Capítulo X Mocidade Morta · Capítulo 10 de 19
Obra Menu

Capítulo X

X

Lá se iam contados trintas dias que ninguém sabia de Agrário; o único que poderia adiantar informações era Camilo, mas este, também, estava senhor do mesmo sabido romance que todos contavam: Agrário desaparecera do quarto do primo, Henriette desaparecera do quarto do cambista.

Quando Melo Castro, a cofiar o seu grande orgulho de bigode loiro, lhe participou, nervoso, de que o pinta-monos batera com a fraldiqueira para uma toca desconhecida, Camilo não fez nem um movimento de surpresa, concentrou-se abatido, hipocondríaco, antevendo o irremediável desastre do Zur.

E nessa mesma semana, inesperadamente, apareceram na Glace Élégante dous retratos de apopléticos comendadores palermas — pintura lisa e chata, como a fatura de que o Le Grand tinha a patente dinvenção. Que seria? Andou pelo espírito de todos o impertinente moscardo da interrogativa. Em vão procuraram o motivo da tremenda apostasia, em vão buscaram em complacência explicativa de necessidades a causa do estranho transviamento. Agrário continuava oculto, na foca ou em um ninho, deixando sobre sua ausência a aflição de uma dúvida.

Com a exposição dos retratos a Ilustração Semanal, do Saurel, encontrou oportunidade para arremeter contra o grupo. Em duas colunas do texto, a folha caricaturista louvava o pintor por ter provado que não era ele o chefe (como se propalava à boca miúda) desse bando de tolos e presumidos.

A violência do Saurel tocou a postos nas avançadas dos jornais. Secundando o arremesso da Mlustração outra folha, mas essa diário de tiragem notável, instigada por Telésforo, lançou desentrelinhado de doutrinarismo estético e com parêntesis propositais, descobrindo o intento do artigo, apedrejou valentemente "a pulha pretensão de uns paspalhetes jactanciosos que se julgam capazes de, com arruaças e insubordinações de malcriados, anular e destruir o valor de reputados artistas. .. ."

A reação fora sempre surda, movida cautelosa e matreira pela habilidade de Telésforo, em desabafo daquele vitorioso sábado de outubro, fomentada pelos "perseguidos", à socapa, rastejando por intrigas e vilanias sob a sistemáltica oposição dos acadêmicos à entrada do grupo nos cursos oficiais; mas, nesse dia, rompeu considerações e vinha franca, descoberta, resoluta, em assalto vencedor sobre a descuidada alegria desse pobre rapazio a que falhavam aspiração determinada e razões de resistência.

O grupo recebeu o ataque sem compreendê-lo, julgando-o uma sortida prestes a espatifar-se na chacota costumária; mas o reforço do choque, sob a poderosa carga dos jornais, depressa espalhou o terror. À tarde o aguarelista Vieira apareceu, enfiado de desconfianças, pálido e lagrimejante, protestando que não estava disposto a "perder o seu futuro, tinha família a sustentar. .. .

tinha filhos. .. ."

E o fuinha do Sousa veio cheirar à porta d' Havanesa o que se decidia. .. .

"mas, não se decidindo cousa séria, ele não queria embrulhos, estava farto de desassossego, até já havia perdido uma viagem à Europa por causa do Zut!

Sabino e Franklin ouviam as recriminações, calados, jungidos ao mesmo ideal, porém inutilizados pela impossibilidade de ação; só o Lóssio protestava, em voz baixa, levantando o pulso magricelo prometedor de socos incríveis à pulhice da mestrança condecorada. A presença de Camilo fazia-se urgente. Por vezes Sabino arrimou-se ao portal, desalentado; gestos obscenos, disfarçados na aba coçada do fraque, contraíam a mão do Franklin, e balbucios obscuros ziguezagueavam por seus lábios. Cortava no ar um friozinho úmido de começo hibernal. A multidão noctâmbula passava. Vultos encapotados entrecruzavam-se pela estreiteza da rua; burguesinhas amaridadas, abrindo olhares cobiçosos para as vitrinas iluminadas, seguiam pelo braço de seus homens circunspectos; algumas roilerfes de teatro eram adivinhadas sob os meiros confeccionados de casimiras à water proof. .. .

— Ali vem Camilo — apontou Sabino para a calçada oposta.

O rapaz se aproximava, numa lentidão de abatimento. Emergira da sombra duma grande casa fechada, e logo a viva chama dos faróis de duas portas de modista banhou-lhe por inteiro: o seu rosto parecia mais macilento, mais afadigado; os fios pendentes do seu bigode, que crescera e se avolumara ultimamente, envelheciam a sua doce fisionomia de tuberculoso romântico, espirilualizada pelo vago olhar doentio e queixoso. Já se lhe notava privações ocultas, íntimos suplícios de existência necessitada, um abandono de cuidados nas roupas destingidas, enrugadas, túmidas de bócios, n'articulação dos braços, dos joelhos.

Franklin saiu ao seu encontro, febricitante por lhe ouvir a resolução, porém ele encolheu os ombros: " Que fazer? .. .. Tudo perdido. A Academia estava com a força, tinha a imprensa, tinha a sociedade, tinha o governo."

Sabino arriscou, tímido, numa voz quase chorosa:

— E A Folha?

— Pôs-me no andar da rua.

Por minutos, dessoros de lágrimas intumesceram as pálpebras dos dous dissidentes. O friozinho hibernal cortou mais forte. Camilo teve um arrepio.

Entre eles a soturnidade da esperança perdida lavrou um longo mutismo presago.

Alves Pena surdiu dentre transeuntes, aos tropeços, cambo, adormentado, olhos sanguíneos e turvos.

— Queria saber. .. . — oscilava, a cuspir, a procurar idéias. — Queria saber. .. . do que havia. — E a insistir em sílabas mastigadas, repetindo palavras, esforçando-se por emiti-las, por libertar-se da gagueira regougante que o acometia, expunha confusos projetos, um hebdomadário para combater os

"trancas", dizia, para achatar a súcia.

Ouviam-o desatentos, esquivando-se do seu hálito pútrido. Eles também tiveram essa idéia, mas o capital, esse imaginário saquitel de lona, rotundo de moedas, aparrado e farto, desafiando a cobiça humana com suas pintadas cifras a negro; o capital, a sonante, a maravilhosa força de empreendimentos e vitórias, antolhava-se-lhes como um espectro. O boêmio, no entanto, retorquia que era facílimo arranjar capital.

— Quê! .. .. hum! .. .. Capital? .. .. hum! .. .. cap! .. .. cap. .. . — E emperrava, amnesiado, batendo as pálpebras congestas, o corpo a vacilar como uma velha barcaça a ferros. A língua tornara-se-lhe pegajosa, arrastando-se nos esforços da vocalização que desprendiam bafios nauseantes de cloacas. Enublarase-lhe a percepção da realidade; aos gorgolhões de palavras emaranhava contradições, depois mascava uma porção de fantasias abstrusas, cousas insensatas e inquietadoras. A mão tremia-lhe numa pertinácia de crise nervosa; na epiderme um tom oleoso de suores fétidos relaxava-lhe os músculos. Ia a peior. Por esse tempo, uma tosse cavernosa amiudara os acessos e o olhar, de quando em quando, imobilizava-se atônico, estúpido, alteando as pupilas para o bordo empapuçado das órbitas com espasmos de rês vitimada.

A dolorosa impressão, que esse alcoolizado lhes causava, aprofundou o mutismo do grupo, como se um marasmo angustioso, pressentida vizinhança da morte, paralisasse as últimas energias de suas ilusões. Sobretudo em Camilo, ela deixava uma tristeza intensa, que sonambulizava o seu olhar e lhe riscava nos talhos da boca violentos vincos de descrença.

Instantâneo, num acordar brusco de epiléptico, ele estendeu a mão aos rapazes:

— Bem. .. . Vou andando. .. .

E foi-se. Varou pela multidão, num passo largo de fugitivo desiludido, que se arreceia do ruído otimista do mundo; trepou à um bonde, e arrumado ao canto do banco, encolhido, muito só, estranho a todos os passageiros que invadiam os lugares, nem reparou numa rapariga que lhe pedia consentimento para entrar, suspirando com uma doçura de voz enrouquecida:

— O senhor dá-me licença? — Foi necessário que ela lhe tocasse na perna, furtivamente, insistindo: — O senhor dá-me licença?

— Ah! — fez ele, e ergueu-se atarantado, com um safanão. Ela entrou, inclinando a cabeça, agradecida. Camilo volveu ao seu lugar, mais espremido contra o balaústre do banco, mais só e desesperado. O bonde rodou, enfim;

ásperas tiniram correntes enferrujadas dos tirantes e a parelha arrancou com o peso num trote rítmico e balançado.

Lojas abertas, cheias de luz e rebrilhos de vidraçarias, sucediam-se, com vistas cosmorâmicas. Às vezes, pelas soleiras, transeuntes encolhiam-se, desviando-se do bonde, ou de pé entediados negociantes conversavam agrupados, a chocarem-se obesidades dos ventres monstruosos. E já, na mutação dos aspectos, vinham escuridões extensas de prédios desabitados ou melancólicas claridades de isolados combustores da iluminação, para outra vez reaparecer a alegria da luz jorrada dos faróis do comércio noturno.

Depois, para diante de uma praça, o movimento foi-se perdendo, afastando-se, reduzido a ecos de vez a vez mais longe, e vieram as ruas desertas, as praças abandonadas, os lugares escuros e quase trevosos, a zona intermediária dos arrabaldes, área recolhida e triste onde se refugia a miséria resignada dos incapazes, o ódio dos esmoedores da vida sem esperança.

Camilo, agarrado pela sua nevrose, caíra no cruel exame da existência.

O artigo do Saurel, a guerra dos jornais, a deserção de Agrário subjugavam-o, traziam-lhe histerismos à sensibilidade escoriada, procurando revolver toda a dolorosa mágoa do seu espírito enfermo, indagando-se, à si mesmo, numa obsessão alucinante, por que criara essa fantasia de levantar um grupo? .. .. E quem ia lutar? Ele só? Mas que poderia fazer contra todos? .. .. Ah! inda não se tinha estribado na vida! .. .. Galopava nesse cavalo da existência sem saber como, sem governo, sem apoio; e a cada corcovo do animal sentia o temor de vir à terra, sob o ridículo cascalhante da vaia. A vida era assim. Cada ser passava sobre o dorso de uma montaria; uns sobre o aprumo esguio de corredores esgalgados, balouçantes e lentos como se exibissem triunfos do sport;

outros corcéis, duma brancura nevada d'espumas, rompem ao trote largo, alegremente, levando à sela os que folgam; e outros, luzidios e louros como o fumo crestado de Cuba, vêm à desfilada, entre ovações e borboletear de lenços, zimbrando o espaço, deixando em pós o aroma sensual de tranças desfeitas, ou frangalhos de mantos gloriosos.

Os artistas, os nobres eleitos do Sofrimento e da Dor, esses, os artistas, montam corcéis fantásticos, produtos fenomenais do desespero do coito sádico de rebeldes brutos nervosos com a luxúria em cio das lindas fêmeas de alta cotação nos turfs. Desse hibridismo satânico de forças — cópulas horríveis, doloridas e sangrentas, em que range e se desloca a ossatura das ancas nos paroxismos do desejo lúbrico e varrem entranhas apunhalantes relinchos de gozo estupendo, nascem os monstros insofridos e estéticos que levam, destino em fora, em tormentos incontados e resfôlegos de febre, os nobres eleitos do Sofrimento e da Dor. .. . Byron passou, à rédea abandonada, na sela de coldres dum árabe nitrente — upa! upa! — galope feito pela noite maldita dos Sabats. .. .

e Baudelaire cavalgou, no aplomb dum estranho príncipe satânico, elegante e cruel, o dorso luzente de indomável poldro azeviche, de grandes clinas flutuantes, revoltas como labaredas negras dum inferno de trevas, que mastigava, raivoso, alucinado, o brunido aço dos freios entre ensangientados flocos espumosos, abundantes e espessos, espojando-se no solo, nos extravasos do rancor e pelo delírio dos pinchos, em florescências perversas que ainda borbulham, que ainda seduzem e envenenam como amorfófalas lúgubres.

A gente burguesa, todo o mundo pacato e bovino, os simples e os bons, a imbecilidade e a hipocrisia, atravessa a Vida sobre burregos pacíficos, de marcha rebolante e certa, batendo os cascos monotonamente, espanejando as ancas, frascariamente, caminho afora, caminho além. .. .

E ele devia vir ao dorso de uma alimária pérfida, tinta de uma cor cinzenta e suja, abjeta, asquerosa, como um parasita imundo de casa deserta: um rato funâmbulo, esconso e trôpego, que treme pela podridão o nevrosismo macabresco de uma coréia, faminto e caquético. Ele o percebia. A besta o levava ridiculamente, tresloucadamente por silvedos e escarpas, às tontas, aos encontrões, ferindo-o, supliciando-o. E para onde ia? .. .. Que desejo, agora, de saber do seu destino, de antever o seu poiso? Nunca o teve tão aguçante. .. .

Desencasulara-se d'adolescência sem percebê-la. Tudo quanto lhe ficara na memória constava de impressões dispersas, fragmentos interessados do seu pessoalismo que luziam, por momentos, com um leve entreabrir de pequeninas bocas inocentes para sorrisos de sonhos. E só! .. .. Só! Nenhuma direção, nenhuma prova consciente de destino. Saíra de uma idade para outra idade pela invariável sucessão do tempo.

E que mais? .. .. Os corsários zarpavam ao acaso, entretanto, nos grandes silêncios dos bravos mares, entrando a mainar para a manobra do aparelho, não perdiam a rota, e quando era preciso retroceder, para fugir à caça do cruzeiro implacável, a agulha indicava o rumo a seguir. Ele sabia nadar em terra firme.

Um alastrante desamor pela vida começava a dominá-lo, arrastando-o para a indiferença dos repudiados — desapego de mendigo que vai de terra em terra, sem afetos, sem nome, implorando às portas a lamúria decorada do poiso, por noite alta, e entra sob a desconfiança dos piedosos para, ao clarear de outro dia, partir em seguimento de outra desconfiança. .. . Até ali levara a esperar. .. . uma cousa indeterminada, indefinível. O acaso, afinal! .. ..

. .. .Que vinha ele fazer na vida sem uma profissão, sem um apoio, sem um rumo, desencontrando-se de todos, em conflito com tudo? Por toda a parte, a mesma, sempre a mesma irreconciliabilidade: na família, na sociedade, na sua própria existência íntima da razão com a espontaneidade de seus atos, surgia o antagonismo. Era a besta que o levava quem se incumbia da dispersão. Não tinha mais o exemplo do Zur? .. .. Esse, sobre todos, apertava-lhe o coração, comprimia-o como uma prensa supliciadora, porque nenhuma idéia lhe ocorria, nem de luta nem de salvamento. .. .

E ansiando, o espírito às cegas, perguntava-se: — Que iria fazer? .. .. — repetindo, repisando sempre o mesmo estribilho interrogativo: — Que iria fazer? .. ..

Uma pressão macia de braço tentou, cauteloso, o seu braço. Talvez o tentasse há mais tempo. Camilo olhou discretamente. Era a vizinha de banco, a de voz gemida e rouca.

Reparou-a de soslaio; teve de fingir atenção a um ponto oposto para notá-la melhor. Nada feia; um rostinho de costureira, clorótico, e olhos pequeninos, muito vivos, com dous pingos brilhantes de ardência no cristal negro das pupilas. Não o incomodava aquele contacto, ao contrário, trazia-lhe um bem-estar, uma certa felicidade de vida, amenizante, compensadora de todos os desgostos. Chegava a ser um lenitivo. Foi com cuidado que levou, muito de leve, o joelho ao alcance da pema da rapariga, que, sob o enfronho das vestes, tinha o acuso brando de um belo cachimbo recurvo. E deixou-se estar, afetando distração, com o joelho suspenso, à espera. Um solavanco do bonde pôs em contacto as duas pernas; instantes logo a rapariga encolheu-se, arisca. Camilo olhou-a: ela mordiscava os lábios, faiscando os dentinhos alvos e cravou os olhos para diante, muito cheios de severidade. Mas, a pressão do braço voltou, ainda mais longa e ainda mais convidativa. Era preciso certeza: forçou por sua vez o contacto, premiu o braço aninhador a mais, paulatinamente, a mais, e ele não fugia, ele ia-se ficando com a intumescência gelatinosa de suas carnes, provocando encostos, sensualizante, numa preguiça compressiva dos friorentos brutinhos domesticados. Ela queria-o, ela necessitava dele, e o chamava devagar, um pouco duvidosa, mas vencendo-o.

Todos na vida eram assim, iam para onde deviam ir, fatalmente, ajeitando-se, insinuando-se com a audácia vagarosa de fera pisando calma, pata por pata, na grimpa agulhenta de penhascos altos.

E era assim a vida! Definidade em tudo: atração, retenção, colocação.

Um lugar para cada qual. E o cavalo selvagem que ele, havia pouco, idealizara, reduzia-se a uma imagem chata, desmoralizadoramente romântica. .. . Ah!

pobre dele! Que era senão um sentimental, atormentado e jogado na existência pela crueldade do seu organismo, pela fraqueza do seu espírito? .. ..

Já não era a pressão suave daquele braço que o desviava do acabrunhamento mórbido; agora, havia-se-lhe ajuntado ao corpo a comunicabilidade sensual da perna, de uma perna roliça, túmida, muito ofertante de gozo, tão deliciosa, tão cômoda, tão boa, como uma almofada de paina, feita entre cuidados piedosos de entes bem-queridos, para o descanso de um pobre corpo enfermo. Ela vinha-o domando com tanta perícia, com tanta inteligência distribuidora de sensações que se lhe esvaziava o cérebro, amolentado de nervos, entregue quase a um suspiroso torpor de volúpia.

E este pedaço de corpo quente, rígido no torno da coxa, afofado, macio no volume cheio da nádega, a fantasia lho desnudava, punha-o nu, completamente nu, com a sua palidez suavíssima de um velho biscuit muito delicado.

E demorou-se a reparar o rostinho da rapariga, cheio, gorduchito, mas de um triste branco-bístreo, laivos de insônias e de febre, que o negro do olhar vivificava um pouco com claridades aflitivas de desejos.

Sobre o baixo arrumo dos cabelos, a mantilha espanhola de renda preta descia ao pescoço afagando-o, fazendo valer, sob o destaque do emolduramento, a meia-tinta branca das faces; busto arqueado, compresso pelo vestido também negro, de fazenda reles, e em ofegos lentos que levantavam cadencialmente o pequeno tufo dos peitos, adivinhados em dous pomos transbordantes da borda vaseada" do colete pontiagudo sobre uma barriga flácida de mulher cansada. Ela inteira, ela toda, lhe encheu o instinto, palpitou dentro dele num alarma carnal de abraços bruscos e beijos estonteados.

E teve um temor obscuro, incompreensível, de que não poderia agarrála para a satisfação da sua animalidade: "Ora, covardia! .. .. Ela se lhe entregava. .. . Mas, onde possuí-la? .. .. como lhe agradecer? .. .."

O bonde parou com um ringido áspero de break aperrado. Tinha chegado ao ponto. Camilo desceu e após a rapariga, que safou-se num salto, lesta e firme, castanholando os tacões pela rua acima. Tentou segui-la. Mas. .. . para quê? .. .. E diminuiu os passos: depois abalou, caminho além, na sua marcha certa e derreada de homem sem chanças na vida. Nenhuma comoção. Frio, frio, sempre frio, indo pela existência errante e insensível como um monstro nas alvíssimas paragens boreais, à luz cineral de uma lua merencória e trágica, toda empalidecida e trêmula à neve eterna. Ah! isso é que ele era? Engano.

Nem monstro nem indiferente, apenas um tímido, um delicado e imaginário oposto à corrente bravia da Multidão. Eternamente a persegui-lo, eternamente a devorá-lo essa superexcitada existência dupla do seu Eu, desdobrando-se em si próprio numa voraz insaciabilidade de mais viver, sofrendo mais. Chegava a ver grande, a ver fantástico onde só havia pequenez e vulgarismos, e era de todas essas insignificâncias que se formavam as suas dores tentaculadas, os seus desesperos cortantes, que o iam minando, dia passado, dia presente, como uma moléstia secreta e endérmica.

Por que não nascera como todo o mundo, indo lisamente, escorregadiamente de uma inconsciência para outra inconsciência, gozando de tudo e nada sentindo?

E ao levantar o olhar, já nem vestígios havia daquela rapariga, nem o seu corpo rebolante e esculpido no artificialismo da roilette, nem o castanholar provocador dos seus tacões. Vazio. Rua deserta e, de quando por quando, os esguios lampiões negros, chamejando muito amarelos, muito tristes, num contido sono de vigílias de todas as noites.

"Quanta dor, quanto revolver de feridas traumáticas, num encontro inú- À til, caso de todos os dias, acidente de todos os momentos? .. .. Ia-se palmilhando a calçada sem atentar aos passos, subindo a rua, num desejo de ir longe, de ir muito longe, ignorando o destino, ao termo da terra imensa que o cercava.

"Nasceu para isso, para ser um condenado ao acaso, um estigmatizado da dor, filtrando os males que outros sofreram, de que outros se saturaram, e que vinham fazer dele um pobre irresponsável etiológico das diátesis remotas que transmitiram ao seu sangue nos minutos fartos d'animalidade procriadora. .. .

E esses desgraçados têm alguma cousa de alucinante obscuridade duma fantasmagoria, que ainda não foi contada: esquife negro, perdido nas vagas de um naufrágio; boiando à sorte, ora levantado, sacudido no espaço sobre o dorso espumarento dos cachopos que se encurvam e rugem; ora submergido na queda roncadora das águas, abraçado, retido pela massa raivosa dos vagalhões, ou levado no embalo cadenciado das ondas, fechado, fantástico, misterioso, à luz dourada dos sóis, sob o azul tranquilo dos dias; à prata luminosa dos luares, sob o ciânico claro das noites; ou como um monstro estranho vagando, sem vida, cetáceo ressupino, faixeado de listrões fulvos, na rarefação das trevas, por onde escorre a escuma despegada das ardentias após a leva crescente das vagas, e sempre, e eternamente, e indefinidamente boiando de plaga em plaga, recusado por todas as ondas, repelido por todas as Costas. .. .

"Que fazer? Sempre o conflito da vida, sempre o mesmo desespero. .. .

Ora, para que rasgar o coração! .. .."

E teve um grande silêncio mental, como se a alma se recolhesse, muito pequena e medrosa, ao isolamento mais obscuro do seu âmago.

Apenas, a sua marcha certa cantava na rua, lembrando aos que se recolheram ao quente conforto dos lares, que alguém ainda vivia lá fora. .. .. .. .. .. .e ia passando.

Ê

1/1
Menu

Fazer anotação