A ronda dos centauros: Os vaqueiros
A RONDA DOS CENTAUROS
OS VAQUEIROS
Norte, Centro e Sul.
Campos Geraes da Minha Terra?
Marajó? a pérola luminosa
entre os verdes dos rios e o Atlantico azul?
Comburidos sertoes?
Matto-Grosso? Nordeste?
Pampa?
Querencia amiga da minha outra Terra? —
Meu Rio Grande do Sul!
Sonho?
E' possivel sonhar si eu vejo em realidade?!...
Acaso não ouvis pelo espaço,
nos corropios do vento,
um ruido a vibrar do coração da terra,
em uivos de tempestade,
rugir subterraneo de vulcoes?...
E os astros pelos céus, como num cataclysmo
a tremer e a tremer,
num extranho fulgor?
E acaso não sentis que as janglas repercutem,
as dunas e os areaes,
o maciço e a collina,
na orchestração maior do alisio e dos pampeiros,
symphonias de amor?
São os Vaqueiros que vem!
Ouvi — São os Centauros que passam!
Vede-os —
Ponche — Gibão — Camisa aberta!...
Eil-os que vem, na carreira indomavel,
em sanhudos corceis, nas asas dos bolidos,
entre nuvens de pó,
doirados pelos soes...
E, estrepitosamente
saltam, trepidam e corcoveiam,
coriscando, aos boleos, no campo e nas caatingas
galgando os cerros, resvalando os montes,
cochilhas e grotoes, penhascos e barreiras,
sebes de espinheiraes, rudissimos capoes —
sob os dardos do sol e os crivos das estrellas,
no fragor da tormenta, gume dos minuanos
aboiando a cantar!
E vao e vem
e um e todos,
lado a lado, emparelhados,
sentindo um coração o outro coração,
num bloco esculptural de invencivel cohorte —
— Unidos para a vida — Unidos para a morte —
Correr!... Correr!... Correr!...
Lágrimas do meu olhar accendei-vos em astros!
Olhae, eil-os que vem! Por Deus, eil-os que passam,
e numa apocalyptica visao;
flancos unidos, distendendo ao alto,
tendida ao vento — semeando estrellas,
em apotheose, o Signo da Terra —
Bandeira do Brasil!