Capítulo III Mocidade Morta · Capítulo 3 de 19
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Capítulo III

III

No dia seguinte Agrário notou em fronteira janela do primeiro andar, no quadrado mural que formava a área, a cabeça loira de uma rapariga, traços delgados de adolescência num rosto fresco e sadio de brejeira, rosiclareado da graça petulantemente moderna das galantes decorações de boudoir, onde luziam célicas lentilhas de olhos tentadores. Ouvira-a cantar e, num salto, correu logo à janela.

— Hein! .. .. Ó Melo Castro! temos canário belga?

— Sim, às vezes, quando não é rouxinol.

O primo contou-lhe por miúdo a impressão que a rapariga lhe causara, desde que para ali viera. Mas, até aquele dia, ele nada conseguira, nem mesmo um olhar de frente e franco!

— E que espécie de diabo é a caborine? Solteira, casada. .. .

— Não sei, o que hoje posso afirmar é que é francesa e vive com um cambista de teatro. — E ficaram nisso.

Dias depois Agrário tinha conseguido com um xilógrafo, o Antônio Forjaz, a salvadora encomenda de ilustrações para uma edição de luxo, e por este socorro pôde coibir os excessos da sua "miséria". Para adiantar a encomenda e cobrir as antecipações de quantias a crédito, encarcerava-se no quarto doze horas contadas, de sol, com as pranchetas gessadas, e de quando em vez sacudia os ombros, acendia o cigarrilho. .. . "À janela, para arejar, para sanear os músculos. Írribus!"

A loirita quase sempre lá estava sentada junto ao peitoril, a ler brochuras ou a trançar crivos de crochet, e tantos pigarros o artista esburgava, tantos rondós e coplas ensaiava a meia voz, que os esmaltes azuis dos olhos dela rolavam, lentamente, para cima, a notá-lo num rápido segundo.

— Sabes? .. .. — disse ele a Camilo — encontrei a minha Musa.

— Deveras?

— Vem cá. Olha pr'ali.

A rapariga volvera, neste momento, a cabeça para o alto; ao dar com os olhos nos rapazes, que a fixavam, enrubesceu, abaixou as pálpebras, susceptibilizada.

— Linda! — exclamou Camilo.

— Deliciosa! — gritou Agrário.

O grupo também apinhava-se na janela, escandalosamente, a prestarlhe cortesias de adoração porfiada e as palestras rebeldes, os planos reformadores, as metafóricas virulências políticas, desgarravam para as tolices do galanteio. Mas, por uma ocasião, Melo Castro encontrando o quarto em desordem, revolvidos os lençóis, escarrado o soalho, indignou-se, arrebatado por violências de temperamento, a recriminar o pintor.

Com habilidade e subterfúgios Agrário foi arredando os companheiros e, por último, apenas Camilo tinha entrada na mansarda do guarda-livros.

Melhor, entretanto, fora para o pintor o enérgico protesto do primo, porque não tinha concorrentes no requesto àquela cabecinha d' elegância loira, e como Camilo era um rival pouco receiável por sua excessiva timidez, Agrário repartia com ele, confiadamente, o balcão do peitoril. Aos poucos os dous conseguiram dominar a atenção da vizinha.

Ela já os olhava sem rubores e melindres, como uma favorita ociosa que se diverte, ao mormaço da canícula, no jardim do harém, com os pinchos cômicos dos seus macacos enjaulados. Achava-lhes graça, ria-se, abrindo o esplendor da sua boquinha carminada e polpuda, magnificamente armada das serrilhas brancas de seus dentes certos e finos. A franqueza do sorriso licenciou o arremesso dos dichotes:

— Mademoiselle. .. . um pouco de cançoneta, dois trinadozinhos. .. . — pedia-lhe Agrário.

E ela, com todo o encanto da sua boca desejosa, a rir:

— Zul! .. .. — fazia, retirando-se. Um pedaço de chita vermelha, com ramagens verde-malva, desbotada de uso, caía sobre a largura da janela, fechando-a discretamente.

Com a distração da francesinha as queixas de Agrário adormeciam, enroscavam-se no fundo de sua alma numa preguiça de serpente enervada por batidas pelo sertão; despegou-se-lhe da susceptibilidade o visgo corrosivo da injustiça sofrida e quase perdeu o hábito de injuriar os julgadores do seu concurso. Aninhava-se agora, em uma morbideza tépida de namoro, esquecido da miséria. Também, por este tempo, a vizinha loira ganhara cristalinidades finíssimas nas cordas vocais; de manhã à noite, a área da Pension Beaumont parecia um irrigado aviário ao bendito sol dos dias azuis. À sua voz ridente trinava, pizzicateava num doudejamento de regozijos, que iam enchendo aquele espaço intermuros com alacridades colibrinescas de sons, qual mais rútilo, irisado e tremelicor, tal se esvoaçassem em frenesis d'alegrias. O cambista jornadeava por São Paulo, e livre ela exultava como um pássaro livre; a su'alma subia, alvorotadamente, a fazer dessa láctea garganta d'estátua a torre branca de suas festividades sonorizadas. Agrário vibrava com a sensibilidade de um diapasão às cançonetas que lhe ouvia, todo ele estremecia eletrizado por essa música imprevista de passaredo em fronde de estio; esquecia os óculos caricatos do Comendador Betâmio, a mão seca do Comendador Nogueira e olvidando entusiasmos da profissão, projetos de luta, presunções de vitória, deixava-se escorregar por uma macia volúpia de namoro, langoroso e fútil. Entrara, sem consciência, no período das esculcas cupidíneas, que reduzem os amantes a capros farejadores ao encalço de Aretusas fugitivas. Ao sair da mansarda, pela manhã, descia ao corredor do primeiro andar, ganhava-lhe o lado direito onde ficava o aposento da rapariga, a esquadrinhar o recato desse interior, pressentindo o flagrante duma imprevidência, o resquício indiscreto de porta malfechada. .. . E tanto persistiu que, por um radiante levantar de sol, às sete horas, encontrou a porta imprudentemente aberta. A francesinha, numa agitação laboriosa de formiga, cuidava da sua morada. Agrário teve um deslumbramento diante dela, tão encantadora lhe pareceu! Estava garrida com o seu avental de musselina, alfinetado nos bordos do colete; a louçania da sua pele, onde esparsos mordiscos de sarda esmaeciam, tinha o quer que fosse da volatilização aromal de uma flor mádida; sua boca resplandecia numa carícia infantil, ao mesmo tempo desafiando o apetite carnal de beijos pelo sangúíneo do polpo talhado em arco caprichoso, pelo recorte das comissuras onde luciolavam esmaltes foscos de pérolas; e as lentilhas celíneas de seus olhos davam, pela fluidez, a sensação confortante de um firmamento de gozos por uma calma campestre na estação dos viços. Um pequenino espanador moviase ativamente na sua mão pálida, de compridos dedos lisos, um pouco espatulados, com esmeros de polimento no cone gracioso das unhas.

Agrário curvou-se, afetado, numa cortesia audaciosa, a que ela respondeu com um sorriso de aquiescência.

A partir daí, às mesmas horas, o pintor descia a cumprimentar a vizinha:

e, pela continuação da "casualidade" entraram em palestras, em começo, tímidas, monossilábicas, com pausas embaraçadas de idéias confusas, mas bem cedo familiarizadas, não já da porta para o corredor e sim sob o mesmo teto, entre as paredes desse quarto vasto, cuidadosamente arrumado, com os seus velhos móveis dispostos em aparato e disfarces de camarins de tablado.

Melo Castro mordia os lábios percebendo a habilidade conquistadora do primo, mascarava o despeito, perguntava, fingindo indiferença d'esfalfo:

— Então, com vamos de caça?

E Agrário para empirraçá-lo:

— Chumbada, meu caro; está'li, está neste buchinho que Deus nosso Senhor me deu.

Melo Castro ria nervoso, desabafava em berreiro, que supunha árias, o rancor da preterição, e quando, raramente, apanhava Camilo na mansarda, desandava em descomposturas obscenas contra as francesas, em execrações aos artistas. Camilo percebia-o, compreendia o latejar desse orgulho ferido;

então, para gozar dessa pulhice contrariada, envenenava-lhe o ciúme concordando com suas opiniões, a que acrescentava detalhes deprimentes à moral e ao espírito femininos, d'envolta com paradoxos comprobativos da injusta superioridade dos artistas em questões de amor. Intimamente, Camilo, também tinha "uma impressão" da rapariga, de quem já sabiam o nome, chamava-se Henriette (e isto foi uma jubilosa novidade de Agrário), mas as suas preocupações literárias, os trabalhos de imprensa, a sua dissipadora vida noturna de brasserie com o Colaço, impediam-no de se absorver neste desejo. E era ele quem acordava o amigo:

— Olha, tu te inutilizas com esta morrinha!

Mas Agrário protestava que não, que aquilo era um passatempo, um motivo para sua arte, nada mais.

— Amanhã só me restará disso uma Iembrança pálida, um vago de sépia num cartão bolorento.

— Pois sim! — duvidava Camilo e volvia à sua idéia fixa de revolta, animava o amigo, inflamava-o com os triunfos do seu futuro: — Termina estas pranchetas que é tempo de começares os teus estudos de arte séria. Eu te quero ver pasmando este povo, provocando ciúmes à velha Europa. .. .

E, duma feita, soprando o fumo do cigarrilho, cuja cinza ele quebrava com a unha crescida do mínimo nodoso:

— Por que não fazemos uma reunião definitiva de todos os que querem resistir à contagiosa estupidez do nosso meio social? Combinando, agremiando, poderíamos formar uma oposição vitoriosa, fundaríamos ateliers livres, teríamos exposições independentes, em suma, seríamos uma corporação vivendo vida própria, exercendo uma profissão.

— Magnífica idéia! — concordava Agrário. — Até poderíamos realizá-la já.

— Certo que sim. Fala aos teus colegas, aos teus companheiros. .. . Arranja-se com o Forjaz o atelier de gravura para começarmos os trabalhos.

Depois virão os apoios, as proteções. Isso só depende de uma boa cabeça.

Agrário refletia nesta probabilidade. Realmente, a idéia parecia-lhe aproveitável. O principal seria se agremiarem porque, depois, apareceriam os protetores, os contribuintes, talvez pudesse ele encontrar outra dedicação, um amador endinheirado e generoso, que o mandasse à Europa! .. .. E, à noite, no seu fato novo, uma gravata clara tufando sob as pontas curvadas do colarinho, safa para expor aos companheiros o "seu plano, a idéia que tivera". Gesticulava em meio do lajedo ouvidoriano, diante dos rapazes atentos ou, num portal, copiando "poses" de figurinhas de Jean Béraud"", segredava a algum pintor excluído do protecionismo oficial a utilidade do "seu projeto".

E passava dous, três dias, sem mais pensar no caso, toda a sua vontade enrodilhada, apagada, envolvida neste deleitoso namoro que lhe trazia os calefrios e sobressaltos dos primeiros impulsos da virilidade.

Num princípio de mês, pela calma da sesta, estava ele desenhando, quando bateram à porta. Foram três pancadinhas de dedos, pareciam de mão feminina. Ergueu-se sobressaltado, vestiu às pressas o paletó e abriu.

Era o Julião Vilela, um belo tipo de artista de romance, com a sua negra barba de nazareno num rosto pálido, de olhos árabes.

Vinha vencido. Deixou-se cair sobre uma cadeira, desoladamente, a cartola atirada para a nuca, um embrulho de pincéis apertado na mão nervosa.

— Que há? — perguntou-lhe Agrário, a preparar o cigarro, muito devagar, ainda resfriado da desilusão recebida.

— Estou a arder! .. .. — disse ele. — Aqueles casmurros d' Academia aceitaram a paisagem do Feliciano, uma bota, como sabes, e com o resto da verba compraram o quadrinho do Benedito.

Agrário acendeu o cigarro, pachorrento, indiferente, num gesto entediado jogou fora o fósforo pela janela, perguntou-lhe depois, com fleugma:

—. .. De sorte que a tua Aparição de Beatriz. .. .

— Recusada — suspirou Julião.

Calaram-se. Durante segundos o recusado esteve a tamborilhar com o maço de pincéis sobre a quina da mesa, a pensar, abatido; mas, num arranco, com lágrimas na voz:

— A minha vontade era fazer uma fogueira de todos os meus quadros. .. .

Isto não é terra! .. .. não é país! .. ..

Os seus grandes olhos orientais volveram-se para o espaço livre da janela escancarada, fixando o azul brilhante da manhã; uma ruga repuxava-lhe a boca, amargamente.

— Mas, tu tens boas amizades. .. . — disse Agrário, encorajando-o. — Tens um padrinho riquíssimo e considerado, que te valerá. Quem me dera o mesmo! .. ..

— Sim, ainda me resta este recurso. O caso, porém, é outro; quiseram humilhar-me, quiseram ferir-me dando preferência ao Feliciano. .. .Ao Feliciano!

um brochador que ainda pinta com verde inglês puro e usa noir d'ivoire nas sombras! .. .. Isto é para enlouquecer um homem.

Ergueu-se, foi até uma das paredes onde estavam penduradas algumas pequenas telas, duas tabuazinhas d'impressão. Revistou-as atentamente. Entre elas ficara um esboço seu, maior que uma destra aberta, pouco mais largo, O bastante para conter a redução de uma cabeça chorosa de Desdêmona, esbatida no fundo intacto da tela: lembrança dum dulçuroso oval macilento onde pupilas noturnas tinham reflexos magoados de roxo mortuário. Desviou o olhar, mas automáticos, irresistíveis, seus olhos volveram à contemplação daquele croquis antigo, avivando-lhe a reminiscência. .. . Uma época quase indeterminada, resíduo apenas de um fato cinerado na melancolia das separações bruscas, o trêmulo final de um amor desfeito entre pedaços de negativo bilhete amuado. .. . Cousas remotas. .. . Penugens esvoaçantes. .. . Nada. .. .

E voltando-se para o companheiro:

— Já viu você desaforo igual? Quatro contos-de-réis por aquela paisagem! Quatro contos! .. ..

O companheiro mascou um risinho mau, sob um frago de fumaça, e batendo no ombro dele com a ponta dos dedos:

— Lamúrias. Deixa-te disso, arranjarás o duplo do preço com o teu padrinho.

Julião ofendeu-se:

— Estás a dar com o meu padrinho, só com o meu padrinho! Que impertinência! .. .. Eu não estou a queixar-me da sorte, digo que é um desaforo o que fizeram comigo. .. . — E abriu a demonstrar a picardia que lhe era feita por saberem-no amigo de Telésforo, por acinte à sua independência de artista viajado, ileso do contágio d' Academia. .. .

Os seus argumentos escorriam aos borbotões, atropelados, inchados de orgulho, extravasantes de queixas, desprezos e dores. Agrário ouvia-o calado, no seu Íntimo uma inveja o inquietava e irritava, ao pensar nas venturas deste inteligente e benquisto colega, apadrinhado por um banqueiro, tendo-se feito na Europa, com frequência dos seus mais célebres Museus, recebido com continências por um legionário da Crítica parisiense, e empregando em móveis raros, estofos caros, bibelôs encantadores o bem cotado preço dos seus magníficos quadros. Esta decepção, de que se lastimava o Julião Vilela, tornou-se para ele, Agrário, um justo repelão da sorte, era um despique do acaso para estabelecer o equilíbrio das proporções. Então, para mortificá-lo, provando a incongruência do seu egoísmo, Agrário dardejou-lhe do despeito uma ervada censura ao seu exclusivismo. Julião oscilou com o zunir do reparo, estacou atônito, mas, recaindo em si, indagou do motivo da censura.

— Tem paciência — respondeu Agrário —, mas a verdade é esta. Se nós nos uníssemos, se fôssemos um por todos e todos por um, como eu sempre desejei, outra seria a nossa vida.

Aquecia-se no desabafo insolícito, tinha perdido a fleugma aparente e o cigarro escapara-se-lhe dos dedos no desabrimento de um gesto, porém, de assalto à mesa, tomou de um leque de papel, que abria, agitava em frente ao rosto ou fechava-o, fazendo dele batuta às frases:

— Esta é que é a verdade; nós nos deixamos vencer como lesmas. .. .

— Menos eu! — gritou Julião e pretendia por seu turno explicar, expor as suas desculpas, que o outro cortava irreverente e brusco:

— Espere, espere, senhor. Vamos aos fatos.

E puseram-se de face, a passos distantes, em repto. Agrário acometeu de leque em punho:

— Vamos aos fatos. Se vocês todos me dessem ouvidos já estaríamos em meio caminho, mas uns foram incapazes e fracos, outros orgulhosos e desleais. Ninguém me acompanhou, ninguém!

Julião quis interromper e ficou com o gesto frouxo, a palavra inarticulada.

— Espere, senhor, espere — opunha-se-lhe Agrário. — Dizia eu, ninguém me acompanhou. Eu — vamos aos fatos — no entanto rebelava-me contra a Academia, procurava realizar o meio prático de abafá-la, de aniquilála; fundaria ateliers livres e retiraria do ensino oficial os mais adiantados discípulos, despertaria a atenção do público para os nossos esforços com exposições anuais, levantaria a nossa profissão. .. . E em resposta o que tive? — O abandono, o desprezo, o mexerico irônico, a alcovitice mordaz. .. .

E calando-se, sufocado pelo tropel das acusações, que se confundiam no seu espírito, o colega protestou que nunca tivera notícias desses projetos, até aquele dia ignorava o que se pretendia.

— A mim nenhuma palavra me disse você.

— Porque não te encontrava, não havia quem me desse notícias tuas. O que sei é que há mais de um mês que procuro gente e estou só! .. ..

— Há um mês! diz você. .. . Em um mês que se poderá fazer? Isto é trabalho pra muito tempo, é caso pra muitos meses de canseiras. .. . — De relance, compreendera que não era para desprezar a agitação de um afouto.

Entrou a falar mansamente, a discorrer com calma sobre o que poderiam fazer, a esmerilhar as dificuldades e explanar os meios de reação. No seu consenso (e ele dizia confusamente, sem nitidez d'exposição mas sem obscuridau de) não havia bons elementos de fácil agremiação para esta tentativa. A salvação do meio artístico estava em Telésforo. Eles precisavam de um nome feito, de um mérito acolhido, porque tentar reformas sem o prestígio de um chefe era acender rebeldia de maltrapilhos. Não discordava de que, desde já, fossem opondo à ditadura dos atrasados as aspirações dos novos, porém, a título de preparo para uma conquista, para a realização de um ideal a que não falhasse critério.

Encostou-se à mesa, correu os dedos pelos papéis como à procura de idéias e concluiu:

— Se, realmente, você está disposto, se você quiser tratar desta questão com seriedade, conte comigo.

A voz fanhenta e monótona do colega, o brilho da luz que entrava pela janela, um recolhimento de paz que ameigava as cousas, a área silenciosa, a limpidez do ar, o azul das alturas, amorteceram as disposições hostis de Agrário. Devagar, num abandono, devagar, ele se foi esquecendo das felicidades do Julião, dos planos de revolta e volvendo-se, mentaimente, para uma cabecinha loura, de rosto róseo de adolescente, duas misteriosas, microscópicas ninféias cor do céu, boiando em pequeninos lagos lactescentes, coalhados de lírios. .. . E, de repente, pusera-se a assoviar uma valsa habitualmente ouvida à boca sonora de Henriette.

— Que linda valsal. .. . hein? .. .. Ah! se a ouvisses cantar por quem eu conheço! .. ..

E o Julião, empolgado por seus pensamentos, distraidamente:

— Não há dúvida, pode-se-lhe dar um bom impulso. .. .

— O quê? .. .. à valsa? — perguntou Agrário.

— Não, homem! ao teu projeto — Julião emendou frenético, áspero e aborrecido, estendendo-lhe a mão num gesto de desalento: — E vou andando. .. . Se quiseres é prevenir-me. Deixa-me recado no Moncada, ou com o Forjaz.

— Está feito. Até quando?

— Homessa! você é quem deve marcar o dia. Até quando se realizar cousa séria.

Afastou-se, mas Agrário fê-lo parar ao fundo do corredor.

— Escuta isto.

E de novo voltou à valsa, balouçando o corpo em ritmo de dança, sacudindo desesperadamente o leque aberto.

Julião franziu a boca, enojado, e safou-se.

— Está bem. Adeus.

— Adieu, mon cher, adieu. .. .

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