Capítulo VIII Mocidade Morta · Capítulo 8 de 19
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Capítulo VIII

VIII

Era ao rés-do-chão, nas vastas lojas dum velho prédio para os lados da Misericórdia, que Cesário Rios tinha o atelier.

— Com licença. .. . — gritaram do portão, empurrando-o.

O batente pesado ringiu, ríspido, num som farrusco de ferragens brutas e gonzeou, vagarosamente, cedendo, rouquenho, ao impulso.

Cesário Rios, que trabalhava em grande, avantajada mole de barro, uma estátua colossal plantada em meio da oficina, volveu a cabeça para a portacocheira. Um clarão irradiou, súbito, no seu rosto rapado e ósseo:

— Olá! rapaziada.

Despegou-se do trabalho, todo pequenino na sua sovada blusa de brim pardo, raspando o asfalto com os gastos chinelos de tapete e estendia a cada um deles o dedinho calejado, com o rórido debuxo duma alegria na boca incisiva de talho:

— Então, qu'é isto? .. .. Vocês vêm ver o velho que não presta para nada!

Qué isto? .. .. Tudo aqui vale coisas. .. .

Falava apressado, bicando os lábios sobre a dentadura amarelecida e forte.

Os rapazes entravam, um por um, respeitosos, chamando-lhe Mestre.

Sob o surrado gorro de veludo grenate, de miúdas, desmaiadas ramagens à seda frouxa, seus olhinhos de pássaro bravo brilhavam; a sua fisionomia reanimou-se, resplandeceu, circundada do branco puro da cabeleira comprida, aparada sobre a nuca, que lhe dava a seca expressão de um pastor protestante, austero e bom.

Apanhou logo o cachimbo, meteu-o entre os dentes:

— Abanquem-se, abanquem-se. Isto aqui é casa de pobre. .. . Não há cerimônias. .. . Eu vou dar uns toques neste bicho, mas o ouvido fica para vocês.

Os rapazes desfilavam em derredor da mole esculpida, admirando-a, trocando-se comentários à meia voz. Lóssio exaltava as belezas, em atitude d'entendedor, elogiando o acabado das formas com um gesto pródigo de mão em concha como se tomasse peso a um corpo, e os olhos sonhadores do Sabino evocavam arrogâncias geniais de Miguel Ângelo nas largas linhas do monstro arcabouçado em barro. ' Cesário tornara ao trabalho. Parecia mais leve, mais revigorado, indo i com maior interesse à sua obra. Um grande alívio ou uma grande esperança predispunha-o. Esteve por segundos, cabeça inclinada, olhinhos minguados para difundir o efeito, amassando, devagar e absorvido, uma bola de tabatinga;

recuou passos, avançou, calculou de olho a proporção e depois, de repente, assaltou a perna gigantesca da estátua, correndo o polegar sobre o tríceps da coxa, fusiformando o volume distendido do músculo direito anterior para acentuar a energia poisada do membro.

Uma luz igual, batida de cima, pela vidraça de uma janela rasgada até o teto, descia sobre o enorme recinto. Telas esquecidas, desconjuntadas em molduras duma pobreza d'oiro roído pelo tempo, remendavam a espaços o severo vermelho Van Dyck dos muros; desordenadamente, sem disposições decorativas ou simetria de ordem, cabeças partidas a bustos, modelos anatômicos, molhagens de membros, dependurados por cordéis, entregues à lepra da poeira grossa e falripas de teias, lembravam soturnas sacristias recamadas de promessas. Dividindo a grandeza da loja, corria de parede a parede, um tapume negro, coberto pela metade com medalhões, ovais de lápis-lazúli cavados em baixo-relevo, croquis d'estátuas, esboços de grupos de monumentos ideados, em cera, em plastelina, em barro; c, ao centro, sobre peanha, uma pequena moldagem francesa, de corte clássico, do busto de Augusto Comte" alvo de gesso, muito sereno com o seu rosto liso de pároco e o olhar indefinido, vazio de pupilas. Por cima de sua cabeça, respeitando a curva das auréolas e das inscrições solenizadoras, sobressaía o lema positivista escrito a giz, com meticulosidade gráfica, num cuidado de mão que acaricia: "Amor por princípio, Ordem por base, Progresso por fim."

O grupo dispersara-se. Alves Pena, menos seduzido com as belezas da estátua, fora segredar ao aprendiz acocorado a um canto, no preparo das barras de tabatinga que, à força da massagem, estereotipava a compressão dos dedos. O rapaz crgucu-se, dolorido, vagaroso; estava caimbroso pelo excesso da postura e com dificuldade distendia os músculos do corpo, gemendo. Entendeu-se com o boêmio, de quem recebia palmadinhas íntimas nas espáduas, fez-lhe um sinal concordante e escapou-se por uma aberta do tapume.

Passava pelo ambiente o frescor das primeiras horas da tarde, um cheiro tônico de terra molhada transudava do colosso, aprazia o olfato como absorções do fartum das terras virgens, por encostas e montanhas, após a inclemência duma insolação. .. . E, apesar do aparato de ferramentas esparsas, da confusão dos utensílios d'escultura abandonados no soalho, havia na oficina uma paz obscura, envolta num doce silêncio de casal remoto, só e feliz na rusticidade do seu teto, à sombra das suas árvores. De quando em quando, um canário prisioneiro, no grimpapé do mesquinho cárcere de arame, em frente à janela, trinava a ópera da sua desgraça, sob a impressão clara da luz, lá fora.

O aprendiz voltou a cochichar com Alves Pena, trouxera uma garrafinha verde, breada do barro das mãos, e ambos acolheram-se num conciliábulo, cuspinhando risadinhas canalhas.

— Mestre! — disse o boêmio —, não quer retemperar a fibra? .. .. — E oferecia um cálice de aguardente.

— Olé! vocês também gostam da cana?

Com uma careta engoliu o líquido, limpando os lábios na blusa:

— Bem. Agora, vamos a uma fumacinha.

Enquanto preparava o velho cachimbo de madeira, atulhando-o de tabaco com o dedo ósseo, calejado pelo trabalho, rodeava lentamente a sua obra, observando-a, notando pontos a retocar, comparando as partes terminadas. A grande massa de barro, quase a tocar o teto, erguia a cabeçorra acompanhando o movimento do braço direito que levantava um pedaço de tábua bem alto, como um troféu à contemplação do mundo.

— Senhor Rios! que vai este bicho levar na mão? .. .. — perguntou Camilo.

— Oral. .. . que há ser? Um livro. Pois você não vê que ele é O Gênio das Indústrias? .. .. Lá em cima vai um livro aberto, a invenção de Gutenberg.

E o Lóssio, solicitamente:

— A ciência positiva de Mestre Comte.

— Está bem. É uma boa idéia. Você aí tem um sucesso.

— Qual coisas! Isto vale nada. Talento, só os estrangeiros.

Cachimbou forte, emudecido, alanceado no seu orgulho; mas, logo, começou a mover-se em derredor da estátua. Tudo bem. Pela umidade baça do barro escuro os contornos, as saliências, tomavam à luz o tom uniforme e sereno duma ceragem severa. Cesário estacou defronte do seu dorso, a contemplar o vigor da linha, a harmonia titânica dos panos dorsais; os seus miúdos olhos lambiam o monstro; iam-se arrastando lentos e amantes, por este conjunto energicamente espatulado. E caminhava insensível, automático, a olhar sempre, músculo por músculo, membro por membro, vendo, reparando, sentindo as felicidades da mão, a segurança dos cortes, numa ilusão de merecimento que obliterava a percepção crítica. Em certos detalhes a satisfação ressumbrava-lhe da fisionomia; demorava-se mais a contemplar, extasiavase. Assim esteve embevecido a considerar a massa muscular de uma perna que o Gênio tinha curvada, calcando um troféu d'engrenagens e bigornas, símbolos da Mecânica e do Trabalho; passou à anatomia do braço esquerdo distendido para trás, em linha oblíqua ao torso, acusando a contensão nervosa dos dedos que apertavam uma galhada de loureiro; foi ao modelado do tronco, às cordoveias do pescoço, à conformação apolínea da cabeça, largamente esculpida, com exageros talhados à antiga na cabeleira curta, atirada em madeixas para o parietal.

Camilo acompanhava-o no estudo e como, por vezes, os seus olhares se encontrassem após a atenção de um mesmo ponto, o escultor animou-se, confessou-se-lhe satisfeito:

— Não me desgosta. .. . este bicho.

— Perfeitamente — concordou Camilo — vai inegavelmente bem. Você é o derradeiro moicano do Romantismo.

— Do Romantismo! .. .. do Romantismo! — murmurou Cesário, encolhendo os ombros — coisast! .. .. palavras. .. . modernices. .. . A arte há ser arte, sem rótulos, sem papeletas, sem dísticos. .. . Ela é o que é. i

— Mas. .. . — ia objetar Camilo, Cesário interrompeu-o:

— Coisas! .. .. O que ela tem é um destino. Isso, sim; é o que ela tem.

Quanto a designações, são baboseiras.

— Mas. .. . — insistiu Camilo — as artes plásticas acompanham o movi- i mento da arte escrita. .. .

Cesário arregalou os olhinhos, sem compreender; o outro, porém, explicou que da cediça literatura, a poesia e a prosa, fizera-se um arte nova, sobretudo da prosa que vivera sem feição, por parecer uma propriedade comum da extemação espiritual do homem. .. . Hoje ela é uma arte, que exige cuidados e subtilezas escapas às idades anteriores, da mesma maneira que, por observa- i ções e experiências, a pintura viera da informe coloração conhecida no Egito, recomeçada nas catacumbas e renascida nos estudos da Meia Idade à fulguração moderna. .. .

Cesário escutava-o quase desprendido da longa explicação, a cachimbar, com os seus sentidos voltados à estátua. Quando o rapaz terminou, recaindo no motivo de classificar de romântica a sua arte, ele tinha-se alheiado de todo da questão, nem teve que objetar. Encolheu, outra vez, os ombros, significativamente e, molhando o polegar na língua, foi esbater um contorno veioso que se intumescia demasiado numa das hercúleas panturrilhas do Gênio.

Mas, presto e curioso:

— Então, qu'é do Zu?

Camilo sorriu como se aquela palavra, à força de ser pronunciada, fosse uma realidade. Sabino também sorriu, poisado sobre um tamborete, porém crédulo, confiado, prevendo a divulgação vitoriosa do grupo.

— Está feito, Mestre; o Zur é um acontecimento.

— Homem! feito ou não é qu'eu não sei, mas a verdade é que muita gente fala nele. .. . e tem-lhe medo. .. .

Esta confissão inesperada, saindo da boca sincera do Mestre, pareceu-lhes uma consagração. Desataram os cordéis à imodéstia e começaram a comentar as perseguições realizadas, o efeito aterrorizante que supunham causar aos acadêmicos. .. . Cesário atendia-os, a cachimbar com fleugma; por momentos corria-lhe pela máscara escanhoada a contração de sorrisos, os lábios se lhe retorciam sobre o canudo curvo do pito, agarrado aos dentes; por vezes, ele estalava a língua na palatina, a inculcar sabor, ou aprovando, cauteloso, retirava o cachimbo, salivava de jato esguichado, com risadinhas guturais.

O batente do portão ringiu: era o Bacharel Silvério Lima, um amigo do escultor, que chegava. Dous círculos azuis, retintos, em aros de oiro, reluziam nas suas órbitas, amarelecendo doentiamente o seu rosto chato e rude; na sombra, ao fechar-se o batente, a sua figura, vestida de negro, tinha a imobilidade trágica dum mocho fantástico. Ao perceber os rapazes forçou, por desprezo, as carquilhas do mento, pondo o beiço em ressalto e com a unha do indicador coçava devagar, ao pescoço, a cabelugem áspera da barba rasoirada, indeciso sobre se devia entrar. Afinal resolveu-se; avançou gravemente para o Rios, com uma pancadinha fraternal nos ombros dele:

— Maestro! como vai a nossa obra? .. ..

Estendeu a mão ao Lóssio e aos demais, curvou, ao de leve, uma simples cortesia, obrigada.

— Cá está. .. . vai indo. .. . Mais uns cuidadozinhos e. .. . pronto! — respondia-lhe Cesário, achegando-se-lhe camaradamente.

O bacharel pôs-se em observação; como via pouco e os vidros azuis aumentavam a raridade vespertina da luz, esticava o pescoço a meter o nariz na estátua, e andou a cheirá-la vagarosamente, paulatinamente, a ruminar umas palavras encomiásticas, uns conceitos filosóficos; depois afastou-se, procurou notá-la pelo torso, pelas linhas finais do seu ápice, e ficou-se, esparramado defronte dela, a fitá-la, com a cabeça derreada para a nuca, como se houvesse adormecido.

Cesário aguardava, respeitosamente, a sua autorizada opinião, mas o bacharel paralisara-se nesta postura incômoda, de lábios entreabertos, os círculos de vidraça azul assestados para a cabeçorra monumental da obra.

— Vai indo, vai indo. .. . mais uns cuidadozinhos. .. . — repetia o escultor.

Então, como acordando dum enlevo, o bacharel espalmou a mão no espaço, com ênfase, e recitou com uma voz nasalada e larga, de tribuno:

Pugna e vinci, o pugna e muori D'un morir che trascolori Le sembianze ai vincitori! Volveu-se para o Lóssio, cabeceando com os seus óculos azuis à procura dos rapazes:

— Conhece? .. .. hum! — fez sarcástico, esticando o beiço — É do grande Giovanni Prati' Ah! vocês só conhecem os franceses.

—. .. Ou as francesas. .. . — emendou Alves Pena, pondo a sua bonita mão em gesto explicativo.

O bacharel cabeceou a procurá-lo e fitou-o com os vidros reluzentes de seus óculos, numa insistência. Alves Pena compreendeu o desdém, dilatou um sorriso negro, de insusceptível, e com o intento salvador de desmoralizar a gravidade pulha do outro, ofereceu-lhe um cálice de aguardente.

Ele repeliu-o:

— Não; obrigado. Eu não me embriago.

A risadinha tossida, gutural do Rios casquinou seca. Desdobrou-se, rápida, uma contrariedade entre os rapazes, sentindo a espontânea hostilidade daquele homem que coçava as lêndeas da cabeleira deleixada; ele, também, enregelou-se numa parcialidade insustentável, prejudicando as intenções conciliatórias do escultor, que se constrangia perante a animadversão dos seus visitantes. O bacharel cedeu, retirou-se com a gravidade fúnebre com que entrara, com as mesmas cortesias hostis.

Cesário acudiu admirativo e convicto:

— É um esquisitão, mas uma grande cabeça!

— Que produz lêndeas — replicou Camilo, sacudindo do espírito a opressão que a irritante presença daquele agressivo, enfadonho e pretensioso, lhe causava.

O escultor tossiu a sua risadinha:

— Eh! eh! vocês são esmagadores!

Fez-se um silêncio. A tarde baixava. Estendia-se insensivelmente, com vagares, uma sonolência de fastio e alquebramento. Houve, no ar, uma tímida surdina de pipilos. .. . E o silêncio caiu outra vez. Bocejava-se. O aprendiz começou a preparar os molambos para cobrir a estátua, retirando-os de uma barrica — fazia o seu serviço automaticamente, a chupar um mau cigarro sarroso, a boca em arreveso, o olho esquerdo apertado à consumida espiral do fumo. De novo a surdina ensaiou solfejos, estremeceu franzindo a baixante quietitude roxa do crepúsculo; e parou e ficou-se num smorzo de queixa, num titubeio pueril, a morrer quase. .. . pouco a pouco foi-se acordando, ritornelou, emergiu clara, espalhou-se mais alta, desdobrou-se, nítida, em gorjeios agudos em que se alongava a angústia repetida de um chamamento ou a nostálgica saudade duma fronde. .. . À última nota inda a vibração do canto ondulava sumindo-se num diluimento de suspiros, fundindo-se no fusco vespertino que mais intenso baixava. .. . Pelos ângulos murais já havia mistérios de trevas, e indecisões de penumbras vinham ganhando o espaço, envolvendo também a grande obra, esse Gênio das Indústrias que permaneceria extático e colossal na "pose" eterna duma fundição, onde olhos demorados, que melhor vêem porque mais entendem, viriam procurar, um dia, aflitos, o traço criador, a alma do artista vazada na consubstanciação de sua idéia. .. . Da idéia muitas vezes falsa e iludidora ou eternamente incompreendida! .. ..

Já pouco se falava. A paz religiosa da tarde trazia espasmos contemplativos de meditação. Sabino, de olhar esvaído e beiço pendente, acompanhava a faina do Rios e do aprendiz a enrouparem o colosso com panos umedecidos; tinham arrastado para junto dele uma enorme escada em forma de A e, grimpado à altura da cabeçorra do Gênio, o escultor ia estendendo os largos molambos barrentos. Lóssio e Artur ciciavam em palestra a que Alves Pena, sonolento, parecia atender, com a ponta do cigarro apagado no lábio, e despertando uma vez por outra para bebericar os últimos goles d'aguardente.

Cesário desceu, com presteza o aprendiz fechou a escada e foi arrastando-a para o tapume, alarmando a loja com o barulho do seu peso e o choque tintilante dos seus eixos; depois voltou a ajudá-lo no último enroupamento.

Camilo, abancado sobre um caixote, caíra na sua melancolia intermitente, absorvido numa contemplação de cismas, esquecido de tudo em derredor, a sonhar talvez. .. .

— Írribus! qu'isto estafa — exclamou o Rios, terminando o serviço. — Agora é mais uma ajuda e descanso. .. . Vamos nós correr à coxia. .. . — Apanhou o tubo de irrigação e seringou o monstro de alto a baixo. A água, impelida num jacto de chuveiro, estalou nos panos, cingindo-os à estrutura monumental do colosso. Estrias deslizantes raiaram o asfalto, sucederam-se, transbordaram, encharcando-o. E mais forte, no ambiente, derramou-se o fartum de terra molhada.

— Ora, aqui está — despertou Camilo — porque chamam divinos aos estatuários. Foi assim que o bom Deus fez o homem.

— Mas — roncou Sabino, pesado de quebreira — fez mal, porque o habituou à chuva.

O dito morreu desatendido, perdeu-se na tristeza ampla das sombras que mudavam a forma real das cousas. Já aos olhos a oficina distendia-se, alargava-se, tomando proporções vastas, de cavas subterrâneas, num outro aspecto; e com a estátua toda coberta, discretamente envolvida em seus trapos, fazia pensar no anfiteatro dos museus onde houvesse terminado a canseira dos serviços antropométricos para a investigação de um gigante pré-histórico, petrificado no soterramento de cataclismos obscuros. Agachado, de canto a canto, arrastava-se o aprendiz, recolhendo os esboçadores e ferramentas.

No fundo, sobre a negrura completa do tapume, o busto gessado de Augusto Comte esmaecia numa doçura mate, tom sereno de rememoração modesta, que é a pátina macilenta das esculturas talhadas para o nicho interno dos recolhimentos claustrais do estudo. Era nesta paz imensa de obra apenas lembrada ao culto limitado dos intelectuais, que ele ia desaparecendo na noite próxima; paz dos justos, lenta e suavíssima, que ainda o fazia dominar com o seu alvaiadecer de túmulo o aniquilamento de todo aquele esforço d'espírito que o cercava, que entrava na treva mansa do dia morto, deixando unicamente uma vaga lembrança de existência pelo esmaecer pálido dos medalhões cerúseos. E agora — ele, ele só! Nem o lema da sua escola, arrancado ao férvido coração das cartas à Clotilde nem esse mesmo restava, embora furtivo bruxuleiar de lâmpada, luciolando aureolizante sobre a sua erecta cabeça inteligente, a que severidades apostólicas puseram securas simpáticas de excluído. Nem esset. .. .

Um sino tangeu Trindades, som tristíssimo de balido que rolou, cavando o silêncio. E sobre a dormência final do eco, outro mais distante, também gemeu a Anunciação numa plangência saudosa de tradições longínquas que vêm, através dos séculos, repercutindo a hora liquescente de uma tarde em Nazaré, segredar à alma humana a inefável poesia da natividade de uma religião, que vive porque é o eterno engano do Amor e a doce quimera da Consolação.

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