Flor das águas
PRIMA VERA
FLOR DAS AGUAS
Os teus braços abertos e o busto fluctuando
na caricia da água verde
e das espumas no fervido aranhol —
como pareces, da minha Terra, uma victoria-regia,
à tona do igapó, aureolada de sol!...
E lá, quando as victorias-regias, no silencio dos lagos
descerram a tarde os véus brancos da flor,
às vezes vem poisar
sobre os charoes das folhas os guarás vermelhos
e num pequeno pallio, escarlate e bizarro,
abrem o setim das asas furta-cor.
E eis-me agora sorrindo a porcellana rara
os teus braços, das mãos, do busto, fluctuando
na caricia da água clara e furta-cor —
vendo-te emfim numa visao de yara!
e ao pensamento como vem ligeiras,
asas rubras do ardor dos meus desejos,
para toda cobrir-te em luminosa umbella:
Lembrando a tarde em que te achei mais bela!
Lembra! —
Na tarde em que eu te dei mil beijos!...
E abriste a alma... e em minha vida foste
a regia flor!