Folha perdida
DO OUTOMN'O
FOLHA PERDIDA
Revendo este alfarrabio — olha —
(traças e pó) nesta folha amarella,
folha de outomno, rendilhada,
encontrei a sorrir, sozinho, sem mais nada,
— Singellamente —
apenas o teu nome!...
Uma folha de livro, um ensejo, um acaso...
E eu guardo para mim, de ha muito, o pensamento
que o acaso, o ensejo, e Deus que, momento a momento,
nos surge occulto num anonymato...
E na folha do livro, velha e esmaecida,
desbotada, sem cor, cofre de tantos zelos,
como outr'ora senti incensando a minha vida
o perfume
das tuas rendas e dos teus cabellos.
E como antigamente, nos primeiros beijos,
beijei, soffregamente, a velha filigrana;
a rendilhada folha de um alfarrabio,
pagina solta de uma historia humana.
Quanto tempo!
E ao beijá-la senti
na bocca esse vago sorriso,
luminoso, impreciso...
que se não sabe ao certo si e sorriso
ou a festa das lágrimas cantando
a canção da saudade.
E no extase do sonho —
que era um pouco da minha juventude,
os olhos meus, tristissimos e francos,
surpreenderam da alcova o meu antigo espelho,
como quem da um intimo conselho,
mostrando a prematura noite enluarada.
dos meus cabellos brancos.