grande, olhos serenos, de pálpebras baixas. Vinha num merinó escuro, direita, com a circunspecção religiosa de uma Irmã de Caridade.

Lá-baixo, da roda dos estudantes, partiu um suspiro intencional. A grave senhora enrubesceu. Olhares entre reprovativos e concordantes arrevesaram-se, de soslaio; a morena do ylang-ylang mordeu os lábios reprimindo um sorriso. Mas a Don' Ana, a locatária, com o seu aspecto d'abelha-mestra, grisalha e desiludida, postou-se à mesa, destampou a terrina da sopa e começou a servi-la por intermédio de um símio moleque testudo, gingador e caricatural, retinto como os carvões dos roçados. E, neste momento, entrou outro pensionista, pardavasco espadaúdo e gigantesco, de ventas largas em nariz caçanje, enfronhado num terno preto de sobrecasaca, afetado de gestos e alto colarinho luzidio, de diplomata. Sem curvar a cabeça, uma grande cabeça à escovinha, testa ampla, uma grisalha barba rente às faces, bicando no queixo, fez cortesias, levemente, aos demais hóspedes, falou em francês com Henriette, sorrindo com o garbo de seus fortes, claros dentes de gorila, e sentou-se correto, quase automático, retendo o aprumado tronco sobre a articulação das pernas, à inglesa.

A locatária arrastou-lhe uma reverência humilde, ele, porém, indiferenle, calcando a ponta do guardanapo no colarinho, abriu palestra com Agrário.

Camilo minguara-se ao lado de Henriette, arrebatado num atordoamento d'espírito, talvez vexame de ali estar como um medíocre ou um nulo, sem palavras; talvez sobrepujada percepção da sua esquerda atitude de estranho, recebendo o favor de um jantar, sob conjecturas plausíveis daquela gente ao seu flagrante acanhamento.

Por duas vezes quis falar, aventar o interesse de um assunto, animar-se a sacudir emoções duma palestra, e, por duas vezes, acovardou-se, inútil, desmemoriado, nervoso, angustiando na vergonha que lhe comprimia o coração, reduzindo-o a um pequenino músculo latente, pendulando a dinâmica bruta do organismo. Perdera o apetite, recusava desastradamente os pratos, tinha monossílabos guturais d'escusa que traíam roceirismos falsos, e a voz autoritária, larga, cavernosa do másculo mestiço cavava nele vazias estupidificações, que não sabia dissimular pelo mutismo enleado, imbecilizado em que caíra. Agrário, esquecido dele, deliciava-se na conversa do inglesado, chamava-lhe doutor, Doutor Heráclito, Senhor Doutor Heráclito das Neves, e este simples fato, esta nonada de sociabilidade, doía-lhe como se o amigo estivesse desprezando-o. Sobretudo, quando Henriette dirigia-se ao doutor, às vezes no seu idioma, às vezes na sua meia língua graciosíssima, a confusão 1 aumentava-se-lhe, transbordava-lhe para os seus menores gestos — desassossegava-se na cadeira, uma reuma renitente de defluxo obrigava-o a fungos e esmoncos contrariadores. E, anulado, insignificante, deprimido, voltava a notar os apagados quiosques chineses do papel, os borrões de sangue coagulado no saio das figurinhas insípidas, acompanhando a reprodução dos mesmos desenhos a ver se por igual se desmaiaram, té cansar a retina que se impressionava idiotamente com outro reparo, o poeirento étagere, oposto ao armário, os pratos que estavam sobre o mármore do tampo, as garrafas servidas que foram abandonadas nas suas prateleiras. .. . Mas, um momento, Henriette encheu de vinho o seu copo, estranhou o seu silêncio.

Ele gemeu que estava ouvindo a palestra. Forçou um sorriso agradecido e pôs-se a escutar o Doutor para quem se volviam os demais hóspedes. Fizerase uma discussão política a propósito de momentâneo assunto. Heráclito discorria, enfaticamente, sobre a inutilidade da propaganda republicana que cehi deria à reação de um "pulso de ferro", e um dos estudantes, aquecido pelo seu ' demagogismo, antepunha-lhe à argumentação a fatalidade do advento da Democracia, mais próximo do que se esperava. Escorregavam-lhe, na boca oleosa de gorduras, palavras carregadas de ameaças revolucionárias, nomes populares de propagandistas, teorias e autores, Macaulay, Spencer, Comte. .. . E Heráclito, superior, profundo, desdenhoso sem agressão, limpava os beiços no guardanapo, delicadamente, suavemente, afastando os pêlos rentes do bigode aparado:

— Entusiasmos da idade! .. .. — disse, pondo remate à arenga do estudante. Inopino, com uma palidez de raiva, Camilo acometeu-o de face:

— Não! Não, senhor. Não são os entusiasmos da idade que nos fazem prever o dia da República, é o conhecimento das causas, é o acúmulo dos fatos que nos trazem esta certeza. AÍ está a abolição dos escravos abrindo as represas da oposição, das classes dirigentes, à Monarquia.

Parou, excitado, trêmulo, embotado pelo rancor. Heráclito fixou-o imperturbável, suspendendo a garfada num gesto correto:

— E. .. . acredita o senhor que essas "classes dirigentes", hipotecadas até os cabelos, quererão antes reduzir-se à miséria, entregues aos desvarios de um movimento subversivo, que ceder a uma conciliação? .. ..

Vozes atropeladas gritaram da extremidade da mesa:

— Isto é a negação de um princípio social — a causa comum!

O Doutor mastigava devagar, aprumado sobre a cadeira, com ademanes de civilizado; um sorriso contraía-lhe os músculos faciais, deliciava-se com a inexperiência dos rapazes; e, dividindo num talho seguro de faca o naco da batata que tinha fisgado no garfo, respondeu com gravidade:

Ê — Os senhores são a mocidade, vêem as cousas pelas cambiantes do ardor. .. . Nem tanto! Nem tanto! meus caros. A abolição é, em si, um pretexto.

Í Sabem onde está o busílis? — Adentou e deglutiu o naco de batata; depois, calmamente, tornou: — Está na carteira hipotecária dos bancos, no Deve e Haver dos comissários. Os fazendeiros nunca perdoarão à Princesa-Regente o golpe dado nas suas finanças desmanteladas, mas apoiarão a Monarquia se ela cuidar de indenizá-los. Acene-se-lhes com esta promessa. .. . Acene-se-lhes. .. . e veremos.

Sorveu descansadamente o seu cálix de vinho generoso, em dous, três goles espaçados, gozando-lhe o sabor.

O argumento foi inesperado, parecia irrespondível pela autoridade política do Doutor. Fez-se um retraimento, durante segundos ouviu-se apenas o bater metálico dos talheres sobre a louça.

Camilo concentrou-se, amordaçado com esta lógica profissional; distraidamente recortava uma migalha de côdea sobre a toalha; de chofre, porém, seu orgulho ressumbrou duma revolta contra a suposta capitulação que a mudez inculcaria, e retorquiu:

— Seria a bancarrota.

Heráclito não o atendeu, entrara a narrar para Henriette episódios da escravatura na Martinica, penetrava nas páginas românticas de Bug-Jargal exaltando as metáforas hugoanas.

E Camilo, apunhalado por esta involuntária indiferença, voltou dolorosamente ao silêncio. Servia-se a sobremesa. Heráclito mandava vir cálices para Agrário, para Henriette, e com afetada delicadeza, perguntou a Camilo se lhe consentia a oferta de um pouco de vinho do Porto. O rapaz recusou vexado, num sorriso amarelento, com duas palavras selvagens, regougadas;

mas o pintor instou para que o aceitasse. Foi com a mão trêmula, uma vergonha a dilacerar-lhe a alma, que ele recebeu o obséquio, tocou o seu cálix no do Doutor, engoliu essa terrível bebida que amargava na sua palatina, que o envenenava. .. . E o jantar não terminava! Todos tinham abandonado a mesa. Passaram os estudantes, o de nariz cheiradiço fizera salamaleques para Henriette;

passou a morena recendendo a ylang-ylang numa nuvem de percales brancos e laçarias azuis; deslizou grave e de pálpebras baixas a que parecia Irmã de Caridade. .. . Só restavam eles e o Doutor à mesa suja de migalhas, cigarros acesos. O moleque saíra com as últimas levas de pratos e a Don' Ana trancava as últimas garrafas. Já rareava a luz, o dia rolara. E Agrário cada vez mais questionava, descortinava causas para o Heráclito explicar, esgaravatava questiúnculas que se distendiam, que se alongavam, que se eternizavam.

Por fim, Camilo aventurou, tímido:

— Vamo-nos, Agrário?

— Sim. Vamo-nos.

E não se mexeu, interessado noutro assunto que o Doutor expunha, tranqúilo, o gesto lento, acadêmico, a palavra clara e dominadora.

Um mal-estar afligia o rapaz visivelmente. Henriette notou-o, bateu no braço do amante, ergueu-se. Heráclito suspendeu logo a narração, arrancando-se da cadeira; tivera um remorder imperceptível de lábios, como contrariado, mas despediu-se afável, cortesmente.

Foi um alívio para Camilo. Apenas na escada do sótão suspirou com desabafo:

— Írribus! Que falador dos diabos!

Henriette sorriu. Realmente, em se lhe dando corda, era insuportável aquele macaco.

Agora foi Camilo quem riu, nervosamente, vingado, no qualificativo da francesa. E, já outro, já desagravado das contrariedades do jantar, galgou os degraus, correu à saleta:

— Ah! Isto vale a vida!

— Em família. .. . — acrescentou Agrário, que recolhia a um canto o seu cavalete mecânico, resguardando-o com um pano. Depois veio debruçar-se no peitoril, ombro a ombro com Camilo, ambos absorvidos na contemplação dos longes marinhos.

Um vago torpor doentio errava pelo crepúsculo suavíssimo, fluidificavase, penetrava n'alma, amolentando-a com reminiscências turibuladas, em volteios enlanguescentes, no incensário invisível das Saudades. O ar resfriara.

Soprava, muito fina, uma aragem glácida. Sombras noturnizantes desciam lentas, e lentamente estendiam o luto das horas magnas carpidas nos bronzes sacros dos templos a que respondem cicios fervorosos de preces, persignações reverentes de humildade e crença. .. . Em torno, as massas acumuladas dos planos próximos, o casario tortuoso e recalcado, a carcaça dos estaleiros, os pesados trapiches agachados, as grandes fábricas silenciosas varando a solidão com o obelisco enegrecido das suas chaminés, fundiam-se, soturnamente, num tom sujo e compacto, rasgado de escuridões esconsas, ângulos lúgubres onde o crime corveja, desnudando navalhas que rematam desavenças do labutar diurno. O mar oxidara-se na calmaria, lucernas ardiam suspensas, a vigilar;

escureciam montanhas no horizonte lívido. Henriette debruçara-se no peitoril vizinho. A sua cabecinha loira, destacando-se do friso vertical da janela, fazia pensar num fantasioso motivo d'escultura decorativa, duma fina policromia de imagem nichal, tão impassível ficara e tanta suavidade havia nas suas frescas tintas claras! E, vagarosamente, um mugido doloroso, quase indistinto, em seu começo, alteando-se, alando-se de mais a mais, cada vez mais trêmulo, mais agudo, mais dilacerante, rompeu pela coma da tarde morrente.

— Que é isto? — perguntou Camilo.

— Não conheces? É a Gondoliera'', em oficlide.

Ficaram em silêncio a ouvi-la, ombro a ombro, meditativos, enlevados.

E o mugido doloroso ia ascendendo, subindo, desdobrando-se, derramando nas alturas a sua larga queixa sonora de titão banido e moribundo. .. . Dormiam no imperceptível embalo desta Extrema Confissão gemente a ruína negra do casario, a mole escura das edificações limítrofes, as longitudes vagas, aguatintadas na penumbra da noite, que descia. Mais longa fizera-se a tristeza dos espaços. Imobilizavam-se as pupilas fascinadas. .. . E, na corrente dos sons, seguia o espírito, pairando e ondulando, desde a incoerência sugestiva dos cenários campestres, por melancolias vespertinas de paisagens esquissadas, quando os mansos bois nostálgicos roncam a mágoa estertorante da sua miséria d'escravos castrados, ao bafo cheiroso das fêmeas em caminho dos currais. .. . até vaporosidades de miragens, longes decorativos de Canaãs, promessas d'oiro esgrafiadas na poeira violácea do Abandono, dúbias faixas distantes de claridades desconhecidas. .. . e a região imensa do Abstrato, o infinito dos Sonhos, distendidos em céu sobre a vulcânica aridez fragosa, lascada, bravia da Matérial. .. .

11 A Só, no imenso recolhimento das cousas, no desprendimento astral dos j seres, a cabecinha loira de Henriette se materializava inconsciente da sua própria vida, estranha a tudo, sem destino. .. . talvez!

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