Capítulo XIX
XIX
Neste dia Camilo desceu mais tarde para a casa do Clementino Viotti.
Tinha passado grande parte da manhã, numa lassidão de esgotado, a esgaravatar minudências inquiridoras sobre a conduta de Henriette, a mortificar-se por doudejantes conjecturas sobre o inexplicável silêncio que cavava uma enorme e penosa distância entre ambos. Foi já pelo declinar das horas do zênite que ele saiu a caminho do esquecido, sossegado beco do Estácio de Sá. Súbito, porém, na página dum jornal comprado na rua, seus olhos pararam no versalete duma epígrafe que parecia enfestoada com as dezoito letras deste nome — Telésforo de Andrade.
Devagar, caminhando passo por passo, ele lia a enfática construção encomiástica do artigo, em que se anunciava ao Mundo culto que o Governo Imperial acabava de nomear diretor da Academia de Belas-Artes esse extraordinário artista.
Camilo teve um gesto de desprezo e volveu a pensar na francesinha.
Escorria-se o nono dia sem que Henriette tivesse a mínima lembrança dele, nem uma simples indagação do seu paradeiro, nem sequer a natural curiosidade de saber do que lhe teria acontecido após aquele momento de desastrada fraqueza! Perdia-se num complicado entrelaçamento de idéias indose esbarrar, embaraçado, na conjectura de uma moléstia. Sem perceber, de tão absorto que andava, se desviara do percurso habitual, avizinhando-se da entrada do parque d'' Aclamação. Mas, um momento, parou assaltado por uma suspeita:
—. .. E se o Heráclito, aproveitando-se dessa moléstia, se fizesse seu enfermeiro? .. .. Ah! quem saberia! Talvez, até retivesse qualquer participação que lhe fosse pedida. .. .
Maquinalmente entrou no parque, seguiu pela grande ala do centro, àquela hora deserta. À proporção que avançava, ia esmerilhando a possibilidade de "um arrojo" do Heráclito, o temor da rapariga em repeli-lo, as incertezas em que ela se debateria por sua muda ausência. .. . E, ao mesmo tempo, sentia um alívio n'alma pela terrível casualidade da comprovação do quanto fora delicado e bom, do paralelo dos sentimentos de ambos que ela teria em evidência. Seria justo que Henriette compreendesse, afinal, onde estava o protetor desinteressado, o amigo pronto e meigo. Certamente, a concupiscência do Heráclito não respeitaria seus lábios queimados de febre, não recuaria diante de seu corpo enfraquecido pela enfermidade! Sobre ela, como um pesadelo, seus olhos enuviados, atônicos e doloridos, veriam suspensos os lábios grossos, a enorme boca carniceira daquele homem.
E arquejou com um peso no coração, a cabeça numa tonteira.
O sol queimava forte, a areia d'aléia rutilava oftalmizante. Camilo procurou, então, o asilo das sombras, num canto de banco, sob a ramada protetora duma árvore. Chamas vermelhas, rápidas transfiguradas em manchas verdes, se sucediam diante da sua retina cansada de claridade. Mas, pouco a pouco, fez-se-lhe a nitidez da visão, e ele, deslumbrado pela irradiação solar das três horas, quedou-se na suavidade dum ensombrado retiro, amodorrando — o seu sofrimento com observações do efeito uniformizador da luz sobre os grupos da vegetação. Acalmara-se um pouco. Tinha retirado o chapéu, a cabeça escaldava-lhe. O ar era imóvel. Nenhum frêmito de aragem nos ramúnculos!
À distância, marginando alamedas, altas touceiras de arvoredo, em tufos de ornamento, alargavam a gama variegada das folhagens numa poeira circundante, verde-grisento; e nas abertas reentradas de suas ramarias, que tinham o delineamento de um recorte de bastidor cênico, fazia-se uma penumbra fria de gruta, dum índigo profundo. De onde em onde, espigando dos tufos folhudos, galhos escuros em tons ferruginosos de siena queimada levantavam ramagens tão finas que se diria, na poeira luminosa do ambiente, à farripagem duma gaze ao de leve verdoenga. Para além, no ar doirado, a torre quadrilátera de São Gonçalo Garcia," rósea na sua caliça, erguia a cruz de ferro do seu ápice piramidal, leproso de bolor. E, na quietude das aléias, extensos frangalhos de sombra, para longe azulentos, os mais perto violáceos, manchavam o amarelo brilhante do chão que, em trechos, cintilava como esmeril, Na volta farta de um gramado, ao fundo, tombavam flores jaldes de
"algodociro-da-praia" como se um enxame de borboletas poisasse no estendal verde, banhando-se na luz. .. . Depois, mais longe — canto de paisagem para a folha dum álbum — toros lascados de ponte, ribas cuidadas de lago, um retiro dulçoroso de sombras idílicas, a fazer-se procurado para o cálido murmurar segredante das promessas, na permuta dos beijos. .. .
Adormecia no isolamento do parque a paz mormaçosa da canícula, que o cicio fanho de uma cigarra, irrompendo da calma de fronde próxima, impregnava da indefinida tristeza das separações recordadas, tão sugestivas e dolentes na serenidade dos ermos, nos remansos bucólicos da natureza! Copas de arbustos pendiam abatidas à causticidade do sol que feria, no verniz dalgumas folhas, golpes faiscantes de aço; e, monótona, sempre no mesmo rolar intérmino, uma escassa corrente d'água batia de queda em queda, soluçando pelos pedregulhos bojudos da cascata.
Vagarosamente, nesta quietação verânica, sem pôr os olhos em alguém, sob um céu brilhantemente azul, apontou na su'alma uma dolorosa saudade, que lhe foi alquebrando as forças, num enfastiamento de desengano, em cujo desdobrar cresciam nostalgias lentescentes, doridas crepitações recordativas, como se ele se finasse num desterro, em região inóspita, entre hostilidades de gente inimiga e cruel. Tudo, para ele, se resumia em abandono. Tudo! As suas amizades dispersavam-se, levadas pelo destino que se lhes opunha à durabilidade; as suas ilusões desabavam monótonas e minguadas como aquela pobre corrente d'água que ia rolando e gemendo pela aspereza das pedras.
Inesperadamente, a areia estalou. Um piso forte de sapatos triturava o saibro d'alameda. Camilo voltou o rosto. Era um indivíduo ruivo, batendo o passo sob o foulard creme dum pára-sol; na clara mancha da sua alegre toilette percebera a correção e o asseio dum londrino. E, numa associação brusca de idéias, surgiu-lhe à lembrança o Melo Castro.
Sim, há que tempo, bom Deus, o não via! Nunca tivera por ele grande afeição, sentira mesmo um instintivo desagrado por seus exageros de vestuário, pelo feminismo dos seus costumes, por seus impulsos eróticos; mas, afinal, o Melo não passava de um pobre-diabo de maníaco, frascário e adamado, sem peçonha nos intuitos. Fora sempre um materialão, a gozar a vida animalmente. De resto, era um humilde d'espírito, que correspondia às suas injustas agressões com impertinente simpatia, incalculado e afetivo. Vieralhe, nesse momento, um desejo de ver o Melo Castro. Tinham-lhe dito que ele estava de guarda-livros numa Destilação, à entrada do Areial. Seria perto, alguns passos para diante, que a rua era curta.
Levantou-se. E logo, pouco distante do portão, para além dos muros dum quartel, avistou uma grande tabuleta pendida sobre o arco de escancarada porta-cocheira.
Talvez fosse lá.
Junto da calçada, pesado carroção estacionara, recebendo a carga de barris, que um homem imundo rolava sobre paralelos varais em diagonal;
outro homem, cujo torso hercúleo modelava-se sob a meia nodoenta duma camiseta sem cor, trepado no estrado do veículo, tomava da carga entre pulsos cabeludos, arrastava-se com ela, congesto do esforço, para colocá-la em ordem. Sem dúvida, era esse o armazém onde Melo Castro ganhava a sua vida.
Apenas Camilo pisou o asfalto da loja lobrigou, pela portinhola de um velho biombo de vinhático, a cabeça loira de Melo Castro.
— Ó Melol. .. . pode-se entrar? — perguntou, surpreendendo-o.
Meio Castro desgrimpou-se de um alto tamborete, açodado, risonho, berrando uma exclamação que ecoou na profundidade vazia do armazém.
— Olá! Quem é vivo sempre aparece.
E veio recebê-lo nos braços.
Estava sem paletó, com a sua frescura de asseio e disciplinado. O bigode loiro reluzia de brillantine e das suas roupas, do seu cabelo bem alisado em placa sobre a testa, exalava-se a volúpia duma fina essência de heliotrópios brancos. Os mesmos exageros antigos acentuavam-se com esmero — o cola- — rinho aporcelanado de amido, o peitilho imáculo e rígido, um inexcedível nó na bela gravata de seda grenate-carbonizada preso no termo d'abertura da camisa por um colchete de prata, as mangas, sem punhos por cuidado, suspensas a elásticos, um brilho de baile nos botins.
Camilo sorria-lhe, a repetir:
— Sempre o mesmo. .. . guapo, feliz! .. .. Sempre o mesmo!
Melo Castro retorcia o seu acariciado bigode, e, no mínimo da destra, um argolão de oiro fosco irradiou as facetas de uma safira.
— E você que me conta, que há feito?
Camilo grimpou-se ao pernilongo tamborete da escrivaninha, olfatando com o nariz no ar o cheiro tônico d'aguardente, que errava pelo espaço sombrio e cheio de recolhimento. De quando por quando, um bafio acre de fermentos evolava-se, toldando a emanação sacarina da cachaça.
— Ah! se o pobre Alves Pena estivesse vivo e descobrisse esse refúgio!
— Abandonaria os seus artistas para viver com os seus tonéis — concluiu o guarda-livros, abrindo a cigarreira. — Vá lá um cigarrito.
Entraram, então, em palestra, recordando o "velho tempo", falaram de Agrário. Melo Castro disse que sabia notícias dele pela família. Fixara-se, definitivamente, em Paris, depois de ter vadiado por Lisboa e Madri. Segundo as informações ele frequentava o atelier Gerôme, mas pretendia outro mestre e até o fim do ano seria possível que se passasse para o Cormon ou o Rochegrosse. .. .""º Fora, para os lados da porta, houve um arranco de animais atrelados.
Rodas ringiram, entre choques de ferragens. Um chicote estalou. E do fundo do armazém um matracar de tamancos veio reboando no silêncio da extensão, como num fundo de cava. Uma voz cantou:
— Ó sór Antônio? .. .. psit! .. .. Ó sór Antônio? .. ..
O matracar passou, mais áspero, e a voz perdeu-se na rua.
— Homem! — recordou-se subitamente Melo Castro. — Você sabe? A Henriette foi para Pernambuco.
Camilo empalideceu, arregalou os olhos, fixando-o:
— Que dizes?
— Sim, a Henriette. Pois você não sabe? .. .. Partiu, há quatro dias. .. . partiu para Pernambuco.
— Homessa! — interjectou o rapaz, entontecido com a novidade. Desceu do banco, parou em frente do Melo.
— É o que lhe digo; sim, senhor. Eu li, há quatro dias, em uma lista de passageiros. Henriette Élise Fernier, não é o nome dela?
É,
— Pois, então, se as Henriette Élise Fernier aqui não pululam como pulgas, foi ela em carne e osso, talvez com mais osso do que carne.
Camilo chupava devagar o cigarro, o olhar esgazeado para o guardalivros, e mentalmente debatendo-se num vortilhão de idéias. Mas, não sabia que dizer.
E Melo Castro, a despejar aromáticas fumaraças de tabaco turco pelas narinas:
— A mulherinha não achou outro tolo que a quisesse, foi para o Norte dar o que roer aos esfomeados.
Camilo sorriu amarelo, atirou-se numa cadeira, aniquilado; porém, cobrando forças, num movimento de indiferente abandono esteriçou as pernas, cruzou os pés.
Os tamancos matracaram outra vez, foram passando, reboando, perdendo-se no fundo do armazém.
E, como se lhe não impressionasse a notícia, volveu Camilo:
— A propósito, dize-me cá, ó Melo! Que há por aí de boas mulheres?
— Que há? Está tudo numa miséria. Se as cousas continuam por esse modo, o código penal tem de ser reformado, porque está iminente uma pilhagem à moralidade das famílias. Será um horror!
— Ao contrário. Uma delícia, 6 Melo! uma delícia! Tu montarás um harém.
Melo Castro sorriu, deleitado, prelibando a possibilidade da pilhagem fantasiada.
— Tens razão. Seria uma delícia! Por mim já tenho de olho umas duas.
— Duas? Qual, histórias! Tu realizarias o ideal do Bardo, substituindoÀ lhe as intenções"" — descarregou-lhe Camilo; mas a tortura continuava a macerar seu espírito. Ainda por instantes, uma réstia de claridade faroleira penetrou no seu tormento — pensou num engano, outra de igual nome, novidade falsa para conseguir confissões. .. . No entanto, Melo Castro assegurava que lera nos jornais, vira aquele nome na lista de passageiros de um navio!
Entrou numa agitação nervosa, ergueu-se para dissimulá-la, passeou o pequeno recinto do escritório, esteve a notar a velha pêndula de pesos com o seu mostrador d'esmalte lascado, onde um sol de carão alvar parara entre flocos de nuvens; cantarolou o quer que fosse, queixou-se do peito, das suspeitas de uma hereditariedade tuberculosa, do calor, do seu ócio de desempregado. .. .
Mas, a novidade espinhava dentre suas idéias, rebentava para fora da confusão em que o seu espírito se envolvia procurando iludir-se. Volveu à cadeira e, a refestelar-se, destemperou em chacota o que lhe vinha aos gorgomilos abundando em fel:
— E Melo Castro — disse ele —, que me contas do Silvano? Por onde andará aquele lorpa, que jamais tive vômitos com a sua caraça?
— Dizem que está barão. Se me não engano — Barão das Cangalhas. .. .
ou Cangotas. Ora, espera que já me lembro. .. .
— Das Cangalhas! É boa.
—. .. Ah! sim, Barão das Cangostas. E casou no Pará.
— Estupendo tudo isto! Esta terra é extraordinária, é assombrosa em ineditismos!
De um salto despegou-se da cadeira. Veio para o guarda-livros arrevesando uma careta com sarcasmos a estoutra novidade. Achava o casamento do cambista de um pitoresco inaudito, à vista do muito que teria de hilariante esse par brasonado, cujo cavaleiro era nada menos que um suíno bípede, uma caricatura irresistível.
Melo Castro concorreu, também, com suas pilhérias obscenas para ridicularizar o Silvano, curioso por saber de como ele penduraria a coroa na cabeça. E, ruborizado de alegria, carregava nos comentários com picarescos de bordel. Mas, por antigo despique, ocorreu-lhe dizer mal de Henriette que se deixara conquistar por aquele parvo.
Camilo raspou um fósforo, contrariado. Ele a fugir da recordação e o Melo teimando em arrastá-lo para o suplício! Acendeu outro cigarro, tragou lentamente o fumo e soprando-o, de lábios em beijo, sobre o lume:
—. .. Com que, então, andas desesperado da sorte? Não há mulheres.
À pergunta de Camilo, e por lhe ser agradável o assunto, o guarda-livros distraiu-se do seu restante rancor por aquela interessante rapariguinha que agitara, inconscientemente, a alma de tantos rapazes. Subiu ao seu tamborete, tendo logo o cuidado de repuxar as calças sobre as coxas por causa das Joelheiras, e enveredou, desassombrado, pela palestra prazerosa. O outro fazia esforços para acompanhar-lhe a narrativa, queria esquecer-se daquela penetrante notícia, martirizadora, envolvendo-se no desenrolar visguento dessa dissertação canalha.
Quando Melo Castro estacava, sem expressões, todo radiante de prazer e num gesto lânguido corria os dedos sobre o bigode, fazendo reluzir a pedra anelar, Camilo socorria a sua pobreza espiritual, completando-lhe o pensamento, prestemente lhe dando outro tema em que ele pudesse bordar a imoralidade de suas imagens, para que o silêncio não viesse nutrir essa desesperante dor duma ingratidão, rematada pelo frio cálculo de uma fuga escarnecedora.
Houve um momento que lhe pareceu ter se esquecido de tudo, tanta concentração conseguira em ouvir Melo Castro; mas este, por um acidente, por um acaso aproximativo em que o nome duma barregã recordara o de Henriette, retornou ao seu ódio.
Camilo disfarçou um rilhar de dentes, e não se pôde conter:
— Diacho! Estás impressionado com a rapariga. Ora, dize-me cá, tu lhe tens birra ou isto é um resto de despeito? .. ..
— Despeito! — expectorou Melo Castro ofendido. — Despeito! Pelo amor de Deus, seu Camilo, faça-me um pouco de justiça. Pois você julga que eu lhe guardo ódio por ela se ter metido com Agrário? Que esperança! Olhe, se eu tivesse tido verdadeiro interesse em possuí-la, ela seria minha, minha como foi de Agrário e não sei de que mais sujeitos. .. . Teria sido minha! que outras, mais pintadas, têm caído como "patinhos tontos". Não a quis, não gosto de mulheres loiras. É como se me dessem cardos à sobremesa de um banquete. Não lhes acho sabor.
Melo Castro falava com todo o seu desplante de azevieiro, sem perceber os espinhos venenosos que levava ao coração do moço. O antigo rancor de preterido viera-lhe, instantâneo, neste incidente de recordação dum passado por onde ele escoriara a sua vaidade de conquistador, diante desta testemunha do seu insucesso que lhe parecia humilhante pela suposta existência da sua inferioridade. Entretanto Camilo sufocava, ao ouvir estas frases que lhe penetravam no coração, agulhando-o impiedosamente, e, sem argumentar com ele para não alongar o seu próprio martírio, arrependido já de o ter provocado, procurava, aflito, uma oportunidade para desviar a palestra sobre outro assunto, mas completamente outro, que o fizesse esquecer.
Melo Castro continuava a blasonar de irresistível, descabelando em ridículo de alcouce a loirinha da Pension Beaumont. Por fim, teve uma pausa.
Ah! terminara o desabafo! Mas, não; puxou fogo ao cigarro e redobrou em provas das suas vitórias de amor, em desprezos assoalhantes por Henriette.
Lento, grave como um relógio de torre secular, a velha pêndula gongoou cinco horas.
— Xi! que demora, meu Deus! — inquietou-se Camilo. — Vou-me embora, Melo Castro. Até breve. Até um dia. .. .
— Não. Espera. .. . — quis o guarda-livros retê-lo, seguir-lhe ao encalço, a gritar. — Eu também já saio, iremos juntos.
Mas Camilo escamugiu-se, afirmando urgência de um negócio e correu rua fora, levando a perseguição daquelas malditas palavras a rodomoinharem nos seus ouvidos.
Por longo tempo caminhou a esmo, sem parar, num passo de marcha forçada, intimamente batido pelas lufadas duma noite negra, que subjugava todo o seu espírito.
Em meio duma praça relanceou o olhar para reconhecê-la. Estava em caminho do Livramento. Fez-se-lhe, nesse instante, um clarão percuciente no espírito, a caligem tempestuosa desfez-se, caiu repentinamente, deixando-lhe a alma numa desolada vastidão. Que fazer? .. ..
Pretendeu retroceder, mas breve mudou de intenção. Deveria seguir, era-lhe forçoso ir à casa da Don' Ana, saber de tudo, informar-se, conhecer a verdade, resfriar a angustiosa febre que o desvairava.
E querendo moderar os passos, continuava apressado, aos encontrões, mastigando numa irritação a ponta apagada do cigarro.
XKXx Quando Camilo chegou ao Livramento batiam seis horas. A Don' Ana o recebeu à cancela, com dous vincos de desalento na rechupada boca amargosa.
— Madame? — perguntou Camilo secamente, sem a saudar.
A velha esbugalhou os olhos turvos para ele, admirada:
— O senhor não sabe? .. .. Madame foi para o Norte, há quatro dias.
— Para o Norte?
— Sim, meu senhor, para o Norte, com o Senhor Doutor Heráclito. Há quatro dias.
O moço encasmurrou, a olhá-la, desprovido de palavras, como se ouvisse esta notícia pela primeira vez. Entraram ambos num embaraçoso momento de mutismo; mas, para romper o silêncio que lhe aumentava a ânsia, Camilo agarrou-se a uma espontânea pergunta estonteada:
— E não deixou nada pra mim?
— Que me fosse entregue, não, senhor. Mas, se o senhor quiser subir ao sótão. .. . Ainda não pus as mãos em nenhum objeto. .. . Madame não levou senão a mala. .. . Pode ser que lá encontre algum papel, alguma carta. .. .
Camilo subiu, acompanhado da Don' Ana. A entrada nesse aposento davalhe uma comoção. De relance abrangeu a saleta, ainda com as suas cadeiras de faia, uma poltrona-ripanço de marroquim que ele tinha comprado quando a rapariga começou a convalescer, a mesa defronte duma das janelas com o seu vistoso pano novo por suas próprias mãos ali estendido, a mesma pilha de brochuras, o vaso de Caldas onde Agrário recolhia os pincéis, que os seus cuidados substituíam por flores. .. .
Um bafo morno de resguardo dormia no ambiente, aumentava o aspecto sotumo das paredes, o desamparo desolado do pequeno espaço. O olhar de Camilo errava por tudo aquilo, à procura de algum bilhete, dalguma carta, que lhe dissessem o motivo dessa fugida, que lhe trouxessem o bem insignifi- k cante consolo de umas lágrimas de vexame, e foi, lentamente, parar na porta;
envidraçada do dormitório, onde os empoeirados transparentes de musselina lhe recordavam seus dias de desejos, as vigílias de enfermeiro, uma manhã de estrangulante timidez, quando ela viera cansada do passeio mudar os cretones, h despindo-se a dous passos dele sem o recato de se trancar, desafiando os seus impulsos de moço! .. .. E uma opressão confusa, de viuvez esponsória, de promessas irrealizadas, cresceu pela sua alma, como uma letargia de cloroformização.
Enquanto a Don' Ana desferrolhava as janelas, Camilo penetrou nesse pequenino quarto que fora o ninho venturoso de Agrário! .. .. Fazia-se, aí, uma saudade de luto, a custo escoada pelos interstiços das gelosias, e nesta tristeza de cousa terminada, de penoso apartamento brusco, a larga cama de vinhático tinha o quer que fosse de fúnebre com o seu colchão de linho escuro enrolado sobre as delgadas rexas do enxergão. De um cabide pendia pelos atacadores um colete cor-de-rosa, estafado de uso; um ferro d'armação quebrado feria o estofo, encrostando de ferrugem a cisura num coágulo de cicatriz; manchas de suor escureciam a velha rendilha das bordas axilares.
E já, numa atração, o olhar apegara-se a este colete, fascinado e examinador, seguindo por inteiro o seu desenho, notando em minúcias a sua confecção, a trama e o colorido do pano, procurando nele o corpo dessa criatura que lhe fora sempre inaccessível e ardentemente amada, íntima e estranha. Seguia, meticulosamente, todos os detalhes, adivinhava os mais insignificantes contactos. Os dous reduzidos ninhos dos seios ainda conservavam a cor primitiva, um róseo forte de cochonilha: era a única parte conservada, a única a que a transpiração não impregnava do seu corrosivo excitante, do porejamento oloroso dessa carne deliciosamente linda, dessa came viva para sempre no seu espírito. Ai! talvez para todo o sempre viva! .. .. banhando-se na luz da sua visão, surgindo nos relâmpagos dos seus sonhos! .. .. E logo por seu olfato hiperestesiado entranhava-se o aroma finíssimo, de tão longe que vinha, de tão recordativo que era, penetrante e embriagador, que à quintessenciação dos seus sentidos se decompunha, analiticamente, requintadamente, em concentradas gotas de gardênias enlanguescentes caídas devagar, a pouco e pouco, num vaso de cristal opalino onde se estagnasse, numa serenidade lúgubre de hemoptísis! !? , o líquido negro-sangilíneo — que a cada gota se arrepiasse numa absorção rubro de brasa, em círculos concêntricos de fosforescências sulfirinas, rapidamente apagados em translucidez de roxos plúmbeos — de uma maravilhosa infusão de quentes, aveludados pétalos de príncipe-negro, a tentadora rosa do orgulho triunfal do Inferno! Gradativamente este perfume singular de sedas sobre corpos de prazer, essoutro perfume de beijos que, às gotas, se lhe ajuntava, fundiam-se num fluido aromal, afrodisíaco e sugestivo, que se lhe ia infiltrando na imaginação, envolvendo-a numa preguiça enroscante de serpente de fumo, lentamente inflamada, transformada em labareda, em fogo errante, dum brilho sortílego de venenosas plantas ardendo. E, gradativamente, o aroma fazia-se som, a alucinação d'olfato desdobrava-se numa alucinação auditiva, evocando uma linguagem invocalizada, um expressivo astral, todo transmitido, imperceptivelmente, de um corpo inanimado para a corrente simpática de uma vitalidade, como se este objeto repudiado, este resto desprezível de utensílio terminado, se lhe comunicasse, compreendendo a saudade que o enfermava, também queixoso como ele, também como ele apaixonado, repelido pela ingratidão, vencido por ourro! .. .. Dir-se-ia que este objeto sofria com uma alma, vivia na consciência dos espirituais, porque a sua materialidade ficara cheia da sua vida, a recordá-la, a falar dela; e tudo nele, as barbatanas flácidas, as reles rendas manchadas, os esfarripados atilhos, o tecido destinto, tudo que era o seu organismo, o conjunto do seu ser, vivia com o corpo ausente de Henriette, falava do seu venúseo ventre que comprimira, dos seus roliços braços que tinha amparado, por vezes, nas flexões do busto, pela cabelugem doirada das axilas; dos seios que guardara, da sua cinta a que se cingira, a que se estreitara tão longamente que lhe tomou a curvilinidade anelar, o calor da sua epiderme, o cheiro dos seus poros. .. .
— É como o senhor vê, Madame deixou todos os trastes, abandonou tudo. .. .
Veio despertá-lo a voz fanha e lamurienta da locandeira.
Camilo arredou-se do quarto, sem responder à mulher; ela, porém, ronroneava chorosa, a indagar, admirada:
— E o senhor não sabia? .. ..
Acompanhava-lhe os passos doentes, quase a ombreá-lo, os braços humildemente cruzados sob os mirrados seios:
— E estal. .. . o Sr. Prado não saber!
Depois, abriu a fazer considerações sobre a moralidade da sua casa, a queixar-se dos prejuízos que ameaçavam-na. .. . "Com a retirada da Senhor Doutor Heráclito, com a retirada de Madame, era o sexto pensionista que perdia! Tinha-se ido a senhora grave, de aspecto de irmáã-de-caridade; foramse os três moços estudantes, entrados em férias. .. . O tempo mau do verão aí vinha. .. ."
Parou, por fim, levando o olhar para a grande extensão do panorama fronteiro, onde Camilo pusera os olhos, absorvido.
A noite baixava lentíssima. N'oriente desaparecera de todo a reverberação vermelha do ocaso, fizera-se uma suavidade de meia-tinta grisenta, mergulhando em tristezas de afastamento incalculável os serenos planos marinhos, a dureza ponteada da serrania, a descida saudosa do horizonte. .. .
Ê E, incontado, varando o silêncio, passou, tremendo, um lamento. O ar quieto toldou-se da ondulação desta dor. Após, numa lentidão d'arquejos, vieram outros soluços cavos e mugidores, sucedendo-se, ora graves e angustiosos, ora desvairados e agudos, e iam para as vastidões, repassados de uma dolência infinita, de uma aflição irremediável, desentranhada, doloridamente, dos recônditos derruídos de um titã moribundo.
Camilo reconheceu o solo de oficlide — a Gondoliera. Esta música atravessava su'alma, despertando por ela os ecos gementes da sua ruína. Ouvira-a, pela primeira vez, uma tarde, quando a sua paixão era apenas um bacilo, desconhecido, que o tinha vencido, de improviso, numa invasão mórbida;
depois ouvira-a durante a convalescença de Henriette, em horas fugitivas das quimeras do Amor, em que foi aranhando a tecedura irisante do que veria entre lentejoulamentos dos róridos cristais gotejados do Floreal surgido! .. ..
Ouvia-a neste momento, sem dúvida pela última vez, doendo no ar, remoinhando vagarosa, ondulante pela taciturnidade da noite que descia. .. . Ao derramo dos lamentos um halo espraiava-se lá-baixo, transformando-os em ; luz vaga e anunciadora, que se alongava nas alturas. .. . E foi-se alargando, fendendo o azul carregado e velho, té que o plenilúnio apontou disforme, fantástico, erguendo a sua calotte acesa, triunfal e poderosa, como o elmo brunido de um guerreiro, refletindo o incêndio de uma cidade conquistada.
Pouco a pouco, a calotte cresceu, desfigurou-se; um grande disco candente subiu devagar pelos espaços com o peso lento do seu clarão sem chamas, tal se surgisse, monstruoso, das entranhas da terra, emergisse dos intermundos, manchado da camificina dos sacrifícios, das pavorosas hecatombes das ambições. Em derredor, uma claridade levíssima de sangue delido, aureolava-o, envolvia-o na piedade de todas as lágrimas, de todas as angústias dos dramas Humanos, glorificando-o com o suave resplendor das Resignações, seguindo o seu caminhar ovante, acompanhando-o para o batismo lustral dos nimbos. E subia, e subia sempre, solene como uma oferenda erguida pelas mãos invisíveis das Dores. .. .
O solo de oficlide mugia mais enfermo. Nesta desolação, o doloroso arrancar de suas notas trêmulas parecia ser a própria Terra, agonizando nos seus mistérios, quem gemia, sacramentando-se diante da hóstia levantada pelo Sofrimento; e o plangente mugido, profundo e inconsolável, enchia os céus, os ares, distendia-se pelos mundos em fora, desdobrava-se para as regiões de outros astros obscuros, como o Miserere de uma confissão suprema, acompanhada pelo Kyrie fúnebre da Desgraça. .. .
Fizera-se noite.
Então Camilo despertou.
— Bem, Senhora Don' Ana, até um dia. .. .
— E os trastes, meu senhor? — ela ganiu, estendendo os moles dedos para o rapaz.
Os trastes? ! Nem já se lembrava que Henriette os abandonara. Encolheu os ombros, numa dúvida. E logo, com desdém:
— Eu lhos dou, à senhora. São seus.
Desceu. A cancela bateu ao esmorecer de seus passos. A voz da Don' Ana lamuriou ainda, num siflo de asma:
— Muito agradecida, meu senhor. Deus lhe ajude. .. . E não se esqueça desta casa, moralidade só aqui. .. .
Camilo não atendeu mais à lamúria, tinha abalado pela rua silenciosa.
Os lampiões começavam a chamejar; nos meios quadros escuros das rótulas difundiam-se brancuras de busto n'alcatéia dos idílios. Uma tristeza pesava.
Henriette enganara-o. .. . Enganara-o, calculadamente e má — pensava ele, a caminhar, batendo os tacões pelo isolamento das calçadas, sem rumo.
— Havia muito tempo que ela entretinha relações com o Doutor. .. . Sim, deveria datar de muito tempo este amor, porque uma resolução, como a que ela tinha tomado, não acudia inopinadamente. Com Agrário fora o mesmo. Ao princípio partilhou com ele o leito do cambista, tomou-o para seu preferido, o eleito do seu coração; depois, quando as cousas estavam combinadas, os recursos considerados, as provisões feitas, ela entrouxou suas camisas e fugiu.
Era o mesmo processo. .. . com a diferença de que ele. .. .
E sacudiu, colérico, a cabeça. Para que revolver a sânie? .. .. para que recordar o seu ridículo? .. .. Mas, como fora desleal, como fora ingrata aquela mulher! Nem uma carta, fingida, que fosse! .. .. agradecendo-lhe as dedicações e os carinhos; nem um bilhete, ao menos quatro, duas linhas, um "adeus, meu infeliz amigo; perdoa-me". Nada! Fugira perversamente, com um desprezo ultrajante, abandonando-o da mesma mancira que abandonara o cambista e abandonara seus trastes!
E, mergulhando as mãos nos bolsos, estugou o passo, resolvido a esquecer o desfecho desta farsa por onde flutuara, enganadora, uma bruma esmeraldina de pureza e de amor. Passos adiante, o fantasma impertinente da recordação voltou, favorecido pela sombra e pelo silêncio. Já não recriminava Henriette, enregelhava-se no seu vexame de fraco, acurvado sob o peso do sentimentalismo. Todo o mal viera dele, dele que pocetizara numa candidez de lirismos essa rapariga batida dos rebanhos de Vênus, dele que se atrelara aos incoerentes sacrifícios de uma manutenção espontânea, sem responsabilidade que lha obrigasse; dele que se reduzira ao ingênuo platonismo dos inexperientes e dos imbecis! .. .. Ele, só, era o causador deste tormento, que se desencadeava sobre si mesmo. Então, que loucura tinha sido essa de avivar e purificar uma flor fanada do vício? Que pretendera ele fazer dessa mulher? .. ..
Ganhara, sem perceber, as ruas estreitas e abafadiças do comércio, no antro da cidade lôbrega.
Sobre as lajes dum passeio estendia-se o clarão do farol duma cervejaria. Camilo entrou. Apenas alguns bebedores sonhavam em frente dos seus chopes resfriados. Ao fundo, um alemão, grande como uma coluna e forte como um touro, repassava, preguiçosamente, um trapo negro pelo mármore do balcão.
Camilo bateu:
— Um chope!
A coluna possante moveu-se, trazia a camisa arremangada. Depositou o chope diante dele, e retornou, pisando firme. O encruzamento dos suspensórios traçava-lhe, nas costas, um grande Y vermelho.
Sim, ele era a vítima de si mesmo — continuou Camilo a ciliciar-se no solilóquio mental. Mas, nesta decepção, compreendia a fatalidade do seu destino, esta idiossincrasia de que nenhuma responsabilidade poderia ter, purgando os defeitos ingênitos e as heranças consangiúíneas que um momento de prazer animal, de funcionamento fisiológico tinham depositado na integralização do seu Ser. Ainda sobre estes elementos, viera completá-lo a direção moral de uma pálida mulher romântica! .. .. Como lhe era doloroso este inquérito! quanto lhe doía nas mais íntimas fibras da sua vitalidade esta terrível consciência de se reconhecer! Depois, entrando em calma, aos primeiros sorvos da bebida, sobreveio-lhe, tranqúilamente, uma nítida análise do que fora deixando pela mocidade. E só sofria a inutilidade em que passara, o esperdício de suas forças latentes, sem as ter aproveitado numa grande idéia, numa grande causa, que o tivesse envolvido na túnica dos mártires, na legenda dos fanáticos. Certo que este esperdício não provinha da sua educação sentimental, não resultava dos impulsos do seu temperamento, fora um desvio moral. .. . talvez uma falha de compreensão. Talvez. Deveria ter sido uma falha de compreensão da vida, ou de seus interesses. E para explicá-la tinha ele a agitação do Zut. Quem havia criado essa revolta? Quem a fizera? .. ..
À pergunta que seu espírito lançava a si mesmo uma mudez de vexame caiu, angustiosa como uma confissão que se acovarda.
Por momentos esteve, indecisamente, a notar a fila das garrafas rotuladas na parede do fundo, o sifon niquelado dos chopes; uma cabeça germânica, de velho, que meditava em postura de modelo acadêmico. A coluna alemã, formidável na sua bruteza física, lavava copos numa selha de zinco.
Mas o seu espírito voltou à recomposição dos ideais desmoronados. O caso do Zu surgia-lhe impertinente e relutante. Era, em suma, o seu passado, um entusiasmo da su'alma de moço, da sua endoestesia de artista. E afigurava-se-lhe todo um ideal perdido, o rumor terrível de uma reforma que abortou. .. . Por que não persistira ele nessa revolta? .. .. por que se não armou cavaleiro andante dessa aspiração? grotesco embora! Se houvesse campeado resoluto, posto que hilariante com o seu elmo de ensaboar barbas, teria feito pasmar 1 os rudes, que são a força coletiva que não medita; teria assombrado os práticos, que são a conveniência que não combate, Na caricatura de Dom Quixote existe o paradoxo da seriedade. .. .
Entretanto, quando o primeiro assobio siflou, ele perdeu a coragem da resistência, e, como um deus de farsa, varrido do Olimpo, correu atarantado,
— arrepanhando à pressa a esburacada clâmide soberana, expondo ao vento rebelionário os canelos cabeludos, espalitados de velhos botins sem meias! A rebeldia debandou em surriada feiral, cruzaram-se os gritos da troça desembestada — fora, os garatujas! .. .. fora, os garabulhas! .. ..
O epíteto poderia ter esfuziado e cairia chocho, se todos eles, unidos por uma Fé, estreitados por um Interesse houvessem anteposto à chacota o esforço comum de suas atividades, a energia repressora das suas convicções.
Mas, nem Fé nem Interesse! houve unicamente o ruído alegre de rapazes que se insubordinam contra os estatutos de um curso absoleto""? , contra as exigências casmurras de uns pobres mestres desiludidos. .. . E logo ele, que não sabia também o que queria; que, nem sequer, tivera a vulgar habilidade de criar uma posição para si próprio e fora um jornalista sem notoriedade e um artista sem profissão; ele, vadio romântico das tristezas, alma proscrita pela infelicidade, condenada às aspirações incompreendidas, sentindo-se repelido pela ferocidade de uma multidão bárbara e soeza, obrigado ao convívio dos violentos e escandalosos, gente que só tem olhos para o rubro, tacto fruste de campônio e emocibilidade comum de primitivo; ele, zíngaro sem bandeira, sonâmbulo como os trovadores dos solares medievos, pretendeu abrir a sua tenda de lhama e seda entre esse manso grupo de simples e bons, que tinha o seu caminho demarcado e seguro! .. .. Fizera-se peste, contagiou a alma sã dessa gente com a febre inquietadora da sua doença d'espírito — uma nebulosa intuição supercoeva do que estava para vir — a antevidência desse atormentado Modemo que vai, num deslumbramento de demência, seduzindo os Cláudios Lantiers"" da Nova Era. .. . Teve nisso uma perversidade de enfermo incurável a deliciar-se, secretamente, com o mal que pode transmitir aos ilesos nos menores contactos da imprevidência, nos mais insignificantes esquecimentos da profilaxia! Gozou cruelmente desse desvario, alimentou-o com o calor de seus exageros, envenenando a alma desses bons rapazes com as suas profecias de agitador, iludindo-os com os seus elogios, com os seus aplausos que, no tumulto das inovações, pareciam trazer austeridade de um Superior, a sanção dos Supremos. .. . Era irrisório! Talvez mais triste e comiserável que irrisório, pela fatalidade que arrastava! Quantos enganos! .. ..
Nisto se resumia o escombro do seu tempo. Era isto, positivamente, o que restava de uma época de ilusões.
E, entre eles, houve um que vencesse, não pela resistência do mérito, mas pela persistência do interesse. Fora Agrário. Ele soube aproveitar-se da agitação para levar o seu nome aos que o ignoravam; pavoneou-se de caudilho dessa revolta de que gracejara, fez-se vítima para a simpatia do apoio comprovinciano, essa força espontânea de proteção que se manifesta nas coletividades como o atavismo típico das tribos; e enquanto os companheiros arfavam, em busca da luz, que as incertezas amorteciam, ele ia, suavemente, alcançando terra firme, numa volúpia de músculos excitados pela leveza das águas tranqúilas! .. .. Mas, por que recriminá-lo? .. .. com que fim desluzir o bom êxito da sua sagacidade, ou. .. . — quem sabe — do seu valor? .. .. Agrário fez o que faria qualquer homem movido por uma idéia promissora. Não foi um futuro que ele conquistou? !. .. . Se outros não tinham alcançado o mesmo resultado, se se deixaram vencer pelo desânimo e pela impotência, era-lhe isso mais um argumento favorável; pelo menos ele teve atilamento, soube aproveitar o seu tempo. E a vida é para as raposas e para as feras — ou se abocanha pela esperteza ou se agarra pela força. .. .
Passou por seus nervos um arrepio uivante de desalento, agudo e mau como uma lufada de neve, e folículas saudosas tremeram na sw'alma, desprenderam-se, vieram cair melancolicamente nas suas amarguras de vencido.
As nevralgias torácicas recomeçaram. Tossiu rouco, desobstruindo os brônquios.
— Psit! ó senhor? .. .. — bateu o copo no mármore da mesa. — Um chope!
E acolheu-se à meditação, no seu canto de cervejaria, alheio ao vozear dos bebedores, que crescia na sala. Três músicos tinham entrado, um velho dedilhador de harpa, de perfil militar do Segundo Império; um flautista, anguloso e comprido, e um quasímodo ruivo, com ares esconsos de vesânico, ij que tocava rabeca. O poderoso alemão pisava convicto, servindo profusamente cerveja brau!"", Camilo volveu a considerar o procedimento de Agrário, a quem ligava as utopias desse passado. Afinal, concluía, ele fora levado pelo seu destino para o que deveria ser, fatalmente. Tudo concorrera para esse resultado, as circunstâncias vieram, imprevistas, escorrendo para um dado ponto, criando recursos, acomodando oportunidades. Agrário pertencia à classe dos que nascem moldados para viver, dos que não conhecem obstáculos. É desse meio afortunado que surgem os Telésforos de todos os tempos, onde o oficialismo encontra a sua substância, e a regularidade, o estabelecido, o sancionado fundam a sua resistência. Eles são o envoltório das unânimes aspirações dos contemporâneos, e quaisquer que sejam as idéias, a época e o espírito dos consensos, adaptam-se às exigências convencionais com a mais extraordinária precisão. À guisa de uma elástica malha servindo a todos os corpos, esses Indusiastas" enfronham a vulgaridade das aceitações, quer sejam rútilas como os saios dos tomeios, quer sejam toscas como o zorame!"" dos vilãos.
Para esses — a Vida. Não lhes faltam ouvidos que os escutem! não lhes faltam olhos que os vejam! Na pompa mineral de suas glórias, Tzar de Kremlins faustosos, entesourando deslumbramentos de ovações sobre a macieza pubescente de capachos de Smirna, na sombra sagrada de lavrados tecidos que o renome estende, em pálio ou dossel, por cima das suas altivas cabeças d'escultura; ou na miséria ostensiva de macilentos noctâmbulos, a fazerem-se tradição do poviléu com lauréis de taverna, eles trazem a disposição inata dos dominadores, cuja celebração nunca empalidece de todo na claridade da Justiça póstera, tantas foram as púrpuras e as suciras que atiraram sobre os seus ombros, tantos os aplausos rugidos em torno dos seus exibidos frangalhos, tal o seu poder de penetração no Compreendido, a sua intensidade absorvente do comum, que os séculos e séculos dificilmente, pesadamente eliminam do espírito humano, Têm o estranho lusco-fusco de certos aclamados, bossudos de alma, alcijões de corpo, que atravessam a História com a coroa resplandecente dos monstrengos cruéis e sanguinários que surdem heróis nos paroxismos da loucura vermelha dos povos. .. .
E parou, a olhar em torno como se houvesse perdido o seguimento de suas idéias. Os primeiros acordes de uma valsa desenovelaram-se no rumorejo da sala.
Depois, volvendo ao seu chope, soprou a fumaça do cigarro, com desprezo: Orat. .. . O que tinha a lamentar em tudo isso, era o seu tempo perdido.
Esbanjou a mocidade em grosseiras fantasias de herdeiro rico, foi o que fez. .. .
Mas, no isolamento do seu canto, a puxar fumo ao cigarro, foi-se entregando à moleza da sua crônica melancolia. A sentimentalidade purgou-lhe nos magoados recessos de infeliz, conduzindo-o ao outono das saudades que se ia distendendo dentro de seu ser, cosmoramicamente, num lento desdobrar de recordações amadas, de doces mentiras da existência que a distância violaceou, té este triste abandono de hoje por onde se percebia excluído da ventura, desprezado por seus companheiros, repelido por suas afeições.
E era ele só, só! sem camaradas, desviado da farândola boêmia da Mocidade que vem pela alegria, a pandeirar ilusões, a cantar madrigais, às feiras gritalhonas e cobiçosas da Vida. Pobre visionário! .. .. E, por fim, solitário e pungido, vagando pelos sonhos, parou às mãos de uma mulher que, sorrindo, com uma brejeira interjectiva d'estribilho nas aspas carmesins da boca — Zur! — rasgou, esfrangalhou a sua alma iludida. Quem vence a mulher conquista a vida — ele havia dito, numa soturna tarde de confidências. E essa mulher trazida do Desconhecido, que viera lambendo com a orla das saias o trilho das concubinagens; essa, que ali estava, então, a alguns passos dele, à janela de um sótão, entre a página de um livro fútil e as linhas do crochet, destruiu com um piparote de garoto a vistosa armadura do seu pretenso schopenhauerismo de pulha! .. ..
A tentação voltava-lhe no fio prateado do pensamento, voltava tenaz e subtil, entranhando-se na mais tênue associação de suas idéias. Camilo percebeu-a, fez um esforço para afastá-la da memória, e, como ela persistisse com as suas recordações, ele procurou distrair-se com o pequeno povo que cervejava.
A valsa morria nos últimos ritmos.
O flautista ergueu-se; tinha uma caforina de palhaço e a rijeza duma bengala esculpida; arrebatou d'algibeira um pires de metal e começou a esmolar.
O ruivo apoiara a sua rabeca sobre a mesa, lentamente começou raspar as ventas com a unha do índex, todo ele curvado, giboso, torto, o olhar estrovinhado, sem alvo. Então o velho, unindo a cara vincada à coluna da harpa, dedilhou a estafada — La donna é mobile do Rigoletto, numa expressão dolorida e íntima.
Camilo ficou a notá-lo. Era um sexagenário batido da sorte, conduzido pelo mundo a murros de infelicidades. Deveria ter rolado para a desgraça um dia, à volta das suas fadigas de conscrito. Ao pisar a choça encontrou a lareira úmida, o leito abandonado, a lavoura morta, os filhos entregues à piedade dos vizinhos. Compreendeu tudo. A mulher trescalava as transudações da virilidade, era moça e linda com seus olhos de noites venezianas, com a sua boca macia e doce como os figos dos pomares da Sicília. .. .
Compreendeu tudo. Alastrou-se por seus olhos uma treva de sangue.
E resolveu-se, ajuntou os molambos, partiu com os pequenos, chorando em silêncio. Que destino tomaria? .. .. Qual a terra de refúgio à sua desonra? .. ..
Uma estrela brilhava, a estrada ali estendia-se rasgando a terra da aldeia, a sumir-se, além. .. . Partiu. Hoje, nos bruxuleios desta alma, deveria vagar a sombra incerta de um corpo prematuramente envelhecido, andrajos de fome e torturas de repulsão, a gemer remorsos, a gemer perdões.
E como ele já não tinha lágrimas nos olhos, chorava por esta cansada e dolorosa ironia do Rigoletto, em que punha todo o esforço da sua reduzida arte de harpista valdevinos. .. .
Quando o escanifrado da flauta estendeu-lhe o pires, mudamente e febril, Camilo indagou se o velho era parente.
—. .. É mio padre — respondeu —, F'altro é mio fratello pid giovane. .. .
O outro era seu irmão mais moço! talvez o nascido do adultério, filho de um bandido das montanhas, lobo das ciladas; talvez sêmen de um rústico carreiro das lavouras vizinhas, animal forte e estúpido. .. . porque aquela caraça soeza e má não tinha as linhas mansas do velho, era um produto de bestialidade, de ninfomania que se oferece a esmo, e da bruteza de uma saciação sexual. Mas, nem ele se parecia com o flautista, nem em ambos transpareciam vislumbres atávicos desse velho! .. .. Ah! mísero tocador de harpa! ah! mísero banido! .. .. la donna é mobile, tu o dizes na tua cansada harpa vagabunda, tu choras esta convicção que te chegou, quando o estômago já não podia desprezar a côdea da caridade com o repúdio destes sustentáculos, que arrastaste da tua aldeia às ruas da cidade, aos lajedos das capitais.
. .. La donna é mobile. .. . vai contando a tua obscura história, a que ninguém atende; vai retalhando a tua alma em cada nota dessa esvaída Música que a indiferença ouve, mas que um artista soube exprimir por tua dor, pelas dores de todos os que, ingenuamente, padecem e sofrem da mesma ingratidão. .. .
E a música gemia na velha harpa com uma interpretação dolorosa e Íntima, passava, varava o vozear da sala como um ganido sofredor de rafeiro gafento, a morrer. De quando em quando, nas pausas da algazarra, a languidez de seus compassos agitava-se no ar toldado e acre, lembrava as faixas de uma grinalda fúnebre desdobradas na aragem, levadas num esquife que conduzem; por instantes, os sons esmoreciam, perdiam-se no ruído das conversas, sussurrando apenas, humildes, pequeninos, imperceptíveis quase. Porém o harpista cingia mais a cara vincada à canelura coríntia do instrumento, como a comunicar-se-lhe, a sorver-lhe os sons; as engelhas de suas faces cavavam-se mais fundas, o seu olhar doía. E, num desespero, as notas cantavam outra vez mais alto, subiam para o ar num desabafo de ciúmes, difundiam-se pelo quadro do espaço envolvendo o rumorejo impertinente e desdenhoso, fazendo-se escutar, Os dedos do harpista confrangiam-se num tremor, eletriza- ) va-o uma emoção que levantava a sua cabeça militar numa altivez de vencido — sob o estalar de uma injúria. A esfarripada melodia verdiniana criava um vigor impressionante, refundia-se por completo nas mais esvaídas vibrações, como um velho poema que reencontra um novo século de regressões sentimentais.
Dir-se-ia que esse gasto lirismo musical volvia à sua época, encontrava o retomo do seu tempo, tornando-se ardente como uma paixão primitiva, fazendo sonhar, arrebatando a alma, dos que o ouviam, nas nebulosas das visualidades, por onde se esbatem e perpassam as dolentes imagens das tuberculosas fidalgas — cisnes lohengrinescos que bóiam suavemente, que vagam dulcissimamente na quietação cismarienta de lagos azuis, ao clarão azul dum luar mágico, numa gruta de safiras, cravejada de estalactites de diamantes negros, em que sussurram os ecos da inspiração wagneriana. .. . — E na sequência emocional dessa música, pela persistente melodia de seus compassos, ia-se duma a outra região das fantasias, vivendo nos nevoeiros emperolados das longitudes septentrionais, volvendo à contemplatividade apaixonada de paragens quentes. Sucediam-se as visões, sucediam-se os aspectos. O ritornello melódico, suspirante, queixoso, abria na imaginação superexcitada o luar clássico das doloridas paixões meridionais: uma gôndola cortava a corrente mansa, deslizava cheia de mistérios de amor, ao bafo de magnólias da sua câmara de sedas; os muros negros dos palácios projetavam ciúmes negros no polimento do canal e, longe, uma voz cantava. .. . Cantava tão sentida e solitária que parecia soluços de angústias das rapsódias do exílio tremulando no ar, gemendo nas alturas por onde a alma cismadora e doentia de Camilo se embalava, quase adormecida, a pedir em prece, a rogar em cicios a essoutra alma enregelada e desgraçada que prolongasse as recordações, que martirizasse aquele coração para que os dedos do velho êxul não parassem de tocar, não parassem jamais, tocassem sempre, tocassem sempre. .. . sempre. .. . sempre. .. .
E a harpa emudeceu.
Nas glândulas lagrimais do velho reluziu, medroso, o trêmulo de uma gota, mas o escanifrado da flauta entregou-lhe a coleta; houve, entre eles, um segredar de cálculos. .. . E a lágrima recolheu-se, extinguiu-se, esterilizando aquelas pálpebras cansadas, endurecendo o olhar seco e avaro.
Então Camilo indignou-se numa revolta contra aquela dor que calculava, aquela infelicidade que o dinheiro apagava. Teve asco do velho harpista, resfriou-se num nojo por toda aquela gente, que ali estava cúpida e irrefrangível às delicadas emoções de uma saudade, toda ela, como o enrugado banido, esquecendo a alma para contar as moedas da exploração e do negócio. .. . Mas. .. .
era a vida! Ele que fazia para viver? Deixava-se arrastar pela sua sentimentalidade, desprovido de recursos, descendo, talvez, para o obscuro fim do Alves Pena, talvez para a tintamarresca loucura do Sebastião Pita.
Esgotado que fosse, amanhã, o último sacrifício de sua pobre mãe, a quem a tuberculose vampirizava as forças lentamente, ele seria um abandonado. Nem carinhos, nem amparos! Teria de cair, forçosamente, nessa desbriada mendicidade dos incapazes que trotam pelos lajedos, que se esgueiram por entre mesas dos Cafés, farejando os esperdícios da mocidade alegre, porque nem sequer lhe assistia o direito de se fazer companheiro desejado, conviva Íntimo, parasita consentido, tanto lhe falhava a alegria, para tanto lhe faltava um nome, que honrasse o motivo duma camaradagem. .. . Ah! era preciso viver! .. ..
Subitamente, fez-se-lhe uma claridade no espírito, uma inundação de alento aqueceu-lhe os nervos, revigorando-lhe o organismo e outra vida desdobrou-se nele, mais experiente, mais nítida, mais praticamente vivida, trazendo-lhe idéias claras, desenvolvendo-lhe o pensamento numa justa percepção da existência social que ali se agitava neste aglomero de raças, que falava por estas bocas de cifras, que se dirigia por estes cérebros de molde, disciplinados no egoísmo, metodizados pela moral flexível que faz o comércio das brutais concessões com o apoio das conveniências, que institui a legalidade das ações pela satisfatória permuta dos interesses. .. . Era preciso viver também, sentir elasticidade nos tendões, rijeza nos músculos, a boa disposição animal do organismo, a coragem sempre pronta, a ardileza prestes, o braço forte contra a terra, a cabeça aparelhada contra o Impossível. Enfim viver! .. ..
viver! .. .. viver! .. .. E se a Morte. .. .
Estremeceu num calafrio de pressentimentos, esse terror inconsciente dos que trazem a ressonância das covas abertas na alma roxa, dos que caminham à sombra fria e triste das asas espalmas da segadoura Parca, e, em cada minuto que passa, que voa e se desfaz no vácuo, vão perdendo a vitalidade como as contas desprendidas de um fio, suave e insentidamente, enganosa e melancolicamente, uma após outra, outra depois de outra, devagar, devagar, em intervalos silenciosos de vésperas presagas, em espasmos de soluços finais. .. . vagarosamente, vagarosamente. .. .
Por que lembrar a morte quando se tem mocidade? .. ..
Mas, é que um dia, partindo a gente, a sorrir e confiada, para o horizonte, sob a manhã clara das boas promessas, nunca mais volta. Que foi? .. .. Muito importa ao mundo a perda de um átomo! Foi uma vida que se apagou. Há uma alma que chora, um coração que se confrange e nada mais. .. . Amanhã, nem essa pobre alma viúva, nem esse mísero coração ferido guardarão lembrança do que se perdeu no lapso de um dia. .. . Ora, a Morte! .. .. Por que se lembrar dela? Quem pode escrever um nome na memória dos homens, abrir as páginas conquistadoras de uma obra sobre os séculos, não se acovarda com a sinistra sombra flamante de uma mortalha agitada. Mas, antes de tudo, é preciso conseguir este Nome, trabalhar nesta Obra. .. .
Então um impulso nobre o arrancou da cervejaria. Numa praça próxima Camilo parou à espera dum bonde.
Havia uma calma de horas tardias no isolamento deste lugar, que o fazia maior e mais soturno. Ao fundo, a mole granítica de uma fonte pública destacava-se ao luar, enorme, severa na sobriedade de suas linhas toscanas; o metal do extenso renque das torneiras reluzia à semelhança de ponteados d' armas que se enristam, atalaiadas. Um monturo humano, aniquilado pela bebedeira, ressonava, enrodilhado nos seus frangalhos, sobre os degraus; trôpegos cães sem dono, famintos e insones, farejavam-no, de passagem, e se arredavam com asco. No dorso da montanha, para o flanco sul da fonte, os muros sepulcrais de um convento tinham, na fluidez luminosa da noite, o silêncio vetusto de arquiteturas medievais. Em frente, o casario feio s'estendia sinuoso e apertado, a arrimar-se, parede sobre parede, aos muros do vasto edifício adormecido do Café Paris.
Uma carruagem noturna, de toldo arriado, esperava na sombra que se alongava dos lajedos do passeio ao calçamento da praça. Na quietação ensombrada, as duas lanternas acesas, sob os lados da boléia onde o cocheiro se espojara preguiçoso, brilhavam como bugalhos vigilantes dum monstro agachado; e os cascos ferrados dos muares cabeceantes feriam, de momento a momento, no granito, uma impertinência de sono interrompido.
Lá-baixo, o farol vermelho de um bonde apontou na meia escuridão dum canal de rua, aproximou-se, pareceu roçar pelas paredes soturnas de um enorme prédio d'esquina. .. . e passou levando os retardados nos prazeres noctívagos, os esfalfados do trabalho das redações. Depois, sobre a solidão, rompeu o rumor de ferragens arrastadas, um peso de carroças que rodam. O eco alastrou-se para longe, perdeu-se na calma misteriosa do espaço.
E as horas corriam imperturbáveis, a noite ia rolando para outros hemisférios, enquanto ele esperava ali a sua demorada condução, isolado, desamparado nesta taciturna praça. Tinham-lhe voltado as nevralgias torácicas, já persistentes, mais entranhadas e dolorosas. Um pigarro começou a incomodá-lo, tenaz e enfadonho.
Com o seu habitual movimento de tédio e desprezo, mergulhou nas fundas algibeiras das calças as mãos nervosas, entrou a passear o lajedo do Hospital de Francisco de Assis, devagar, esfalfado e penosamente, de um para outro lado. Se não fosse tão distante o seu teto, se as forças lhe não faltassem, bem poderia ir-se dali, batendo as solas pelo isolamento escurecido dessas ruas! .. .. Mas, nem mesmo a energia física lhe sobrava deste desmoronamento da sua existência! .. .. E procurando o recosto dum portal, seus olhos foram parar no esparramo estúpido duma construção antiga, ao fundo da praça. O luar feria nas vidraças de suas sacadas um estrelejamento diamantino, era como se lhes houvessem cravejado de astros rutilantes. Então, vagaroso, sonolento, um vulto desembocou duma ruela, seguiu, encostado às paredes da casa, para a sombria garganta de outra ruela. O punho doirado dum sabre luzia-lhe na cinta. .. .
Houve, de repente, um ruído: cracs de trincos, o soar férreo duma barra desengatada: e, ao rés-do-chão do Café Paris, o batente duma das portas dobrou nos seus gonzos, rasgou uma comprida fenda luminosa na grande fachada escura. Dispersou-se no silêncio um rumor de risadas e vozes. À empenada crista duma casquette e um vestido claro surgiram na luz; depois, outro vestido, róseo vivo, os laços escandalosos dum feltro petulante, à aventureiro, apareceram. E logo, essas duas mulheres, seguidas por noctívagos que traziam em resplendor as abas largas dos seus chapéus de palha, atirados à capadócio, entraram, algazarrentamente, na carruagem. Outra vez o batente dobrou, cingiu-se à ombreira. Tiniram ferrolhos lá dentro. A fachada adormeceu na treva.
Camilo seguiu com o olhar a carruagem. Uma delas, a de casquette e vestido claro, era magrita e loira. Desaparecera na rapidez da passagem, vivendo apenas um segundo sob a chama minguada do gás.
Mas, ficou-lhe na retina esta visão momentânea, cabelos loiros, pele rósea num rosto de boneca, esvelteza dum corpo em leves tecidos de verão. .. .
O quer que fosse, que se desprende dum íntimo a que está unido, desligou-se do seu coração, numa viscosidade álgida. A nevralgia sulcou-lhe fundamente os pulmões. Ele estremeceu, à crueza apunhalante da dor, com a boca numa angústia, sôfrega de ar.
E, de novo, recomeçou o passeio sobre o lajedo, menos cansado. Já não se lembrava do seu bonde. Até agradava-lhe mais aí estar, abandonado neste silêncio de madrugada a crescer no deserto desta praça isolada. Era, talvez, o seu destino este desamparo. Melhor! Enquanto o bom Deus lhe desse a doçura de um luar, a santa humildade honesta, a confortante resignação de sofrer. .. .
ele iria, sem queixas, fazendo os passos do seu Calvário. Mas que, ao menos, tivesse na sua desgraça este luar de hoje, macio e aromático como se o astro se fizesse magnólia, como se a luz se fizesse veludo! E levantou o olhar para o céu. A lua, branca e trêmula, caminhava, como uma Santa levada no seu andor, por um campo de miosótis de prata.
É assim também a alma dos que almejam, dos que têm um Ideal. Havia horas, ela surgira purpurejada e disforme, arfando no seu desespero. A coincidência daquele solo gemedor, que com ela se despertara, tanto se confundira com a sua vagarosa ascensão, que se diria os estertores duma dor, como se fora o coração da Terra erguido em sacrifício bárbaro, desentranhado do seu próprio seio pálpito e ofegante. E surdira para os altos siderais, vencera a vastidão do céu; tão longe, tão distante subira que se fizera sem mácula! Quando se tem um sonho a realizar, o sofrimento é a oferenda da alma que busca as paragens vastíssimas da glorificação. .. . Bendito o sofrimento, que faz os Eleitos! .. ..
Ao termo da prece mental, seu olhos empanaram-se de lagrimejos e permaneceram magnetizados, deslumbrados na luz intensa que o astro derramava, como se transformado fosse num cibório sagrado, o relicário do Amor e da Bondade, donde jorrasse a unção sacramental dos pobres que crêem, dos míseros que se resignam. .. .
Passou no ar parado e quente um arrepio de viração marinha. O azul das alturas empalideceu. A paz distendeu-se mais longa. Mas, de chofre, Camilo teve um acesso de tosse e uma golfada de sangue saiu-lhe num extravaso sufocante.
Rápido, o rosto cavou-se-lhe de terror, e arquejou, d'olhar doudo, assombrado com a mancha rubra, que estalara nas pedras, todo ele abalado, revolvido numa alucinação que se cingia às contorções agonizantes de duas exaustas forças opostas, a procurarem se desligar e a se estreitarem dolorosamente. Uma, tendendo a abater-se, cansada, desarrimada, inerme; outra, impelida para o espaço, resistindo impotente, arfando por se desprender do peso que a levava para uma queda sem termo. .. . E nesse uivante redomoinho glácido, o sopro morno dum derradeiro alento trazia-lhe à confusão do cérebro: notas duma surdina de harpa que se exala, relâmpagos de pensamentos em que se debuxam cenários de fantascópios, frases entrecortadas, envolvidas na inefável tristeza dos murmúrios extremos, nas reticências dos soluços: ". .. .a gente parte, a sorrir e confiada. .. . para o horizonte. .. . sob o claro tempo das boas promessas. .. . E nunca mais volta! .. .. e nunca mais volta. .. ."
O plenilúnio — alma do Esoterismo transformada em astro — estranhamente belo como uma esfíngica e régia coroa de fantástica ninféia luminosa, levada pelo bafejo sussurrante da Loucura sobre a quietação morta duma lagoa infinita, ia flutuando, boiando, deslizando serena e indiferentemente, banhada do seu halo de pérolas lucifeitas, a aveludar as ilusões dos que põem os olhos nos Céus, a esmaecer nos sonhos as almas meigas dos que lhe vão na esteira macia da sua luz nostálgica, a esvair na sucessão d'enganos os que a seguem, pela Terra, fascinados. .. . fascinados. .. . fascinados! .. .. Para onde? .. ..
FIM Sebastianópolis 1897 Í Publicado em 1899.