Capítulo VI Mocidade Morta · Capítulo 6 de 19
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Capítulo VI

VI

Era uma humilhação esse rival.

Agrário caíra numa lúgubre invernia de espírito, atormentado pela concubinagem do cambista. Às vezes pelo meio-dia sereno e cálido, ouvia a voz de Henriette chamá-lo, tlintando na área a prata soante do seu sotaque, em diminutivos de meiguice, e por pouco não despegava-se pelas escadas, a respondê-la com beijos; mas, num esforço enorme, que lhe punha calefrios nas vértebras, quedava-se, resoluto, inabalável diante da música dessa voz.

Houve ocasião em que o seu ânimo foi sobre-humano — os passos da rapariga rasparam o corredor da mansarda, pelos interstícios da porta entraram no quarto o rumor agitado de saias, o resfolegar de narinas, um aroma doce, conhecido, quase saudoso de tão fraco, tão raro e distante, e pancadinhas soaram secas na madeira. Ele, nem sinal! Ficou como se houvesse morrido. Apenas sentiu que ela se afastava, um ganido esguinchou-lhe na garganta e escaldaram-lhe impulsos de esganar-se, descer, ir ter com ela, cair-lhe aos pés, faces no soalho, suplicando perdão com a boca esburacada e sangrenta de um penitente que se houvera imposto a mortificação provativa de rasgar os lábios profanos, desraizar os dentes perversos, deformizar o rosto hipócrita em esfregões pelo chão, pelo pó, pelas imundícies.

E corriam os dias.

Foi Camilo Prado quem veio tirá-lo do abatimento. Uma manhã, entrou na mansarda, radiante. Vinha mostrar um artigo destinado à Folha. No mesmo instante sacou do bolso as tiras de papel, garranchadas da sua letrinha nervosa c pôs-se a ler. Era uma diatribe contra a Academia. A frase pulava escaldante, estouravam os adjetivos, fuzilava, certeira, a longa adverbiação sonora do modernismo; não havia uma piedade em todo o aranzel apocalíptico e devastador. Lufadas acres de iconoclastismo, uivando como a tempestade exterminadora da Dies irae, vergastava furiosa, indomável, os reverenciosos acadêmicos, a que ele chamava "bonzos pantafaçudos estatelados na esterilidade de posturas caricatas", e que, sob o granizo do ridículo, após a publicação do artigo, deveriam ficar impalpáveis nas cinzas de uma erupção, como as aldeias e vilas apanhadas em plena noite, pela inundação das lavas, em catadupas infernais de fogo. Ao vernal flamurante das frases de Camilo o espírito adormecido e voluptuoso do pintor começou a alentar-se, a desentorpecer. À força ascendente de um rancor mais encandecido, mais fundo, mais penetrante, cresceu-lhe nº'alma, ativou-lhe o sangue. Fosse talvez a necessidade de uma vingança, sem alvo, sobre quem quer que fosse, e que Ihe viesse aliviar o espírito; fosse o entusiasmo da hostilidade declarada contra os mestres, o interesse de sua arte tanto esquecida nos dias da febre de amor que o abatera; certo, ele vibrava agora, intensamente. E aplaudia Camilo, batendo as palmas, apoiando, grifando períodos.

O artigo devia sair naquela mesma tarde. Estava dado o alarme; era urgente não esmorecer, levantar o grupo, vaiar, derrubar a traquitana da Travessa", Bravíssimo!

Num salto estendeu a Camilo os braços, estreitaram-se ruidosamente. E logo o pintor falou em fazer uma tela nova, um grande pontapé nos preceitos acadêmicos, ao que observou o amigo que a idéia do pontapé não ia bem com a responsabilidade revolucionária: um homem decente dava pontapés com as botas", antes fosse um murro, pelo menos um piparote.

E levaram a discutir o quadro. Que seria? Uma paisagem impressionista, simplificada, manchas apenas, efeito barulhento de ocaso delirante, ou um leproso a curar as chagas? Deveria ser tudo novo, até o assunto. O crítico lembrou uma cena dos Palmares, negros seminus, brutos e açulados como tigres, de musculatura brônzea, em epileptismos vingativos no último arranco do extermínio. .. . mas, para este faziam-se imprescindíveis uma tela enorme, modelos, paisagem local. .. . Desistiram. Veio em tempo a lembrança de um estudo à Manet, largo, à espátula, sem preocupações de agrado; escolheriam por assunto qualquer cousa escandalosa, uma rapariga nua, sobre uma pele negra de urso, a rir-se, embriagada e lúbrica; ao lado — uma taça partida de champanhe, jóias arrebentadas e um coração esmagado. Oh! o coração era pulha, cairiam n'alegoria romântica. Nada, realidade pura, a eterna verdade!

O pintor lembrou-se de um busto de mulher, simples, sob um efeito de luz em cheio, repoisando numa almofada encarnada, carnes descobertas, intumescências sensuais de seios, um langor sonolento de olhar, lábios mordidos em expressão de gozo: Seria Cleópatra, seria Salomé. .. . E perguntava:

— Hein! que achas? Um escândalo, a burguesia vociferando, a polícia metendo-se no caso. Magnífico!

— Ah! sim, um belo escândalo — obtemperou Camilo —, capaz de finalizar em Fernando de Noronha.

Ficou escolhido o assunto do novo quadro. Seria esse. Por causa da hora Camilo partiu à pressa, berrando pelo corredor:

— Nada de perder tempo, seu Agrário, nada de perder tempo. .. .

Voltou ao pintor a idéia da mulher, mas sob a imagem de Henriette.

Retratá-la, procurar pelo menos reproduzi-la o mais semelhantemente possível, e expor o quadro ao público, já era uma vingança. .. . O cambista reconheceria a amante na tela. E com este pensamento despertaram-se-lhe pruridos tentadores de ampliar o assunto, meter uma cabeça ao fundo, uma cabeça que fosse a sua, em meia-tinta, no diluimento de uma visão, rindo nervosamente, malditamente, um riso escancarado, debochativo, de Sileno, que se aclarasse numa alusão, patenteando ao tourino olhar do outro a irreverência do seu desprezo pela mulher gozada. Agitado, andava pelo quarto, as mãos trêmulas nos bolsos, os dedos álgidos. A condensação nervosa apurava-lhe o trabalho imaginativo, sensibilizava-o como uma placa de câmara-escura, e no seu recôndito desenhou-se, coloriu-se a idéia dessa desforra, fazendo-lhe ver o seu quadro já pronto, já acabado, metido no dourado duma moldura, exposto aos olhos de quem passasse, num cavalete em galeria de rua frequentada. Tomou do lápis e esboçou, sobre o primeiro pedaço de papel encontrado, a sua caricatura silena, mofando, a boca franzida num ríctus de desprezo, o sobrecenho efistofélico erguido em filões negros ao contrário das órbitas e as carquilhas cando o velino bístreo da caraça, horripilando a zombaria do riso. Mas, utilmente! Caía num camavalismo desesperador. O seu pequeno nariz gros, ventas de cônego e bulldog, impediam a complexão da máscara satírica de ; ao contrário, pela arredondada e miúda disposição dos traços reproduzia Pierrot idiota, alvar, funambulesco, rindo zorramente no mais estúpido e da parvoíce hilariante. Embestou furioso. A impotência caricatural ou-o de repente. Que inferno! .. .. Ele que sempre encontrava docilidade s para à deformidade ridícula, estupidificava-se neste momento! Pro-a então, de croquis a croquis, começando traços que não acabava, trainhas a esmo, esquemas de máscaras incompletas, rabiscos sem exqueninos zigues de lápis, finíssimos, incomunicativos, às vezes , bojudos, terminados em longas tremuras agoniadas, outras vezes tão , tão calcados de pulso que rompiam o papel. E nada! Consumiu, em ndos, minutos, horas. E nada! A caricatura negava-se, repetia-se no avalismo, exasperava-o. Berrou um palavrão, quebrando a ponta m um soco sobre à mesa. Ao esforço criador sobreveio-lhe um into penoso. Ergueu-se entediado, com vontade de sair, buscar alistraísse. Correu à janela. Neste mesmo momento Henriette puha de fora, e ao vê-lo, após a ausência de tantos dias, levantou para ele o veludo de seus olhos, com a fisionomia iluminada por um sorriso resplendente:

— Bom dia, ingrato. Onde tem estado?

O português em seus lábios tinha uma metalização de prata, timbrava como braceletes chocados, numa graça deliciosa de meiguices.

Agrário recebeu-a de chofre para poder reagir. Levantou os ombros, indiferentemente:

— Aqui.

— Ah? ! — fez ela, admiradíssima, e perguntou, solícita, se havia estado doente. .. . notava-o tão triste. .. .

Ele sacudiu a cabeça, assoviou, e torcendo o fio em que ia a conversa:

— Como vai o Silvano?

Henriette teve um sobressalto, embranqueceu. Disse que não o compreendia.

Ele insistiu:

— Pergunto: como vai seu marido?

— Meu marido? !. .. .

Abriu uma grande pausa, erguendo os belos olhos para o alto quadro do céu. Uma expressão de mágoa, de ingratidão sofrida, alastrou-se pelo seu rosto. E com a voz nervosa, trêmula, aguda e longa como um grito perdido em planuras longínquas, exclamou açodadamente:

— Como sou infeliz! .. .. Meu Deus.

Retirou-se, e sobre ela a chita de ramagens verde-malva, que encortinava a janela, caiu como um pano de teatro sobre a última frase de uma cena.

Agrário, debruçado para a área, ficou a olhar aquele sovado pano de chita que o separava dela, que se antepunha à sua vista, levantando ante ele o mistério de uma alma, a dor de um coração; estranhas, indecifráveis cousas para a sua impenetrabilidade analítica.

Afinal. .. . o mau era ele. Por que se queixar, por que odiá-la? Ela, ao contrário, se mostrara resoluta para o seu amor; as explosões, que tivera, deviam-lhe contentar de sobra porque tocavam a extremos. "Fujamos", disseralhe, "para onde quiseres. Que me importa que seja para uma cabana, para uma caverna, para o quarto do teu companheiro? .. .." E que mais desejar? Aí estava a paixão que ela lhe tinha, aí estava o desinteresse que ela lhe mostrava. .. . E ele, que fez? que resolução tomou? Veio para a mansarda consultar a Melo Castro, ouvir cinismos e sandices, ficar inerte, sem vontade, sem deliberar.

Henriette, forçosamente, teve que ceder ao cambista, permaneceu na companhia do ourro à espera que ele, Agrário, viesse lhe dizer: — Vamos, partamos hoje, tenho um palácio, uma casa, um quarto para nós e nosso amor. Vamos.

— E ele não se mexeu, ficou a martirizar-se naquele ódio porque a rapariga não se pôs a correr pela porta a fora, em saias, descabelada, esconjurando o Silvano.

Ah! era mau! Ela por duas ou três vezes chamara-o da sua janela, e ele não respondera, quis afastá-la com uma ausência; outro dia ela subiu à mansarda, correu a oferecer-se impudicamente e ele até conteve a respiração, quis esquecê-la como um passado. Henriette voltara. Ele a tinha notado resplandecente, toda ela alvorotada como uma ave que quer começar o ninho, e para esta felicidade de amor ele só teve uma mágoa. .. .

O seu espírito debatia-se, cansado, nesse remorso da ofensa. Retirou-se da janela, recomeçou o passeio pelo quarto. Ao peccator que acabava de entoar no seu íntimo incumbiu-se de responder com uma absolvição plenária.

Realmente fora bruto. Mas isso que era senão amor? Quem amava, ali, entre essas duas almas, a sua e a de Henriette, era a dele. Enquanto a rapariga, embora contrariada nos seus desejos, encontrava a consolação nos braços do cambista, ele jazia no quarto, só, sem o lenitivo de uns lábios, encarcerado nas quatro paredes, a bestializar-se com desenhos para gravuras em madeira. Bateram à porta, foi abrir. Era Camilo Prado que chegava esbaforido, suarento, com o chapéu à nuca.

— Olá! grande Manet! .. .. Cá está à cousa.

Entrou, sem retirar o chapéu, e foi-se abancar sobre a cama, com um Jornal aberto.

— Cá está a catilinária. Ah! se isto fosse em Paris! .. .. estaria eu jantando esta noite no Chat Noir, numa roda de artistas, com champanhe.

Dobrou lentamente o jornal, a falar sobre a probabilidade de um sucesso em todo Paris, vivórios pelo Quartier Latin, nome nas crônicas, glória universal, e terminou, depois, franzindo o lábio, descrente:

— Mas aqui. .. . Quem Iê? Você, o Franklin, o Sabino. .. . meia dúzia de rapazes. Para os demais eu continuarei a ser uma das muitas bestas que enchem o globo.

Esteve olhando o seu artigo em rodapé, impresso no tipo estafado e desgracioso da Folha. Agrário pareceu-lhe preocupado; inquiriu dele o que tinha, que diacho! estava macambúzio. O pintor confessou-lhe tudo.

— Imagina tu que isto é um desassossego para muitos dias.

Camilo fitou-o, assombrado. Quê! Agrário cstatelava numa paixão! .. ..

— interjectou mentalmente, sem uma frase para acudi-lo. E deixou-se ficar, olhando-o; ambos mudos, ele constrangido, obcecado o artista. Por fim, como o silêncio crescia e o tempo se escoava penoso, difícil entre tão diversos sentimentos, Camilo murmurou:

— Mas, homem, olha que tens outro destino. E o grupo?

— O grupo! — exclamou Agrário, levantando os ombros. — Ora o grupo! .. .. Nem eu me animo mais a falar com esses pulhas. Não vês tu? Há quanto tempo estamos nós a tentá-lo e a cousa não passa de palestra de botequim? Somos assim.

— Mas, esta manhã, pensavas de outra maneira.

Agrário enrolava preguiçosamente um cigarro; preparou as pontas, acendeu-o e sem pronunciar uma sílaba, deitou pelas narinas dous esguichos de fumo. Camilo continuava a inquiri-lo, sobressaltado por aquela transformação:

— Que queres fazer dos teus julgadores? Que resposta darás à injustiça? Que fim almejas?

E calou-se. Ergueu-se vagaroso; com uma das mãos à cinta, passeava o olhar indeciso pelas paredes procurando um argumento, mas sufocado como se o desalento do artista se lhe tivesse vazado nº'alma. Depois, sorrindo amargamente e com uma palmadinha irônica no ombro dele:

— Somos assim, meu caro senhor Agrário, somos assim. Não temos perseverança nem idéias; quando muito pedimos emprestado à França, a Portugal mesmo, duas idéias que não compreendemos mas que nos trazem o deslumbramento da novidade, e começamos a dançar em derredor dela, como selvagens, em torno de um manipanso. Somos assim, meu amigo, por isso seremos, eternamente, uns imitadores, minados pela ociosidade, aterrorizados pela obstinação das criações, preteridos pela imbecilidade ovante. .. .

Agrário estremeceu com o desabafo do amigo; sentiu-se impelido para diante por aquela simples força de ideal, por aquela queixa de crente que se via desacompanhado. Mas esses sobressaltos de espírito, esses tropeços de volubilidade, eram-lhe tão naturais, tão do seu sangue, das suas funções psíquicas, que não teve a penetração bastante para avaliar do que ouvira e opôs a sua vaidade à intenção do companheiro:

— Não, tu não me compreendeste. Eu ainda continuo o mesmo, unicamente desanimo. E não é para menos. .. .

Tragou uma fumarada logo despejada num sopro forte, que parecia expelir a sua desilusão; e de repente, castanholando d'alto os dedos:

— Ah! sabes? .. .. Encontrei um título esplêndido para o nosso grupo.

Imagina. Dize lá. É uma novidade. Veio-me agora, inesperadamente, à cabeça. Anda. Vê se o dizes.

Camilo não podia adivinhar. Era impossível penetrar-lhe nos bizarrismos do seu espírito, mesmo que professasse ciências ocultas.

— Pois ouve, é só isto — Zut!

— Zut! — fez Camilo admiradíssimo. — Mas, qu'é isto?

— Eu sei lá! É Zut. Qualquer cousa, cousa nenhuma. Grupo Zut, assim como Club X, assim como V'lan."'

— Donde te veio este Zut estrambótico? Verdade é que é bom.

— Vais te admirar, veio de Henriette. É uma exclamação que lhe não sai dos lábios.

Camilo parou sobre ele o olhar, sereno, longo, sem um sinal que o perturbasse. Aquele rapaz não podia ter mostrado melhor a sua alma que neste momento. Foi uma revelação sintética, perfeita, uma dessas constatações flagrantes da involuntariedade que anatomizam o indivíduo, dissecando-o num só momento, voltando-o de dentro para fora, como num estudo de anfiteatro.

E a clarividência do crítico apanhou-o completo, surpreendeu-o. Naquela psicose uma só força, um só elemento impulsor davam-lhe atividade, punham vibrações — era o sensualismo. O íntimo deste homem externava-se, tinha uma correlação na sua exterioridade, servindo-lhe o corpo de molde à alma.

Gordalhudo incipiente, começando a tomar roliças rotundidades burguesas e sem ser feio pelo másculo aspecto do torso espadaúdo e um carão largo mas simpático, faltava-lhe o quer que fosse de superior, de espiritual e delicado que vencesse a puerilidade exarada na sua fisionomia. Indo aos encontrões pelas idéias, apenas uma irradiação o animava, enfeixando suas emoções, concentrando as suas impressões para um só ponto, e esse foco — esse sensorium — era a sensualidade desenvolvida num grau tão alto que tocava a mania erótica. Na sua retina, no poder assimilante e associável de suas idéias, na persistência da sua atenção, a mulher era o objetivo primordial, a força sugestiva, a fascinação. E por lhe faltar a delicadeza espiritual dos educados, a timidez adoradora dos idealistas, o requinte dos criadores, esta predominância tomava nele uma forma material e rude, que o animalizava, sacudia-lhe o corpo em ímpetos de luxúrias, em olfactação da carne, de uma concupiscência selvagem e irritada que anseia a farejar, narinas dilatadas no ar, olhos ávidos, o almíscar provocante das transudações do cio. A arte que deveria vir dele fatalmente seria isto, a fêmea — mas, única, exclusivamente a fêmea: a carne destinada ao gozo.

Camilo, inda estudando-o, respondeu tranqiúilo, meneiando a cabeça:

— Realmente, o título é magnífico. Nada significa — isto é o que serve.

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