Capítulo XIII Mocidade Morta · Capítulo 13 de 19
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Capítulo XIII

XIII

Durante dous dias Camilo lutou com uma estranha, sôfrega vontade de voltar à moradia de Agrário, mas temia ser importuno, acovardava-se com a idéia de parecer indiscreto. Uma vez, porém, embora pesasse a pretendida extemporaneidade da visita, deu consigo quando já no lanço bifurcado do Livramento. Andara sem saber como, andara por instinto, impulsionado por uma inconsciente propulsão do destino talvez. Nem sequer o despertaram o movimento ruidoso do grosso comércio trapicheiro, o desesperado afã fabril desse bairro marítimo. Um extraordinário poder instintivo, dirigente como uma força hipnótica, conduzira-o através o raivoso atravancamento da tortuosa Saúde, pelo entrechocar-se brutal das tropas d'homens da labuta, que se esmurram n'agitação delirante de "ganhar a vida", em borrascas de palavrões duros como pedras e infamantes como o estalar em alvo da lama arremessada. Nenhum estorvo o acordou. Seguiu indiferente, em passeio meditativo e lento, pelas imundas vielas do Valongo e da Gamboa sob uma atmosfera asfixiante de forjas e usinas, saltando poças lodosas, vencendo as rumas enormes das descargas dos trapiches, pisando um solo revolvido, escorregadiço e nauseante, E, quando teve perfeita noção de si mesmo, estava a pequena distância do lugar que o amigo escolhera para refúgio do seu amor.

Então parou. A primeira vez que por ali passara não atendera bem a este canto de habitação, perdido nos monstruosos intestinos de uma cidade comercial.

Notava-o, agora — achava-se perto de três árvores desprezadas que se contorciam em frente duma soturna botica empoeirada: a estreita rua descia em pendor, nua e pardacenta de lama ressecada, margeada de construções irregulares, grandes massas de paredes escuras, ameiadas de janelas em dous andares, alguns azulejos esboroados de antigas moradias ricaças beiçando sacadas corridas com balcões de ferro; em trechos extensos espremiam-se fileiras de casario térreo, vivendas modestas, de peitoris com gelosias, covis de gretadas rótulas sebosas e oblíquas, interrompidas de quando em quando por desmantelados portões de cortiços, portas escancaradas de estalagens. Lá-baixo, num declive brusco, bracejavam ramos de flamboyants desfolhados, enforcando pingentes de grandes favas negras. Errava na luz d'oiro do dia uma doçura de ar confortante, repassada de arrepios do outono meridional, a desdobrar-se.

1 Camilo continuou a subir a rua. Desde já percebia a Pensão Don' Ana ' numa fila de paredes baixas; a sua cor de pinhão destacava-a da oca de um muro, do caio de uma casa lateral, tinha duas janelas de caixilhos em quadradinhos ao gosto primitivo, uma entrada de gradil verde. Estacou diante dela. Da calçada onde ele estava podia enfiar o olhar pelo corredor garatujado de pinturas, em cujo fundo uma alta porteira de varões envernizados velava a discrição interior com um pano surrado, de ramalhos vermelhos.

E aí deixou-se ficar enleado no embaraçoso atropelo íntimo, até que, em inapercebido disfarce de seus próprios sentimentos, uma curiosidade cresceu nele, desculpando-o com o interesse de amigo por ver acabado o último retrato que ficara no cavalete. Nada mais natural, em suma! Ele, de fato, estava curioso de rever essa obra, tão largamente esboçada, havia três dias. .. .

Provavelmente estaria terminada. .. . Provavelmente. .. .

E a enrolar um caporal esteve por atravessar a rua. Ainda um instante acovardou-se, indeciso entre o seguir ou ficar. Riscou um fósforo, acendeu o cigarro, soprou algumas fumaças longas, acompanhou com o olhar um bonde vazio que passava. .. . Lentamente a imagem de Henriette levantou-se no seu cérebro, dominou-o. Uma necessidade de satisfazer-se, de ir lá, subir àquele aposento, ter diante dos olhos essa mulherinha loira, ouvi-la falar, sentir nº'olfato o calor transudante do seu corpo, o aroma delicioso da sua pele, forçava-o a atravessar a rua. Contudo, num esforço, conteve-se. Pensou em desconfianças, suposições ofensivas de Agrário, dos moradores da Pensão. .. . A Don' Ana, mais que todos, deveria ser matreira, de uma perspicácia exercitada: tinha o tipo clássico das inculcadeiras. .. . Apesar de que Agrário seria incapaz de prejulgar falsamente da sua lealdade. .. . De resto, mais dias, menos dias, aquilo terminaria. .. . E, realmente, deveria ser um estorvo para o amigo a manutenção da amante. Considerava as dificuldades que podiam surgir aos recursos do pintor, avaliava das obrigações que lhe pesavam e. .. . Uma idéia súbita, inesperada, estalou, flamejou no seu espírito: "E se tivessem um filho?" Insistia na pergunta a si próprio, sem esclarecimento, pasmo deste imprevisto: "E se tivessem um filho?"

Arrancou-se dali, caminhando com lentidão, fisgado por esta idéia assaltante que de si vertia miríades de borbulhas frias pela teia de seus nervos, escorrendo logo para o coração. — "Henriette com um filho de Agrário! .. ..

Não. Não era acreditável. .. ." — concluía, repelindo a suposição, mas, passo a passo, entrava n'análise dos sintomas, esquadrinhava pródromos mórbidos, característicos somáticos, esculturando com a memória a esbelteza estrutural da rapariga, cansando-se na investigação forçada dessas meticulosidades prognosticadoras; e, insatisfeito, misturando conjecturas e negativas, decidia desatinado, vencido — "Então é que Agrário ficar-lhe-ia amarrado para todo o sempre! .. .. Que infelicidade!" No declive da rua parou de novo, lívido de emoção. Do lado oposto, por uma rótula escancarada devassava o interior de um acanhado pátio, fechado entre caliça de muros: uma mulher, do tipo ceroso dos europeus desaclimados, com as saias em apanho entre pernas, batia roupas a uma tábua sobre grande celha extravasante d'água de anil; de quando em vez, tomava os panos pelas extremidades unidas, torcia, retorcia e abriaos, levantando o busto com altos gestos de braços, os seios trouxados bojavam o paletó, e as saias, despegando-se, abaulavam sobre um ventre grávido, pesando o seu farto volume roliço nos largos quadris duros que enchiam i as vestes.

Aquela gravidez desalentou-o, veio subjugá-lo com uma densa tristeza comparativa. Imaginava Henriette deformada pela gestação, passeando um ventre saliente que a obrigasse a decair para trás a linha graciosa e ligeira do seu torso, as faces tumefactas, um relaxamento doentio e penoso nas suas roupas, na sua graça feminina, nos seus encantos de mulher, e esse constante, enjoativo cheiro lácteo das parturientes perturbando a excitante exalação de gardênia da sua pele de moça. .. . Afastou-se, voltando pela mesma calçada. —

"Seria horrível! E para que desejariam um filho? Se, sem ele, estavam à mercê dos acidentes de recursos incertos, em que condições iriam viver com esse vínculo estreme, esse estreitamento amoroso forçado pela nascença de um filho, envolvendo ambos na mesma convergência de sentimentos afetivos, Í ligando-os mais profundamente? .. .."

Com o mesmo passo de convalescente a passeio, achou-se, outra vez, defronte da Pensão Don' Ana. Os caixilhos continuavam descidos, a cortina vermelha, da entrada, antojava-se à curiosidade insofrida dos seus olhares. O mesmo silêncio da rua pairava sobre a casa. Passou adiante. O temor tornarase-lhe maior, mais latente pelo agrupamento de motivos.

Um bonde rodava, quase vazio. Camilo assaltou-o dum pulo, resolvido.

Arrumou-se no banco, com tédio por tudo, enjoado de si mesmo. Enquanto o veículo corria, dificilmente, aos trancos por ziguezagueantes ruelas cloras'? e atravancadas, chocando-se d'encontro carroças e mercadorias, num berreiro obsceno de cocheiros, ele pusera-se a procurar a melhor maneira de empregar o tempo que, então, lhe parecia demasiado longo e fastidioso, sob esse monói tono azul dos dias de sol.

Logo, ao saltar do bonde, no Largo de São Francisco, deu de frente com um estabanado cavaleiro de enormes bigodes trevosos, que altivo passava com o seu vistoso sombrero de castor branco, uma festiva laçaria cor de gema d'ovo no papo escanhoado, calças de casimira clara e a suar copiosamente num veston de veludo negro.

— Oh! Bendito acaso! — berrou o cavaleiro, estendendo os braços para ele. No movimento luziu-lhe um enorme brilhante amarelado no anelar esquerdo. — Che sorpresa! .. .. Eu andava a sua procura. Agora, você é meu por alguns momentos. E che fate? .. ..

Entrelaçou o braço com o de Camilo, familiar e alegre, roçando-lhe Í pelas faces o seu formidável bigode de trágico romântico. Era um paisagista célebre, ultimamente chegado da Itália, o Florêncio Gavasco, de quem a imprensa dizia maravilhas num exaltamento admirativo. Estavam no passeio do deleixado jardim da estátua, toda repintada, brilhante de verniz do seu novo 1 verde-escuro. Pequenos italianos vendedores de jornais, sujos e descalços, e imundos moleques com bandejas de balas, suspensas ao ventre, pasmaram, atraídos pela riqueza de tão rara toilette. Gavasco sentiu-se vexado com esse embasbacamento de feira, voltou-lhes costas, e, notando a estátua, trejeitou um momo de surpresa numa exclamação:

— Per Bacco! .. .. borraram o Bonifácio.

— Como de costume. É uma medida de precaução — Camilo esclareceu — e de patriotismo. .. . Se a pátina viesse aveludar-lhe as formas, seriam capazes de julgar o "patriarca" contaminado pela lepra moral, que nos consome, e descreriam da excelência do metal. .. .

— Andiamo — atalhou o paisagista. — Mas, mio caro, estou satisfeitíssimo com este encontro. Vamos daqui à minha "quitanda", porque não sei se sabes que abri uma "quitanda", há dias.

Camilo disse que sabia, lera nos jornais, não que ele houvesse aberto uma "quitanda", mas, uma exposição, cuja importância estava explicada no sucesso obtido.

Iam descendo para a Ouvidor. As pontas adejantes da gravata festiva do i Gavasco tremiam, alvorotadas, n'aragem dessa confortante manhã serena, e os seus grossos, bem cuidados sapatorros de couro cru, à campônio, batiam no lajedo, despertando reparo. Transeuntes, na pressa das especulações da Bolsa, volviam a cabeça para ele, espantados; meninas passarinheiras, embonecadas em detestáveis toilettes que andavam de loja em loja, na vadiagem tagarela das compras, olhavam-no deslumbradas, mas sorriam afetando superioridades de gosto. Camilo seguia contrariado por esta evidência, por esta petulância de rude que repartia com ele o assombro ou o motejo da multidão. E, agora, o paisagista falava mais alto, levantava com mais arrogância a cabeça romântica, belamente impressionante nesse largo sombrero branco. Tinha orgulho de ser fitado, sentia nessa bisbilhotice de beco a admiração da sua beleza, a popularidade do seu nome.

Afinal, romperam por um acanhado corredor de fotógrafo, penetraram numa sala que abria duas janelas para a rua.

Uns graves senhores, empertigados na correção de seus vestuários, entretinham-se com a análise dum quadro, posto no amparo de alto cavalete luxuoso.

Imediatamente, jogando o sombrero para uma cadeira, o artista abandonou o braço do companheiro:

— Tem paciência. Já volto. Vou falar ao Conde de Sabugal, ao Comendador Monteiro. .. .

E fez rumo para o solene grupo, com ambas as mãos estendidas, agradecido e exclamativo.

Camilo ficou a olhar as paredes tristonhas, escurecidas por um velho papel castanho, de que pendiam molduras douradas, telas verdes e azuis, roxas e amarelas, pontos pedregosos de Capri, cantos da Sicília, lagos de Veneza, ou rasgões barrentos d'estradas, pequenos quadrados brancos de casinholas sob manchas verde-sombrio de frondes. Um delírio de cores, empastadas, misturadas, lanhava o pano áspero dos quadros. A violência do colorido, o desasseio dos tons, a confusão das tintas que a espátula pretensiosamente tinha breado, que os dedos distenderam e as brochas gretaram, atormentavam a vista, inda perturbada com uma luz escassa, reverberada de paredes fronteiras, muito próximas, dum róseo vivo.

Na roda dos respeitáveis senhores falava-se o grosso português reinol, de dentes cerrados; roncavam elogios. Um deles, com desembaraços de entendedor e palavreado de comerciante de quinquilharias, floreteava o dedo indicador em meneios de quem pinta febrilmente, ou enconchando a mão imprimia-lhe movimentos expressivos de acariciar uma esfera. Camilo prestou ouvidos. Fizera-se uma questão técnica, louvava-se a maneira nervosa da pintura contemporânea, que chegava a esculturar os relevos. .. . O entendedor citava franceses, citava italianos. .. . Ouviam-no com respeito e confiança.

Momentos depois o grupo retirou-se erecto, e firme no pisar; o entendedor sacudiu a mão do artista num aperto significativo, deu-lhe palmadinhas carinhosas no ombro, cochichou-lhe ao ouvido uma cousa importante que lhe lilatava os bugalhos e o obrigava a abraços e confidências. Gavasco afirmou om a cabeça uma resposta, acompanhando-o até o patamar e curvou-se, f reverenciosamente, para a escada:

' — Os meus agradecimentos, grazie, a rivederle. .. .

: Correu, então, para Camilo, acenando com um bilhete de visita:

— Mais um vendido! O Conde comprou aquele, o que está no cavalete.

Um conto e quinhentos, entrando os trinta por cento da comissão. Foi de graça. Não concordas, hein?

: O rapaz fez um sinal confirmativo e sentiu a mão rebrilhante do Gavasco apoderar-se da sua gola. O bigodão trevoso roçou-lhe as faces, a boca do : artista procurava os seus ouvidos. Queria dizer-lhe um segredo e puxava-o para si, com uma carantonha de mistério, e olhadelas esconsas; depois duma demora de confidência que se medita, berrou:

— É o peior agrião que tenho na "quitanda".

f Riram. Camilo, porém, levou a mão ao ouvido, atordoado com o grito, enquanto o paisagista girava pela sala, com os braços agitados, a dançar a tarantella, muito contente.

— Mas — perguntou-lhe o outro —, onde está o quadro grande, o famoso panorama da Itapuca?

— Che, signor! — disse Gavasco. — Pois não sabe o que aconteceu? É novidade corrente, todo o mundo sabe-a, até no Japão não se comenta outra cousa! Ora, esta! .. .. Você, está me parecendo, tem vivido em Mato Grosso.

— Mas, em suma, que aconteceu?

— Fui obrigado a dividi-lo em duas partes.

Camilo deixou cair o queixo, estupefacto.

— Sim, fui obrigado a dividi-lo em duas partes — afirmou Gavasco e j contou, com ufania, os pormenores: — O quadro era, na realidade, muito grande. Desejava empurrá-lo para o governo, mas tinha encontrado má vontade, o dinheiro andava escasso, as finanças comprometiam tudo. Nesse mezzo h tempo apareceram dous amadores ricos, que mostravam disposições para adquirir a obra; não o faziam, porém, por motivos discordantes: um ficaria com o quadro se ele se limitasse ao rochedo, outro contrariava esta simpatia, desejava a parte oposta à pedra da Itapuca. O negócio era grave. E o momento melindroso. Entrei a pensar. Perder a ocasião seria estupidez. Che cosa potevo io fare? E de que maneira aproveitaria essa oportunidade, se o quadro era um panorama, e cada amador simpatizava com uma determinada parte? .. .. Allora, lembrei-me de que, em pequeno, me ensinaram a história de duas mulheres, ambas pretendendo ser a mãe duma piccola e, como não se entendiam nas razões, foram ao rei. .. . ef coetera. Você sabe o resto. .. . Fiz, pois, como o Rei David. .. .

—. .. . 0 Rei Salomão — corrigiu Camilo.

— Sim, ou Salomão, que vem dar na mesma. .. . Unicamente não houve grito de entranhas maternas. Per guadagnare un po' di denaro, cortei a tela pelo meio, exatamente pelo meio. Por esta forma coube a cada qual a parte de seu agrado. E, acredite você, ficaram magníficas, assim separadas. .. . emolduradas. .. . Magníficas! Ainda eu lucrei mais um par de quadrinhos, aproveitando uns quatro palmos cortados às metades, para reduzi-las na largura. Foi um negócio da China! Um negocião! .. .. Per la Madonna!

E terminou assoviando, castanholando os dedos, num alçar de destra para o ar: — Ma, é bene trovato.

— É extraordinário! É inaudito! — regougou Camilo, estupidificado por esta probidade artística. Gavasco, porém, sorria orgulhoso, agitado, feliz;

correra ao cavalete para colocar na moldura do quadro o cartão brasonado do Conde de Sabugal.

— Ah! é verdade — voltou-se, de repente. — Em que jornal você trabalha?

— Em nenhum. — Camilo notou o resfriamento brusco do paisagista, refletiu um pouco, emendou: — Mas, ainda escrevo para a imprensa, até tenho convites para me ocupar de crítica.

— Em que é exímio — pospôs Gavasco. Mudou de tom, poisando a mão sobre o ombro dele: — Perguntei isto porque preciso de saber onde deixar uma lembrança, que fiz para você. .. . uma pochade, nada vale, mas é uma ricordanza. .. .

Suspendeu a explicação, fitando um vulto negro, que surgira na porta. Uma cara morena, com apagados traços gentílicos no desenho duro da cabeça, sorrialhe, sob curto bigode rente, numa larga dentadura esmeradamente tratada.

— Dunque! Entrate, mio Silviano Pinto. — Gavasco correu a abraçá-lo, arrastando-o pela cintura: — Que honra me dais! Entrate, fratello mio.

Silviano Pinto, severo na sua sobrecasaca nova, de abas pendentes aos joelhos, cartola na mão, apertou os dedos a Camilo, correu o olhar pelas paredes.

— Que sucesso! Quase tudo vendido.

O paisagista fez um trejeito de saciedade, mas, afetando modéstia, objetou que não passava de "uma queima", corria tudo a restos, de barato, como nos leilões arrebentados. A cabeçorra chata do outro oscilou, luzindo o negro oleado da sua cabeleira:

— É isto. Sempre a mesma desgraça! Morreremos de fome nesta terra.

— Uma miséria! — acrescentou Gavasco, com desolação, e espichava comicamente o beiço, descrente: — Uma grande miséria! — cruzava os braços, resolvido ao sofrimento; a enorme jóia anelar coriscou, relampejou em prismas multicores.

Então um sorriso dúbio fendeu, devagar, os lábios de Camilo que, ameigando a voz para não comprometer o gracejo, bateu nas espaldas do "festejado" expositor:

— Até me parece que a miséria já te conduziu ao crime. Tens tão linda roupa, um brilhante! .. ..

— Per Bacco! — gritou Gavasco, num pulo. — Isto é para armar a efeito. A Fortuna só protege os pintores históricos, assim como o Silviano Pinto que recebeu, há pouco, quarenta contos de réis, do Rio Grande, pelo seu Poncho Verde.

— Sim, sim, quarenta contos — retorquiu Silviano. — Não obstante, um quadro histórico exige despesas, muito gasto com modelos, com accessórios. No fim das contas o que se pode apurar é uma ninharia. Pra lucro, meu amigo, só a paisagem. Aí está o Feliciano que vai fazendo "bem bons cobrinhos" com as saladas.

Gavasco sacudiu um gesto desdenhoso com a mão abrilhantada, de quem repele uma impertinência; mas concordou com ele a respeito do Feliciano, que se lhe antojava n'aceitação oficial. Chegou mesmo a rilhar uma ironia ao valor do concurrente. Silviano secundou-o, distendeu comentários deprimentes ao mérito do colega e, na corrente da sua maledicência, entrou na vida do Julião Vilela e de outros. Telésforo, entre todos, incomodava-o; contudo, ele aludia ao "grande artista" com uma discrição velhaca, quase encomiástica.

Era um nada rouco, precipitava as palavras, salivando, de instante a instante, os lábios com a ponta da língua. Depois de negociar o seu quadro histórico, dedicava-se à última demão dum romance, Nha Cotinha, cujo aparecimento fora previamente anunciado pelos jornais com louvores da crítica.

Silviano tinha um grande orgulho de seus méritos literários, ainda mais que do seu laureado diletantismo musical, e esse livro prometido enchia-o de presunção, porque lhe parecia o início duma era regeneradora da literatura patrícia, transviada dos assuntos caracteristicamente nacionais por desprezíveis imitações francesas. O seu apego ao nativismo era ferrenho e feroz. Nos seus quadros históricos a preocupação nacionalista esbarrava com exageros irrisórios.

Em Poncho Verde, que a meia voz pública comparava a um cromo de barraca, ele colorira com vermelhão e ocre uma cabocla nua, sobraçando imenso balaio de ananases e cambucás, no intuito de abrasileirar a cena numa pretensa alegoria à uberdade do solo, que voltava ao laborar das enxadas com a paz entre Farrapos e Monarquistas! As suas composições musicais tinham sempre títulos característicos, lembrando os dengues peraltas da mestiçagem escandescida. Estava narrando o enredo do seu romance, quando Gavasco o interrompeu para receber umas senhoras que permaneciam, indecisas e tímidas, à porta da sala. Na cauda de seus vestidos vieram outros visitantes. Despertou-se um rumor de passos, um ruído surdo de pisar feminino, de leques agitados. E logo um murmúrio cresceu, encheu as quatro paredes da exposição. Camilo aproveitou a oportunidade para retirar-se. Dissimulado e cortês esquivou-se por entre as cerimoniosas pessoas que entravam; ganhou, enfim, o corredor da saída.

Nas portas d'Havanesa encontrou o Sabino a suportar as lamúrias do Sebastião Pita que, depois de raspar o bigode, dera para cortar a barba, metodicamente, dia por dia, suprimindo-a com pausas supersticiosas. O desalento consumia-o: deleixava os cabelos, muito crescidos, granulados de lêndeas; a fisionomia tornara-se-lhe alucinada, o seu vestuário miserável pesava empapado de lama, e sob o braço, aconchegado ao flanco esquerdo, o eterno "recusado" trazia a eterna Partida de Colombo, num papel rafado, corroído, a desmantelar-se.

No mesmo momento chegava o achavascado Julien, o espirituoso Julien Story, que arrumou um tabefe na obra infeliz.

O pobre diabo recuou, furioso:

— Vá bater na. .. .

E engasgou-se com um palavrão de insulto. Mas o Julien desculpou-se, desfez-se nos mais súplices perdões, vergando zumbaias sarcásticas, os braços abertos, gesticulando com uma caixeta d'estudos.

Sebastião Pita tranquilizou-se, cedeu; notou com inveja a caixeta, apalpou-a — "que era muito cômoda, valia bem uns cobres" — e tentando abri-la:

— Que é que aí tem, mossiú?

— Um pot de chambre. Sabe o sinhor Pita o que seja um port de chambre?

Pita arregalou os bugalhos, sorriu parvamente com a sua trevosa ignorância, meneiou a cabeça e respondeu muito simplesmente:

— Pois que o sirva e o regale.

O Zebrão veio ter com o grupo. Descia ao lado de dous conselheiros, seus comprovincianos, a tratar de "uns arranjos" e, como as promessas fossem confiáveis, estava nas suas boas horas, respirando satisfeito. Entrou logo a pilheriar com o maníaco, passando dos dichotes à perseguição gracejadora dos murros, das estortegadas.

— Que é que este maluco está dizendo? Ó gira! que dizes?

O infeliz fugia-lhe.

— Está quieto, diabo! .. .. — E persistia em abrir a caixeta d'estudos do Julien.

Sabino e Camilo também insistiram com o francês para abri-la; o Zebrão pretendeu arrancar-lha violentamente. A resistência comprometia-o. Julien aquiesceu aos pedidos, fez saltar o tampo falso para mostrar uma tabuinha manchada, em pochade, tintas azuis de céu e de mar, um roxo Pão de Açúcar no horizonte, o triângulo branco dum pano latino sob o borrão escuro dum bojo de barco.

Observaram, silenciosos, sem saber que elogiar; só o Zebrão foi quem achou um qualificativo — bonzinho — para encorajar o colega.

— Mas. .. . o mar, hum! o mar. .. . — Fazia uma careta arremetendo com o polegar espatulado. —. .. Está um pouco duro. Está chato.

Julien protestou, afirmando ser do natural, foi assim que vira. Não admitia a arte corrigindo a natura, porque ela, a natura, em suma, é a própria arte.

Aceitaram. Zebrão coçou a nuca desaparelhado para retorquir. Sebastião Pita levantou os ombros com desdém e seguiu o seu caminho. Pouco depois os dous desceram a rua, deixando Camilo e Sabino encolhidos nos portais, sem palavras, absortos.

— E o Zur, Seu Camilo? — perguntou o dissidente, após longo silêncio, desalentado, num suspiro.

— Oral. .. . Foi-se. .. . — murmurou o outro com desprezo, seguindo a palavra com um gesto expressivo de mão, de cousa terminada, abandonada.

Caíram na mesma melancolia muda, imobilizados pela visão acovardante de lutulentos pântanos íntimos, silenciosos e extensos, por onde não passa a claridade do dia nem retremula a elétrica coréia voejante das rútilas libélulas dos sonhos. .. .

. .. .Por fim, Sabino voltou à conversa, extenuado, lento, arrastando as palavras na gosma veladora dos tuberculosos monologando, com um vagar humilíssimo de resignado. Falou de seus dias de fome, nos prejuízos contra a sua cor que lhe dificultava obter discípulos, até mesmo a confiança das encomendas! .. .. E tão raramente ele se queixava, que Camilo atendeu com uma doce bondade, recebendo suas mágoas, partilhando delas, com um carinho de irmão. Mais dolorosos foram os minutos da volta ao silêncio. Na leve, alegre claridade deste belo dia, eles sentiam, ambos, o spleen do desamparo, a dor sombria e voraz do repúdio, do insucesso. No entanto, Sabino tinha retomado à palavra. Agora preocupava-se com os seus colegas. Participou que o Lóssio abandonara a profissão, o Valeriano Costa seguira para o Piauí, sua terra, onde ia procurar a subsistência lecionando primeiras letras. .. . O sorumbático Requião entregara-se de todo às tabuletas. Até o Rios, apenas terminasse a estátua, estava disposto a fechar o atelier, mudar de vida, porque Telésforo, que já tinha lavrada a sua nomeação de diretor, pretendia mandar vir da Europa o novo professor d'escultura! .. ..

— É uma ruína. Tudo por terra, tudo derrocado.

Camilo concordou, vagamente, acenando a cabeça. E emudeceram, aconchegaram-se aos portais, errando os olhos nervosos pela multidão desocupada que aumentava, obstruindo a rua, em grupos faladores, às portas das lojas, em frente das vitrinas, encostados às paredes.

Outra vez Sabino tentou palestrar:

— Sabes? O Julião vai propor ao governo a fundação de ateliers livres, já tem o projeto pronto. Que julgas disso?

— Ah! Boa idéia.

Passava uma rapariguinha loira. Camilo lembrou-se de Henriette, acompanhou-a com o olhar. Instantâneo acometeu-lhe um desejo ansiante de voltar ao Livramento, invadir a casa da Don' Ana, galgar as escadas do sótão, deixar-se estar ao lado da francesinha, em parola, enquanto Agrário pintasse. Hoje, nada mais queria senão esta existência junto às saias daquela rapariga, daquela encantadora mulherinha, cuja cabeça loira, curvada às páginas dum livro ou às malhas do crocher, esperava uma ovação chilreante de beijos. Nascia-lhe uma aguda vontade de possuir também uma amante, mas que tivesse o linear conjunto gracil de uma tulipa e fosse loira, que retratasse Henriette, fielmente, com a confundível aproximação fisionômica dos gêmeos ou a reprodução imagética dos espelhos; enfim, que lhe fosse parecida, parecidíssima, tão parecida que, à força de semelhança, deveria ser a própria Henriette. Deliciava-se nesse ideal, alimentando-o a pouco e pouco, corporificando-o no modelo integral da outra, vitalizando-o num sonho irradiante de felicidades, em que já prelibava as volúpias cariciosas dos lábios sobre a rósea nuca tépida, dum sabor de favo cheiroso que se deglute viciosamente, impregnando o paladar de todo o seu perfume, molhando a mucosa dos lábios, da boca, do esôfago, as fibras da língua, o marfim dos dentes, de toda a doçura, de todo o sabor sugestivo, sensualizante e fino que parece penetrar nos tecidos, infiltrar-se na complicação orgânica do corpo todo, dessorar para a alma, embebê-la dele, deixá-la eternamente sentindo e gozando-o.

Sabino continuava a contar os projetos do Julião, e ele, alheiado de tudo, ouvindo-o falar sem entendê-lo, fantasiava a sua "casinha com uma Henriette", escorregando pelas velhas pieguices reeditadas nos namoros líricos, bucolismos sabidos e paisagenados nas vaporizações cismadoras das puberdades sentimentais, donde, por delicadezas inerentes ao seu aristocratismo espiritual, ressaltavam impressionismos subtis de colorido e forma em cenários paradisíacos. .. .

E o companheiro expunha as pretensões do Julião, previa o renascimento dos entusiasmos, conjecturava do triunfo provável da causa. .. . Mas, fazia-o numa lentidão de melopéia, sem vibrar, como se pusesse neste resto de ideal os últimos arrancos das suas esperanças.

O tempo corria sem que aparecessem os camaradas. Ninguém vinha! O Artur de Almeida acorrentara as largas asas de suas ambições de artista nas oficinas de um editor musical, a desenhar capas para polcas; o Sousa, sempre esfalfado de orgias a rolha queimada, rabiscava caricaturas num hebdomadário arrebentado, imaginando heranças de imaginários tios aventureiros; o aguarelista João Vieira jornadeava pelas serranias de Minas Gerais; outros tinham debandado, corriam os municípios cafeeiros, as zonas produtivas e ricas, as províncias inexploradas, na peregrinação estafante do ganho.

Que derrocada! Nem já se sabia de Alves Pena! .. .. Um deles, o Sforzani, partira para a França por generoso concurso de um grupo de admiradores; um outro fora para a Itália. .. . Assim se desmoronava esta boêmia de um tempo, se desmembrava, esboroando com a desagregação dos meses, das ilusões caídas, dos ideais perdidos; rolando obscuramente para a dispersão das nulificações, para o múrmuro parasitarismo das inconstâncias e das pusilanimidades.

Restavam o Franklin e o Sabino, os únicos que se ficavam à espera do ressurgimento, mas já vacilantes na sua crença, insensíveis quase ao desdobrar moroso dos dias sobre dias, hoje e amanhã, hoje e amanhã, sempre escorrendo para o passado, desabando sempre para o abandono.

Numa dor que se aviva, Camilo volveu para o camarada:

— Que dispersão! — disse amargurosamente. E descoroçoado, com a mesma loa queixosa do outro, falou no ideal morto, n'ardência dos primeiros dias. .. . — Escuta. Sabes tu a idéia que tenho disso? É como o ímpeto patriótico de uma hoste bisonha que seguisse, voluntariamente, para a guerra, a quem faltassem disciplina e munições. Ao primeiro impulso partiu, confiada na sua causa, confiada no seu valor; depois viu-se batida, assediada, fuzilada, sem recursos de resistência, sem ordem e sem armas. Veio a retirada a todo o transe, a impotência avolumou o terror, o egoísmo do instinto de conservação provocou o pânico e fez-se a deserção, fez-se a fuga. .. . Éa imagem que formo da nossa infeliz tentativa. Não concordas?

Sabino deu com a cabeça que sim, o seu olhar tinha o reflexo turvo de um crepúsculo de visões e lágrimas. Calaram-se de novo.

Sibilante, encravou-se trêmulo, no espírito de Camilo, o intermitente desejo de seguir para o Livramento. .. . Mas, ponderou — fazia-se tarde, chegaria à hora do jantar e decerto encontrar-se-ia com o Doutor, suportá-lo-ia à mesa, sofreria o seu autoritarismo de bom pagante naquela casa, atenderia à sua prosápia de político. .. . Um horror! Encolheu-se mais ao umbral, infeliz e só; ainda mais infeliz, mais desprestigiado pelo rememorar das audácias do Heráclito que sitiava, perseguia Henriette, prevalecendo-se da sua importância, do seu dinheiro, da calidez colorida do seu tipo de forte, da sua coragem fria de macho. E uma aflição remordia, escaldava-o num ímpeto de romper pela casa adentro, sem conveniências, berrar às faces do Doutor desaforos tarimbeiros, ultrajar o amigo pela posição humilhante a que se sujeitava mantendo relações amistosas com um indivíduo que lhe requestava a amante. .. .

"Estúpido! Estúpido! — gritou em si mesmo, num desespero que retumbava. — Ela se quiser há de possuí-lo, independentemente da tua vontade, desdenhosa da tua vigilância. Estúpido! Estúpido!"

Emudeceu, mentalmente, recalcado, domado, como se tivesse sobre a alma uma horripilante pata escamosa de dragão, de monstro fabuloso, pesada, tenaz, esmagadora.

Sabino, encostado na ombreira lateral, permanecia meditativo, alçando-se pelas asas das quimeras ao vago dos sonhos, com aspirações confusas, indeterminadas, arfantes, da sua raça.

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