Reflorir Calendário · Capítulo 3 de 31
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DA PRIMAVERA

REFLORIR

Sempre que o vento murmuro sacode

de um cajazeiro — um velho amigo — as copas e as umbellas.

das folhas verdes, roseas e amarellas,

se desprendem no espaço, desgarradas,

as folhas mortas e as primeiras flores.

E o cajazeiro immenso, altissimo, sereno,

na imponencia das frondes que, de longe,

lembram telas de renda e tafetas,

parece ouvir, com a alma de um poeta,

a alma sonora, alígera, inquieta,

dos colleirinhos e das sabiás.

Como te invejo, ó árvore!

Farfalhar e cantar melopeas ao vento,

baloiçando com affecto as franças novas

e, as velhas — sonhos mortos do passado,

lançar indifferente para o chao!

Que glorioso o teu envelhecer!

Quanto mais, sobre ti, todo o arminho das asas,

sacode o tempo, ingrato, destruidor,

mais, para o céu subindo, o coração abrasas

de sol e de amor!

Amor fecundo e bom que em suave ternura,

dás pelo espaço, em fructos e em verdura,

aos ninhos que te enlaçam os braços paternaes...

Pudesse eu, como tu, também desgarradas ao vento,

as mortas illusoes soltar — todos os meus tormentos!...

Pudesse a minha esperança em flor reverdecer!...

E na glória sincera e nobre da velhice,

abrir os braços cheios de meiguice

e para o amor dos filhos reviver!

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