Reflorir
DA PRIMAVERA
REFLORIR
Sempre que o vento murmuro sacode
de um cajazeiro — um velho amigo — as copas e as umbellas.
das folhas verdes, roseas e amarellas,
se desprendem no espaço, desgarradas,
as folhas mortas e as primeiras flores.
E o cajazeiro immenso, altissimo, sereno,
na imponencia das frondes que, de longe,
lembram telas de renda e tafetas,
parece ouvir, com a alma de um poeta,
a alma sonora, alígera, inquieta,
dos colleirinhos e das sabiás.
Como te invejo, ó árvore!
Farfalhar e cantar melopeas ao vento,
baloiçando com affecto as franças novas
e, as velhas — sonhos mortos do passado,
lançar indifferente para o chao!
Que glorioso o teu envelhecer!
Quanto mais, sobre ti, todo o arminho das asas,
sacode o tempo, ingrato, destruidor,
mais, para o céu subindo, o coração abrasas
de sol e de amor!
Amor fecundo e bom que em suave ternura,
dás pelo espaço, em fructos e em verdura,
aos ninhos que te enlaçam os braços paternaes...
Pudesse eu, como tu, também desgarradas ao vento,
as mortas illusoes soltar — todos os meus tormentos!...
Pudesse a minha esperança em flor reverdecer!...
E na glória sincera e nobre da velhice,
abrir os braços cheios de meiguice
e para o amor dos filhos reviver!