Folha perdida Calendário · Capítulo 8 de 31
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Folha perdida

DO OUTOMN'O

FOLHA PERDIDA

Revendo este alfarrabio — olha —

(traças e pó) nesta folha amarella,

folha de outomno, rendilhada,

encontrei a sorrir, sozinho, sem mais nada,

— Singellamente —

apenas o teu nome!...

Uma folha de livro, um ensejo, um acaso...

E eu guardo para mim, de ha muito, o pensamento

que o acaso, o ensejo, e Deus que, momento a momento,

nos surge occulto num anonymato...

E na folha do livro, velha e esmaecida,

desbotada, sem cor, cofre de tantos zelos,

como outr'ora senti incensando a minha vida

o perfume

das tuas rendas e dos teus cabellos.

E como antigamente, nos primeiros beijos,

beijei, soffregamente, a velha filigrana;

a rendilhada folha de um alfarrabio,

pagina solta de uma historia humana.

Quanto tempo!

E ao beijá-la senti

na bocca esse vago sorriso,

luminoso, impreciso...

que se não sabe ao certo si e sorriso

ou a festa das lágrimas cantando

a canção da saudade.

E no extase do sonho —

que era um pouco da minha juventude,

os olhos meus, tristissimos e francos,

surpreenderam da alcova o meu antigo espelho,

como quem da um intimo conselho,

mostrando a prematura noite enluarada.

dos meus cabellos brancos.

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