Capítulo XV Mocidade Morta · Capítulo 15 de 19
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Capítulo XV

XV

Uma tarde Agrário travou o braço ao do amigo e saíram a passeio. Seria uma volta por perto. .

Em meio do caminho, estreitando Camilo numa confidência feliz, noticiou-lhe que estava com a viagem tratada, conseguira por intermédio de influências políticas uma pensão da sua província. Exultava de contentamento. Agora o Paris sonhado, o Paris idealizado, era uma realidade. "Mas. .. . — interrompeu-se contrariado — mas. .. . havia sempre um estorvo na sua vida.

Tudo arranjado, tudo quanto dizia respeito à realização deste ideal, menos o meio de descartar-se da rapariga. Precisava de um motivo qualquer para abandoná-la. Até hoje andara às cabeçadas; fizera vida de boêmio, sem cuidar do futuro; tirara Henriette do gozo do cambista só pela fantasia de manter a sua amante, um luxo imitativo, para afetar existência parisiense de artista. .. .

Hoje é que via claro o estouvamento em que vivera. Só a brincadeira do Zur trouxera-lhe maçadas e prejuízos! Por último, quando parecia ter chegado ao seu desejo, era isto! De que modo seguiria para a Europa com a sobrecarga da rapariga? ..."

Desciam a rua, a passo. Camilo caminhava calado. A boa nova do amigo tomou-lhe o coração como as molhagens de gesso que envolvem um membro, comprimindo-o sem dor, resfriando-o devagar. Sobretudo a queixa contra o Zut, esta recriminação injusta e sempre repetida, neste momento mais o acabrunhava, sem mesmo saber por quê, quando já lhe eram raras as vezes que se recordava do seu grupo rebelde, da sua utópica revolta! À

— Tu não me ofereces um expediente? — perguntou-lhe, subitamente, o pintor.

Camilo estava tão absorto que, despertando, indagou admirado:

— Para quê?

— Para que há de ser? .. .. Para me desligar de Henriette.

— Ah! .. .. — e depois de uma longa pausa. — Homem, eu nestas cousas — sou nulo. Nasci sem expedientes.

Continuaram o caminho em silêncio. A tarde descorava numa palidez convalescente d'inverno a extinguir-se, recolhida e dolente; saturava a friagem do ambiente a acridade enjoativa dos carvões e graxas dos estabelecimentos fabris já em repouso; e esse descanso de possantes maquinismos adivinhados lá dentro dos vastos recintos fechados, a quietação modorrenta do lugar, aumentavam a tristeza de em torno, enchendo-o duma vagarosa dúvida de próximos pores-de-sol refulgentes, como promessas dúbias de alento. À proporção que desciam, o aspecto do bairro encenava-se mais soturno, mais lôbrego.

O cheiro das lubrificações mecânicas delia-se à invasão do bafio salitroso das maresias do cais. Começavam, por aí, as tavernas da maruja, os botequins imundos onde se retalham a facadas os ébrios agressivos, os ship-chandlers"

sombrios, um ar úmido de porões infectos; e, do lado oposto, descendo para as proximidades da Prainha, o silêncio dos trapiches, a pesada calma dos estaleiros, exalando resinas alcatroentas de materiais náuticos, o olor meloso de seus fardos de açúcar. No fundo de uma betesga, negra e lutulenta, luzia uma faixa de mar. Agrário parou, surgiu-lhe a idéia da propínqua viagem, um antegozo de se ir dali, águas em fora, pelo desconhecido, singrando as vagas para os portos da Europa, em busca dessa terra sonhada, a Canaã dos espirituais que se consomem no cativeiro dos países bárbaros.

E bateu com a bengala na calçada, numa exasperação:

— Mas, isto é um inferno, Camilo, é um inferno! .. .. ou eu abandono Henriette ou corto a minha carreira! .. ..

Este arranco egoísta, mas justificado pelo desejo de completar aspirações, este inteligente arrebatamento de moço que se teme estiolar na vulgaridade de um meio ronceiro, sem amplitude de limites, sacudiu a alma de Camilo, esfuziou por seus nervos como um relâmpago no céu tranquilo de uma noite larga.

— Abandona Henriette, mas não prejudiques o teu futuro. Vai, custe o que te custar. A mulher é um estorvo para o artista, e quem vence a mulher conquista a vida. Vai.

Houve nestas palavras uma melancolia que ele próprio não poderia definir e tão firmes, e tão emocionantes pela sinceridade elas foram, que o pintor ficou emudecido, o olhar posto longe, talvez para além-mar, talvez para o seu grande sonho — abstração inexprimível, que se há de concretizar, que há de vir um dia, um dia que sempre se espera e que sempre tarda, mas que não tem ocaso, que não acaba nunca a sua deslumbrante fulguração simbólica. E, devagar, como se surdisse dos enevoamentos de uma meditação, Agrário disse:

Eu não sei, não me posso compreender. Às vezes sinto-me estúpido, incapaz de uma resolução; outras vezes sou capaz de tudo, cometo violências, decido das circunstâncias as mais complicadas com uma extraordinária presteza de idéias. .. . Assim como agora, encontro-me idiotado, sem saber o que fazer. .. . Será isto amor? .. ..

Começaram a galgar para o Livramento, concentrados, lado a lado, sem se ombrearam, lábios grudados. À entrada da Pensão, Camilo se despediu. Estenderam-se as mãos no mesmo silêncio. Um — desapareceu por trás da encortinada cancela da casa, o outro — desceu rua abaixo, embrutecido com o azoinar cafurnento das conjecturas e apreensões. E, longe da Pensão, abriu a boca para sorver o ar, aflitivo, numa agonia. Agrário partiria. .. . Agrário iria para a Europa fazer o seu nome, preparar o seu futuro, viver, enfim! .. .. E ele? .. .. E ele? .. ..

Penetrou-lhe mais envolvente uma fria desesperança, garoenta e triste;

sentia se afastar de uma ilusão feliz que só agora percebia, mas que não podia determinar; desprender-se de um tempo manso em que amainou sem preságios, numa venturosa ignorância de inculto; e essa ilusão que se alava, asas largas, claras como a caiagem nova das ermidas, batendo para as distâncias do Nunca mais, e esse tempo que diminuía e se acrizava num afastamento panorâmico de porto eternamente deixado, traziam-lhe uma saudade funda, dolorosa, como se, nos poucos, gozando o suplício causado, lhe espremessem o coração ferido sobre a palidez da alma letárgica.

"Agrário partia! — murmurava de si para consigo. Um silêncio de tumba fechada ficava nele, acompanhando-lhe os passos. .. . Mas, logo, uma pergunta reboava por sua alma, como uma rajada inópina de vendaval arrebatando as portas duma nave: — E Henriette? .. .. Henriette para onde iria? .. ..".

E, no desalento de outro silêncio, caía sobre o pungir das incertezas a realidade glacial: para ele é que tudo findava. .. .

No dia seguinte Camilo vagou pelas ruas, esteve horas e horas à porta d'Havanesa à espera do Sabino e do Franklin que não apareceram; decidiu-se, então, a visitar o Rios, a quem foi encontrar inda mais amargo nas desilusões, todo preocupado com um catecismo positivista de Letourneau. Ao atravessar uma rua deparou com o Braguinha que acabava, dizia ele, de ir ao correio franquear uma carta para o Puccini," porque talvez Camilo não soubessc, o Puccini escrevia-lhe, tratava-o por fu, adoravelmente familiar. .. . De resto, um belo rapaz, esse Puccini. Na carta, a que se referira, participava ao jovem maestro que o iria surpreender brevemente. .. . Ah! é que o amigo Camilo ignorava, sem dúvida, que ele, "este seu criado Samuel Braga", terminava o inventário de um tio rico, uma bagatela, apenas uns quinze a vinte contos de réis para uma temporada na Itália. .. . Sento una forza indomita, sabes? .. ..

Assestou melhor o pince-nez, com o seu jeito habitual de calcar dous dedos sobre a curva da mola e lembrando-se:

— Homem, é verdade! .. .. Sabes duma cousa? .. .. Não sabes. .. . O nosso Alves Pena, o nosso famigerado Alves Pena, de quem não havia notícia, está a morrer. Disse-mo um parente dele, há horas. O delirium tremens declarou-se, depois um insulto cerebral paralisou-lhe o lado esquerdo. Está a morrer. .. .

e no hospital.

Camilo informou-se com ele da maneira por que lhe seria possível visitar o doente. Convidou-o para esta prova de camaradagem, mas Samuel Braga esquivou-se-lhe, enumerando uma enfiada de compromissos inadiáveis, que lhe tomavam todas as horas deste dia.

— Neste caso vou só. Adeus.

E, despedindo-se, Camilo seguiu caminho.

Quando entrou no quarto particular, que lhe foi apontado, o pobre rapaz jazia inerte sobre o leito, apenas se lhe percebia a vida pelo respiro siflante, cansadamente rítmico da carcaça, sob o vermelho áspero do cobertor. A cabeça, muito pálida, pondo em ressalto todo o desenho ósseo, era como uma cousa abandonada sobre o encardido linho das almofadas, e seus olhos, velados por uma penumbra de inconsciência, pregavam-se a fitar o vidro de uma oleografia, pendurada no muro fronteiro, representando o beatífico São Francisco de Paula, barbaçudo e bom, na concha do seu capuz.

— Então, Alves Pena, qu'é isto?

Mas o boêmio não ouviu, não se mexeu, continuou esteriçado, a siflar, com o olhar atônico, volvido para a efígie do santo.

— Qual! .. .. É inútil falar-lhe. Está por horas — advertiu o irmão enfermeiro, um velhusco abadacial, beiçada mole de baba, venta negra de rapé, alambazado na sua batina surrada, nodoenta de mezinhas. E, por hábito profissional, contou todos os pormenores da moléstia, as crises do delirium, as q condições d'apoplexia proveniente de uma garrafa de álcool roubada à farmácia da beneficência. .. . Arrastou uma cadeira e prosseguiu com a sua cantada inflexão açoriana: :

— Sente-se, senhor, sente-se. Olhe, que é o primeiro e. .. . o último que o isita. Por aqui tem vindo um mocinho saber dele, mas é como se andasse a ipor. Nem sobe. .. . Ah! se fosse noutro tempo, quando o falecido Comendador Ives Pena tirava do seu bolso os benefícios desta casal. .. . Mas, a vida é a da. Desgraças! .. .. Sente-se, que Deus lhe pagará este ato de caridade. Eu qui me vou a outro. .. .

Afastou-se, pesado, com os olhos oftálmicos, o seu corpanzil a estalar o pano da batina.

Camilo passeou o olhar pelo pequeno quarto forrado de velho papel, sem cor, depois volveu-o para o moribundo, com uma curiosidade fria, indiferente por este resto de corpo humano que se preparava para o desaparecimento eterno. Seria difícil reconhecer o incomparável boêmio neste esqueleto enluvado numa pele peganhenta e lívida. A sua grande cabeça calva perdera o polimento antigo; tinha-se-lhe crescido a barba, já grisalha, hirsuta e seca; a cabelugem que ia ganhando as faces, contornando as têmporas, aumentava a fealdade do escaveiramento; o nariz, que lhe fora lustroso e arrabanetado, sumia-se, enrugado, destilando sedimentos de humores, como um fruto apodrecido. E este conjunto que a morte começava a resfriar no seu crespúsculo macilento, entrou a interessar Camilo com aproximativas e comparações, retiradas das suas lembranças, avivadas no longo repouso do hospital, apenas cortado, de quando em quando, em intermitências profundas, por uma tosse catarrenta, cavernosa e esburgada, que vinha de um aposento próximo.

A luz era escassa, ainda o sol descambava e já nesta tristeza de casarão lúgubre as sombras tinham noturnidades, picumando o alto das paredes num tom neutro de betume pinturesco. Através o peneiramento de trevas entrantes, da escuridão que se fazia, a cor dos muros, confusa de valor, mistura de cinzento e pardo de terra, eterizava-se num vácuo, como se eles, os próprios muros, fossem a continuação deste espaço pardacento, grisento, entenebrecido, de cava tumbal. Só na parede fronteira ao moribundo, onde o seu olhar se gravara, seguindo, inconscientemente fascinado, um imaginário cordel rebrilhante que s'enrolava sobre uma haste retesa continuamente, sempre no mesmo vaivém, fatidicamente, como estranho pêndulo dum relógio invisível, o vidro da oleografia luzia com a friagem de um aço parado, à espera, instrumento de ceifa ou arma de homicídio, pronto no silêncio para o momento marcado.

De repente, a escuridão cresceu. Camilo levantou os olhos para a porta.

Era o corpanzil do irmão enfermeiro que entrava. Vinha acender a lamparina.

E do corredor chegavam convulsões d'esburgos pulmonares, arrasta- ) dos, penosos, terminados em gemidos, por vezes em uivos.

— Também está a preparar-se. .. . — explicou o enfermeiro, referindo-se ao tísico que tossia —, também está com o seu tempo contado.

Acendeu a lamparina, atirou uma olhadela para o leito e espichou a beiçada mole, num gesto significativo, bambaleando a cabeça.

Arrastou-se outra vez, na sua faina, automatizado pelo hábito; à porta,

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parou, desdobrou o seu alcobaça enxovalhado, assoou-se com estrondo e abalou, sem rumor de passos, pelo soalho envernizado.

Alves Pena tornara-se mais lívido. À claridade sua pele ganhara um laivo esverdeado, diminuíram-se-lhe os olhos, um pouco, como adstringidos por uma coma muito leve e baça, que lhe ia apagando a luz espectral das pupilas; a boca dilatara-se mais, a feia boca quilotada, negra sob o sarrento bigode envelhecido, e o ronflo do seu respirar, até ali compassado, ia-se graduando numa ânsia.

"É a morte que chega" — pensou Camilo e continuou a fitá-lo. Nesse novo atendimento a cabeça do boêmio pareceu-lhe fantástica, uma cabeça exumada, que lembrava o quer que fosse de crime ou profanação, o hiato da sua boca esculpia a trágica expressão de um terror e os globos dos seus olhos, quase sumidos de pupilas, permaneciam imóveis no fundo bístreo das órbitas como o branquejar de denúncias na treva de um antro.

E Camilo, numa imobilidade de pedra, continuava a fitá-lo. A sua atenção convergira toda para este mísero companheiro de ilusões, retinha-se magnetizada por uma força já menos curiosa que involuntária, tão misteriosa e dominadora se tornara.

Nos largos espasmos lúgubres, que os esburgos catarrosos do tísico deixavam sobre a calma ronflante do hospital, era-lhe de tal modo absorvente esta contemplatividade, que lhe despertava apreensões tétricas, um pavor infantil do silêncio, a custo rebatido pela energia, uma crescente excitação nervosa, de febre.

Então, para se inanir à hipnotização que o empolgava, Camilo entrou a procurar nos móveis, nas paredes, nas suas próprias roupas, motivos fúteis para se distrair; levantava na memória episódios alegres do viver boêmio de Alves Pena, relembrava-se de frases, ditos, gestos. .. . Mas, impensadamente, querendo desviar dele a sua atenção, volvia a notá-lo, a observá-lo, pela associação de idéias que se encadeavam num círculo vicioso, pondo-o, teimosamente, diante da sua visão, trazendo-o, obstinadamente, à sua imaginativa, que se inflamava com o siflo daquela respiração entrecortada e penosa, com aquele contínuo arfar de suspiros mal chegados à boca dilatada e sôfrega, donde se escapavam em bufar de válvula aberta duma caldeira resfriada. E a esquálida cabeça do moribundo tornava-se mais gélida, a pele seca e cingida, acentuavam-se-lhe as cavidades da ossamenta num impressionante modelo de cabeça perdida no fosso sombrio de um túmulo, onde estivesse a apodrecer. Com a rigidez do desenho esquelético os primeiros sintomas da decomposição advinham lentamente, cavando em lucarnas de solitária as órbitas obscuras, laivando de roxo a radicalização do nariz, esfriando em tonalidade de cera os restos carnudos das faces donde eriçava a cabelugem sem brilho da barba. .. .

Assim, à luz dessa lamparina soturna, trêmula, com estalidos presagos, a sua cabeça era uma cousa morta, entrando no esfacelamento das desagregações orgânicas, sinistramente abandonada naquele leito.

E com a observação dessa outra existência que ia começar, imperceptível e dispersa, Camilo acompanhava a desumanização desta cabeça no segredo absoluto da Terra, imaginariamente penetrando por suas camadas, fazendo-se larva, escorregadia e penetrante, animalico fossador e visguento, descendo ao recôndito dos aterros tumulares, para surpreender essa decomposição, para assistir ao esfacelante trabalho nivelador da Morte. E bem depressa que restaria dessa máscara donde o espírito fugia? .. .. Nada mais que sobejos, uns maxilares cravados aqui e ali de bocados de dentes negros, o descarnado — desconjunto de uma caveira. Nada mais! Um dia, nos escombros das exumações, na remoção do entulho sepulcral, essa cabeça despida rolará aos pés dum tacitumo Hamlet meditativo, ou dalgum visitante de Necrópole, fechado amarguradamente no seu luto, e, para ambos, ela será um despojo de vermes, resto desprezível de ser humano que, à falta de quem o amasse, foi despejado da cova.

Que piedade a tomará entre mãos para repô-la na terra, a coberto da profanação dos indiferentes e das intempéries? Pobre caveira anônima! .. .. Já começa a tua verdade, entras desde agora no desvestimento do que eras. Dentro de ti mesma começará o trabalho da tua anulação. Dos teus nervos, dos teus tendões, das menores fibras do teu tecido sairão milhares de seres microscópicos, desenvolvidos pela decomposição, avigorados pelo apodrecimento. E da terra, ou do Ignoto, virão milhares e milhares doutros seres, tão resumidamente pequenos que às centenas se confundirão num insignificante corpúsculo rastejador, mas sôfregos do repasto do aniquilamento, famintos para o banquete horripilante da carne morta.

Num momento tu serás chaga pútrida, cancro fétido, monturo nauseante e deletério! De teus lábios, que mentiram; da tua boca, que o vício aqueceu e tingiu, existirá apenas lama, sedimento de gangrena, apenast! .. .. Tuas mandíbulas, descobertas, terão um riso paralisado no pus fervilhento, riso que será a decomposição do próprio riso humano: ilusão, perfídia, imundície!

quer se entreabra nos lábios amorosos de Desdêmona, quer na boca peçonhenta de Tago, no segredo perverso de Dom Basílio, no cochicho dissimulado de Tartufo". .. . Uma matéria sifilítica encherá tuas órbitas, substituirá o delicado aparelho da tua visão, por onde a valsa rósea das miragens arrastou a lascívia tentadora das Frinéias e a lentejoulada voluptuosidade felina das Cleópatras Ou, nos simuns da embriaguez, o torvelinho das paixões encenou incêndios de Sodoma e noites tempestuosas de regiões antárticas. .. . No interior desse crânio, perdido na mudez do túmulo, enquanto a luz resplandecer nas alturas, as ramarias virentes florirem nas aléias dos idílios e a sucessão do tempo rolar o ardente topázio do sol, rolar a opala acesa da lua sobre o firmamento tranquilo, um chiar obscuro, um fermento d'esterquilínios, crescerá de instante em instante, de dia a dia e de noite em noite. O esplendor da vida continuará brilhando no verde das plantas, na riqueza dos minerais, nos aspectos sugestivos da paisagem, orvalhando a pele sadia das raparigas, levantando o afrodisíaco pólen d'anil dos cabelos negros das mulheres! .. .. Os luares virão, como sempre, iluminar os lagos, nevoar com a faúla dos sonhos os cílios semidescidos das virgens, as pálpebras meio cerradas dos mancebos! .. .. E tu apodrecerás, cabeça morta, cabeça inútil, tu apodrecerás! Corpúsculos esquivos e moles, filamentos movediços e glácidos, estrias coleantes e gosmentas, fiapos viventes e sórdidos, serão vida dessa cousa lívida, complicada, labiríntica, intumescida, semelhante, na sua exterioridade, na sua aparência, a um intestino desentranhado à navalha.

De instante a instante, o gríseo gelatinoso da massa cobrir-se-á duma opacidade fria, lentescente; nas circunvoluções desse miolo inerme estenderse-ão, em manchas d'aguarela, derramos de verdes venenosos. E logo

— começará o trabalho devastador do Nirvana, a consumação niveladora do lodo que se transformará na continuidade imperceptível do Pó.

Faz-se, no interior do crânio, um repouso agourento, pesado e longo das remotas solidões polares, em cujas sombras mortuárias passeiam, boiando, os fantasmas silenciosos das geleiras. Em cima é uma abóbada esquálida, de cripta secular, destilando bolor, enrugada, vincada, maciça, ameaçadora como a masmorra de uma cárcova; embaixo uma colina esbranquiçada, desse branco dos pavores e dos preságios, aparentemente deserta, aparentemente amortalhada numa quietação eterna.

Depois vem um ruído abafado, de ventania marulhando por paliçada e canas de um breja! muito distante, muito longe. .. . Sons indefinidos, que lembram o estalar de velhos seixos lambidos por labaredas, sussurro de lufada que passa pela rama ressequida de uma campina. .. . Depois, de onde em onde, invasoras rajadas asfixiantes se levantam, correm pela abóbada, que transluz num macilento riso louco de múmias. .. . E depois a treva baixa, a treva continua, mas treva sem impenetrabilidade, luz negra de ataúde fechado, sombras de catacumba emparedada, de cujo fundo se acorda, lentamente, um rumor Í cavo, de vez a mais crescente, de mais a mais mudado em ronronear convulso de ventre vulcânico.

A massa esverdinhada e opaca dilata-se, as suas paralisadas contorções aparentes incham devagar, o seu volume aumenta; gases pestíferos se desprendem; um burburinho de efervescência põe-lhe crispações, fá-la tremer, i espoucar em varíolas que extravasam catarros amarelentos. Das curvas resfriadas e gráxeas, do bossudo, sinuoso, recalcado e estofado conjunto dessa matéria compacta e porosa, brotam carbúnculos que se fendem paulatinamente, gretados, em crostas, e expelem vermes. Um lodo mefítico sobe com o vagar de uma infiltração, vai ilhando a colina que aos poucos se esboroa, aos poucos, em pústulas, em desligamentos tetânicos, em extravasos cancerosos, aos poucos. .. . E a luta da partilha podre cresce, recrudesce. É um desespero que arrebata os vermes. Em arrancos de hordas bárbaras, escalam promiscuamente, aos milhares, num amontoado de protistas, confusamente, em turbilhões demonfíacos, qual por cima, qual por vencido, as fibras indissolvidas, os restos que se vão liquefazendo e escorrendo.

Ao peso dos exércitos essas camadas ruem, subvertendo-os nº avalanche do seu desabamento. Mas, incansavelmente, os vermes voltam, rolam englobados em óvulos pegajosos, asquerosos, pela gosma putrefacta; e atacam outros bocados, outros resíduos, escarvadas bostelas, polvilhadas do mofo dos BR estercos, revolvidas fezes de que se escapam exalações tonteadoras d'excremento de corvos. Uma vez por outra, parece que a agitação se paralisa fulminada — há uma vaga ondulação estrebuchante nos corpúsculos, o arfar quase imperceptível das larvas: um monstro corcoveia, distende-se com o coleio lento e nervoso das boas nas florestas adustas, galga a mistura confusa dos invertebrados, rompe pela terra em marcha para outras podridões distantes: é o vítreo corpo escuro de um anélido que vem do âmago dos túmulos, repleto de mortos, faminto de mais cadáveres. .. . E a infinidade verminosa retorna, continua a devastar, a sugar, a aniquilar.

Na derrocada, de quando por quando, ascendem para o espaço carrega do esferóides efêmeros, restos perdidos de idéias, talvez! .. .. Ascendem e pairam por instantes, trêmulas borbulhas d'escuma, pequeninos balões irisados, azuis como sonhos, vermelhos como ódios, doirados como ambições. .. . M têm, apenas, a duração de um relâmpago, possuem a intensidade do que fi ram: idéias embrionárias, idéias desamparadas. .. .

Ah! em que belas podridões não desaparecerá a cabeça dos poetas, d sonhadores, dos artistas! .. ..

- — Quem sabe se suas idéias, transfundidas para a terra, não vêm, pelos poros da terra, ao ar puro e livre das planuras, procurar outros espíritos, viver noutros cérebros? .. .. Quem sabe? .. .. Nessa decomposição, porém, as forças desorganizadas são gastos pensamentos descoloridos pelo vício, reduzidas idéias desbotadas pelo álcool! .. .. Uma chama de poncheira a extinguir-se, vaga por cima do caos desse fermento mortuário, à maneira dos fogos-fátuos sobre os túmulos e logo se apaga nas alturas sombrias, coruscando d'encontro os vapores caminheiros e tétricos d'abóbada óssea.

E a devastação prossegue. Das ruínas irrompem vermes, e mais vermes emergem dos coalhos liquefeitos e na lama crescente apontam, mergulham, sobrenadam, movem-se outra vez e sempre, aos milhões, aos bilhões, sôfregos e repulsivos, vorazes e danados, vencendo outros obstáculos que, como os primeiros, se derrocam, se espraiam numa precipitação de lavas, vazando de Ígneas crateras em atividade. Mas, de novo eles vêm, de novo eles surgem, legiões e legiões infindáveis, exércitos que se multiplicam, tal se por si mesmo cada um se fecundasse e procriasse vertiginosamente, De momento a momento a massa diminui. Da alta colina, que fora, resta um montículo irregular, cujas faldas mergulham, em pendor, no lodo turvado, movimentado, agitado.

Aqui, de repente, se escancara uma minúscula, pequenina caverna retalhada, fendida nas corrosões de ruínas, escarrada d'escória; ali já é uma anfractuosidade de ribanceira ou penha, carcomida e oscilante. O lodo forma um solo onduloso, sobre o repassar dos vibriões brancos, que se entrecruzam ininterruptamente, que se tramam e desenlaçam repentinamente. .. . Adiante fez-se uma cárcova, cristalizada de estalactites d'esmeraldas e ametistas que, de quando em quando, desabam, sem rumor, se desligam surdamente, como gotas contadas que se escapassem dum estreito tubo.

E mais resistente que esses restos, a grimpa do montículo tem a lividez de um cabeço nevado por noite de rude procela, Os relânpagos rompem por ela cinerações fantasmagóricas de sepulcros divisados por entre trevas. Parece que ele restará intacto, que se petrificou numa fria rigidez de mármore.

Mas, por fim, chega a sua vez. Também ele é perfurado; os alviões invisíveis dos desesperados fossadores cavam-no sem cessar. E já suas paredes vacilam, Já sua resistência se reduz. .. . Agora é como se a neve lúgubre tivesse moviento, ela treme, palpita, fervilha. .. .

E com vagar, também esse resto vai desaparecendo, baixando, liquefando-se, desmantelado, minado, devorado. .. . E acaba numa deflagração, forescências sulferinas," que se diluem nos roxos carbunculosos dos cancros. Toda essa cavidade craniana, esse mundo ignorado, regressado aos caos, iluminou-se, subitamente; dir-se-ia que por ele passara o último alento de uma força, faixa investigadora de um foco luminoso! E foi como o exalo de uma saudade, porque sob o clarão sinistro desdobrou-se uma acerba tristeza na cambiante vespertina do seu diluimento. .. . Mas, que agonia foi essa? Teria sido a decomposição natural de um elemento químico que as retortas analisam, que os laboratórios determinam? .. .. ou seria a fluidificação de uma ignota molécula despercebida à análise presunçosa dos homens, segredo eterno da vida indecifrável, que aí restara, à espera da completa transformação da matéria? .. .. Que ridículo é o saber humano diante da Grande esfinge da Criação! .. ..

Célula apodrecida, fluido desprendido, esborõo de matéria, deslocação de espírito. .. . qualquer que seja o teu nome, a tua essência, a tua verdade, aí foste, sem dúvida, o último crepitar da vitalidade, o resto infinitesimal da vida orgãnica que se deslocou com a separação das forças retribuídas à Força Suprema, partícula condensada de um poder imaterial, embolia endurecida de um vigor que deixou de ser fluido pela precipitação dos frios mortuários. .. . Idéia. .. . Pensamento. .. . Alma!

Quando nada mais restava, tu te foste, saíste para o infinito misterioso, para a imensidade do Universo, a continuar a tua existência, insignificantíssimo átomo do Poder, luz derramada por toda parte, renovação da Vida! E a tua missão, ou a tua resistência, extinguiu-se nesse relampejar estranho, num elarão sulferino que recebeu do sangue evaporado a matéria corante, a cor das chagas dolorosas, chaga que foste! porque foste uma dor, a dor de um gozo mal gozado, de um poder não fruído, de uma existência inutilizada. E nessa massa, que se extinguiu, estivera, talvez, a convergência simpática de todas as obscuras sensações derradeiras da tua vida animal; nela se concentrara a reprodução retrospectiva dos longes deixados na marcha dos anos: imagens de uma câmara escura abrangendo o largo espaço do tempo que viveste. .. .

Saudade, enfim! Saudade! Mas, de quê. .. . ou de quem? Oh! mísero indiferente! se tu fugias à vida, se tu te consumias sem esperança, se ninguém te amava no mundo? .. .. De quê. .. . ou de quem? 6 mísero indiferente! .. ..

Camilo teve um sobressalto: uma claridade cresceu repentinamente no aposento.

O moço levantou o olhar e encontrou um volume negro, que se arrastava, pesado e bamboleante, do corredor para o quarto; sobre o volume negro uma esfera enrubescida ardia d'encontro à palheta de fogo dum círio. .. . Fixouo, estupefacto. Mas, atendendo-o, percebeu o corpanzil do irmão enfermeiro, que volvia, trazendo uma vela de cera, cuja chama, batendo-lhe no rosto, inflamava-o num lustroso vermelho de lacas. Não obstante, interrogou-o com o olhar, o velho serviçal respondeu num gesto de cabeça, indicando o moribundo. Ah! o Alves Pena! lembrou-se Camilo. Sim. .. . E ergueu-se presto, compreendendo o momento; procurou sob as cobertas a mão do boêmio, e suas mãos esbarraram numa cousa esquelética, álgida, visguenta. As pupilas do infeliz tinham-se volvido para a concha das pálpebras, acompanhando, talvez, o movimento do pêndulo fantástico que se reproduzia, vertiginosamente, para mais alto, para mais alto, para mais distante, para mais distante, reduzido a um fio de teia, a uma fiapagem quase invisível, sempre fugitiva, cada vez mais imperceptível, para mais longe, para mais longe. .. .

Chegara a sua hora. Ajudado pelo velho, Camilo cruzou-lhe os braços sobre o peito e, no piedoso trabalho, sentia-lhe o coração espaçar as pancadas, de vez em vez, de mais em mais, vagarosa uma. .. . lenta, difícil, fraquíssima, a esvair-se outra. .. . outra. .. . E nº'olhar do moribundo retremia, sumida e bruxuleante, uma pequenina luz pálida, o final duma visão terrena, o termo duma imagem. Era, talvez, o pêndulo que desaparecia, vertiginosamente, no seu movimento de vaivém. .. . vertiginosamente. .. . De repente, foi um tropel, o maelstrom dum extermínio brusco, nos recôncavos dessa carcaça; um vagido flébil, de criança enferma, veio suspirar, dolorido, na sua boca entreaberta e negra. E nem mais um movimento, um leve estrebucho, o mais ligeiro frêmito. .. .

Com presteza, Camilo abaixou as pálpebras do companheiro, enquanto o velho, procurando segurar-lhe entre as mãos cruzadas o círio, murmurava dizeres confusos de prece, de que se desprendeu, numa vocalização vaga e dulcíssima, o remate misericordioso de um — "Deus o tenha".

E no fundo do corredor o esburgar do tísico, era como o uivo plangente de um cão de casa à entrada do esquife do seu dono: gania em finais aflitivos, desoladamente.

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