Mãe Calendário · Capítulo 2 de 31
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Mãe

MÃE

minha mãe. -

Dizem que Deus num sonho de poeta

fez a estrella e a mulher,

criou a pérola e a flor;

vendo-as, depois, o Illuminado Estheta

fez a esperança e o amor...

E da lágrima azul que o céu chorou com a primitiva estrella,

da esperança e do amor,

da pérola e do lyrio

que mais puro floriu na primeira alvorada,

no sonho criador da perfeição suprema,

fez de todos os bens o coração materno!...

Algum tempo passou. E o coração sangrando,

exangue de soffrer — de soffrer e de amar,

cahiu das mãos de Deus, como uma flor,

rolando até os pélagos do mar...

E foi cada vez mais e mais se dilatando,

entre as rosas da espuma e as violetas do anil,

de pouco em pouco se transfigurando

na Terra do Brasil!

Olha, meu filho, como a Nossa Terra

tem a forma gentil de um coração!

Ama-a!

E por ella, em teu devotamento.

faze um ideal de perfeição.

Ama-a que é tua!

Inteiramente tua,

desde o valle lendario — o Paraíso Verde,

as quebradas das serras magestosas

e as alfombras dos pampas redolentes...

... Lembra-te, ao vel-a, a tua Mãe chorando!...

E assim, por ella, tudo e tudo

dá-lhe com affecto.— o que vier pedir.

Ergue sem medo o teu escudo

e, se preciso for,

dá-lhe também, sem pena, o teu porvir!

E se um dia,

dia triste talvez, (quem sabe, filho?)

a saudade lembrar-te a casa do teu pai:

ajoelha na Terra — o ouvido attento, bem attento:

hás de ouvir, filho meu, teu pai não mente,

como um beijo — um soluço de amor — por ti, distinctamente,

rezar o coração immenso de tua Mãe!

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