Capítulo XVI
XVI
Depois da comunicação do amigo, a vida tornou-se para Camilo uma dolorosa inquietação.
Rondava, abatido e casmurro, das cervejarias para a Havanesa e d'Havanesa para as cervejarias, torturado por apreensões de futuro, numa triste vadiagem de expulso. Cresciam-lhe, às vezes, rancores contra tudo e contra todos, percebendo-se desamparado, e repelido pela sorte. Nessas ocasiões tornavam-se-lhe necessárias energias sobre-humanas para conter-se, porque arrebatava-se na delirante combinação de planos vingativos, pensando em se fazer agitador de oprimidos, um perturbador social, sanguinário e perverso, filiado aos segredos das seitas reacionárias; mas, empós a fadiga do planejamento, sobrevinha-lhe a ponderação, considerava a sua instintiva antipatia pelas massas, a imperfeição espiritual das classes ignorantes e concluía pela anulação da sua existência no ímpeto libertador do suicídio. .. . E esta idéia voltava-lhe intermitentemente, no silêncio das meditações; era como um gérmen que se desenvolvia à mercê cultural das circunstâncias, começava a dominar-lhe a vontade, entrando na posse da sua cerebração. " — Há de ser o meu fim — pensava —, trago comigo a tara, sou um marcado pelo Destino. .. ."
Erguia os ombros com indiferença e prosseguia o seu caminho de acaso.
Mas, a sentimentalidade resignada de sua mãe, aquela suave longanimidade que a enobrecia na desgraça, dessorava dos seus recônditos, socorria-o nesse esmorecimento moral e ele engolfinhava-se nos pensamentos de uma obscura e doce existência de paz, na proteção dum claustro onde su'alma se retemperasse nos esplendores da Fé. .. . Distrafa-se a compor o seu fantasiado existir monástico, iludido numa sagrada serenidade d'espírito, sob pesadas arcarias góticas ou nas extensões solitárias de uma esquecida região, a terra antiga dos anacoretas, iluminada por um luar azul de piedade, a cujo clarão languescente sentia-se passar como um monge branco, meditativo e penitente, errando pelas areias das estradas claras a sombra taciturna da sua silhueta.
Vincaram-se-lhe na lividez do rosto duas linhas de tristeza que lhe torciam a boca num manso desdém das Cousas e quando, cansado de esperar, retiravase desiludido de encontrar algum dos antigos companheiros, a gente do seu ' f grupo qu'ele reunira em camaradagem íntima, julgando fazer dela o convívio de seus afetivos e afinados, transfigurava-se o desdém destes sulcos em resignações de converso, para quem o sofrimento destila o suco balsâmico da santidade e da misericórdia.
Quem lhe apareceu um dia foi o Pita, sobraçando a etema Partida de Colombo. Agora trazia o rosto escanhoado, à pároco, e a cabeça rapada como um galé. Camilo não pôde conter o riso quando o infeliz descobriu-se para cumprimentá-lo. Tornara-se de um cômico desafiador, extraordinário, fantástico, dolorosamente hilariante. Sem um fio de barba no rosto néscio e repisado, sem um fio de cabelo no crânio pontiagudo e acidentado, tomava o aspecto to irrisório de um macaco farsante, a que as extravagâncias de feira ridicularizassem borrando-o de alvaiade.
— Que é isto, Pita?
— Nada! Higiene. .. . — explicava o infeliz, passando e repassando a mão espalmada, acariciadora, pela aspereza do couro cabeludo. — Foram cá umas aranhas que fizeram teias. Botei os bichos pra fora. Sabes? Higiene. .. .
limpeza pública.
E, sem um motivo que explicasse o desvio da conversa, aportou para as
— queixas, dizendo-se perseguido, guerreado e invejado; arquitetou novos so— nhos de glorificação que o deviam eternizar como um deus aureolado peta sua Partida de Colombo, e continuou seu caminho, estúrdio e ridículo, apertando
— sobo braço a tela eternamente conduzida e que lhe ia servindo de passaporte à Loucura.
Nesta mesma tarde Camilo recebeu uma carta de Agrário, escrita às pressas na mesa de bordo de um vapor que levantava ferro para Santos. Era quase um bilhete, inexpressivo pela rapidez. Informava-o de que partia a despedir-se da família, e de lá seguiria para Europa. Rogava, também, e isso em nome da velha amizade, o favor de, se estivesse com Henriette, explicar-lhe as razões desta precipitada partida, e obter para ele, escravo do seu futuro, o perdão da deliciosa amante, "que te cede, entre um milhão de abraços, o eterno amigo. .. ."
Camilo releu, atônito: ". .. . que te cede, entre um milhão de abraços, o etemo amigo. .. ."
E pasmou estúpido, azoinado, sem compreender a obscura declaração, que rolava por seu íntimo uma avalanche entontecedora de conjecturas. "Mas que era isso? Que lhe desejaria insinuar esta frase? .. .." Revolvia o bilhete entre os dedos, dobrava e desdobrava-o: "E esta! .. .." Memoriava, então, o que fizera, excogitava os casos, temendo de suspeitas deixadas por uma inconsci?
ência, por alguma espontaneidade; revolvia minudências com pequeninos tremores de remorsos por infidelidades que se escaparam sob disfarces infelizes e logo indignava-se, estremecia sacudido por cóleras de honestidade ofendida, repulsão pelo desprezo com que se lhe atirava o sobejo de um gozo. .. .
Retornava a inquirir, caminhando por esconsas vielas do coração da cidade, do que tinha feito, da maneira por que se portara. .. . e acovardava-se diante de + despertas fagulhas recordativas que lhe pareciam denunciadoras da paixão surda e lenta por Henriette. Mas, com a mesma presteza, rompia em revolta contra a perversidade de Agrário que não atendera a sua linha de nobre conduta, respeitando a rapariga como se fora legítima mulher sua. .. . recalcando os desejos maus que a carne despertava e triunfando como um Puro sobre o conflito desesperado dos apetites e a invulnerabilidade imposta pelo afeto. Se outro fosse o seu proceder, se através uma amizade hipócrita tivesse cautelosamente reqúestado essa mulher, talvez esse pobre espírito lhe não viesse atirar ao coração o vitríolo desta frase gargalhante, este corrosivo sarcasmo:
"que te cede entre um milhão de abraços. .. ." Ah! cedia-a, depois de cansado de gozá-la, depois que se saciara e uma perspectiva de melhor existir se lhe abria em claridades promissoras. Generoso amigo!
E foi ainda sob a noite deste tormento que veio às mãos de Camilo um bilhete de Henriette, pedindo-lhe que chegasse ao Livramento.
O seu coração refrangeu-se ferido. A indigna cessão que o amigo fizera ganhava alvíssaras com este convite. E desceria à baixeza de se evidenciar sobre o fusco de uma suspeita, dando a alguém, a quem quer que fosse! o direito alcoviteiro de dizer que ele continuava a visitar Henriette, para satisfazer à irônica perversidade do ex-amante? Não. Nunca! Dofía-lhe à sensibilidade cristalizada desse amor, desse mais que amor, dessa paixão sombria e oculta por onde ele fora como um galileu sentenciado levando às costas o peso de;
seu martírio, dofa-lhe a recusa de um pedido nesta ocasião, talvez pedido clamante, talvez aflitivo, mas que lhe não chegava claro nem explanava intuitos.
E decidiu não atender ao chamamento.
Mas, na tarde seguinte, soube nº'Havanesa que uma senhora, cujos traços descritos combinavam com os da Don' Ana, o procurara insistentemente, deixando-lhe, num recado, a notícia de que Henriette estava de cama, em perigo de vida.
De que modo resistir? Como seria qualificado o seu procedimento se desatendesse a participação, quando ela envolvia uma confiança? .. .. Estava vencido. Nem mais pensou, correu ao Livramento.
Henriette caíra enferma, subitamente. Aos primeiros sintomas da moléstia a Don' Ana aterrorizou-se com os prejuízos, que teria, se fosse um caso de febre amarela. O médico, porém, tranquilizou-a: o mal não merecia a importância que a sua aparência despertava. Não obstante, a febre queimava a.
doente, ardiam-lhe as faces em que os raros pontinhos das sardas mais se acusavam, como faíscas daquele fogo que lhe vinha das entranhas; seu olhar fulgurava estranhamente, uma agitação contínua prenunciava o delírio, a sede crescera supliciadora.
Camilo emudecera, emocionado por esse fatídico recontro, e era com uma expressão de sonâmbulo que ouvia os gemidos e os resmungos narradores da velha locandeira.
Durante dous dias ele desvelou-se nos cuidados de enfermeiro, sem demonstrar o cansaço do trasnoitamento. Orgulhava-se dessa dedicação espontânea, engrandecia-se com a oportunidade desse préstimo em que revigorava suas forças esmorecidas e, só quando a febre cessou e a Don' Ana se lhe referiu sobre as despesas do tratamento, foi que ele se lembrou de que nem sequer prevenira sua mãe do motivo dessa ausêncial. .. .
Partiu com uma mentira sensibilizante nos lábios; penalizaria o coração da sua pobre velha com a calorosa descrição de um piedoso dever cumprido
— fora um amigo, sem afagos, sem recursos, prostado por uma doença, que o retivera à cabeceira da sua enxerga. As mães sempre foram ingenuamente crédulas! .. .. E, de permeio, ia minudeando a maneira de obter dinheiro para aquelas despesas. Henriette nada possuía nem tinha quem a valesse. Agrário estava longe e, mesmo que ainda não houvesse partido, seria incapaz de abrir generosamente a bolsa para salvá-la. Era preciso um meio, qualquer que fosse, para atenuar as necessidades, ao menos por momentos. Lembrou-se, então, de uma valiosa prenda que herdara de sua avó, um anel d'oiro engastoando a claridade branca de uma pedra admiravelmente facetada na Holanda, jóia de família vinda dos acervos de seus avoengos e que, por ser preciosa, a mãe guardara com uma triste ironia sobre o destino dela: "Será para as despesas do meu enterramento".
Esse anel bem poderia vir às suas mãos, inventaria um pretexto para usá-lo; ou, para fugir ao titubear da falsidade, retirá-lo-ia em segredo. Era um desses objetos guardados de que a gente tem certeza da posse, e que só uma necessidade ou a casualidade dum minuto põem-no diante dos olhos. Se tal acontecesse, ele desculpar-se-ia, fora um compromisso a que o vexame das explicações lhe forçara criminoso procedimento. .. . Três palavras trêmulas e um beijo apagariam o negror das suspeitas, a humilhação da censura.
' E breve voltou à pensão satisfazendo todas as contas, té a da mensalidade que Agrário descurara de pagar.
Começou para ele um período afanoso de sacrifícios. A convalescença d'Henriette requeria cuidados, gastos extraordinários, que Camilo ia prodigalizando com os criminosos pedidos à mãe, os insolváveis empréstimos aos agiotas, arrastando responsabilidades de fiadores que ele, numa desvairada inconsciência do delito, rebuscava nas mais esquecidas amizades de família.
Enquanto não tinha o necessário para os gastos, enquanto no seu bolso não sentia o contacto das notas do Tesouro, ele sofria como um vesânico a insuperabilidade da sua perseguição; mas, em o possuindo, embora a custo de rebaixamentos implorativos, a alma se lhe expandia felicíssima — cercava a rapariga do necessário e do supérfluo, despendendo a mãos largas como um petulante morgado frascário livre d'autoridade paterna.
E horas, após o matutino passeio, que fazia levando a sua convalescente pelo braço, ficava-se naquela saleta tão sua conhecida, a falar em cousas inúteis, frouxo d'espírito, embevecido nas miragens dos sonhos, construindo quimeras, levantando utopias, por onde se emaranhava, desnorteado e mole, roçagando nas meditações o manto clássico do sentimentalismo em que acolhia regenerações de Madalenas conversas à fé do Amor, com desenastradas cabeleiras para a grande purificação dos matrimônios reparadores. .. . Já se lhe enchera a cabeça de tantas idéias lustrais que, dentre elas, surgia imácula, como as pecadoras da Sinagoga sob a unção das palavras do divino Jeschoua'", o precioso projeto de um consórcio bendito; e, enquanto mentalmente revia sua obra regeneradora, descansava o olhar sereno no elegante busto d' Henriette, curvado à leitura dalgum livro: "Seria uma ventura, seria, ter junto de si, amante e amada, aquela criaturinha feita de rosas e de sol. .. ." E Henriette, nestes momentos, ao levantar os olhos das páginas, vendo-o cismar, vinha sentar-se perto dele. Ainda por suas faces a palidez da moléstia deixara laivos de sofrimento, no azul de suas pupilas boiavam os últimos mormaços da febre; mas, assim, fanada ao calor da enfermidade, metamorfoseara-se num delicado e lívido tipo de Mártir a que o esteticismo dos crentes, por espontaneidades atávicas, concretiza na graciosa forma profana das mulheres amadas.
Esta transformação, sob que vagamente se reconheceria a outra Henriette, era como uma remissão de culpas. A doença absolvera a pecadora rapariga de ontem, delindo a treva do seu passado nos nevoeiros albentes de uma madrugada nascida, e Camilo já perdia a noção intrínseca do que ela fora na doentia persistência de desejá-la. As circunstâncias acidentais que os aproximaram outra vez, pareciam-lhe um fatalismo a que ele se curvava resignado, calculando o gozo resultante e que, por sua natureza desviando-se da linha comum dos seres, imaginava excluir da ofensiva bisbilhotice mundana com a realização idílica de um lar de paz, por onde o rosto sério e bondoso de sua mãe confortalecesse, como um beneplácito sagrado, a mútua e uniforme amizade de ambos.
Das platônicas conversas íntimas, lado a lado, e diurnas, amanhecera um namoro casto, doce engano d'alma sonhadora de Camilo. Henriette também partilhava, humilde, desse delicioso prazer de amar como nunca amara, instigada por uma ingênua curiosidade de iniciação. Ela mesma, sem saber por quê, adelgava-se, tomava atitudes recatadas de virginamentos, uma atraída confiança de instintos apenas acordados. E tinha regressões sentimentais, nostalgias poetizadas que lhe comungavam e indultavam a alma para a entrada pura neste Novo Afeto.
Por vezes falou na sua terra, o país nevoento da Bretanha, uma costa bravia da França Norte, e vieram-lhe lágrimas num bater furtivo de pálpebras que baixam oprimidas; por vezes reticenciou o remorso da sua desgraça, sob irresponsabilidades dos primeiros anos, no delírio de Paris dos ateliers. .. . E a volata do arrependimento soluçava, sobre cada retornar das folhas do passado, o velho ritmo angustioso dos dramas. .. .
Nunca seus lábios pronunciaram o nome do pintor. Dir-se-ia que Agrário jamais existira para ela. Camilo, em momentos, referia-se ao amigo, com um propósito em que borbulhava mais o ciúme que a recordação. Ela, porém, fazia-se surda, desatenta, esquecida. Ele, então, não teimava nessa dolorosa lembrança; seria mui feliz se também perdesse memória dessas relações invejadas, por onde suas energias desceram até a suave escravização de hoje.
Assim corriam as manhãs, deslizantes como um fio manso de fonte, que vai lentamente enchendo a longa cavidade de uma represa.
Por uma dessas manhãs o Doutor Heráclito subiu ao sótão. A presença
— daquele homem sobressaltou Camilo: "Que desejaria o intruso? Por que vinha perturbar a paz de seus sonhos?" Para afastar Henriette dos que pudessem requestá-la, conseguira que a Don' Ana mandasse as refeições ao seu próprio aposento e quando a julgava, enfim, segregada do suspeito convívio dos pensionistas, aquele que mais concorrera para esta deliberação, solapava todos os ardis, galgava as conveniências, e vinha tripudiar sobre seus intentos! .. ..
Enquanto não o viu descer esteve em febre, desassossegado e bronco.
Foi um alívio quando o doutor saíu, e logo acometeu-o um desejo de dizer a Henriette que não recebesse aquele homem. .. . Mas. .. . "Por que ofendê-la com uma imposição? Com que direito assenhorear-se da vontade sua? Por pagar? .. ..
Não. Pagava por misericórdia. Diante da ex-amante de um amigo, ele não em mais que um generoso e caritativo companheiro, para quem se apelara! Impor, seria dominar, prevalecendo-se do dinheiro com que satisfizera necessidades; desceria, se assim fizesse, à repugnante brutalidade de um especulador da desgraça. Custasse-lhe vergonhas, ele nunca se nivelaria com os demais!"
Na manhã seguinte, durante o passeio, voltou-lhe o desejo de falar a respeito de Heráclito. As palavras ferviam-lhe nos lábios. Temeu molestá-la.
Mas a imperturbabilidade, a pretensiosa correção daquele homem desenhavam-se-lhe no espírito como numa placa imagética, e a persistente percepção dessa irritante figura, nitidamente refletida na sua visão interior, despertavalhe sufocações de emparedado, uma aflição de asfixiado. Olhou Henriette: ela restabelecia-se. Já o revigoramento do sangue distendia por suas faces uma guache carmínea, de maçãs a colher, mal se lhe distinguiam as esparsas, pequeninas sardas; a sua esvelteza d'estatueta, esse donaire de estrutura galante que lhe dava a sedução duma fantasia do Século Dezoito, reaparecia sobre angulosidades da sua ossamenta descoberta pela moléstia. Loiros e mais finos eram-lhe os cabelos; a epiderme fizera-se de flor nova, as pupilas tinham quietações meridianas de lagos estivais refletindo o azul luminoso, a boca sangrenta, em arco de Cupido, alacrizava-se com o riso túámido duma orquídea bipetalada, caprichosa e rubra, e no seu braço ele sentia o rolo carnudo do braço dela, num suave peso de corpo levado para o Amor.
— Sabes, Henriette? .. .. Eu abomino àquele Doutor. .. .
— Quem? — ela perguntou-lhe, admirada, colhida de surpresa.
—. .. O Heráclito. .. .
— Sim? Eu também, querido.
E calaram-se.
"Eu também" ela dissera tão firme, tão sincera, que o resto das frases ficou-lhe reprimido na garganta. Ia dizer mais, precisava de falar mais, para provar a sua antipatia por aquele intrometido, e continuou o passeio, sem palavras que o acudissem. Eu também. .. . E por que duvidar?
Irradiou-se-lhe pelos músculos, pelos nervos, a macia pressão do busto d'Henriette. Ela o assegurava, entregando-se-lhe: "Se duvidas, aí me tens, sou tua. .. ." Talvez fosse a expressão discreta desse comprimir de corpo!
Voltaram à pensão.
Henriette estava num dos seus dias felizes. Bailava-lhe pela alma uma grande festa e na vermelhidão mádida dos scus lábios, palavras e risos eram como regozijos duma alegria dominical de aldeia. Tinham caminhado muito e como o calor começasse com os primeiros sóis de agosto, ela transpirara fortemente. Apenas entrou no sótão correu ao quarto para mudar as roupas.
Camilo acendeu um cigarro e esperou. Donde estava percebia o vulto dela, através os brancos stores dos vidros, alteando gestos que alongavam debuxos de camisa a ser vestida, esboços de corpo a desnudar-se. A porta ficara encostada. Uma idéia rápida ocorreu-lhe: — "Henriette fazia de propósito, era mais que uma provocação, entregava-se. .. . Tivera, contudo, o pudor do convite. .. ."
Levantou-se, foi até a porta, ia pôr a mão à maçaneta, quando ela indagou dele, numa frase nervosa, o que queria.
— Até logo — Camilo disse, sem saber o que dizer, imbecilizado.
— Eh! bien. Alors, au soir. .. .
E ele desceu degrau por degrau, com um peso no coração, que lhe trazia aos olhos confusões desesperadas de lágrimas. :