Um drama verde Calendário · Capítulo 17 de 31
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Um drama verde

NO SILENCIO DA FLORESTA

UM DRAMA VERDE

A Raymundo Moraes

Bem na curva de um rio, ao alto de um barranco,

em recanto risonho, ao resplendor do sol,

de uma sumaumeira a fronde, em vigoroso arranco

ergue da selva immensa o magestoso altar.

Quando em noites de lua, as pérolas da lua cheia

e o sereno, envolviam-na toda

em mantos de setim:

projectava uma sombra — sombra triste na areia

E cantava! E gemia!...

E embalava nos braços,

soltos, pendidos, tremulos no espaço,

cem ninhos de japiins

E, e tarde, o vento amigo e o clima bom e ameno

as cantigas e lendas orchestravam

nas cordas das lianas — lyras verdes suspensas

nas frondes rendilhadas da sumaumeira.

Uma folha, porém, sobre um galho de bronze,

ao nó de uma forquilha, a chlorophylla, um dia,

na árvore gigante, em esmeralda abriu.

Passado o tempo — mezes de sol, mezes de chuva

e da folha um cipo brotou finissimo

Tenue e fragil cordel! Das altas torres das folhagens

desceu sobre o alcantil, criou raiz, fez-se arbusto

e em tentaculos mil as ramas distendeu.

e cahiu

Subiu e ennovelou-se em volta á sumaumeira,

espartilhou-lhe o cerne, a copa e as sapopemas,

enredou-a em cipos, envolveu-a em lianas,

jungiu e encouraçou-a em malhetada algema,

num abraço feroz de polvo vegetal!...

E a árvore frondosa, a mãe boa dos ninhos,

debalde, longo tempo ainda, angustiada e em prantos,

— pranto das folhas mortas desgarradas —

debalde supplicou:

"Oh! deixa-me, por Deus viver!

Da-me um pouco de ar, uma restea de sol, uma gotta de luz!

Quasi não posso mais sentir o encantamento e a volupia

do afago que tanto amei nas caricias do vento....

E os meus braços que eram sonoros como um alaude

do passaredo o amor e a glória da saude

não mais podem vibrar.

Ja não vejo do rio o luminoso espelho

diante o qual, vaidosa, tanta vez, sorrindo em flores,

compuz a minha mocidade!

Oh! deixa-me viver! viver um pouco!

Todo o meu rijo ser se amargura e definha...

Ah! eu que fui a mais bella!

“Ah! eu que fui a rainha!

“— O meu crime, talvez!

Porque prendes-me assim?

Que injusto captiveiro!

Oh! deixa-me viver! — Sólta-me Apuhyseiro!"

Algum tempo, mais tarde, enluctando a paisagem,

toda em crepes vestida, amortalhada,

a sumaumeira ainda em derradeiro arranco

ergue mirrada fronde, pallida, incolor.

Morreu!

E em tenebrosa noite um vendaval mais forte

no risonho recanto em furias se soltou:

e a árvore maior que desdenhou do raio —

exangue, num extertor, do alto do barranco,

com o polvo vegetal

dentro do rio tombou!

Desfeito o vendaval,

quando de novo a lua cheia

abriu a noite em camandulas de jasmins —

só restavam boiando, ao sabor das correntes — indifferentes

os velhos ninhos dos japiins.

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