Capítulo IV Mocidade Morta · Capítulo 4 de 19
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Capítulo IV

IV

— Ora bolas! — exclamou Agrário levantando os ombros. E desceu lentamente, raspando as solas pela escada íngreme do atelier xilográfico do gravador Forjaz, onde perdera duas horas impacientes em inútil espera dos companheiros. Após ele Camilo Prado descia, também calado, degrau por degrau, rufando os dedos no corrimão, o gríseo olhar sumido numa concentração de tédio que lhe repuxava a mais o lábio desdenhoso e túmido.

Ficaram por instantes sem resolução, estacados na calçada. O dia estava quente, a luz causticava como em verão. O ar, abafadiço de pó, cintilava numa limalha volátil d'aço que empardecia, com laivos violáceos, as distâncias, e pesados carroções rodavam com estrondo.

Depois abalaram em silêncio.

Quando chegaram, pela ruela Uruguaiana, à porta d'Havanesa, lá encontraram um pequeno bando de Insubmissos. Braguinha presidia-o contando fabulosas histórias de músico genial.

Em torno dele, na sonolência displicente da vadiagem, lazzaronismo bocejante que obriga ao recosto desmazelado de portais, ouviam-no desatentos, a notar os transeuntes, o Sabino, o Franklin e o gorduchito Vieira que parara para descansar da sua roda-viva de cobrador e artista, cada vez mais queixoso da sorte, que lhe dera quatro filhos!

À chegada dos dous trocaram-se apertos de mão, abraços, arremessos esgrimadores de índice na vergonha encolhida de ventres dispépticos, confusa e alegremente. Vieira salvou em tempo o seu abdômen, que era o único possuidor de farturas abadescas. Mas Agrário expectorou logo:

— Duas horas d'espera! .. .. — e afinal encontrava os biltres na vagabundagem da Rua d'Ouvidor! .. ..

Cuspinhou injúrias contra todos, em reviravoltas e meneios de chique, afetando desembaraços pelintras. Os rapazes riam, protestando ignorância do prazo dado. .. . que eles não tiveram aviso. .. . nem sabiam de resoluções de última hora. .. .

E por momentos, tirotearam réplica e tréplica. Por fim a exibição duma pecadora profissional veio suspender hostilidades. Abriram alas. Ela passou Ô num escândalo de cores ruidosas, sob o bravo cruzar de desejos e o estalo debochativo de uma laracha de Agrário. Era uma mulheraça trigueira, rebolante, e peralta. Em cada boca crispou-se a concupiscência de uma interjectiva, bem depressa mudada em dichotes e agudos comentários. .. . E exalações erradias d'essências mistas, opopônax e heliótropos, evolaram-se com perturbações instantâneas dum desafio ao gozo.

Cafía a hora bizarra. A rua acanhada e feia, na sua diurna agitação de preferida, tinha o aspecto variegado e promíscuo de uma pochade impressionista de feira, em domingo. O rumor dos cafés onde filarmônicas esganiçavam pelas requintas e violinos, a parlenda das calçadas, reverberavam no ar toldado e verânico, pesado de luz, insuportável pelo rumorejo meridional dessa estreiteza deleixada de vala, num formilhar contínuo.

O Sebastião Pita, um pobre artista, que cristalizava a sua mania de pintor histórico em ambições de irrealizável sucesso, chegou-se ao grupo. Trazia um enorme embrulho chato debaixo do braço, aconchegado ao corpo.

— Que geringonça é esta, ó Pita? — perguntou Agrário, batendo no embrulho.

Sebastião Pita esgueirou o corpo, à capadócio, salvando a sua carga da pancada indiscreta dos companheiros e com os miúdos olhos garços, estrábicos d'atonia fixadora das visões, parados indefinidamente, teve um murmúrio desconsolado, mais gemido que voz, arrancado dos recessos ulcerados pelas desilusões:

— É a Partida de Colombo. .. .

Os rapazes entrº'olharam-se; sorrisos compassivos frisaram, rápidos, brancuras sardônicas de caninos terríveis.

A febre maníaca começava a sua fase prodrômica. O desgraçado ganhava, aos poucos, essa feição goche das celebridades tristes, levando a sua tela

— um delírio de tintas cruas numa concepção delirante — em peregrinagem dolorida de galeria em galeria, rejeitada sempre por necessidade d'espaço, preterida por outras telas, expulsa pelo prejuízo das molduras, e, agora, que todas as casas de quadros lha recusavam, ele a conduzia ao mostrador de um tintureiro, a quem fora pedir o piedoso obséquio de expô-la.

Havia três anos que persiístia na mesma luta, cabeçudo, tenaz, resolvido a seguir ao encontro do seu sonho, que ia nevando prematuramente a sua cabeça, a sua farta, inteira barba castanha pela tardança do imaginado sucesso.

Então Camilo, para distrair os companheiros da presença lastimosa do alucinado, pôs-se a ridicularizar os transeuntes:

— Olhem vocês aquele desgraçado que ali está.

Um esgrouviado de sobrecasaca, vergado em arco, empoeirado, caspento, tinha parado defronte de uma vitrine. No seu olhar morno havia uma resignação servil de invejas contidas. Olhou, olhou e afinal, foi-se tristemente, todo fúnebre na sua roupa preta coçada de uso, o guarda-chuva sob o braço e um embrulhinho de padaria pendente do dedo.

— Vêem? Aquilo deve ser funcionário público. .. . O único ideal daquele cérebro é, sem dúvida, o dia d'aposentadoria. .. . para ir esgravatar o nariz comendo os cobres do Estado. .. . E ainda vocês pensam em Arte com um povo deste estofo! .. ..

Sebastião Pita arregalou os olhos para Camilo: a fosforescência de uma desconfiança relampejou no seu espírito; e sem se despedir, escamugiu-se pela rua abaixo, muito seguro à sua Partida de Colombo, no sovaco, aconchegada, estreitada ao corpo.

Já estavam habituados a essas partidas bruscas e inopinas desconfianças do pobre rapaz. Unicamente o Braguinha notou-a, achando-o "ainda mais maluco" e, endireitando o pince-nez, concluía, informando — que tivera um parente assim, um gênio musical, que tantas injustiças sofrera, tantas! que um dia acordara doudo, doudo furioso. .. . e subira pela corrente de alarme do sino de S. Francisco. Fora um pavor! O sino badalava, chamando bombas, o povo corria aturdido, e ele lá em cima, agarrado à corrente, esperneando, aos berros! .. ..

Fora um pavor!

— Onde leste isto, Braguinha? — perguntou o Artur de Almeida, aproximando-se do grupo.

Braguinha rodopiou furioso, espalmou a mão esquelética na carcaça, para sagrar o que afirmava:

— Juro que é fato, juro! .. ..

E Agrário, com intenção de indigná-lo:

— Eu também li um caso assim; não sei onde, mas eu li. .. .

— Ah! — saltou o músico, triunfantemente — pois não, o caso saiu nos jornais, ora esta! saiu nos jornais.

— Nada. Eu li isto, mas foi em romance. .. .

Com um movimento de ombros Braguinha desdenhou da confissão do rapaz, e, para terminar a discussão em proveito seu, falou em cerveja: Uma cervejinha àquela hora estava a pedir louvores. .. . — Sento una forza indomita! Concordaram com a força e com a cerveja, mas havia pouco dinheiro.

Sabino, calado até então, disse que para não "fazer feio" podiam ir a um lugar modesto, uma venda próxima. Foi aceite o alvitre. Partiram para a taverna e Agrário, que se orgulhava de fraco bebedor, tomou-lhes a testa do percurso, admiravelmente disposto a uma rapaziada. "E que lhe não torcessem o nariz em desconfiança. .. . esta é que era a nora da mocidade rebelde. .. . arremedavam com isso a boêmia de Paris. .. . Ah! bela boêmia do Quartier Latin! .. ..

"Sim, ela devia ser louca, desregrada, a embriagar-se pelas brasseries e bodegas."

E entraram, ruidosamente, para os fundos da taverna, numa saleta escura, bolorenta, saturada de morrinha de barris velhos e caixas empilhadas de gêneros exportados. Em uma das pequenas mesas foram encontrar o raquítico Sousa e o Alves Pena, um refinado boêmio, que trazia a fama tradicional de haver levado à casa, pelas madrugadas difusas das bebedeiras, o falecido Rupp, um artista alemão, valente emborcador de chopes e bravo fusainista. Alves Pena cumprimentou-os com um aplomb de velho "campeão jamais vencido"

curvando, de leve, a grande cabeça calva, luminosa como uma esfera de faiança branca; e, impassível às exclamações de Camilo e às palmadas que Agrário lhe dava nos ombros, abriu a boca quilotada, em cujo canto pendia, esquecida, uma ponta sarrenta de cigarro, para lhes oferecer um cálix de. .. . parati.

Disse, apontando com gesto iterativo e firme o cálix de cristal, postado diante dele, sobre o mármore manchado da mesa.

Recusaram a generosa oferta, fazendo cenáculo numa mesa contígua.

Depressa a discussão rompeu franca sobre a necessidade de uma agremiação.

Agrário exaltava a urgência de realizá-la e aproveitou da oportunidade para se queixar do Julião Vilela — que o havia logrado miseravelmente. Falava-se alto, atalhando enunciados em começo, pontilhando pilhérias. O raquítico Sousa puxou a sua cadeira para a roda, porque a palestra o interessava, e ouvia, todo curvado, com o seu álbum sobre o joelho, esfregando com a mão aberta o agudo queixo rapado. Só, impassível, indefectível, permanecia Alves Pena no seu lugar, sem gestos quase, a não ser o necessário para levar o cálix à boca, o que fazia com afetação, evidenciando a sua mão feminina, magnífica, de lisos dedos em fusel, e unhas ponteadas em amêndoas. Tremia-lhe um pouco essa preciosidade, uma impertinência de nervos aquecidos pelo álcool;

ele, porém, possuía a têmpera rígida dos cestóicos e, para provar aos seus irrequietos nervos o desprezo em que tinha esses prenúncios mórbidos, antes de bebericar do seu cálix, preparava a boca quilotada para o sabor da aguardente, levantando do lábio o negro bigode escasso, cuspinhando de jacto a saliva amarelenta do contacto do esquecido cigarro. .. . e retirava-o, por momentos, completando todo o valor gustativo da bebida. Depois continuava na mesma postura, ouvindo também, dilatados os bugalhos nºapoplexia das pálpebras, o carão flácido e anêmico guachado de barba rala, dominado pelo grosso nariz colorido, e toda uma concentração febril na imutabilidade fisionômica.

Ninguém, ao certo, sabia o que ele era. Às vezes, em períodos sentimentais da embriaguez, quando o álcool derramava-lhe no cérebro azuladas delicadezas de saudades remotas, Alves Pena discorria sobre o seu passado, narrando felicidades de infância rósea, na varanda ladrilhada de uma casa rica, ou perdidos anos de mocidade acadêmica, no velho mosteiro de São Paulo. Não lhe pesava aos ombros idade longa, arrastava-se pelo declive dos trinta; mas, abusos orgíacos, libações báquicas, dias desvairados, tinham-no desbastado atrozmente, reduzido a suavidade moça de sua pele ao lixento aspecto de um zinco corroído pelo ácido sulfúrico, e o crânio, de dia a dia despido, ia reluzindo, reluzindo até chegar àquele polido de faiança branca e ameaçava ir a mais, completamente nu, tornar-se a calotte em miniatura de um túmulo árabe. O que todos sabiam era que ele amava os artistas, dedicavalhes uma humilde veneração de inferior, cercava-os de pequenos cuidados e solicitudes: levando um recado, realizando uma compra, prestando-se a conduzir os seus artistas a casa, horas mortas da noite, fosse pelo temor de ruas escuras e oblíquas nos cantos desertos da cidade, ou fosse por impossibilidade locomotora como acontecia ao falecido, ao valente Rupp.

Em recompensa dessa vassalagem idólatra pedia apenas. .. . níqueis e, uma vez por outra, na soleira de uma porta isolada, à mesa afastada de um café sem frequentadores, descarregava sobre o seu artista um soneto original, A Desgraça, o único que conseguira arrancar à laborosidade imaginativa da sua grande cabeça, e que já saía descorado da ênfase primitiva da sua construção gongórica pelas paralisias súbitas da memória caquética, estrebuchante.

Os rapazes discutiam mais forte. Precipitavam-se, às vezes, num sarilhar de braços em gesticulação nervosa, como um clássico bando de bravi conspiradores, lâminas estendidas, altercando vinganças sobre o bloco sagrado dos sepuleros, no final trevoso d'ópera guerreira. Camilo, a pretexto de que necessitavam de mais cerveja, correra ao escritório da Folha. Fora arranjar cobres. Agrário, conseguindo dominar a confusão, volveu, calmo, refletido, ao seu fito — "escangalhar a Academia". E explicava:

— Eu quero gente que não retroceda; gente firme, capaz de amarrar uma lata à sobrecasaca do Comendador Nogueira. Saibam vocês. .. . Isto é o que eu quero! .. .. — esguelhava-se, levantando o pulso armado em murro, com uma carantonha odienta, em que os dentes rilhados tinham rebrilhos ferozes de fauces.

Em derredor apoiavam:

— Muito bem, muito bem.

O Sabino meneiou a cabeça concordantemente e ficou-se direito, a fitar o companheiro, espreitando-lhe as palavras. Na mesa próxima a calva do Alves Pena oscilou, lenta, como um caquemono, e o Franklin, de perna trançada, dobrado sobre o joelho, martirizava devagar os pêlos anunciadores do buço, errando o olhar cerúleo e fundo pelas rumas de caixotes etiquetados a fogo, aparatosos de grand prix, exposition universelle, medaille d'or. .. .

E Agrário emborcando a cerveja:

— Chegou, enfim, o nosso dia! Venceremos, ainda que se nos reduzam a esmolar o pão e o teto; ainda que tenhamos de comparecer no Tribunal do Júri, porque eu estou disposto até o crime. .. . Sim, até o crime! .. .. Ah! vocês pensam qu'eu hei de perdoar o que sofri? Estão enganados. Aqui estou a lutar pela vida, sem recursos, sem proteções, recebendo a esmola de um canto para dormir. .. . Isto há de ser descontado ponto por ponto, isto há de ser pago dia por dia com a vingança que premedito. .. .

Agrário, egoisticamente, só via o seu ódio, a satisfação de uma desforra, e, nesse desvairamento, misturava questões de Arte com interesses privados, embaralhava antipatias pessoais com processos d'escolas, ouvidos nas palestras de Camilo, sem tino, sem ordem, sem clareza, acordando apenas useiras rixas entre professores e alunos, despeitos de desejos irrealizados, pretensões de assomos inovadores contra obstinações sistemáticas do ensino, donde Tesultavam queixas íntimas, de cada qual, mas sem nenhum horizonte de ideais, sem uma luz de estrela polar, que os guiasse, norteando. .. . Vinham detalhes, surgiam fatos, e se amontoavam, se acumulavam, inutilmente, como fragmentação heterogênea de todas as cousas opostas, incombináveis e improcedentes, no desespero improdutivo de uma determinada função, na impossibilidade d' aproveitamento de uma especialidade. Artur de Almeida queixava-se de que uma elegante dama, de rara distinção, lhe aconselhara outra profissão, mais digna; o Sabino antevia em cada excelentíssimo acadêmico um aventasma? de preconceitos à serenidade de seus estudos; uma arte mística, subtilíssima, misteriosa, preocupava o Franklin, enquanto o aguarelista contentava-se com uma viagem à Europa, a expensas do governo, além de duas boas cartas de recomendação no bolso por causa da família, e o raquítico Sousa achava tudo conciliável desde que metessem alguns rapazes na direção dos cursos. .. . Babel crescia. E como ninguém se entendesse, e como ninguém acertasse com um trilho esmondado e liso para a Coerência, a galhofa estourou fremente dos disparates chocados, transtomando em chalrice as disposições iconoclastas dos rebeldes.

Braguinha, que se exasperava por não poder discutir, protestou contra uma questão de princípios aventada por Agrário:

— Neste ponto, meus caros, vocês devem partir de outro princípio, é questionarem tais assuntos longe de mim, porque em se me retirando da Mulher e da Música, só uma cousa me preocupa, é dar cabo dos credores. .. .

— Sim, hein? !. .. . — repostou Agrário. — Pois se estás incomodado, vá-tle. .. .

— Perdão, até hoje tenho sido simplesmente músico.

O trocadilho começou a estalar de boca em boca. Faziam-no famoso, de uma sensaboria fastiosa, às vezes de uma asnidade impenetrável. Quando Camilo Prado apareceu, triunfante, a bater no bolso da calça para inculcar abundância de pecúnia, houve quem dissesse que ele ficara viçoso com a Folha. .. . nova!

Camilo estacou, muito teatral:

— Uma condição. Aceitam? .. .. Quem fizer calembourg será expulso desta roda. .. .

E da sua imperturbabilidade o Alves Pena atirou:

— Assim não anda a roda!

Foi a primeira frase que havia dito até aquele momento. Ele próprio sorriu. A negrura profunda da sua boca quilotada escancarou bocados incertos de dentes deleixados.

Como a tarde começasse a descer, Sabino e Franklin se ergueram, o raquítico Sousa também partiu com o seu álbum sob o braço, uma debandada ameaçava o grupo pela aproximação da hora costumária das refeições. Camilo teve uma idéia — jantarem juntos; entretanto a maioria se esquivava ao convite com protestos plausíveis de comprometimentos e deveres; mesmo o Braguinha, sempre pronto para as boas pândegas, não podia aceitá-lo, e sacou o seu relógio de níquel a consultar horas nos ponteiros imóveis.

— Xi! muito tarde. Nada. Não tinha tempo a perder. — Ia-se raspando para a casa porque tinha de responder a uma carta do editor Ricordi, de Milão.

— Vocês conhecem? .. .. Adeus. Sento una forza indomita. Adeus rapaziada!

Rompeu, apressado, por entre os companheiros, calcando fortemente dous dedos sobre a mola do pince-nez. Enquanto, em silêncio, erecto de busto, Alves Pena se erguia, e lento, sem o menor vislumbre de resolução, metódico, indefectível, um novo cigarro grosso, queimando na cava do lábio, guardava o enxovalhado lenço, recompunha o zingaroso fato, dava sacudidelas e piparotes no sombrero enodoado, com a ponta dos dedos, os seus lindos dedos fuselados, papudinhos, de unhas ponteadas em amêndoas.

Depois, pronto, na linha inteiriça de um veterano, esperou com toda a calma que o levassem para o jantar ou. .. . para onde fossem.

Agrário acenou-lhe:

— Toca, Alves Pena, anda daí!

Iam saindo quando, com presteza de fuga, entrou o loiro Sforzani: "vinha tomar uma m. .. ., um paratizinho".

— E vocês, canalha, estavam aí no deboche, hein? !. .. .

Entornou o cálix, de um trago, com uma careta de nojo:

— Passal. .. . Entonce, o que há? .. ..

Agrário comunicou o que "pretendiam deliberar" e acrescentou que a cousa estava feita, dependia unicamente de acertar os termos. .. . era caso decidido.

— Pois acerta a futrica. E vocês já sabem, é comigo. .. . pra meter o pau na canalha, é comigo. .. .

Safou-se, às pressas, soltando um palavrão, o grande chapéu desabado forçado sobre a cabeleira à ninivita, cor do fumo da Virgínia, em anéis orlada,

— Para onde vamos? — perguntou Camilo.

O pintor encolheu os ombros.

— Para onde quiseres.

Alves Pena fez um gesto com a sua linda mão.

— Vocês já querem jantar? — indagou, circunspecto, sem retirar o cigarro do canto da boca.

— Certamente.

— A estas horas? Qual! Isto é burguês, é pífio! .. .. Vamos ao nosso vermute!

— Vermute! — exclamou Agrário. — Estás doudo. Isto é pifão certo.

Alves Pena forçou, desdenhosamente, o queixo:

— Beberás cerveja. .. . beberás outra cousa. .. . meu artista.

— Mas, onde? 6 Minotauro insaciável!

— No Cailteau. .. . por aí assim.

E rodaram, às risadas, achando pilhéria no indefectível Alves Pena, a quem faziam troça com o nome: parecia até uma firma; Alves Pena trazia a fatalidade do súcio pelo imprevisto do apelido; por si já era uma sociedade. .. .

O boêmio caminhava, impávido, para o seu destino, indiferente, insensível aos remoques. Antes de entrar, parou na calçada e, repetindo o seu gesto de mão, disse sentencioso:

— Escuta, meu artista, se não quiseres cerveja, beberás outra cousa, um pouco de vinho.

Invadiram a sala em busca de uma mesa afastada, na penumbra suave de um canto. Camilo tinha essa extravagância de bebedor, preferia os lugares escusos, fora de vistas, em que estivesse num isolamento de restrito grupo, a sós com os seus, em palestra íntima e alheio a todas as exterioridades perturbadoras dos metediços e comunicativos. Uma tendência instintiva d'exclusivismo transparecia nos menores, nos mais insignificantes atos da sua vida, e, mesmo na meiguice melancólica da sua fisionomia, na espontânea distinção de seus gestos, havia o quer que fosse de repúdio, de soberano, que o tornava insociável.

Abancados, Alves Pena bateu as palmas, pedindo cerveja para dous copos, vinho do Porto e. .. . umas empadinhas. .. . Não concordam? Sim, umas empadinhas, uns pastéis. .. . convinham. Era o lunch.

E logo, sem se alterar nem precipitar movimentos, pendurou o seu sombrero no cabide, colocou cigarros e fósforos sobre a mesa.

— Então, Agrário? .. .. Perdemos o dia — disse Camilo.

— Como? .. .. Não perdemos tal. Fizemos hoje o que só parecia realizável em dez anos.

— Está bem — murmurou Camilo —, está muito bem. Mas, meu caro, a mim, me parece que vocês se atrasaram dez anos; pelo menos transtornaram a metade do que poderiam conseguir.

Agrário arregalou comicamente os olhos:

— Que é que dizes? Histórias! .. .. fanciullo mio. .. . Come dos pastéis, que estão soberbos.

— Magníficos! — completou Alves Pena, dando investidas ao que, afetadamente, tinha seguro entre os lindos dedos, o mínimo em arrebique.

Camilo sentia, agora, uma necessidade insofrida de falar, de exprobar ao amigo aquela inutilidade da reunião na tavema. Sarcasmos de frases cálidas, pontas ferinas de adjetivos irônicos, vieram aos seus lábios, teve-os a sair quase, mas. .. . seria um abuso, uma indelicadeza assetear o amigo, inesperadamente, ali, neste momento, na confiança da camaradagem com que viera para se divertir. Ladeou o assunto com subtilezas, mostrou-se incrédulo do interesse que os rapazes dariam à causa.

À sua maneira de ver aquela gente só não estava satisfeita com a Academia, era simplesmente questão de represálias. Ninguém queria saber de Arte, entregar-lhe asceticamente a sua alma, provando agruras penitentes de culto.

Todos, em unanimidade, pensavam em regalias mecenásicas, nos favores e privilégios concedidos para a elaboração tranquila de obras-primas, equiparadas à riqueza estimativa das telas de Vinci e Rubens! Cada um, dentro de si, apalpava a sua vaidadezinha e sentia-a tremente de responsabilidades profissionais, floreando sorrisos escarninhos de irrecusável superioridade crítica e soberbias de extraordinários habilidosos, senhores de técnicas incomparáveis! Que esperar disso?

Demais (ele tinha observado) em três horas de palestra nem uma idéia apareceu, nem um ideal se aclarou; detalhes, questiúnculas, anedotas, eis o que apurava de tudo quanto fora dito. .. .

Agrário caíra, lentamente, num entorpecimento; ouvia calado, refestelado ao espaldar da cadeira, dificilmente filtrando os litros de cerveja bebida.

Um crepúsculo invadia a sala, espalhava larguezas manchadas de água-tinta em derredor, pondo nos grupos esparsos, aqui e além, esbatimentos planimétricos dos cabarés de Van-der-Poel', A calva de Alves Pena esmorecia na extinção da claridade, o colorido ulceroso do seu nariz tomava securas bístreas de um borrão disforme no amarelento do rosto, ora quase indistinto, a sumir-se, como num desaparecimento espectral e onde ficavam apenas, na indecisão das sombras neutras — a cova das órbitas e o sujo da barba que lhe escaveiravam a esvaída macilência das faces.

Vieram acender o gás. Ao princípio a chama minguada e vermelha tremeu, como um fogo de círio; mas, súbito, alargou-se, clara e forte. Em outras arandelas a luz chamejou. Ressurgiram as cousas num novo aspecto de valores — gastos doirados resplandeceram, suavizaram-se as cores rudes das paredes, cristais e vidros tinham tiques luminosos de finas pedras d'escrínios, a calva de Alves Pena retomou o seu brilho, mais intenso, talvez, como se uma esponja a houvesse refrescado.

— Não sei por que se bebe com mais prazer quando há luz — observou o boêmio, enchendo o copo.

O pintor piscou, significativamente, para Camilo, mas ele fixava o espaço, absorvido, concentrado num grande sonho: — Se lhe fosse dado formar um grupo de obscuros e de convictos, uma limitada boêmia de afinados, vivendo todos para o culto religioso da sua Artel. .. .

E deixava-se ficar no visionamento, saciando a retina no gozo indefinido dessas alturas por onde o espírito flutua, desprendido das imperfeições mundanas, deslembrado do seu próprio corpo reduzido às suas baixas funções materiais. .. .

Uma voz conhecida veio despertá-los:

— Que pândega é esta?

Era Melo Castro que chegava.

j Trocaram-se apertos de mãos e, como Melo Castro trouxesse notícias de Henriette, a quem havia visto de passagem, num claro de fundo de corredor, conversando com Madame Beaumont, Agrário acordou com sobressaltos de galo; chegou mesmo a aceitar mais um copo de cerveja, insistentemente oferecido pelo primo.

Alves Pena concordou também em beber mais um pouco do Porto "por deferência a tão distinto companheiro. .. ."

Reataram a palestra. O guarda-livros contou novidades a respeito de meretrizes recém-chegadas. Uma empresa teatral, que desembarcara naquela manhã, trazia nada menos de oito mulheres "esplêndidas"! .. .. Estava a chegar mais gado novo com uma companhia de acrobatas. .. . O mercado ficaria replelo. .. .

A conversa entejou a Camilo que, na delicadeza da sua estesia, tinha repulsas pelo espírito pulha e frascário de Melo Castro, era-lhe mais que repulsão, era-lhe uma surda antipatia, um enjôo lento e secreto por tudo que o lembrava, que o representava.

As suas pretensões pelintras, os seus hábitos burgueses de dono de casa com arranjos e asseios exagerados, os cuidados femininos dispensados às unhas, aos cravos da pele, à perfeição assente do penteado; a sua ignorância literária ouriçada de desdéns, os seus botins de verniz e, sobretudo, aquela monomania erótica, só cheirando a saias, só questionando saias, só pensando em saias, nutriam na sua prevenção, um retido, um oculto desespero de romper com ele, atirar-lhe às bochechas, um dia, em lugar público, diante de um milhão de seres, verdades cáusticas, conclusões dissecantes da sua chateza, da sua nulidade bonitota, empomadada, frisada, segura por suspensórios, empertigada pela goma porcelanada de seus linhos à moda. Mas, o atencioso acolhimento que o guarda-livros lhe dispensava, envolvendo-o numa delicada simpatia, que lhe era desvendada por Agrário com externações de afeto, irritava-o, obrigava, contrariada e dissimuladamente, a suportar sua presença, a corresponderlhe com forçada bondade à insistência da sua procura.

Foi, pois, com um rancor que ele opôs à palestra de Melo Castro o seu aborrecimento por tudo quanto fedesse a mulheres. A única prostituta que ele compreendia ostentando o vício, era a morta cortesã grega. "Essa, sim, para ele, era uma mulher!" E admirando-se os companheiros de lhe ouvirem esse extravagante platonismo posto n'abstração sensualista de um rememorar arqueológico, Camilo abriu a contar passagens do seu "livro", relativas às cortesãs antigas, meio ébrio, tomado de ódios incompreendidos e presunções de originalidade, como se falasse ao eruditismo de uma assembléia consagrada.

Ouviam-no. A fermentação de cervejas excedentes lavrava silêncios reverenciosos, calmos recolhimentos de sábios alemães bebedores, aquecendo a friagem dos temperamentos nas sugestões de uma palavra calorosa e manífaca, que lhes sacudisse a alma, a deslocasse da espuma dos chopes e, entre fumaraças espaçadas de cachimbos, arrebatasse-lha para os nimbos do transcendente, para o emaranho mental das complicadas metafísicas; amanhã ou depois condensado no fólio bojudo de uma Memória ou no empanturro inoitavo de um Princípio Filosófico da Psicologia Contemporânea.

As pálpebras apopléticas de Alves Pena pareciam arder à imobilidade da atenção e Agrário, com os cotovelos fincados à mesa, mãos amparando o queixo, estatelara a escutar, sonolento. As faces de Camilo ardiam, uma febre, um delírio de falar, punham-lhe tremuras nos lábios. E foi dizendo e foi narrando a sua história, pupila acesa, abundantes gestos para a representativa das cenas que lhe vinham à boca, como se as lesse no ar, gravadas a fogo. Minúcias surgiam nítidas, justapunham-se detalhes; reconstruía épocas com precisão de pesquisas e notas. Ora lembrava-se de frases inteiras da criação d' Afrodite de Cnido, em Elêusis, por um dia festivo do Boedrômion! .. .. Já o Hierofante, um ancião da ilustre família dos Eumólpidas, da Ática, fechara os lábios. .. . O eco da sua larga voz soberana apenas roncava n'alma impressionada dos Iniciados, que se recolhiam para o sono, dous a dous, procissionalmente, levando em morrões os fachos do sacrifício, cabelos enastrados de cheirosos mirtos, angélicos no aspecto a que a simplicidade dos trajos completava a serenidade religiosa dos passos. .. . O Hierofante adormecera, sentado num soco de mármore do templo silencioso. .. . flocos neblinosos da cabeleira, que se desprendia pelas têmporas, de lado a lado do diadema sacerdotal, descansavam nos seus largos ombros. .. . sob o sternum reluzia a faixa prateada da barba veneranda. .. . e todo ele, grande e poderoso, braços pendentes sobre o regaço, cabeça recurva e esquecida, parecia um deus nos seus preciosos vestidos rútilos, de gala. .. . Descera, com vagares verânicos, a hora do repouso. A enorme turba espairece pelo areial da praia sussurrante.

De toda a parte acudiram gentes. Filhos de Atenas, ostentando clâmides, passeiam aos pares, recordando Homero; há lentidões de passos femininos que movem, num ritmo morno e mole, o tecido plissado dos himations, leques imitando folhas de lótus agitam-se devagar. .. . Tríbadas loiras de Lesbos permutam idílios entre si, à procura de recantos macios de alfombra; efebos elaros, como Apolo, ensaiam florais tangendo liras; gemidos lascivos de flautas e trestalar de crótalos erram pelo ar, em torno de grupos em descanso; um corinto, farto de vinhos da Lacônia, meteu os dedos no zóster que lhe aperta a véstia, sacou de uma tetradracma e, proferindo obscenidades, atirou-a com desplante de rico, aos coturnos altos de uma cortesã de cabelos polvilhados d'amarelo, em coifa. Vadios de Cesifo assuaram-na, berraram impropérios. .. .

— Viriam todos os detalhes, os mais insignificantes, das festas gregas, reconstruindo a época — explicava Camilo. — Seria uma regressão histórica. .. .

Alves Pena puxava, quase adormecido, o fumo escasso do cigarro consumido ao canto da boca; Agrário, extático nos cotovelos fincados à mesa, batia as pálpebras cansadas, teimando em atender a narrativa, o Melo Castro, numa beatitude de admiração, implorou: "que continuasse. .. . Estava lindo! .. .."

E Camilo, após um trago de cerveja, possuído do seu trabalho, sentindo-se ouvido:

—, .. . Subitamente estalou uma grita, reboou um coro uníssono e caloroso: foi como se o mar bramisse numa subversão. .. . Batiam as palmas, esparziam flores, saudando, delirando: Afrodite! .. .. Afrodite! .. .. E a multidão se move em grosso, num arranco, corre, forma grupos gesticuladores, confusamente, curtos pescoços de hércules inclinados para as ondas, olhos abertos para a extensão azulina das vagas.

". .. . E os afastados acodem céleres e os efebos levantam liras como se agitassem ramos: — Afrodite! Afrodite! .. .. No fervilhamento convulso duma vaga, encurvada e marulhosa, surgiu Frinéia".

"Como trazida no dorso bramante da massa cerúlea, todos viram-na de pé, de repente, a boca florida numa graça em que havia aljôfares solidificados d'escuma, pedacitos purpúreos de auroras. .. . Crescera do esfarrapar efervescente da onda murmurante, como o sonho de Pigmaleão! .. .. E a sua beleza nua, completamente nua, deslumbrantemente nua, exibindo o triunfo de suas linhas, destacava-se do vazio imenso do espaço, num fundo crepuscular de TOXOS Carminosos, onde sua cabeça resplandecia, coifada de abundantes frisos — da cabeleira farta, no tom velado de um capacete d'oiro à entrada duma furna, lascado de revés pela luminosa lança de um raio de sol.

"Frinéia quedou-se diante dos uivos sensuais do povo. A plástica desnudada dos seus contornos vencia as deusas de Scopas, as esculturas lendárias de Dédalo.

"Tritões luxurientos tinham-na seguido no banho cérulo, aos rebolos e cabriolas pelo crespo ondular das águas, e da salsugem de seus beijos essa epiderme finíssima, que desafiava o nácar do Iônio e as pedras de Paros, renasceu numa frescura matinal de Cinófion, o mês fecundo das frutas e das flores. .. . A multidão erguia liras, floreava flautas, entusiasmada, a gritar:

Afrodite! Afrodite! E ela que se sabia linda, ela, mulher sagaz feita para o prazer — encurvou o braço, em égide, sobre os bombilos dos seios túrgidos de volúpia como os pomos alabastrinos de Cipres, teve um resguardo de pudor!

"ue. Mais a sua beleza deslumbrou. Choveram sobre ela grinaldas e alabástrons de perfumes, e todos os olhares cravaram-se, cúpidos, no branco pálpito do seu pequeno ventre, nos traços amplos das virilhas onde sombreava, sob a concha ocultante da destra, a sedução do seu púbis crasso, dum veludo de buço, como o mistério simbólico aberto, em triângulo cabalístico, na rigidez curvilínea da sua bacia moldada pela forma encantadora dos Colitiscos. Foi assim que Praxíteles' admirou essa mulher e assim a esculpiu na perfeição de uma estátua, vencendo o informe bloco de mármore e rasgando horizontes novos para a Arte com a representação da nudez, dessa nudez completa, dessa nudez bem-querida, que ele gozou saciantemente, caprino e ostensivo, em cujos paroxismos transbordou o sêmen criador de outras gloriosas obras que foram para as plagas de Cós, para as terras de Tespies, de Alexandria. .. . e para a imortalidade do Helenismo. .. . É por esta forma que eu compreendo a mulher livre, a meretriz ou a cortesã, que nome tenhal. .. .

Melo Castro não se pôde conter, agarrou Camilo pelos ombros, estreitou-o num abraço. Mas, num momento, Agrário ficou lívido, suando copiosamente.

— Que seria?

— Nada. Nada — tartamudeou ele, a se erguer, estonteado.

Os companheiros, impressionados, levantaram-se. Já eram horas, os caixeiros fechavam portas com bruteza; um deles veio diminuir o gás. Então resolveram sair, mas as pernas pesavam, mal arrastavam os passos, acusando o motivo de tudo aquilo.

Fora, na rua deserta, entraram a discutir o destino a tomar, quando Agrário voltou-se, rápido, para a parede e despejou litros e litros de cerveja, ansiando, arrastando escarros.

Alves Pena acudiu, solícito:

— Qu 'é isto, meu artista, qu'é isto?

Animava-o, amparando-lhe a testa, enquanto que, com a mão desembaraçada, remexia nos bolsos. Depois, retirou do fundo do fraque um frasquinho envolto em papel e com um jeito adestrado, mercê de uma só mão, desarrolhouo, chegou-o às narinas do pintor.

— Aspire, meu artista, aspire que lhe fará bem. .. . é instantâneo. .. . é um santo remédio.

Agrário aspirou devagar, suspirando a força ativa do medicamento; e sentindo-se melhor, travou do braço do boêmio:

— Toca pra casa!

Melo Castro seguiu com Camilo, camaradamente, em conversa. O jornalista estava loquaz, contava outras passagens do seu livro, reconstruções de idades remotas, a vida íntima da civilização primitiva d' Ocidente, arcaísmos descritos com uma vivificação criadora.

À porta da Pension Beaumont o boêmio fez alto:

— Está cumprida a minha missão — disse. — E muito boa noite, amigos, até amanhã, às mesmas horas, no mesmo ponto. .. .

Partiu, num passo miúdo e certo.

Camilo subiu a convite de Melo Castro, era muito tarde para voltar à casa, num arrabalde longínquo; porém, em meio da escada quis retornar, falou na mãe que ficara só, coitada! a velar pela sua entrada. .. . O guarda-livros dissuadia-o dessa preocupação, puxando-o, cauteloso, amigo, obstinado na sua estima. Agrário, desentorpecido, também insistiu para que ele ficasse —

"far-lhe-iam um macio leito a um canto, tinham cobertas. .. ." E, como num requestro, Camilo foi se deixando ficar, já sem antipatias por Melo Castro, alquebrado de sono.

Apenas entraram no quarto, Agrário correu ao toucador, depois pediulhes a única vela que possuíam — só por um instantezinho. Por longo tempo esperaram-no, mas inutilmente. O pintor desaparecera. Saíram, então, à procura dele pelos corredores, pelos escuros quartinhos de meia porta, abafadiços, pelo quintal. .. . E nada! O pintor desaparecera. Uma suspeita atravessou o espírito dos dous. Desceram pé por pé ao segundo andar, atravessaram corredores em trevas, onde grilos trilhavam nervosos. Melo Castro guiava a exploração noctâmbula, acendendo fósforos. Chegados à porta de Henriette pararam, prestaram ouvidos, pretenderam esquadrinhar o aposento pela fechadura. Nada! Silêncio e escuridão. Volveram passos, desapontados, confundidos.

— Quem sabe — interveio Camilo — se o pinta-monos à força de beber não se transformou em espírito?

— E a vela? — perguntou, desoladamente, Melo Castro.

— Ora, a vela! .. .. À vela corre o patife.

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